quinta-feira, novembro 11, 2010

_six pm



the magic hour.
in front of this window you are my shadow and I am yours
i am yours...
am i? 
this magical redish-mid-light makes me feel you closer
feel your smile in me
fill your smile 
(with mine)
 
please, dear, cut the lights. 
let me see you inside

(you
inside me)



segunda-feira, novembro 08, 2010

_síndrome de sereia



Quantas vezes me peguei rezando aos vinte e poucos anos...pedindo que me fizessem amar mais do que ser amada? Parece um pedido estúpido, parece uma queixa burra, mas não é. A aflição de parecer maior do que se é, tavez seja uma dor tão grande ou ainda maior do que a de não ser amado. Não ser amado é libertador, posto que não vem acompanhado de culpa. Já quando parece que seu amor não é suficiente, a culpa é gigantesca, e a sensação de incapacidade e de não estar vivendo o que se deveria, devora e entristece.

Depois de ter consciência disso, todo e qualquer disperdício de amor desespera. É preciso amar mais, é preciso amar igual, é preciso amar a qualquer preço - e mais do que tudo - é preciso provar que se ama.
Mas não adianta. Geralmente as pessoas carregam esta sina porque são endeusadas, não porque não amam ou amam de menos. Elas amam demais, mas não chegam onde querem. O pedestal onde foram colocadas não as deixa tocar a pessoa amada. É triste. É uma barreira que elas não querem que exista. Uma muralha quase intransponível que gostaríam de poder explodir...mas que não pertence a elas. É construída pelo objeto de seu desejo.
Não sei se elas preferem homens ou mulheres mais frágeis, que se julgam inferiores. Pode ser. Mas pela minha experiência, digo que não. Ou talvez..hum...agora não sei mais. Será que é isso? Será que a equação "amor + pedestal + muralha" só existe por uma necessidade inconsciente de ser adorado? Seria, no mínimo irônico: pessoas fazendo sofrer a elas mesmas... 
Porque eu te digo que é um sofrimento. Musas são feitas para serem endeusadas e, assim que tornam-se humanas, viram abóbora. Mas tornar-se humana é a única maneira de ser tocada, e não existe musa no mundo que não queira ser uma pessoa comum. 
É como o sofrimento da sereia, apaixonada pelo pescador. Ele espera por ela, ouve seu canto, delira, sonha acordado com o dia em que a sereia vai criar pernas e andar em sua direção. Lá do outro lado, a sereia tem os mesmos sonhos, então canta para o pescador, faz com que ele se aproxime, cria pernas e pula para dentro do barco. Ele quase morre de prazer por ter em seus braços um ser mítico. Ela também...mas por ser humana e, finalmente, poder tocar o amado. É a desgraça anunciada: ele quer que ela seja para sempre sereia - seu segredo, seu prêmio. Ela quer ser para sempre humana. Isso acaba sempre com uma sereia indo às lágrimas... e adeus...tchibum! Ela regressa ao mar, ele casa com uma humana qualquer e volta a sonhar acordado com a sereia, porque lugar de mito é no mundo dos sonhos.

As pessoas portadoras da "síndrome de sereia"  conhecem suas limitações, sabem que são pessoas comuns, têm milhares de inseguranças e amam pobres mortais...mas são vistas como inatingíveis e sagradas -- o Santo Graal dos seres da terra. Por isso nunca chegam a viver o que gostaríam. 
É triste.

quarta-feira, novembro 03, 2010

_férias, primos, praia...oh wait!

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Agora lembrei. Lembrei como era ir ao Rio todo ano para passar o Ano Novo e as férias de Julho. Tinha "oba" sim. Tinha porque eu esquecia sempre das coisas de sempre. Mas tinha as coisas de sempre. Então eu nem vou falar da parte óbvia, que era ver os primos da minha idade, fazer um monte de coisas gostosas, ser milhões de vezes mais livre do que eu era em Curitiba: cinema, boteco, sorvete, passeios...

Vamos então às coisas de sempre.

Eu nunca fui magra. Também nunca fui gorda antes dos 45 anos, quando virei este provolone gigante que vos fala. Eu era ajeitadinha, mas não era carioca. Não mais. Isso era chato. Depois de anos em Curitiba, eu já não tinha aquele ar praiano que a gente tem quando vive muito tempo no Rio. Já não sabia muito bem como me comportar em cima de um par de havaianas, nem como andar de mão abanando. A carioca tem um jeito de tirar a canga/short/saia que só a carioca tem. A gente se cria no Rio e aprende. Depois que a necessidade de se despir em público acaba, a gente não é mais tão charmosa. Isso é problema? Não... aparentemente não... a não ser que você seja eu, é claro, e como sendo eu, você odeie não pertencer, ou pior... como eu, talvez você odeie chamar a atenção pelos detalhes errados.
Pois bem. Eu não era gorda, não era magra, não era carioca e era BRANCA -- branca de neve, de bochechas vermelhas e sem nenhuma marca de biquíni whatsoever, como se tivesse acabando de nascer.
E como uma sina, assim que eu chegava ao Rio, o comitê de recepção estava me esperando para ir à praia. Mas não era tão simples. Não podiam ir à praia ali no Leblon, pertinho de casa, onde eu pudesse voltar antes, quando a coisa ficasse feia - e ficava. Não..! Tinha que ser em São Conrado. Claro. Super mais legal, praia limpa, menos farofeiros, mais gente cool. Só esqueciam de um detalhezinho: eu não era cool.
Então eu chegava de uma viagem de 12 horas de ônibus leito, com a pele marcada pelo jeans e pelo elástico do sutiã, a pele absolutamente transparente, e ia para São Conrado exibir o corpinho na frente de todos os caras mais cool do sul do mundo, e um sem número de mulheres lindas com cabelos idem e bronzeado impecável.
Lembre-se: naquela época, filtro solar era pasta d'água ou hipogloss, mas era ridículo.e eu que não ia fazer papel de ridícula. Não...well, com 40 minutos de praia eu era um pimentão gigante. O mundo não é bacaninha, sabe? Ou eu seria a única pessoa a perceber a minha cor. Daquele instante em diante, eu passava a escutar as palavras "pimentão", "camarão", "lagostinha", "holofote", e todas as outras coisas que lembrassem "escandalosamente vermelha e luminosa".

O dia seguinte não era melhor. Eu amanhecia inchada, com o dobro de marcas no corpo -- porque a pele inchada em contato com o lençol amassado vale por uma fotocópia de lençol amassado. Agora eu era de um rosinha pálido quase nada...quase transparente outra vez, só que doendo muito.
E assim passava a primeira semana: rosa-choque, rosa-bebê, rosa-choque, rosa-bebê. Na segunda semana, quando eu começava a parecer saudável e quase viva, descascava. E mais piadinha.

Este sempre foi o problema de ir ao Rio. Não pense que mudou. Ainda semana passada, eu sofri ao lembrar que teria que passar o feriado lá e rezei para chover. Se fizesse sol eu não escaparia da praia e ainda ficaria eternizada no álbum do casamento do meu primo, como camarão.
Papai do céu foi legal dessa vez, mas tenho certeza que não vai me deixar escapar na próxima.

Resumo do trauma: ir ao Rio é ardido...mas é bom.

quinta-feira, outubro 28, 2010

_sede (um conto de halloween)

Se você tem estômago 
fraco e a mente imaculada, 
não leia este post.


Era uma daquelas noites em que eu não podia esperar nada além de um sonho bom, já que nada  especial poderia acontecer.
Ah sim... aquele seria o cenário perfeito para um crime: um quarto de hotel de sonho - desses que os mortais só vêem em filme - a lua perfeita pintando de azul todas as coisas brancas da terra; a brisa fria e calma dançando com a cortina pálida numa dança lenta e quase sexy...e um olhar distante.
Mesmo no lugar perfeito, com o figurino perfeito, eu sabia que o toque dos nove travesseiros brancos espalhados na cama, seria a única coisa que eu sentiria durante o sono.

Talvez.
Se ninguém tievesse batido na porta, garrafa de Sake numa das mãos, a outra no bolso, um sorriso irônico, e uma sede enorme rasgando a garganta.
"Seu drink favorito."

Nem uma palavra em retorno. Só um meio sorriso. Mas ele sabia que devia entrar e encontrar um jeito de abrir a garrafa e mais cedo ou mais tarde, eu abriria um sorriso.
Fiquei em silêncio.
Eu o segui com os olhos quando ele entrou como se o lugar fosse dele. Ele sempre teve esse jeito no olhar que parecia dizer que eu era dele, e dele era tudo o que me cercava. Fechei a porta com um empurrão enquanto ele abria a garrafa com a faca que tirou do bolso.

