Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

Terça-feira, Janeiro 10, 2012

_as gavetas do caixão

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A gente vive num tempo voltado para o dinheiro. Dinheiro este voltado para o conforto - ou essa é a desculpa. Cientistas descobrem maneiras de vivermos mais e melhor. Inventores resolvem problemas básicos como encurtar distâncias, minimizar esforço, diminuir stress. A tecnologia caminha a passos largos para que nossos passos possam ser cada vez menores e mais leves. Menos esforço = mais conforto, como se nossa espécie estivesse cansada já ao nascer. Além do dinheiro comprar conforto - e celulares cada vez mais legais - também compra saúde, ou maneiras de fazê-la perdurar. Às vezes compra relações, mas não há garantia extendida para isso. O dinheiro compra. Fato. Mas e daí? "Caixão não tem gaveta", diria minha avó.

Mas se caixão tivesse gaveta, o que iria dentro dela? Não cabem seus feitos, mas cabem seus sonhos. Não cabem suas conquistas, mas cabem seus amores. Não cabem seus milhões, mas cabe o que você viu neste mundão de meu deus. Não cabem as pessoas...nem a lembrança delas, nem nada. Tudo mentira. Eu sou o tipo de pessoa que para para pensar no que cabe nesta gaveta, acredite. E depois de pensar muito, concluí que é inútil perder o tempo do carpinteiro com a execução de um caixão/cômoda/armarinho, porque no final você não leva nada desta vida. Você DEIXA.

Não vamos nem discutir a existência da vida eterna - teoricamente você tem a eternidade para esta discussão -, não vamos nem querer saber se existe um deus lá em cima anotando os seus pecados, não vamos avaliar se o juiz do juízo final usa toga ou peruca branca ou se o fórum vai estar em recesso quando/se você chegar lá, o fato é que a vida que você leva aqui é a vida que você deixa aqui. Não! Você não deixa filhos, mulher, parentes, obras...você deixa a sua história. Quer julgamento pior do que deixar a história aí para todo mundo ver, e não estar presente para se defender? Ah-ha! agora você entende o "julgamento final"? Você a sete palmos do chão, mãos cruzadas sobre o peito, aquelas flores já murchando e o povo aqui fora analisando os seus feitos e defeitos? E você com medo de Deus...ai ai ai que equívoco!
Os seus segredos mais bem guardados virão à tona. Seus amores platônicos serão revelados. Sua segunda familia aparecerá no velório. Suas caixas de lembranças serão abertas, seus bilhetes serão lidos, suas mazelas serão descobertas...e você lá, impotente.
Aí as pessoas acham que precisam andar direito para que sejam salvas. Salve-se! É você quem salva a sua reputação deixando as pessoas cheias de coisas boas para lembrar sobre você. Se não for capaz destas "coisas boas", seja engraçado, seja diferente, seja inteligente, mas por favor faça alguma coisa para que a sua vida dure mais do que os anos de vida que você teve. Ser esquecido, este sim, talvez seja o inferno. A eternidade pode ser a lágrima que escorre pelo rosto de alguém ao falar de você, o sorriso de admiração ao conhecer uma história sua, um traço de gratidão no olhar de alguém que você ajudou... A vida eterna talvez more nesta lembrança pairada no ar, fazendo seu nome viver por mais tempo, nas histórias contadas nos almoços de domingo, ou nas páginas de um livro de memórias...de alguém outro.

Talvez a salvação - se é que alguém precisa ser salvo - seja só a certeza de uma vida bem vivida.

Quinta-feira, Novembro 10, 2011

_...

Oi pai,

Já é Novembro. O Natal vai chegando perto e a gente vai tentando dar um jeito de esconder a sua ausência. Imaginando a bagunça, as chegadas, a comida, e pensando o que você gostaria de comer, o que diria para o último a chegar, a que horas declararia abertos os trabalhos e abriria a primeira garrafa...
Eu fico tentando fugir destes encontros com você, como se fosse possível. É pensar em Natal e eu já escuto a mãe brigando porque você está roubando fatias de peru e bagunçando o prato que ela arrumou. Aí eu já quero abrir um pacote gigante de pepino na salmora do mercado municipal, e comer com você.
Lembra do terreno que a gente comprou? Você falou tanto que a gente tinha que morar num lugar nosso. Então...a casa está pronta e a gente já se mudou. É tão linda, pai... qualquer janela que você abra dá para a mata. Os sons são os mais incríveis: grilo, passarinho, sapo (é...claro que tem sapo. Você sabe que eu não vivo sem sapos), um tucano que nos acorda de manhã, e o jardim é incrível. Plantei dois pés de romã pra não esquecer o que você me ensinou: "a fruta não precisa apodrecer por causa de uma semente estragada - como a romã." E plantei pitanga, jaboticaba, lichia, limão, tangerina, um monte de lavanda. Na frente da casa, resedás e cerejeiras, para encher tudo de flor. E a cada árvore que foi plantada eu pensei na sua aprovação. Todos os dias, quando eu abro a porta da varanda com um céu imenso e a mata, e sinto o cheiro da lavanda, não consigo evitar de pensar como você gostaria deste lugar.

É o terceiro Natal sem você. Saudade três vezes maior. Não passa, sabe? Desde que você foi embora eu não fiz muita coisa. É, eu sei, eu construí uma casa e plantei uma dúzia de árvores, mas eu não terminei o meu livro. Não consegui mais escrever. Republiquei textos, escrevi uma bobagem ou outra, mas escrever, escrever MESMO, não. O livro ficou encostado, como se tudo o que eu tinha a dizer tivesse esvaziado. Eu também não quis mais fazer ginástica, nem regime. Eu sei o que você diria disso. "Vai pra terapia, Mercedes. Você precisa superar." Hm...não sei. Até porque no fundo eu sei que usei você como desculpa para esvaziar. Andar tão cheia cansa um pouco (mentira!). Eu acho que apesar de todos os altos e baixos, minha vida foi sempre tão cor-de-rosa - ou eu tão irresposável -, que antes era mais fácil fantasiar e escrever. Depois que você foi embora, ficou tudo tão mais duro e real...
Eu sei...preciso resolver.
Mas fora esse pequeno desvio, estamos todos bem. A vida - apesar de mais real - está boa, todo mundo feliz, e não deixei de cumprir as promessas que fiz pra você. Todas elas.

Então Pai...o Natal vai ser aqui em casa. As duas familias inteiras e juntas. A Dona Marilia, matriarca absoluta, fazendo fios de ovos, os meninos na piscina, as meninas fazendo barulho, todo mundo falando ao mesmo tempo, os acessos de riso de hábito, as histórias engraçadas da infância das quais você faz parte. E a gente vai chorar, claro, a gente chora só de se olhar. Isso nunca mudou. Aí eu fico pensando se não vai faltar o seu sorriso. Mas não vai não Pai, porque na verdade ele sempre está lá quando a gente se reúne. É a sua obra. Porque se tem uma obra que você deixou na vida, foi este amor que a gente sente.

Era isso, Pai. Acho que eu precisava chorar.

Beijo


eu sei que este texto vai afetar demais algumas pessoas. Me desculpem, mas fazia muito tempo que eu precisava fazer isso. 
Só não me telefonem pra falar disso, ta? por favor...porque eu vou chorar no telefone e ninguém vai entender nada do que eu falo. Sorry.

Segunda-feira, Outubro 03, 2011

_como assim?




Você entrou no elevador, apertou o 15º andar, e quando a porta abriu, ainda estava no térreo. Estranho...
Você aperta o 15 novamente e nada. Então você sai do elevador sem entender e se depara com pessoas vestidas de forma estranha. Não, não é só a roupa...a roupa é um pouco diferente sim, mas os cabelos: mulheres de cabelo liso...todas elas. Homens de calças rasgadas, camisetas manchadas...muita camiseta. Nunca se viu tanta camiseta...tênis. Os homens usam tênis. Como assim? Todo mundo tem um fio branco saindo de cada orelha e anda olhando para uma plaquinha retangular... Que diabo é isso?
Aí você descobre que está em 2011. Você entrou no elevador em 1960 e poucos, e saiu no século XXI. Wow! As coisas devem ter melhorado por aqui...
Empolgado, você tira do bolso um cigarro e acende. Sabe-se lá porque, várias pessoas olham feio para você, uma menina de uns 16 anos cutuca a amiga te olhando como se você estivesse sujo ou pelado...Coisa estranha! Um segurança se aproxima:
-       Senhor, o senhor não pode fumar aqui.
-       Como assim eu não posso fumar aqui? Este lugar é público.
-       Sim, por isso mesmo!

Dá para entender uma coisa dessas?
Andando mais um pouco, você descobre que uma mulher é presidente do país, e lá nos Estados Unidos, elegeram um negro. Kadafi está foragido. A Russia não é mais Comunista. A China fabrica carro, telefone, computador, tênis, roupa, ferramenta, satélite, e exporta para o mundo todo. Bagdá é um lugar em ruínas e as mil e uma noites agora são noites de medo e escuridão.  Existem muito mais aviões. Existe uma coisa que liga todas as pessoas do mundo em computadores (computadores são pequenos e pessoais, todo mundo tem!) e telefones, e as pessoas se falam o dia inteiro, até quando estão no banheiro. Comentam até o que estão comendo e ninguém passa um dia sem saber tudo o que acontece no mundo inteiro.
Você resolve então correr para uma biblioteca para pesquisar os últimos 50 anos e descobre que 1. Não é tão fácil achar uma biblioteca. 2. O Brasileiro é tão facilmente manipulável que não lembra em nada o povo da sua época. Descobre que houve uma ditadura militar durante 30 dos 50 anos que passaram e aí começa a entender o que pode ter aniquilado o cérebro dos seus compatriotas. Fiscal do Sarney? Meu Deus!
Mas ainda há esperança, então você quer saber mais.
Você continua andando e falando com as pessoas para descobrir o que mais mudou, fora o fato de os fumantes terem se tornado pessoas menos inteligentes e mais perigosas, de uma hora para a outra – embora a bebida continue liberada e sinônimo de alegria/futebol/samba/mulherada/juventude.
Aí você descobre que o governo conseguiu convencer a população a se desarmar. Ok...até aí é legal, afinal arma de fogo nunca foi uma coisa muito boa, embora seja um direito do cidadão proteger sua propriedade e sua familia contra ladrões e invasores e tal...mas já que a população toda foi desarmada, está mais do que justo, certo? A gente aprende a lutar alguma coisa pra poder sair na porrada com algum ladrãozinho de galinha que tente invadir ou roubar a carteira. 
Hein? Os ladrões sequestram e matam e não foram desarmados? Como assim? A população é proibida de ter armas mas os bandidos continuam armados? Não entendi. Eles cresceram em número? O que? E ensinam na TV que não se deve reagir caso um ladrão invada sua propriedade ou o ameace de alguma forma? O que é isso? Alguma brincadeira?
A única explicação para isso é que alguém do governo é sócio de algum chefe da máfia brazuca ou qualquer coisa assim, porque não existe nenhuma lógica em desarmar o cidadão e ensiná-lo a ser passivo.
Mas calma...entendi: o cidadão não precisa reagir, porque a polícia está sempre alerta e por perto, certo? Se um bandido tentar alguma coisa contra alguém, a polícia imediatamtente toma providências e o malfeitor vai para a cadeia. Ah sim...agora faz sentido!
Não é assim?
Meu deus...isso é o fim do mundo...

O que? Como assim ano que vem?

Mais do que rápido, você volta para o elevador, aperta o térreo e reza para voltar para o seu tempo.
Ufa...




Sexta-feira, Setembro 23, 2011

_5.0


Dizem que quem nasce nos domingos de sol é vaidoso, alegre, barulhento. Não sei se é verdade. Sei que sou vaidosa sim, que passei 90% desses 50 anos sorrindo e que já fui bem mais barulhenta do que sou hoje. Ultimamente gosto de ficar quieta e às vezes nem estou a fim de conversa. Mas há um barulho intenso dentro de mim, 24 horas por dia, sete dias por semana, desde  sempre. E sol.