"Que tipo de homem carrega uma faca?" -- pensei em dizer mas, antes que as palavras saíssem, lembrei que ele era esse tipo de homem. Talvez tivesse uma maior na mochila, quem sabe mais.
Ainda na porta, vi quando ele lambeu a lâmina antes de guardá-la. Fechei os olhos num suspiro mudo, só eu sei o que me veio à mente. Ou ele também, porque quando abri os olhos, ele estava sorrindo.

"Saudade?"


Saudade...do que mesmo eu teria saudade? De ter alguém ao meu lado na cama, fosse quem fosse -- e ele servia muito bem a tal propósito -- ou das coisas que eu sabia que jamais teria com outro, não nessa, nem em outra vida?

Ele pegou dois copos, serviu duas doses, me entregou um deles e levantou o dele num brinde.
Virei o Sake num só gole e estiquei o copo pedindo mais. Ele me serviu e continuou parado me olhando, sem se mover. O sorriso não era irônico...era um misto de ironia e admiração...era alguma coisa que me dava frio da barriga e medo. Cheguei a pensar que o Sake estaria envenenado ou que ele havia usado algum calmante, mas o medo passou quando lembrei que ele não tinha motivos para me dopar. Mais do que ninguém, ele sabia que não precisava de artifícios para me seduzir. E mesmo que houvesse dúvida, eu beberia, porque não passaria mais dez segundos sem saber o que ele faria comigo.
Este era o eterno jogo. Ele era perigoso, mas eu pagava pra ver. A confiança era cega, e era mútua. Se um dia eu não sobrevivesse, teria morrido tranquila.
Quebrei o silêncio, e o sorriso dele.

"Como você me achou?"
"Você deixa rastros."
"Não dessa vez..."
"Eu sinto o seu cheiro.
"

Eu atravessei o quarto rindo e fui até a janela. Sabia que ele me acharia mesmo que eu mudasse de planeta. Ele sempre achava...mesmo que eu tomasse cuidado. Ou talvez eu descuidasse num detalhe ou outro para apimentar a busca. Quem sabe?

"É impossível não seguir teu cheiro..."
-- ele disse me abraçando por trás e puxando para baixo a minha blusa de forma a expor meus ombros. Beijou minhas costas e a nuca, e eu tentei não me mexer, não respirar, não mostrar que morria de saudade daquela boca e daquelas mãos. Mas foi impossível. Num impulso, eu levei minhas mãos para trás, segurei suas pernas e o puxei para mim...senti a faca no bolso da calça. Ele interrompeu o beijo por um segundo e voltou a beijar minhas costas sorrindo.

"Saudade...eu sei."
Eu balancei a cabeça num não, mas estava mentindo: saudade sim.

Ele me virou e me beijou na boca. Os corpos colados, a blusa escorrendo pelo ombro, a barba roçando a pele, uma longa lambida no pescoço... e minha cabeça tombou para o lado, olhos em transe. Ele conhecia os meus sinais...
Senti a lâmina fria tocar minha pele e um suspiro profundo veio do estômago, numa contração forte. Ele sabia. Um corte. Nem raso nem fundo: preciso. A língua quente, o gemido...
Senti a faca fria na mão como um pedido urgente e mais do que rápido fiz um corte em seu peito e deixei o sangue correr. Ele se afastou para olhar, a boca suja de sangue me beijou novamente, depois guiou minha boca até o corte. O gosto morno indescritível do sangue era o que guiava a nossa loucura. Sempre. Mas naquela noite, seria diferente.

Joguei a faca na cama e ele sorriu extasiado. Era hora de matar a sede.
Sempre cortes discretos capazes de cicatrizar rápido sem deixar grandes vestígios, mas em lugares onde o sangue é farto...essa era a regra e essa era a graça de fazer amor -- nos lambuzando um no sangue do outro até o gozo, até o êxtase, até nem um de nós ter um único milímetro de pele limpa.

Mas naquela noite, seria diferente.
Enchi a banheira e o convidei para entrar comigo. Bebemos mais, nos beijamos mais...Por fim, descansamos. 
Ele deitou na banheira, eu montei sobre ele e ele entrou em mim. Enquanto fazíamos amor eu peguei a faca na borda e esperei o momento. Ele pedia que eu o cortasse e eu me recusava, dizia que não, ainda não era a hora, mas ele pedia de novo e de novo, e ficava mais excitado quanto mais a expectativa do corte crescia...e eu esperei e esperei...e veio o gozo... foi quando, num movimento rápido, eu fiz um corte profundo em sua perna, rompendo a femural e, num segundo golpe, levei a lâmina até a minha própria perna e fiz o mesmo.

O sangue tingiu a água quente, enquanto um prazer intenso nos tomava...

Nos beijamos uma última vez.



Happy Halloween!

domingo, outubro 24, 2010

_vácuo


Então assim...cansei de enrolar todo mundo. Cansei de inventar historinhas de amor e cartinhas e diálogos telefônicos. Cansei. Quer a verdade? Eu te dou.
A verdade é que meu cérebro tornou-se um grande buraco negro, de meses para cá. É como se eu tivesse entrado no olho de um furacão e agora só o que há é o silêncio do vácuo. 
Aqui dentro, nada se move. São só as grandes paredes brancas de núvens. Dentro delas tudo se mexe, a energia lateja, ventos furiosos se preparam para varrer a terra. Mas dentro - aqui onde me encontro - nada.
Não existe um pensamento que valha ser colocado no papel. Não existe uma idéia que não seja tragada pelo vazio em cinco minutos. Não há tempo, não há espaço, não há. Vácuo.
Há momentos em que penso em desistir. Penso em romper com as palavras, já que elas não querem colaborar. Penso em romper comigo porque não gosto mais do que eu escrevo.


...

Viu? eu ainda não consigo falar sobre o assunto de forma a me tirar do marasmo. As palavras chegam até o pulso, mas não continuam até as pontas dos dedos, para que eu possa escrevê-las. Estou presa.
Mas vai passar. Tem que passar.

Talvez seja hora de me colocar de castigo.