Em outros 90% dessa minha vida estive triste. Não triste triste. Triste...triste. Só lá no fundo, numa outra vida imaginária que quase ninguém conhece. Espera...NINGUÉM conhece!
É lá que eu vou buscar poesia quando preciso, porque não é possível escrever feliz. Não pra mim. Existem coisas que escrevo que são de uma tristeza mais profunda do que a profundidade em si, mas nem é verdade, embora seja. Dá pra entender? Provavelmente não. Mas se eu não convivesse com essa dor que não existe, jamais escreveria uma linha. Nem as obscuras nem as felizes. Então não me dê remédio, não me trate, não me mande para a terapia, porque não existe remédio melhor do que ler o que sai de mim, mesmo que eu jogue fora depois. É o meu falar sozinha, é o meu falar com deus. 
É, eu sei...de perto ninguém é normal. Não eu.
75% dos meus dias foram de paixão arrasadora. Ou mais: mais que 75, mais que arrasadora. Me apaixonei pelos outros, por mim, pelas coisas, fui obsessiva, fui maluca, fui inconsequente, assustadora. Fiz coisas talvez codenáveis, se é que é possível condenar o amor em qualquer de suas formas. Se for, sou culpada, aceito, confesso sem a menor vergonha na cara, porque é assim que eu sou 100% do tempo.

32% dos dias de sol eu sorri. 99,9% dos de primavera eu sonhei acordada. 87,2% dos dias de chuva eu chorei.

É quando a tristeza me toma de assalto que minha vida imaginária acontece, e ah! não me faça rir porque eu não quero! Me deixa sofrer por nada. Me deixa descabelar as madeixas e me jogar na cama só hoje...só pra cozinhar essa tristeza boa, porque a vida é chata sem ela, porque ser feliz pode virar rotina e toda rotina torna-se um nada. É preciso enxergar a felicidade, então deixa chover em mim...deixa eu chover no mundo.
Mas a dor em mim dura pouco...eu canso. Passou.
40% dos meus dias eu trabalhei. Meu nome foi trabalho durante quase toda uma vida, até meu nome se tornar família, não por vontade própria, mas por pura birra. Sim...as pessoas que nascem nos domingos de sol são teimosas, odeiam ser contrariadas e conseguem ressurgir das cinzas só pra contrariar de volta. Eu trabalhei 15 horas por dia dos 18 aos 40, - e menos um pouco desde os 13 - porque precisava, porque queria e parei  só pra não dar o braço a torcer. Long story... Mas aí que recomeçar é o que eu sei fazer melhor, em qualquer território. Então por que não? Funcionou.

65% da minha vida profissional foi criar. Criar pelos outros, criar os outros, arrumar a criação dos outros, criar um mercado, criar diretores, criar laços, criar problema (oops)...criar. Criei condições de trabalho onde não existia. Criei pupilos e ensinei até quando não sabia que estava ensinando. E eles cresceram. Cada um deles era um mini-príncipe encantado ou uma princesinha perdida e todos viraram reis e rainhas enquanto eu, rainha mãe, os via crescer orgulhosa. Também criei meus filhos e meu marido  - ele mesmo criado por mim em várias áreas da vida, agora está me criando - e meio que terminei de criar meus pais e meus sogros. Agora sigo criando formas de recriar a minha própria vida.

73% desses anos eu questionei a existência de deus na forma que conhecemos. Questionei a Bíblia, o Torah, todas as versões e traduções dos textos sagrados, fiquei de mau com a igreja e com a humanidade, mas rezei. Aprendi a rezar do meu jeito pra um deus que eu entendi e pra Santa Rita,  Maria Padilha, Iansã e para as forças que aprendi a dominar dentro de mim. Aprendi que o bem e o mau são a mesma mão e a minha é parte disso, como a sua, não importa de que lado você ache que está. Já soube ler tarot, já aprendi kabalah, já dominei os cristais, já purifiquei coisas e pessoas que precisavam, e já esqueci como fazer tudo isso. Já salvei casamentos e aliviei angústias. Fui chamada de bruxa mais vezes do que gostaria, mas a verdade é bem mais simples: aprendi que as palavras têm força. Aí evitei as que não gosto, procurei outras - novas - para proteger os meus de um mundo que pode ser cruel, quando me distraio. Aprendi a confiar no destino e a modificá-lo dentro das minhas limitações - que são muitas quando me sinto fraca, e nenhuma quando estou feliz -. E respeitei a lei do retorno. Aprendi que é aqui e agora que nasce e cresce o que a gente planta. E durante 80% do meu tempo, planto coisas que você nem vê...mas elas crescem.

94% dos dias, fui grata. Grata pelas minhas escolhas, grata pelas minhas pessoas, grata até pelos meus erros.
Entendi que não tem como dar errado quando você faz as coisas por intuição. Segui as reviravoltas do meu estômago, derrubei meus castelos e construi outros, milhares de vezes, porque achava que daria certo e, mesmo não dando, deu...ou eu que sou iludida. Mas fui feliz. Funciona assim: se fui feliz deu certo. End of story.
Não aprendi matemática (talvez você note, pelos percentuais aí em cima) mas entendi a vida. É que quantidade, assim como tempo e espaço, é uma coisa relativa e mutável – na minha matemática.
Que tipo de vida besta soma só 100%?  Tão lógica...tão banal... não serve pra mim.

O exagero, este sim, guarda a totalidade das coisas que eu sinto. Só ele pode definir a minha vida: um exagero de vida, um transbordar de tudo. Esse sem número de acontecimentos que até eu duvido...um eterno “despencar na cabeça” de vida.

É assim que é: 50 anos de vida despencando na cabeça e transbordando em milhares de histórias indescritíveis, quase todos os dias, em todos os planos da vida: no real e no imaginário. Ou eu, que sou irresponsável, entendo assim.

Em resumo...schlevers por cento da minha vida eu fui feliz, mesmo quando não fui.

Tem sido bom demais.

E faz sol.


Amanhã, 24 de Setembro de 2011, eu faço 50 anos. And inside, I'm dancing.

Terça-feira, Julho 12, 2011

_socorro!

 
foto: a chegada do godzilla
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(Sobre como me tornei um monstrengo)

Nunca vi nada tão feio na vida! Juro!
Há alguns dias, minha filha me disse que eu tenho andado muito desarrumada:"você nunca foi assim, Mãe..."
É verdade. A carinha dela dizendo isso me deixou mexida. Quer dizer...me deixou envergonhada. Mas não tem jeito, gente, sério.
Eu me mudei. Mas assim, não foi uma mudança igual às quase 30 que eu fiz no decorrer da vida. Eu me mudei pra minha própria casa, o que é lindo, mas com cheiro e restos da obra, o que não é nada lindo. Teve toda aquela ilusão de que a gente só se mudaria com tudo pronto e cheirosinho, mas como todas as outras ilusões da vida, era mentira. Cá estamos.
Antes da mudança, tive um ataque de desapego e me livrei de 50% das minhas roupas. Outra ilusão. "Nunca mais vou querer isso", pensei, como se mudar de casa mudasse o gosto ou a quantidade de roupas que alguém usa. E o que sobrou? As roupas de gorda, claro: blusas largas e leggins e casacos desmilinguidos. Aff. Mas isso não é tudo. O homem é fruto do meio, certo? Então...pensa no meu meio: pedreiros, pintores, encanadores, faxineiras, jardineiros. Gente linda! Só gente linda!
O resultado disso é que eu estou um horror. Não, não assim como você pensou. Nem você, que me conhece e sabe dos meus exageros. Não! Pior. Muito pior.
Faz quase três semanas que estou aqui e ainda não tem espelho no meu banheiro. Tem no closet, mas não no banheiro. Agora me conta, quando você realmente se olha no espelho? Sim, quando lava o rosto, escova os dentes, seca o cabelo. Cabelo? Não vamos falar de cabelo. Todos os meus antepassados estão gritando! A parte frontal da minha cabeça é a filial da África. Tudo num laranja "eu-pinto-meu-cabelo-em-casa-com-a-tinta-errada"...uma lindura.
E meus dias têm sido super agradáveis.
Acordo as 7:30 com a portaria me ligando para anunciar a chegada do Tonho pedreiro. Bom dia!
Nos próximos 30 minutos posso cochilar um poquinho, mas bem pouquinho, porque chega o Francisco - o paisagista peão - com um exército de jardineiros feios vestidos de verde, com nomes como Gileno, Gildásio, e uns doze Franciscos. O Francisco chefe é um amor, delicadíssimo, atencioso a ponto de te fazer pensar que o mundo é lindo, mas tem um megafone na garganta e fala com o exército verde debaixo da minha janela. Bom dia! (A propósito, o jardim está lindo).
Depois começam os sons internos. Os pintores invadem a casa, e conversam. Um deles canta. As vozes se misturam aos sons de fora: o radinho de pilha do gileno, o pedreiro levantando o muro, outro colocando a tela dos fundos, o eletricista e o assitente conversando mais alto do que a furadeira , os marceneiros montando a estante da sala, e o diabo em pessoa rindo da minha cara em algum lugar do inferno.
Lembra daquela mulher que levantava com o famigerado roupão pink, sentava para tomar uma dúzia de xícaras de café lendo o jornal? Esquece. Morreu. Agora ela levanta, toma banho, veste uma coisa (sim, uma coisa), prende o cabelo e a áfrica inteira para trás e vai tomar café no banquinho da cozinha (preta e linda), porque não dá pra levantar de pijama, nem tomar café na sala com 3 pintores olhando e mais um monte de neguinho passando. Ah! Mencionei que os móveis da sala estão cobertos com plástico e tem papelão no chão por tudo? Não...detalhe sem importância.
Poeira...poeira na alma, nas narinas, em tudo.
Hoje istalaram um espelho de aumento no meu banheiro (o grande não chegou  ainda e não me pergunte porque) e eu fui testá-lo. Ele tem luz sabe? E aumenta. E eu me deparei com uma ogra descabelada com a sobrancelha ídem. Céus...alguém me roubou de mim!
Mas voltemos à rotina do dia: durante as horas em que o sol está brilhando, escuto meu nome sendo chamado em várias línguas: baianês, alagoês, caipirês, para resolver coisas never dantes imagináveis e atender pessoas tipo o instalador da bomba, o caminhão da caçamba, o vendedor de caixa de correio, o moço dos vidros, o do corrimão, o da pedra, o entregador de andaime. Recebo notícias do tipo: tá escorrendo água pela luminária do corredor porque a marcenaria furou o cano quando foi instalar o não sei o que do banheiro. Ha! Isso enquanto o eletricista liga e desliga coisas para testar a caixa de luz e faz meu computador enlouquecer. E tem as contas. E tem o telefone que não para. E tem a poeira. E tem a lama.
Aí o sol se põe maravilhoso num céu incrível que aqui em cima - sorry - é muito mais incrível do que o céu mais incrível que você pode ver aí embaixo, e o silêncio começa a predominar. Escuto uma última porta bater e um último "até amanhã, Dona Mercedes"...e a casa parece ser minha, finalmente. Só que já é hora de pensar no jantar, depois conversar um pouco e descobrir que o sofá está branco de poeira  e o vidro do corredor tem uma fresta que precisa ser siliconada, e que a água do banho não está tão quente quanto o tio do aquecedor prometeu, e que é hora de dormir.
Assim acaba o dia, para amanhã às sete e meia o telefone tocar, e o pastor evangélico começar a berrar no rádio de pilha do Gileno, e o Francisco e seu megafone...Aí eu não tenho mais roupa ou tempo de ir comprar. E meu cabelo continua amarelo-ôvo-socorro. E minhas unhas estão um horror. E não me convide para sair porque eu não posso aparecer em público.

Era isso. Eu precisava dividir toda essa baderna com alguém.
Agora vou voltar pra caverna.
Beijo.

Sexta-feira, Julho 08, 2011

_sinal de fumaça

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Então minha casa ficou pronta. Armários em produção, jardim sendo feito, últimos ajustes de engenharia, arquitetura e outras coisas misteriosas que eu nunca vou entender. Tudo sexo dos anjos... guarda-corpo assim ou assado? aqui ou ali? Prefere resina ou cimento queimado? A porta abre pra dentro ou pra fora? A bancada um centímetro pra cima? A torneira na pedra ou no inox?
Sabe aquelas mulheres super chiques, que usam camisa branca e nunca estão amassadas? Sabe aqueles cabelos que, se soltam um único fio, parece que foi planejado? Sabe essa gente de calça preta, bota impecável e maquiagem que nunca borra, que escolhe peças de decoração e parece saber, desde o nascimento, o que quer onde e como? Pois então... essa não sou eu. Meu cabelo despenteia num grau assustador, minha roupa suja de poeira, minhas botas ficam boas pro lixo. Sou um escraxo. Com x ou ch? Sexo dos anjos... não importa. Fato: eu sei perfeitamente o que não quero, e sou um escraxo que tem bom gosto. Hell! Isso não ajuda em nada na minha fantasia de ser uma mulher chique apontando o dedinho mais pra esquerda ou pra direita!
A casa está linda, obrigada, do meu jeitão, e este não foi o processo mais desgastante. Ruim mesmo foi conseguir uma internet minimamente decente.
Foi assim:
Tudo começou pela linha telefônica. Se eu transferisse a linha que já tinha, teria que continuar aguentando ligações da Editora 3 e todos os pedidos de doação da LBV. Melhor deixar pra lá. Então reslvi assinar uma linha nova. Vamos lá.