quarta-feira, outubro 20, 2010

Necessaire

.
O telefone toca de madrugada.
- Alô?
- Mê?
- Oi Ella...Tudo bem?
- Tudo e você?
- Que voz é essa? Ta triste?
- Triste não...
- Ta o que então?
- Acho que entendiada...meio decepcionada, sei lá.
- O que acontece?
- A necessaire...
- Xii...la maison est tombé!
- yep
- Necessaire no armário?
- 2012, amiga.
- Mas o que foi? Ele apareceu? Brigaram? O que?
- Não...quer dizer...ele já tinha resolvido que não podia blablabla, lembra?
- Lembro. Ele era um cara sério.
- Sério my ass.
- Sério sim...tinha milhões de motivos pra não ficar com você, se você não gosta de homem sério, não é problema dele, certo?
- Vai começar o sermão...Beijo, até.
- Não desliga!
- Não defende!
- Mas ele não tá errado...ele não podia ficar com você...não podia mesmo.
- Não PODIA! Passado! E agora cadê? Nem tem pena da necessaire que voltou pro armário. Ele não pensa mais em mim, Mê. Nem lembra da minha existência...me evita.
- Opa, opa...calma lá...se ele te evita ele pensa sim.
- Ah mané pensa...pensa nada. Se pensasse seria diferente. E não evita, errei a palavra: me ignora. Ta lá, bem vivendo a vidinha dele. E cadê a necessaire? Ta na bolsa? Não né? Então não pensa.
- Alguém mais, além de nós, sabe qual é a da necessaire?
- Sei lá...acho que todo mundo, quando tem alguém, carrega um kit de sobrevivência pro caso de ter que se arrumar no meio do dia, não?
- Sei não...todo mundo carrega primeiros socorros - base, demaquilante, rimmel, escova de cabelo - é normal. Mas não porque tem alguém. Só você deixa o kit em casa quando ta solteira... Mas você ta bem, ou ainda ta em crise de abstinência?
- Esse é o problema. Não to mais em crise. 
- Então não é problema...
- Mas alguém tinha que avisar pra ele...Mê, se ele demorar vai ser tarde..eu não quero. Vai dar trabalho me reconquistar.
- Ella! Para de ser louca! 1) ele não vai voltar. 2) não daria trabalho nenhum te reconquistar. 3) ele. não. quer. mais. você!
- Vai defender de novo?
- To defendendo VOCÊ, maluca! Enterra essa história que é melhor! Você já se abaixou tanto que mostrou a bunda, não sentiu o ventinho?
- Não lembro mais como era a gargalhada dele, Mê. E o cheiro dele saiu da minha blusa branca... lavei.
- Vou te internar.
- Please.
- Você não ouve o que eu falo, né?
- Não queria...
- Ella...por que você cismou com ele?
- Sei lá...só tem uma explicação...
- Qual?
- De menino..
- O que?
- Explicação de menino.
- Hahaha...fala.
- Amor de pica.
- Bah! Que coisa mais baixa...isso não é raciocínio de mulher!
- Eu avisei...
- Ai, jura pra mim que vai tentar outra explicação, pelo amor de deus.
- Ele tem a pegada do demônio, Mê...não tem como...ah!
- Hahaha! Você não existe...
- Mas é a única explicação viável. Vai dizer que é amor? Não deu tempo de amor. Não deu tempo de nada aliás...a gente nem fez nada...vai ver é isso mesmo. Meu deus, Mê! como ele OUSA me deixar com vontade e ir embora? COMO?
- Ha! Bingo! Você mesma respondeu: orgulho ferido, Dona Ella. Puro orgulho ferido! E depois? Se ele volta você faz o que? Pega o que queria e é a SUA vez de ir embora, isso?
- Eu nunca disse que era orgulho ferido.
- Não? "Como ele OUSA me deixar com vontade e ir embora"...disse sim!
- ...
- Agora sim la maison est tombé.
- Não, nem é nada disso...eu to triste mesmo. É que a paixonite tava me fazendo companhia, eu acho. Tinha alguém pra sonhar, tinha alguém pra pensar, tinha um e-mail pra esperar, alguém pra ligar. Agora babau...eu nem escrevo mais pensando nele, nada... uma droga.
- Ella...
- Ta...vai me internar. Vou ali matar meu orgulho ferido com álcool. Beijo
- Vê se não acha outro desse no caminho...
- To vendo que você me quer bem.
- Vai levar a necessaire?
- Nhé, beijo.



As amigas que eu tenho...


sábado, outubro 16, 2010

_escuro


.
Conforme eu passava a mão no fundo de areia branca, uma poeira linda, quase prateada, enchia a água de uma névoa misteriosa. A água era tão azul que eu parecia estar voando, e os brilhos da poeira branca pareciam estrelas num céu líquido.
“O que eu estou procurando?”
Parecia mesmo ser importante e eu nadava aflita, com medo de perder o fôlego enquanto passava a mão no fundo, sem encontrar. Eu posso nadar nessas águas profundas e respirar normalmente como se fosse parte delas, mas a consciência de ter sido humana um dia deixa no fundo do pensamento este receio bobo.
A névoa branca embaçou meus olhos e deixou a água turva de repente. Eu não encontrei o que procurava e tampouco podia ver alguma coisa. Tentei nadar para longe da névoa e encontrar o caminho de volta para a superfície, quando senti a presença de um animal grande que espreitava por trás da cortina branca.
Meu novo instinto de habitante do mar me levou para perto da criatura, sem medo do que encontraria.
“Não!”
Minhas lembranças de humana queriam empurrar meu corpo de volta para o outro lado, mas eu parecia mais forte do que elas. Travamos uma guerra momentânea - preservação x coragem - e eu venci. Nadei pela água azul-clara e turva, para detrás da névoa, querendo olhar nos olhos do animal que me observava. Quando ultrapassei os limites da cortina de areia, eu o vi.
Era ele. “ELE”. Este parecia ser seu nome e não havia nada no fundo das minhas lembranças, - nem do meu velho espírito humano, nem da minha nova mente das águas - que me dissesse outro nome que não “ELE”. Alto, forte, cabelos escuros emoldurando o rosto bem desenhado, de linhas fortes. A linha do queixo bem cortada, o nariz respeitável, tudo para justificar a existência de um enorme par de olhos azuis, enfeitados por cílios enormes. O imenso animal que me vigiava era humano.
“Mas como um simples humano pode estar aqui sem equipamento apropriado?” Eu pensei. “Ele não pode ouvir meus pensamentos, pobre criatura...tanta beleza protegendo uma mente tão rudimentar.”

Ele não podia me ouvir, mas tinha algo a dizer, e sua voz era alta embora falasse sem movimentar os lábios. Aquele humano tinha um dom que eu jamais vira.
“Nem NÓS podemos falar tão alto.”
De todas as criaturas que conheci, só as baleias têm este poder. “De onde vem este humano? E o que é isso que ele diz?”
Ele me olhava fixamente, os olhos azuis dentro dos meus, e repetia a palavra que era incompreensível para mim. Parece um nome, ou um lugar...ele dizia que eu não podia esquecer. Eu entendi tudo menos a palavra que não poderia esquecer. Pedi que ele repetisse. Irritado, ele repetiu outra vez e outra vez, e meus ouvidos falhavam. Eu me aproximei dele, coloquei meu ouvido perto de seu peito, que era por onde o som parecia sair. Sinalizei para que ele repetisse. Ele sacudiu a cabeça sorrindo como se eu tivesse acabado de fazer alguma coisa estúpida, me pegou pelos braços, levantando meu corpo até que minha cabeça estivesse na altura da dele e aproximou seus lábios do meu ouvido.
Ele repetiu.
A palavra entrou no corpo sem que eu a ouvisse. Eu pude sentí-la escorrendo pelos ossos do crânio, percorrendo o cérebro e entrando na corrente sanguínea. Era quente e viscosa, quase confortável. Ela entrou no pulmão se espalhando e colando em todas as paredes de forma a endurecer as fibras e, com um estalo altíssimo, descolou novamente, formando uma bola quente e violenta que invadiu as artéria e entrou no coração. Nesta hora a dor superou todos os meus instintos. Nem a velha alma humana, nem o novo corpo atlético de criatura das águas suportaram a dor de ter a palavra, dita por ele, dentro do coração. Um grito ensurdecedor saiu da minha garganta enquanto ele desaparecia na névoa branca brilhante que nos cercava. Meus pulmões não aguentariam mais um segundo se eu não tentasse sair dali.
A névoa se dissipou junto com a imagem dele e eu não entendia porque...por que tanta dor...pra que tanta dor?
Eu não sabia mais respirar e nem era mais uma criatura das águas agora que havia recebido a voz dele dentro de mim. Eu estava sem ar. Procurava lembrar como respirar, sem sucesso algum. Eu sabia que faltava pouco para minha morte. Eu sabia que, se não respirasse, eu desapareceria para sempre. Tentei lembrar do rosto d’ELE. Tentei saber seu nome. Tentei recordar o calor estranho das mãos dele quando segurou meus braços, e o hálito doce que impulsionou a palavra mortal. Eu ia morrer...eu queria levar esta lembrança. Me faltava ar. Eu não respirava. A água clara tornou-se noite escura. Eu flutuava,  inerte.

“É doce...”

Uma golfada de ar entrou pela minha boca e pelas narinas ao mesmo tempo, tentando recuperar meu fôlego. Abri os olhos e o alívio de enxergar quase me levou às lágrimas. Eu não estava morta, e o ar agora parecia sólido. Quase se podia ver as moléculas de oxigênio que vieram me salvar. Eu estava no meu quarto, sentada na cama, suando feito um estivador, tremendo de falta de ar. Respirei fundo mais vezes do que eu saberia e tirei as cobertas que prendiam minhas pernas. Todos os poros eram necessários para reabastecer de oxigênio o meu corpo que quase se foi.

Esta foi a primeira vez que eu sonhei com ele.





(fragmento de "O Outro Lado das Coisas" por Mercedes Gameiro©)

quinta-feira, outubro 14, 2010

_mel

é essa a cor dos olhos?
eu esqueço, eu me lembro, eu tento,
eu sei que eu sei, mas faz tanto tempo...

minha cabeça tende a esquecer as cores
embora meu corpo não esqueça as mãos.
mel nas mãos:
disso eu lembro.
não a consistência ou o perfume...
mas a doçura que persiste.

só pode ser de mel a mão que não te larga
mesmo quando não existe.

domingo, setembro 26, 2010

_pequeno conto de inverno


A noite estava fria quando a Fêmea X conheceu o Macho Y.
Os dois eram de tribos diversas, divergentes, quase opostas, mas nem isso nem o frio impediram que os dois se apaixonassem instantaneamente. Na língua dele, este não era exatamente o caso, mas ela também não queria muito saber como a tribo dele chamava "amor à primeira vista". Devia ter algum nome, já que era uma tribo cheia de leis e regras misteriosas. Quem se importa?
Ela vinha de uma tribo livre, de fêmeas que não se aproximam de macho algum se não o quiserem muito...dificilmente seria capaz de notar se não houvesse sentimento da parte dele. Mas havia.
Foi intenso o encontro de X e Y.
Ele declarou sua devoção, mostrou-se por dentro e por fora, cumpriu o ritual da paixão sem deixar dúvidas de que a queria até mais do que ela a ele.
Mas tribos divergentes são tribos diferentes: ela côncava, ele convexo. Ela luz, ele reflexo. Ela entrega, ele...oh céus...ele muito complexo.
Quem poderia entender os habitantes daquelas bandas?


Do nada, o Macho Y voltou para sua tribo sem que a Fêmea X tivesse tempo de evitar. Mas deixou rastros. Incoerente como só ele, não soube apagar o cheiro e as pegadas que deixou pelo caminho. Por instinto - pura liberdade - ela seguiu sua sombra até os limites da tribo dos Ypsilons...para nada encontrar. Só o cheiro e as marcas no chão... nada mais. Não havia tribo, não havia...simplesmente nada havia.
Desolada, a Fêmea X voltou para sua aldeia sentindo a dor das asas cortadas.
Ele desapareceu no ar como um perfume que perde a essência... do qual ela já não é capaz de lembrar.

End of story.

quinta-feira, setembro 23, 2010

_presente


O que eu quero de presente? 
As pessoas perguntam e eu não sei a resposta. O que será que eu não tenho? Preciso fazer as contas....deixa eu ver...
Eu tenho a vida que eu quis, tenho pernas que me levam...Pernas me levam? É a imaginação que me leva, e me leva todos os dias pra onde eu quiser, mesmo que ninguém mais queira. Tenho essa cabeça, completamente descompensada, que dá risada sozinha da vida que eu escolhi. Ri dos dias, ri das coisas, ri do cheiro que a vida tem. Tenho esse coração debilóide e dramático que ama mais do que o amor aguenta e sonha até o último cantinho escondido do universo dos sonhos....e delira.
Eu tenho os cheiros das coisas que eu gosto e as coisas que eu gosto também, que não são tantas. 

Às vezes as pessoas dizem que é difícil me dar presentes porque eu tenho tudo. Mentira...eu não tenho tudo o que se pode comprar. Eu tenho tudo o que se pode querer. E o que eu quero não é o que os outros querem. É bem mais simples, bem mais barato, nem tem pra comprar, acredite.
Se eu for predir presente, vai ter que ser "presente". Presente é aquilo que se tem agora, que se vive agora, e que se guarda para sempre porque não é esquecível. Isso pode vir numa caixa ou no vento . Pode ser uma palavra ou um objeto...pode ser nada se vier com um olhar, um beijo, um abraço bom.
Presente é o que te faz viver, e vida é o único presente que me interessa.
Não quero gadgets, não quero roupa da moda, uma bolsa de marca, um sapato, uma jóia. Não...wait! Eu quero uma jóia sim, mas dessas que não se perdem, que não derretem, que não se enterram em baús de tesouro, porque só é possível guardá-las na alma.
Eu quero essa pedra rara, esse tesouro inteiro que são as pessoas que me cercam, encrustradas na vida que me cabe, cravejadas de amores que nunca passam.
Então, pensa como é fácil me dar um presente: uma flor arrancada de um jardim, um papel recortado, um bilhete feliz, uma pedrinha de um lugar bonito, uma foto do céu... 
Se em algum momento do dia, em algum lugar do mundo, alguém pensou em mim e sorriu...bingo! Este é o presente que eu quero.
Uma vez ganhei uma caixa de fósforos que tinha um único palito, e nele estava escrito "agora". 
É isso...agora é tudo o que se tem. O bem mais valioso: o presente. 
É o que eu quero.





quarta-feira, setembro 22, 2010

_invisível


E se você fechar os olhos? Tenta só uma vez, para eu poder mostrar o que eu vejo.
Olha as luzes lá embaixo, consegue? Desse lado luzes vermelhas, como uma grande cobra sem fim...do outro elas são brancas. Os reflexos na água, as núvens no vidro...
O Oeste é onde eu estou. Não...estou aqui agora. 
Sente o vento frio no rosto? Sente o calor na pele? E o gosto? Halls, café...
Fecha o olho...não olha agora.
Não deixa o tempo passar...sente o que eu quero mostrar.



( feche os olhos)

sábado, setembro 18, 2010

_a boina

Mercedes & Felipe
Por volta de 2005, eu e o Felipe Belão (@belao) éramos loucos - não que hoje sejamos normais - e escrevíamos contos no scrapbook do Orkut. A regra era: cada um escrevia uma parte, sem jamais combinar o tema ou o rumo da história, e postava no Orkut do outro. 
Aqui vai um deles: Conto Scrapiano #4

(Me)
É inverno em Curitiba e a Rua do Rio não tem mais a mesma cara.
Nem o frio é mais o mesmo. Hoje o frio é pequeno, não tem a mesma elegância, nem precisa mais de tanta roupa. Qualquer casaco que tenha bolso ajuda, luva já é coisa rara, no máximo um cachecol. Na infância era preciso ceroula, duas meias, a calça do pijama por baixo do uniforme, “japona”, "galocha"...

Ele anda todos os dias até o trabalho e sabe dizer a temperatura só pela cor do céu. Sabe a hora pela posição do sol. Sabe a velocidade do vento pelo movimento dos chorões.
Todos os dias o mesmo caminho da Júlia da Costa até a praça Ozório.
Conhece as esquinas onde o vento levanta a saia das meninas – das que ainda usam saias. Conhece o tempo dos sinaleiros. Conhece os horários de cada porteiro, de cada comprador de jornal da banca da Visconde de Nácar. Conhece os motoristas de táxi, os garis e a velha que nunca tirou os bobs do cabelo. Só não conhece a moça de boina que sai apressada do táxi gritando com alguém no celular.

(Felipe)
Ela não conhece a cidade. Não gosta de frio de nenhuma espécie, muito menos daquele. Uma peça de teatro. Isso era tudo que a atraía àquele lugar. Ela sabia que o texto era péssimo e a direção medíocre. Porém, o dinheiro compensava até o frio e a boina ridícula que estava usando para lhe conferir um "ar artístico".
Direito. Odontologia. Engenharia. Sempre sonhou em estudar pedagogia. Queria ser uma professora certinha e exigente, até recatada. Sempre se considerou tímida. Mal humorada. E o primeiro sujeito que avistou logo que desceu do táxi a fez questionar ainda mais sua profissão, o frio, sua vida, sua boina, seu celular que não parava de tocar.
- Meu troco, seu filho da puta!
Carioca. Ela não conhecia os taxistas do aeroporto Afonso Pena. Voz estridente. Ela deixou o diretor medíocre da peça de teatro de texto péssimo surdo com o grito. Curiosa. Ela olhou pela segunda vez para o sujeito do outro lado da rua. Curitibano. Ele retribuiu o olhar com um pré-julgamento cheio de censura e antipatia.

(Me)
“Carioca. Tinha que ser pra usar essa boina ridícula. Deve trabalhar com cinema e achar que é o máximo. Elas sempre gritam! Chegam aqui achando que todo mundo é burro, que podem tratar todo mundo com essa superioridade. Ou chamam de “BEM” , ou de filho da puta! Todas pseudo-intelectuais. Todas feias de bunda boa.”
Mas nem toda a antipatia curitibana podia impedi-lo de dar uma segunda olhada, já que seria óbvio uma boa bunda ali, e ninguém é de ferro.
“Nessa esquina venta muito. Bem que ela podia estar de saia”
- Hey! Você!
Braços levantados, olhando por cima dos carros, ela acena para ele.
“Tinha que aparecer. Grita mais, ô perua! Vai me pedir o que? Pra carregar as malas?”
Ele aponta para o próprio peito, olha para trás antes de pagar o mico de descobrir que ela chamava um outro qualquer.
- É! Você! Vem aqui um pouco!
Ele pára no meio fio, espera alguns carros passarem, testa franzida, já de mau humor.  
“Vou perder a hora por causa dessa carioca de boina”
Atravessa.
- Quem é você? – pergunta
- Eu? Quem é você, que já chega do aeroporto gritando na rua?
- Desculpa. Aquele cara foi embora com o meu troco.
- Quer que eu corra atrás dele?
- Não. Quero que você vá ao Teatro hoje à noite.
- Porque eu cometeria essa loucura? – sorriso sarcástico nº 5
Ela a tira da bolsa um convite para a peça ruim de texto péssimo.
- Porque eu estou convidando e você deve ser educado.
Ele pega o convite, olha com descaso.
- Só um?
- Eu convidei VOCÊ. Sozinho e desarmado. Chega antes pra tomar um drink.
E diz isso virando as costas, arrastando a mala enorme pela rua, atendendo o celular que não para de tocar.