“Oi, eu quero assinar uma linha para minha casa nova. O endereço é blablabla.” E a mocinha do outro lado me dá a grande notícia: “Desculpe, não existe disponibilidade de linha telefônica na sua região.”
Como assim? Eu provei por A + B que tenho vizinhos e eles têm telefone, para receber outra notícias maravilhosa: “Esse seu vizinho não mora na rua que a senhora está dizendo. Esta linha nem está instalada no seu bairro.”
Céus! I see dead people! Aquela casa na esquina é uma casa fantasma, e a simpática Márcia que me dá oi quando passa aqui na frente, não passa de um espectro de alguém. Devo chamar um exorcista? Help!
Desisti da moça aquela e liguei de novo. A próxima moça não achou nada pelo meu CEP, mas achou. Finalmente minha casa existia sim, e podia ter telefone. Mas só telefone. Segundo a atendente, a linha disponível pra minha rua não é muito esperta. Não pode ter identificador de chamada, internet, nada, nadinha. Como assim, tia? A telefônica está condenando pessoas que compram terrenos legais ao isolamento eterno? O que a gente fez de errado, meu deus? Deu certo? Desculpa! Prometo dar menos certo, mas me deixa ter internet vai? Please?
E a coisa foi andando assim, a passos de tartaruga, até chegarmos ao impasse do século: depois de xingar muito no twitter, a telefônica disponibilizou - onde só era possível um pau de fogo e uma pele de búfalo pra fazer sinal de fumaça - a fartura de 500k de speedy. Ha! Senta lá! Gritei mais. Xinguei mais do que fã do Restart em dia de show cancelado, gritei mais do que Twihard fã em pré-estréia de filme com o Robert Pattinson...e consegui 1 mega. U.M. M.E.G.A! Mil míseros kbites. A velocidade do seu smartphone, só que em casa, pra dividir com os outros habitantes do meu lar. Tô feliz agora? NÃO!
Não porque ainda tem que conseguir instalar o tambor pra usar junto com o sinal de fumaça. E como faz? Espera a boa vontade do técnico, que primeiro vai ficar esperando na portaria do condomínio errado, depois vai chegar na minha casa só pra comunicar que não existe cabo que chegue até o meu lindo poste. E lá vamos nós de novo! Guerra com aquelas moças simpáticas que “vão estar querendo que eu esteja anotando” outro e outro e outro número de protocolo. Abri processos na Anatel, registrei queixas cabeludas, chamei todo mundo de incompetente, até que alguém se dignou a puxar meu cabo. A essa altura, eu já havia pago a fatura de um telefone que eu não tinha, porque o técnico da Ability que ligou a linha, ligou no DG do condomínio - ou seja, na caixa da Telefônica que fica na entrada do condomínio, há um quilômetro da minha porta. Tudo irregular, manolo! TUDO!
Uma vez trazido o cabo até a minha porta, vamos ao speedy. Oba! Habemos internet? Não, querida...não ainda. Calma. Ainda tem aquela hora em que o técnico com a pele oleosa e cicatrizes de ácne vai ligar o speedy na sua porta, e não na sua casa, deixar de entregar o seu modem, encerrar o serviço como entregue e instalado, e pedir mil reais para aumentar a velocidade do speedy pra 4 mega.
Sim, é isso. Eu gravei a conversinha mole dele dizendo que “pelos meios legais vai levar um ano, mas se a senhora pagar o amigo do meu amigo, ele entra no sistema com a senha dele e passa por cima da burocracia.”
Olha bem pra minha cara, meu senhor! Eu sou loira, tenho cara de milionária, minha casa até indica alguma coisa por aí, mas não está escrito em lugar algum que eu sou trouxa, picareta ou corrupta, ou tudo de uma vez. Eu morro me comunicando com um pau de fogo e um tambor, mas não pago. Eu não colaboro com gente podre. Eu não quero gente podre na minha porta. Eu não falo com gente podre! Se falar é por engano, mas agora que eu sei quem você é, você não pisa no mesmo chão que eu. Não que eu seja grande coisa, mas sou limpinha.

Não vou colaborar com esse texto fácil que diz que “O Brasil é assim mesmo”...é assim mesmo porque tem gente que acha que pagando uma cervejinha tudo se resolve. Eu só pago cerveja pra quem eu gosto, e só na mesa do bar ou na minha casa... você não é meu amigo, então sai do meu boteco!

O resumo da ópera é que eu denunciei o moço da pele nojentona, estou com internet de 1 mega instalada e funcionando em casa, mas não vou parar de espernear até que a Telefônica se estruture para o crescimento sem fim da Grande São Paulo, e passe a tratar os usuários com mais respeito. Enquanto as ex-estatais tiverem resquícios da ditadura e andarem a passos de elefante branco, estarão abrindo espaço para esses pequenos corruptos que pedem uns trocados aqui e ali para resolver coisas que deveriam ser resolvidas por elas. Esse tipo de coisa, faz a Telefônica ter a pele oleosa e cicatrizes de ácne. Eca!

Era isso: meu texto de hoje era uma reclamação. Eu quero viver num país que funciona, não quero ter vergonha dele, não quero ter que concordar que só molhando a mão de alguém a gente consegue uns megas a mais no juízo final.

Passar bem.



Quarta-feira, Maio 25, 2011

_tempestade

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Estou com os dedos pretos de poeira, desmontando minha sala para a mudança que não tarda. Encontrei cadernos antigos, consequentemente textos antigos, cartas que nunca foram entregues, poemas perdidos.
Um deles é irresitível, porque me lembro (não eu nunca lembro) da noite em que escrevi.