(Felipe)
Uma hora antes da peça, ele ainda estava indeciso. Pensativo de cueca e meia preta. Imagem que combinava perfeitamente com sua barriga de cerveja e com seus joelhos grandes demais. Olhava no espelho e a mera lembrança da boina o excitava. Vestiu seu melhor terno. Pensou com desprezo no teatro. Lembrou-se das pessoas que pensavam que podiam mudar o mundo com peças ruins repletas de críticas sociais ou políticas. Necessárias ou não, odiava críticas. Gravata vermelha. Perfume barato. Conferiu se trancou a porta duas vezes. Chave no bolso esquerdo sempre. Carteira no bolso direito quase sempre. Seu carro era velho. Suas rugas já não lhe conferiam apenas olhar experiente. Sua vida passava rápido e ele se movia devagar.

Teatro. Inesperado bom humor. Pseudos-intelectuais. Ela já estava esperando. O batom mais vermelho que a gravata dele. A boina ridícula continuava no lugar, escondendo suas madeixas com dez tonalidades diferentes do mesmo loiro. Tentou sorrir, mas achou aquele terno terrível. Ele achou tudo nela perfeito, embora não fosse.
- Viu só! Tá pra nascer o homem que nega um convite meu.
- Só vim pelo drink que você prometeu.
- É mesmo? E o que você quer tomar?
- Cerveja.
- Cerveja não é drink. Além disso, só tem vodka com menta.
- Então por que você perguntou?
- Só pra saber o que você queria. Agora sei o que você queria e sei o que você vai tomar.

Sentiu-se velho demais para mandar uma atriz tomar no cu.

(Me)
O drink chega. Ele olha aquela coisa verde com a descrença de um gato frente a um osso.
- Quem inventa uma bebida verde?
- Não adianta. É o que temos aqui.
- Alguma superstição?
- Não, querido. Bom gosto.
- Esses lugares são ótimos pra quem quer comprar óculos. Olha só... É como mostra de cinema iraniano...filmes péssimos, excelente desfile de óculos modernosos!
- Do que você gosta?
- De sexo. E você?

A gargalhada dela foi ouvida em todo o quarteirão. “Se rindo é esse escândalo, imagina na minha cama...”
Ela, subitamente séria, olhou nos olhos dele. Por um momento ele sentiu a espinha gelar como se ela tivesse escutado seu pensamento. Tremeu de medo de olhá-la nos olhos novamente.
Alguém fez um sinal, ela respondeu com o olhar, debruçou-se na mesa deixando que o decote quase o fizesse engasgar:
- Tá na minha hora. Sobe pro camarote e me assiste. Depois me espera.
Há milímetros do ouvido dele, sussurrou:
- Eu quero ver do que você gosta...
Gelado e ansioso, ele assistiu à peça de texto péssimo, pretensioso, medíocre. Teve sono, teve tédio, usou a chave que estava no bolso esquerdo para limpar debaixo das unhas, ficou estupefato com a sensualidade e a falta de talento da sua nova amiga. O tempo não passa, e ele não para de pensar em mostrar para ela do que gosta, mas não entendeu ainda o que ela quer com um velho barrigudo de última que achou na rua.

(Felipe)
As cortinas vermelhas, velhas e cheias de mofo se fecharam.
- Curitiba realmente é a cidade maravilhosa do mofo – pensou ele em voz alta.
E, como num passe de mágica, ela misteriosa e sua boina ridícula apareceram ao seu lado. Ele não sabia dizer quanto tempo passou. Por quanto tempo pensou. Durante quantos minutos o mofo, a peça medíocre e a sensualidade da desconhecida passearam pelos seus pensamentos. Apenas foi despertado por mais um sussurro provocante.
- Me leve pra algum lugar... agora.
Não havia resposta. Nada a dizer. Segurou a mão dela de maneira desajeitada, como quem não faz idéia do que fazer em seguida. Levou-a para seu carro velho. Encolheu a barriga. Colocou o cinto de segurança. Ela não. Lembrou que deveria ter aberto a porta para ela. Tentou imaginar o que fazer em seguida. Pensou quais seriam os movimentos certos. O que o James Bond faria? Lembrou que os James Bond´s de seu tempo já estavam velhos ou mortos. Tentou buscar exemplos nacionais e um dos mais decrépitos veio à sua mente: Tarcísio Meira. Procurou se concentrar em dirigir. Nada daquilo estava ajudando.

Os pensamentos dele mal permitiam que o carro seguisse pela pista certa. Ela colocou a mão em sua perna. Não parecia se preocupar com atores mortos, velhos ou vivos. A mão passeava. O carro seguia nervoso pelas ruas de Curitiba. Ele já não controlava seu raciocínio. Cortina. Mofo. Peça. Sensualidade. Tarcísio Meira. Boina. Porta do carro. Ruas. Trocar de marcha. Encolher a Barriga. A mão dela já não estava só na sua perna. “Por que diabos eu estou lembrando do Tarcísio Meira?! 

(Me) 
- Vamos ver o que você tem ouvido... 
Ela empurra a fita para dentro do toca-fitas velho, mas tem que segurar a mão dele que tenta impedi-la.
- “Three witches watch three Swatch watches. Which witch watch which Swatch watch?” 
- Que droga é essa?
Ele tira a fita, sem jeito.
- Um curso idiota de inglês. Nem é sério.
- Que tipo de homem é você?
- O pior!
Pega a mão dela e coloca de volta em sua perna.

No Motel barato, cheirando a tapete úmido e pinho sol, ele bate a porta, joga as chaves, encolhe a barriga, pensa se ela deve tirar a boina ou se aquela coisa ridícula pode dar um ar de filme francês à cena de sexo que ele tenta idealizar  sem saber ainda onde põe as mãos, o que diz, e como se livra da imagem torturante do Tarcisio Meira.
Ela começa a tirar a roupa e ele se atrapalha...não sabe se tira antes a camisa ou a calça, tem medo de ficar de cueca e meia e parecer um perdedor.  Anda pelo quarto desabotoando a camisa e apagando algumas luzes. Depois de uma certa idade e de uma certa circunferência, pouca luz sempre salva a dignidade. “Se ela me convidar pra um banho vai ver a minha barriga. Porque eles não colocam menos luz nos banheiros?”
No sistema de som precário do lugar, Maria Bethânia canta Cavalgada. Maria Bethânia sempre canta nos motéis baratos! O papel de parede descascado, o tapete úmido e queimado de cigarro, os lençóis amarelados e puídos, os quadros com figuras de mulheres feias, a TV em cima da cômoda descascada com gavetas falsas, a esquadria enferrujada da janela... vou cavalgar por toda noite...Por uma estrada colorida...Tarcísio...João Coragem...Tudo revela que será preciso dar muito de si para tornar esse lugar inesquecível.

(Felipe)
E como tornar o momento inesquecível pensando se a cama está limpa ou se o lençol foi trocado? Qual o sabão em pó mais apropriado para aquela roupa de cama? OMO? Estava sendo usado na medida certa? Na quantidade certa?
E, como se não bastasse, o espectro fantasmagórico de Tarcísio Meira ainda se fazia presente. Assim como a voz inconfundível de Maria Betânia em sua canção fervorosa.