_tempestade, outra vez

houve outra noite de tempestade.
eu,  dominada pelo que fui
e não posso deixar de ser,
corri para fora
no meio da noite
e abri os braços para tocar os raios.

o céu e eu éramos um
(raios e braços,
 água e olhos,
vento e respiração)

relâmpago girando pelo jardim -
foi outra vez assim.

depois dessa noite
veio de novo o destino brincar comigo.
convidou-me outra vez a dançar,
em volta do fogo,
a dança que muda tudo.

em volta do fogo o corpo se lembra:
a velha feiticeira é livre.

eu danço
confusa e encantada.

6 julho 1992

Segunda-feira, Maio 09, 2011

_remember that

.
Encontrei hoje um comentário perdido que me lembrou um texto antigo.
Esse aqui:
Inexistência

Era isso.

Sábado, Abril 30, 2011

_complicando

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É. É complicado...
A vida prática nunca foi o meu forte. Passei esses poucos 49 anos sonhando acordada, delirando e acreditando que quando uma criança chama por fadinhas no jardim, as flores apararecem. Aí, aqui estou eu tendo que falar de dinheiro, pastilha, estruturas de ferro, esquadrias, etc. Eu - euzinha - negociando com o japonês malvadão com cara de kamikaze que vai colocar metade da minha casa de pé. Eu - euzinha - falando em números impossíveis e discutindo coisas mais ridículas do que o sexo dos anjos: "preto são gabriel ou preto absoluto?" "madeira naval ou chapa de ferro?" "beiral assim ou beiral assado?" Hello? Minha vida nunca teve beiral! Aliás, sem eira nem beira é o que eu sempre fui - nem pedigree eu tenho, quanto menos um habite-se.

Existe uma outra vida que eu desconheço, de pessoas feias e assuntos antipáticos (e vice-versa). Eu não gosto dela. Dizem que o nome é vida adulta. Estas pessoas falam de impostos, bolsa de valores, taxas de juros, preço do aço, metros quadrados, área construída, limite de recuo e NOP! Gente...vida adulta pra mim era outra coisa. Era ter filhos com problemas de adultos, assim: coração partido, escolha de carreira, revisão do carro, eleição. Vida adulta era consolar a sogra, conversar com a mãe, pagar conta, sentir saudade do pai. 

Nem quando eu quebrei, e minha vida virou de pernas pro ar, e perdi todas aquelas pessoas que me amavam incondicionalmente (lots of money, lots of friends), e me decepcionei com o universo e com a natureza humana, eu me senti tão fora do meu banquinho.
A parte boa é que é por um motivo nobre: a minha casa nova, a primeira conquista de um chão realmente meu depois de incontáveis mudanças na vida de cigana que eu achava boa. Meu pai queria que eu tivesse segurança, casa própria, emprego público, fizesse concurso pro Banco do Brasil. Virei as costas para essa idéia uma vida inteira, e sempre achei que quem tem raiz é árvore, quem fica parado é poste, e bom mesmo era aluguel, porque quando cansa é só ir embora...e o mundo é o quintal da minha casa. É mesmo. Ainda é. Só que do alto dos meus quase 50, acho que ter onde cair morta pode ser interessante. Finalmente. Não! Não finalmente cair morta. Finalmente "ter onde", só.
Cair morta é outro assunto: eu não quero, viu Seu Deus. Passo. Me deixa ficar pra semente que eu não me importo. Quero ficar velhinha bem velhinha, dirigindo um conversível na 101 em Los Angeles. Já disse isso tantas vezes, que você já deve estar criando o cara que vai abrir uma "elderly lane" na freeway só pra eu poder fazer minhas barbeiragens com segurança, to sabendo.

Fora tijolos, cimento e trenas, tem o Malvadezas. Ah o Malvadezas...este blog genial que mega deu certo, graças à querida da Carolina Mendes, que tem olhos de lince pra entender o que dá certo nesta vida online. O Malvadezas só me faz bem, mas também me faz cair na real quando vejo trocentos mil comentários em textos que estão tão longe dos assuntos que eu abordaria. Claro, to ficando velha, oras! Mas hey! Quem disse que eu queria me dar conta disso? Aí publico um texto Mercedístico lá, e fico nos 15, 16 comentários... ah eu devo ser um tédio, desinteressante, morna, sei lá. Então toda vez que vou postar penso que "dane-se", ne? Eu sou eu, e que culpa eu tenho de não ter problemas cabeludos ou não ser super moderna e querida pelos mudernos e... ah gente! Acho que eu amo mais ainda os 16 malvadezos por me fazer questionar tudo, de 15 em 15 dias,  antes de mandar meu texto para a Carol.
De qualquer forma, fico pensando se, mesmo tendo ralado uma vida inteira, eu não tive uma vidinha bem boa, e se isso é bom ou ruim pra quem escreve. Sei lá. Não sei. Passou.
Era isso.
Só um desabafo, como se eu fosse dada a desabafos.

Um beijo amigo no seu umbigo.


Malvadezas é AQUI

Sábado, Abril 09, 2011

_dois pesos

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Quem é mesmo você para julgar alguém? Vamos ser sinceros, assim...sinceros de verdade? Quer brincar?
Então presta atenção. Você acha que a sua amiga não educa os filhos direito, que está criando monstros sem limites, que não sabe dizer não, que parece ter medo dos filhos e tal? E você, tem filhos? Se tem, você tem tempo para educá-los de fato ou deixa isso para a escola, a avó, a empregada, e assume à noite e nos finais de semana? Você tem certeza que seus filhos, fora de casa, são exatamente como quando estão com você? Tem certeza que os outros acham seus filhos super normais e educados como você acha?
Não. Você nunca vai saber a resposta, porque ninguém vai reclamar dos seus filhos para você. Só a escola. Talvez. Caso seus monstrinhos sejam interessantes, porque se forem mal educados porém mortinhos, a professora não vai reparar muito neles, sabe? Desculpa, mas é verdade.

E a filha gay daquele seu conhecido? Aquela que você diz que a culpa é dos pais. Você tem certeza absoluta que sabe o futuro dos seus filhos? Você acha mesmo que a “opção” (ninguém opta por ser gay) da menina, é fruto da educação que teve? Então amiguinho... prepare-se para se surpreender.
Sabe, a vida não é fácil. Na verdade é, mas o que complica são as expectativas irreais que as pessoas criam. Seus filhos serão profissionais de sucesso? Serão corretos? Serão honestos? Ser hétero está na sua lista de “elogios”?
Eu tenho uma surpresinha pra você. Senta aí:
A vida é imprevisível. Mesmo cagando regras, tendo convicções fortíssimas, mesmo regendo sua família com punhos de aço e livros de psicologia embaixo do braço, você não sabe o que o futuro reserva para ela...nem para você.
Reviravoltas não acontecem com macacos e girafas no reino de Simba. Só acontecem com humanos, aqui mesmo na cidade grande, ou naquela menor. Acorda, Alice!
Eu não estou livre de ser traída, de ser trocada por uma gostosinha de 25 anos que acabou de sair da faculdade de cinema e acha Mr. Director “bárbaro” (sim, elas aprendem a falar bárbaro nas faculdades de cinema). Você não está livre de ser trocado por um garotão, nem por um velho pavoroso que você não entende como, meu deus, como?! Você mesmo pode se apaixonar, ou trair sua mulher numa escapadinha inocente, e ser pego. E você sabe: não existe traição na ignorância, longe dos olhos longe do coração, blablabla, mas quando te pegam...ai ai ai.

A gente não sabe se nossos filhos serão gays, se casarão com uma mocréia rancorosa, ou um mal caráter interesseiro. Se vamos sofrer um acidente, parar numa cadeira de rodas e precisar daquela vaga no mercado - aquela onde você estacionava “só um minutinho” e aquele aleijado que espere.
A gente não sabe se vai ter três derrames, virar um semi-vegetal e ser cuidado justamente pelo marido pobrinho e “meio encardido” da filha...aquele loser que a gente julgou e falou mal a vida inteira.
Vai que, na velhice, acaba dividindo o quarto com a sogra da filha? Aquela mulher pedante, brega que usa perfume doce, e vai acabar sendo sua melhor amiga. Também tem a hipótese de engordar 40 quilos por causa de uma disfunção hormonal e ficar igualzinha àquela vizinha “porca” que não se cuidava e era uma “baleia”, lembra?
Então... desculpa incomodar a essa altura das suas certezas, mas acho que você não devia nem guardar seus julgamentos para si mesmo: devia descartá-los. Varrer todos eles. Deixar de ter LAMA por dentro e, finalmente, ter ALMA - é só trocar uma letrinha de lugar.
Uma vez ouvi uma frase que adotei para sempre: quando você aponta um dedo, outros três estão apontando para você. Tenta aí...aponta e olha para a sua mão.
É bom lembrar que a lingua é o chicote da bunda e a vida, como dizia Gump, o Forrest, é como uma caixa de bombons: a gente nunca sabe o que tem dentro deles. Não tem nada mais feio do que ter dois pesos e duas medidas: se é feio na casa dos outros, é feio na sua. Ponto. Então é melhor não arriscar: senão por ética, ao menos por precaução, fecha essa boca.

Beijo.

Terça-feira, Fevereiro 01, 2011

_ google, seu lindo!

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Deixa eu falar quem eu sou. 
Talvez muito pouca gente saiba de uma parte de mim que não sai por aí se revelando, simplesmente por não ter um "por aí" para se revelar.
Eu fui criada, de certa forma, respirando arte. Minha mãe trabalhou na Escolinha de Arte do Rio de Janeiro com o Augusto Rodrigues, ouvi desde sempre histórias sobre peças de teatro, quadros, pintores, escultores, movimentos e revoluções. A Semana de Arte Moderna visitava minha casa de tempos em tempos em conversas infindáveis, e havia os livros. Livros e mais livros cheios de figuras incríveis, feitas pelas mãos de homens e mulheres incríveis.
Depois fui para a escola. Estudei uma vida inteira naquele lugar onde se tinha sete horas/aula de arte contra duas de matemática por semana. Comecei a aprender história da arte muito cedo, quando mal e porcamente sabia escrever meu nome, e fiz isso até  me darem um diploma de magistério com especialização em história da arte. Ponto.
Saí dessa vida. 
Aos dezessete anos fui trabalhar em agência de propaganda, fui redatora, RTV, coordenadora de produção, atendimento de produtora, dona de produtora...(todo mundo conhece o meu CV), até chegar em São Paulo, há quase dez anos, e resolver só escrever. 
Mas o que está no DNA não morre jamais.
Eu cresci e pude viajar. E eu sou aquela louca que chorou dentro da Catedral de Madrid. Aquela, e aquela outra que sentou num banco do Museu do Prado, de frente para uma gigantesca tela de Velasquez, e chorou feito criança. E que escolheu passar o dia no Metropolitan em Nova Yorque vendo só o que foi feito antes de cristo, e andava pela parte do Egito entre paredes pintadas e múmias coloridas, rindo como se fosse a Disneylandia. 
Eu enganei a minha familia cansada dentro do Louvre, inventei que sabia onde era a saída, só para poder ver tudo o que queria. Eu sentei no chão em frente a uma escultura do Rodin e agradeci por ter chegado até ali. Eu fiquei nas ruínas de Roma até o sol se por, respirando séculos de história, e não queria ir embora. Eu chorei batendo o pé na frente do Musée Dorsay porque estava fechado e eu tinha que ir embora no dia seguinte. Eu fiquei furiosa na Basílica de São Pedro e no Museu do Vaticano, por ver tantas coisas incrivelmente lindas, conquistadas com o sangue de tantos inocentes.
Essa sou eu. A arte e a história me emocionam a ponto de me tirar do chão. A arte e a história exercem um poder sobre mim que nenhuma paixão arrebatadora seria capaz de exercer.

E eu contei tudo isso por um motivo: hoje, eu estou feliz como uma criança que achou uma mina de doces e brinquedos: eufórica! histérica! Porque um amigo me mandou o link para o Google Art Project.
Depois de fotografar o planeta inteiro e a rua da sua casa, o céu e as estrelas, o fundo do mar e seus navios naufragados, o Google fotografou os museus do mundo. Agora, a gente pode andar dentro deles, ver os quadros em detalhes (os museus não permitem que se chegue tão perto) com zoom tão poderoso que é possível ver as pinceladas de Van Gogh e até as pequenas rachaduras na tinta. 
E por isso eu sou feliz! Sou estranha?
Agora eu posso ser a louca que chora na frente do computador e ninguém vai poder me julgar. Ha!
Google, seu lindo!