Ela não se importava. Porém, para ele o cenário todo exercia uma influência diferente. Atrapalhava psicologicamente. Fisicamente estava tudo funcionando, afinal já fazia dez meses que ele havia parado de tentar contar qual foi a última vez que chegou perto de fazer sexo com alguém que não ele mesmo. Só que o lençol, o ex-galã de televisão, a cabeleira da Maria Betânia formavam um conjunto poderoso. Vinte minutos.
- Não pára!
Aliás, formavam um obstáculo. Trinta minutos.
- Vai continua!
Uma verdadeira barreira intransponível. Uma hora.
- Oh, meu Deus!
Uma muralha que separava o sexo do prazer. Uma hora e meia.
- Ah!!!!
Ela gemia, gritava e parecia estar tendo a melhor experiência pseudo-artística-multiplorgásmica de sua vida. Ele apenas colaborava com o pênis e uma atuação esporádica da pior qualidade tipicamente curitibana. Foi então que ele percebeu. Não era o lençol ou o Tarcício ou a Maria Betânia. Era a boina. Era ela. Era a falta de carinho. Não havia o tal do sentimento e ele sentia falta dele. Não sabia o motivo, mas ele sentia falta da porra do sentimento. “Era o que me faltava! Meu pinto ficou emotivo depois de velho!”
- Ahhh, que foi que você disse?
- Disse que vou gozar.
Boina. Tarcício Meira. Motel Barato. Lençol sujo. Maria Betânia. Pênis romântico. Barriga encolhida. Ela desfalecida. Ele indignado e mentiroso. O preservativo: vazio."

(Me)
Fumaça de cigarro.  Silêncio. Aquele lugar ficava cada vez mais horrível. Agora que a ansiedade e o tesão se foram, ele já nem encolhe mais a barriga e começa a reparar na pintura velha do teto, no descascado das paredes, na decoração pobre e tosca. Dá para imaginar que tipo de casal freqüenta este lugar.
Ela fuma olhando para a porta vermelha do banheiro.  Ele cheira o travesseiro.
- Que tipo de mulher  topa transar numa espelunca dessas?!
Ela sentou na cama indignada, cigarro no canto da boca, falando entre os dentes:
- O que? Você ta falando de mim?
- Não! Claro que não! Pensei alto...tava imaginando quem vem aqui... não você.
- Eu VIM aqui! Não vem tentar salvar a sua pele descarada! Onde mais um homem como você me levaria? Pra um hotel cinco estrelas?
- Calma, eu não quis te ofender!
- Tarde demais!
- Desculpa.
- Eu que não quis te ofender quando entrei por aquela porta! Também não quis te ofender quando vi seu terno horroroso! Nem quando você tirou a camisa. E pra não te ofender eu fingi feito uma atriz barata o tempo todo! E não falei nada!
- Mas você é uma atriz barata!
- E você é o pior tipo de homem que eu já conheci.
- Não te enganei.
- Cala a boca! Não sei onde eu fui achar uma coisa como você!
- Na rua.
- Não sei porque eu fui ceder!
- Ceder? Você que quis!
- Cala a boca! Você me ofendeu, eu digo o que eu quiser!
- Ta. Então diz no carro. Vambora.

(Felipe)
No carro, o silêncio. Ele se sentia sozinho. Não conseguia nem mesmo levar em conta a presença fria da mulher ao seu lado. Já não havia Tarcísio Meira que remediasse seu ódio e repulsa por aquela péssima atriz e terrível amante. Seu sangue corria ao mesmo tempo rápido e gelado.
Pegou um desvio. Andou uns quilômetros. Ela surpreendentemente calada. Já haviam falado o suficiente por uma noite de sexo. “Agora que o sexo acabou, quero o prazer.” O carro velho percorria estradas antigas. Ele lembrou do tempo em que era jovem.

Freiou bruscamente. Não chovia. A lua não se mostrava. Árvores. Silêncio. Nada para recordar. A lembrança teimosa do tempo de juventude dele. Seu sangue continuava correndo rápido e frio. Abriu a porta do carro para ela. Gentil. Abraçou-a por trás até ela sufocar. Seu corpo tremeu. “Os corpos sempre tremem.” Seu último suspiro veio logo. Foi pesado. “Todos os últimos suspiros são pesados.” A lembrança de sua primeira amante misturada com a imagem da mulher de boina saindo do táxi. Prazer finalmente.
Quando soltou o corpo, a queda foi inaudível. Ele olhou para baixo. A imagem fez seu sangue frio parar. Não havia corpo. Não havia mais atriz. Não havia amante. Ele só enxergava sua própria solidão."
 

FIM
 

Felipe e Mercedes aqui
Delírio - outro conto scrapiano parte 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, Final
Felipe Belão aqui

sexta-feira, setembro 17, 2010

_ritual do fim

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A vida antigamente era mais difícil numa série de coisas, mas em outras era milhares de vêzes mais fácil. Principalmente no que diz respeito aos relacionamentos.

Falar e ver a pessoa amada não eram coisas tão simples, nem tão complicadas. Deu pra entender? Eu explico:
As pessoas se conheciam no bonde, no ônibus, na festa, no clube, whatever. Fato: elas se conheciam assim, fisicamente, olho no olho. A primeira impressão era realmente à primeira vista. Uma ouvia a voz da outra, sabia a altura, o tamanho, os atrativos e os nem tanto, sentia o cheiro. Sabe assim? Como os homens da caverna? Coisa antiga...
Pois bem. Como fazer para se encontrar de novo? Pouquíssimas possibilidades. Nem sempre alguém passa pelo mesmo lugar duas vezes em uma semana, a não ser quem se conhecesse no trabalho -- mas não se come a carne de onde se tira o pão (cof cof...eu nunca!).

Depois tinha o telefone. Era preciso descobrir o número da pessoa e, para tal, bastava procurar na lista telefônica de assinantes, caso tivesse dado tempo de saber o sobrenome . Depois de conseguir este tesouro, telefonar era uma coisa meio cara, então ninguém abusava. Falar todo dia já era uma coisa exagerada, mais de uma vez por dia era coisa de gente louca. Sem celulares e mensagens de texto, era impossível mandar um  :)  de vez em quando para se fazer presente.
Em compensação, naquela época, se um homem aparecesse de surpresa na porta da casa ou do trabalho da moça, ou se telefonasse para a casa dela, ele não era considerado um stalker, ao contrário, era uma demonstração de interesse e afeição apreciada até. E as pessoas escreviam cartas. Isso: Cartas! O carteiro não trazia contas, trazia CARTAS. Para as contas, existiam os carnês -- que não eram enviados pelo correio.

Pois bem...um namoro envolvia cartas, bilhetes, fotografias, presentinhos fofos. E o final de um namoro envolvia devolver, rasgar ou queimar cartas, bilhetes, fotografias e presentinhos fofos.
O ato de rasgar era a grande catarse. Depois de lágrimas sem fim, dias de sofrimento ou de raiva, você simplesmente abria aquela caixa, remexia tudo, escolhia meia dúzia de coisinhas para guardar - isso entre soluços e ataques de fúria - e rasgava página por página, envelope por envelope, jogando toda a sua energia e todo o seu sofrimento neste ato. Um ritual de luto. É como enterrar seus mortos.
O luto é necessário para a aceitação. Depois do enterro, você chora, se descabela, mas não encontra mais o morto andando por aí. Depois do enterro, você espera lá seus sete dias, manda rezar uma missa ou o que quiser...e está liberado do sofrimento. Kind of.  Rasgar cartas e fotos é exatamente a catarse do luto dos relacionamentos. Queimar então...maravilhoso. Depois deste momento, você é oficialmente uma pessoa mais leve.

Pois bem...ERA!
Porque hoje não tem como. As pessoas terminam e continuam vendo o nomezinho da criatura ali na janela do messenger com uma bolinha verde que praticamente diz "disponível, mas não para você". E fotos que mudam todos os dias. E Facebook, Orkut, Twitter, notícias que não param de chegar. São lembranças postadas por todos os cantos da web e ainda tem o grande cemitério das almas perdidas -- que se chama Google -- capaz de achar as imagens de vocês dois juntos que aquela tia dele postou.
Se ela pinta o cabelo, ele vê. Se ele começa a malhar, ela repara. Se um dos dois namora, o status muda como um tapa na cara.
É a vida eterna dos amores perdidos.
Quando você termina um relacionamento, o histórico do messenger também desaparece? E o do Skype? Não...você pode encontrá-los bem na hora que já estiver se recuperando, reler tudo e ter uma master recaída. E os e-mails? Você pode deletá-los todos, mas ao contrário do ato de rasgar, o que fica não são fragmentos de declarações de amor em forma de papel picado...é o vazio. Deletar não cumpre o ritual do luto.
A internet é a volta dos mortos vivos. Ex-namorados-Zumbis. Ex-mulheres-imortais. Eles se vão, mas nunca partem. E se bebem, entram de madrugada pra escrever mensagens saudosas que não vão lembrar de manhã. Como lidar?

É preciso criar outro ritual de luto para preservar os corações dessa bagunça. É urgente!






(Eu guardo as cartas e rasgo as fotos)

quarta-feira, setembro 15, 2010

_perfect profile

Achei hoje esse perfil de um blog antigo e vou te contar que ainda me cabe como uma luva.


Minha cabeça é o big-bang do pensamento alheio. Roubo o que você pensa e não sabe dizer... Assim eu sou você e você jura que eu sou demais!
Odeio o ar da mediocridade. Odeio o cheiro da falsa modéstia. Odeio o perfume barato dos pseudo-intelectuais.
Gosto das pessoas. Gosto de ouvir pessoas. Falo mais do que a língua e sou dona da verdade.
Ela é minha e fim. Não se discute! Shut up!

Ha!

terça-feira, setembro 14, 2010

quinta-feira, setembro 09, 2010

_pode?

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Pode? Não, não pode. 
Tem muita coisa nessa vida que não pode e a gente sabe muito bem. 
Não pode matar. Não pode maltratar as pessoas. Não pode fazer aos outros o que a você não quer que façam a você. Não pode roubar. Não pode ser desonesto. Não pode um monte de coisas porque não é justo, não é correto, porque sem ética a gente não sobrevive nesse mundo que ainda é selvagem, porque a nossa natureza é selvagem e isso eu não vejo como mudar.

Mas tem coisas impossíveis de controlar. Você simplesmente não manda nelas e, acredite, tudo seria muito mais fácil se a vida fosse controlável.
Se fosse controlável ninguém ficaria doente, ninguém morreria de coisas incuráveis, ninguém jamais ficaria triste, a gente aceitaria a morte -- não importa o que ou quem morreu. 
Quando uma pessoa vai desta para a outra vida, quem fica sente que o chão lhe foi tirado. Fica um vazio imenso que não pode ser preenchido por nada...nada vivo, nada material, nada. 
Quando um amor acaba, acontece a mesma coisa, com a única -- e não tão grande -- diferença de que o grande buraco será preenchido mais cedo ou mais tarde, mas ali há de ficar uma cicatriz.
Quando uma promessa de alegria se desmancha no ar é um pouco diferente: era só uma ilusão, você sabe disso, mas dá uma tristeza infinita e passageira. Assim: tem dias que é infinita, tem dias que nem existe. A alegria ilusória muitas vezes é bem mais intensa do que a felicidade real. Ela vem forte, ela gera expectativas, ela tem cheiro e gosto de promessa de vida. Aí, quando se desfaz, você tem a impressão de que não é merecedor de algo tão bom. Não é como a dor da perda...é como a dor de não ter tido.

Aí, nos dias em que está triste, você vai buscar a lembrança da ilusão, porque ela ameniza a dor das outras perdas. 
Pode isso? 
Pode sim...com certeza pode.


terça-feira, agosto 31, 2010

_s.o.s. solteirice

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Ai ai, a vida de casada é uma beleza e um dos motivos dessa beleza é muito claro: não ser solteira.
Papai do céu me permita manter a minha casadice eternamente, porque as regras da solteirice enchem o meu saquinho, mesmo à distância. De ouvir falar, só de presenciar os eternos mimimis de amigas solteiras e amigos idem, eu me canso do novo livrinho de regras.
Pelo meu livrinho, existem coisas que são básicas: vai acontecer mais cedo ou mais tarde, nao vai? Então resolve já. Simples assim.
Vamos a um ensaio de alguns tópicos que são reclamações recorrentes:

1. Não enrola! 
Você está a fim da moça. Ok, ela também parece estar? Vai de uma vez, porque mulher é um bicho que cansa fácil (e eu acabei de ler que tem muito mais homem do que mulher no mundo). Acorda!

2. O primeiro encontro.
Marcou um encontro, vai sair pra jantar? Siga os conselho da @rebiscoito: aqui. Parte direto pro beijo, poupa todo aquele nervosismo e as reviradas no estômago durante o jantar, fofices ditas sem graça e espasmos nervosos esquisitos. Vai pro beijo! Se o beijo for ruim, já economiza a grana do jantar, se for bom, a noite será agradável, ponto.

3. Ligo não ligo? Me faço de difícil ou o que?
Ai pelo amor de deus. Essa é a parte que mais me enche o saco. 
Vem cá...me explica: se você está aí igual um bocó pensando nela, liga! Isso não faz de você um stalker louco que vai ficar vigiando a moça na janela e dar um tiro em quem se aproximar. Ou pelo menos antigamente não fazia. Sem falar, que a gente sabe que você É um stalker louco que já foi fuçar a timeline dela, o Facebook dela, o Orkut dela e googou fotos de uma década inteira. Então pára de ser mané e liga de uma vez. O máximo que pode acontecer é ela dizer que não quer mais sair com você.
Agora, meu bem...se você não quer ficar com a moça de novo, faz favor de ser homem e ser bem claro. Deixa eu explicar: bem claro quer dizer: BEM CLARO, com  t o d a s  a s  l e t r i n h a s  e sem desculpinhas. Não é "agora não dá porque eu estou num momento complicado", "estou saindo de um relacionamento sério e não quero misturar as coisas" ou seja lá que frase você decorou. É assim ó: "Você é um amor, mas eu não quero ficar com você, não vou ficar enrolando e perdendo o seu tempo...não vai rolar porque eu não estou a fim. Desculpa, ta?"
Viu que fácil? Ela vai achar você um grosso, por dez minutos, depois vai agradecer o tempo poupado e o sofrimento ridículo economizado, para todo o sempre.
E se ela ligar antes da hora, não se faz de louco: se estiver a fim dela, se joga. Se não estiver, já sabe a minha opinião. Não tem nada pior nessa vida do que se sentir enrolada. Uma coisa é homem difícil, outra coisa é homem enrolão. Difícil é um desafio interessante, enquanto enrolão é um chato que vai se suicidando aos poucos diante de uma mulher que queria alguém admirável pra chamar de seu.

4. Amiguinhas
Deixa eu te explicar que amiguinho não beija na boca, então não vem apresentar "amigas especiais" como "amigas". Abre de uma vez o jogo e diz: "Sabe a fulana? Então, ela é super minha amiga mas a gente já se pegou várias vezes". Sinaliza, querido, sob pena de perder a namorada. E por falar em "namorada"....

5. Ficar ou namorar.
Ai me poupe...ME POUPE! 
Pedir em namoro é coisa de quando eu tinha 15 anos, e isso já faz mais tempo do que você tem de vida. Me explica a diferença por favor? Vocês estão ficando faz seis meses? Ficando? Vocês dormem juntos, pelo amor de deus! Vocês conhecem as famílias, fazem tudo juntos e estão ficando? Desculpa, mas vocês estão namorando e faz tempo. Ah não? E se ela ficar com alguém outro, tudo bem? Ah não porque ela está "ficando" com você então tem que ser só com você...entendi....desculpa querido, mas vocês estão namorando, mesmo que você não goste do termo, ache a palavra um horror e se recuse terminantemente a aceitar o fato. Sinto muitíssimo...deixa de ser bocó e assume isso de uma vez. E se ela  referir-se a você como namorado, aceite. Ela é muito mais macho do que você e é bem raro achar uma mulher com essa qualidade (sim, isso é uma qualidade).
Ah, esqueci. Se você mora ha quatro anos com ela, vocês são casados, ta?

6. Medinhos
Faz favor! O medo do sofrimento é milhares de vezes pior do que o sofrimento em si. Coisa de boiola (boiola é covarde, não é gay, antes que você me encha o saco) -- e eu vou te contar que existe mulher boiola também. Fato: deixar de viver uma história porque você tem medo de vir a sofrer, só pode ser desculpa esfarrapada. Melhor dizer de uma vez que não quer, que não está a fim, do que assumir um medinho. Até porque não existe uma mulher que se preze que vá respeitar o seu medo. Ela vai insistir até você vencer isso. Então, se na verdade for só uma desculpa, você vai acabar entrando na categoria "enrolão" quando ela der todos os sinais de que as portas estão abertas e você não entrar.
Quanto a você, mocinha, a mesma coisa: toma jeito de homem!

7. Internet bichada
Não seja patético: quando você resolver bloqueá-la no msn, gtalk, yahoo, whatever, ela vai saber. Quando você ficar invisível ela também vai saber. Não esquece que quando ela o conheceu, você dormia conectado. Agora deu pau no seu celular, na sua conta, o msn pirou...aaaah! 
Me conta: você é o tipo de homem que ficaria com uma mulher que tem Q.I. de ameba? Ou você faz pouco assim da inteligência dela? Desculpa, meu bem, mas se este é o caso, você não merece mesmo que ela fale com você. Seja homem e assuma os seus atos se você quer que ela continue sendo ao menos sua amiga, porque, como eu já disse antes, toda mulher PRECISA admirar o homem que escolheu -- mesmo que ele seja o homem errado, não seja dela, não venha a ser jamais -- para conseguir guardar ao menos um carinhozinho para, quem sabe, uma futura amizade se você não screw up isso também.

8. Fim
Termine. Saiba terminar. Finish. Kaput. Se você ficar dando droga pra viciado, ela vai SIM descontrolar, vai ficar insuportável, vai ficar perdida e ainda vai viver alimentando uma esperançazinha que pode fazer muito bem para o seu ego, mas talvez um dia faça muito mal para o seu precioso saquinho, quando o joelho dela puder alcançá-lo. E vai. Acredite.

Por enquanto é isso. 
Se eu pudesse ditar as regras, aposto que a próxima geração me agradeceria.


Um beijo amigo no seu umbigo equivocado.



_Palavras

Enquanto não encontro as palavras para mudar de assunto, vocês vão ter que ler coisas antigas, escritas por mim em blogs extintos. 

15 Setembro 2005Eu não durmo mais. Que aflição. Que aflição.
Não vejo mais o amanhecer, com cheiro de bom dia, quando as nuvens são ainda uma névoa fresca e a cor do céu é novidade.
Não vejo mais o amanhecer. Vejo o pôr da noite.
A manhã insiste em chegar quando estou me arrumando para dormir. Não estou atrasada, ela que chegou cedo.
A noite é engraçada, me diverte e me brilha os olhos de criancice e ansiedade. É a hora do riso. Hora das idéias. Hora que as histórias chegam, que as imagens surgem, que as alegrias nascem, que as palavras explodem.
Ah...as palavras! Essas têm sido minhas companheiras ultimamente. Me roubaram de tudo. Me roubaram de todos. Só não me roubaram dos amigos que usam palavras. Só desses também. Fui roubada! Estou roubada! E foram elas!
Ladras palavras.
Livros, livros, livros, palavras e eu. Em que momento resolvi tirar o atraso de uma vida de preguiça? Sinto-me com 18, 20, 25? Há! Aos dezoito li mais do que uma existência. É isso então. Encontrei a menina loira usando jeans e coragem, com tempo pra tudo, e ela me força a ler. Dentro do meu casaco verde-langanho, na madrugada gelada, estamos eu, ela, Ella, Elanor e todas as outras, caçando palavras. Colecionando períodos. Eternizando pensamentos. No dia cinza e gelado, vivemos pelos sofás. Um livro no carro, um na cabeceira, outro no banheiro e esse aqui do meu lado que revela tudo o que eu queria saber. Corre Mercedes, corre! Tira o atraso de uma vida! As palavras voltaram. A noite está com você! À noite, está com você. À noite estar com você...Mágicas palavras.
Grande Houdini me ronda mostrando essa mágica diária-noturnamente. Grande Bandini me visita desvendando o mistério da sintaxe que eu gosto. As palavras me encantam e seqüestram. Fui roubada! Fui roubada!
As palavras são putas encantadas. Andam pelas bocas e pelos becos. Criam contos de fadas ou eróticos. Passeiam pelo coração da moça e da velha trazendo os mesmos desejos. Visitam o padre e o bêbado levando os mesmos pecados. Com seus peitos desnudos e bocas vermelhas, as palavras beijam quem já não sonhava. Quem adormecia. Quem já não esperava. Por isso os poetas vão para o inferno. Malditas palavras.
Irei eu para o inferno só por não ver o dia amanhecer, mas sim a noite se pôr no meu horizonte de vocábulos? Irei eu para o inferno só por ser a amante devotada dos períodos e sorrisos? Irei. Irei para o inferno se puder levar comigo meus pensamentos noturnos. Assino este contrato. Firmo minhas palavras. Irei com elas ao inferno!
Dramáticas Palavras.


domingo, agosto 29, 2010

_Sempre

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Quanto tempo dura um sempre?
Menos, muito menos do que o desejado, pode ter certeza, a não ser o sempre que dói.
Um momento de alegria dura um "pra sempre" ínfimo e, o quanto mais ele vai durar, só depende da memória, porque nem todo "pra sempre" é pra sempre mesmo...a não ser que você fotografe, grave, se esforce para não perder nenhum detalhe, porque ele se vai...e é rápido.

"Existem sempres que eu tenho", ela disse, "mas não necessariamente os sempres que eu queria ter. Eu tenho pra sempre o peso do paletó dele, guardado aqui na memória. Memória inútil, parece? Parece, mas nem é, já que posso ter perdido outros detalhes. Lembro que era marinho e muito mais pesado do que eu esperava, quando fui arrumá-lo no banco de trás, para nao amassar...boba, Amélia de quem não quer uma. 
Mas tenho pra sempre a vontade de ser. Sabe, tem gente que passa pela vida assim, de longe, de besta, por acaso e só. Mas tem gente, que mesmo passando rápido, por muito muito pouco tempo, parece que dá tempo de querer tanta coisa...e querer tanto. 'Pra sempre' é asssim: rápido, porém demorado...passageiro, porém eterno... e faz uma confusão no tempo e no espaço que atrapalha toda a matemática e a relatividade e faz com que você possa querer. Então eu quis. Eu quis cuidar dele, eu quis adormecer ao seu lado, eu quis ouvir o barulho do chuveiro, quis saber os sons de escovar os dentes. Tão rápido, tão urgente, antes que acabasse, eu precisava saber se ele dorme de lado ou de bruços, pra saber como eu me encaixo, como me enrosco, como me enredo em suas pernas pra lembrar pra sempre. Mas esse 'pra sempre' eu perdi...
Mas tenho outros...tenho sim. 
Tenho cheiros e gostos e sensações na pele. Tenho lembranças que parecem retratos: um sorriso, um olhar, um jeito de suspirar, um gemido, uma lambida, mordida, gargalhada. Tenho uma cara bem boba olhando pra mim como menino, sorrindo e mordendo o lábio com cara de travessura. Tenho todo o pensamento entre as sobrancelhas...porque eu escuto e não esqueço o jeito dele pensar.
Tenho o andar -- o jeito atrapalhado e indeciso, meio exibido, meio inseguro, meio tão meu que dava medo --.  
'O que foi?'
'Estou aqui esperando você cair no meu conceito...vai por açucar no café?'
'Não, nunca...'
'Ufa!'
pra sempre e sempre e sempre!
E o jeito de me chamar pelo nome que não é meu...o nome só dele e de ninguém mais. Não tem como apagar isso, e eu vou lembrar quando estiver indo embora, depois dos 90, quase aos 100, e vou sorrir um sorriso tão enorme que meus bisnetos vão achar que é delírio. 'Foi sim...foi um delírio, o melhor de uma vida toda...' E vou fechar meus olhos lembrando que assim que 'pra sempre' é.
Tenho tantos outros momentos que lembro e relembro, e repasso milhões de vezes pra não perder...são pequenos trejeitos, são grandes frases, são brevíssimos momentos de gigantesco prazer. Não vou perder nada...nada mesmo...sei que vou lembrar enquanto meu cérebro ajudar. O único 'sempre' que eu preciso perder é o sempre da dor, que já durou demais. A saudade imensa que dói na boca do estômago e sobe depois para a garganta, faz arderem os olhos e baixar a cabeça perguntando em voz alta: 'Por que tem que ser desse jeito?'
'Sempre, sempre foi um instante infinito roubado da alma do tempo'. Mas enquanto o sempre da saudade não passa, é o que se tem pra hoje: essa coisa misturada e confusa. Lembranças que me fazem sorrir no meio do dia, sozinha, em lugares e situações totalmente impróprios; e a tristeza que já me trouxe lágrimas na frente das pessoas erradas, nos lugares errados, mais vezes do que eu queria permitir."

Eu acho assim: existem pessoas que só passam, outras que parecem nunca passar. Isso é meio que "pra sempre". E eu não invejo quem tem uma saudade que dura um "pra sempre" qualquer, por menor que ele possa ser.