Quarta-feira, Janeiro 05, 2011

_uma carta

(from Ella to her beloved ghost)

Oi, meu bem.

Já é 2011, sabia? O tempo passou mais rápido do que eu sonhava, no meio de toda a dor que eu pensei sentir, mas os dias se arrastaram, um a um, desde aquele em que você ligou o motor e saiu antes de mim e se foi, meio que pra sempre. 
Nossos sempres, sempre tão efêmeros...
Daquele dia em diante, a sua ausência foi a mentira maior.
A gente não se viu mais de verdade, mas quem disse que eu preciso ver para saber? Quem disse que não acredito no que é invisível? Se ao menos você soubesse ser invisível. 
Eu senti o seu cheiro quase todos os dias, de alguma forma. Mesmo com a vida andando e as coisas  sendo feitas como manda o tempo, eu vi você todos os dias - se não em pensamento, em sonhos. Encontrei você nos meus textos e nos dos outros. Encontrei seu olhar em filmes, suas palavras em livros...e na vida real. A vida real apontava seu carro na rua, seu bar preferido, seu restaurante de hábito, a rua da sua casa, seu parque, seu céu e suas músicas...Tem também a sua hora - aquela em que o céu está vermelho e a cidade começa a acender todas as luzes e cantar alto, uma música qualquer que me aponta o seu lugar.

O ano passou inteiro desse jeito, e eu que tinha medo de estar congelada ali, inerte, não estava. Eu estava viva. Mais viva. Muito mais viva do que nunca antes, e de alguma forma você estava lá  dizendo que a vida é hoje, que tudo é agora e só por isso esperar não dói. Paradoxal, parece? Mas não é.
E eu esperei, confesso. Andando e vivendo, eu esperei todos os dias, e você vinha, porque não era possível de outra maneira. Você passou a mão nos meus cabelos e me beijou antes de dormir. Você sorriu para mim com cara de sono, ao amanhecer. Você andou ao meu lado, me olhando, enquanto eu dirigia cantando. Você esteve aqui, quase mais do que eu.
Parece loucura, eu sei, mas não...essa sou eu. Você não foi embora porque não quis, mesmo querendo tanto, e eu não deixei que você fosse. É isso.
Já é outro ano e eu continuo ao seu lado, você sabe.
Eu e meus exageros, eu e a minha intensidade, eu e a minha paciência infinita...continuamos ao seu lado. De uma maneira maluca, talvez equivocada (duvido), eu sei que você sabe que eu nunca liguei o meu carro, nunca saí daquele lugar, nunca perdi o seu cheiro que continua em mim, e gosta disso.

Já é 2011 e o que fica do ano passado é a impressão de que tudo se transformou. Não existe mais dor alguma, não existe nada, nem saudade...não existe nada além dessa presença forte -- você em mim, eu em você -- que nunca vai desaparecer porque o que está feito está feito: de um jeito bizarro eu sou sua e você é meu, mesmo não sendo verdade, mesmo não sendo mesmo. E vai ser sempre assim, enquanto não houver ausência -- não no peito ou no pensamento.

Close your eyes...I'm there.



Terça-feira, Dezembro 21, 2010

_o novo post de natal

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Quando eu era pequena, Natal era uma festa religiosa. 
Minha mãe acendia a coroa do advento em cada um dos domingos que antecedem o Natal, e nós tínhamos que ficar ali olhando ela rezar - quer dizer...fingindo que rezávamos. De nós quatro, os filhos, acho que só a Bia era realmente religiosa. Os outros três, eu inclusive, eram fakes. Eu e meu irmão costumávamos ter acesso de riso em momentos religiosos: na missa, na oração das refeições...até que minha mãe cansou da gente e desistiu de rezar. Tadinha.
Anyway, Natal tinha coroa do Advento. Tinha também um boato de missa do galo -- boato, porque a gente nunca foi a uma -- tinha presépio e as coisas que as famílias católicas constumam ter. Mas aí os filhos cresceram. E aí meus pais meio que cansaram dos nossos (meus) questionamentos. Mas daí meu pai tinha o mesmo tipo de curiosidade científica que eu tenho e ficava meio difícil manter todos os mitos vivos.
Abre parênteses: só no final da vida ele voltou a se agarrar em assuntos religiosos. Me disse um dia que não queria ter certeza de que Deus não existe, porque ele estava no fim...e a existência de Deus era um tipo de alívio. Fecha parênteses.
De qualquer forma, foi meu pai quem me ensinou a pensar, e desde que isso aconteceu, eu não consegui mais ter uma religião.
Então o Natal deixou de ser uma festa religiosa. Quando passou a ser assim, me parece, passou a ser uma festa mais honesta. Levando em conta que Jesus nem nasceu em Dezembro, que a gente está na verdade comemorando o Solstício de Verão, e que, teoricamente, não haveria a menor necessidade de uma festa, o que é o Natal?
Para vocês eu não sei, mas para mim, o Natal é uma desculpa deliciosa para estar em família. 
Acho uma tremenda babaquice não gostar de Natal. Só quem nunca viu os olhos das crianças brilhando, asiosos, esperando a hora dos presentes, pode dizer que não gosta de Natal. Só quem não foi criança, não teve a casa enfeitada, não comeu fios de ovos, uva, não roubou ameixa, não passou o dedo em sobremesas que só aparecem na ceia de Natal e depois lambeu...só quem não foi feliz. Me desculpe... mas o Natal faz parte da minha história de felicidade.
Mesmo agora, que a gente chora. 
Desde que meu pai se foi - há dois anos - a gente chora mais. Antes a gente chorava porque a gente chora mesmo. Ha! Minha família inteira chora e não sabe porque. Acho que é uma saudade que na verdade é plena de presente. Não é uma saudade do passado, é uma conscientização momentânea, uma constatação: "Sempre fomos tão felizes!" E isso nos faz chorar, porque estamos felizes de novo, porque temos uns aos outros mesmo não nos vendo todos os dias. Porque sabemos que construímos uma vida que, quer você aí fora ache que deu certo, quer ache que deu errado, é uma vida cheia de histórias, cheia de...deixa eu ver...cheia de VIDA.
De qualquer maneira construímos uma história e temos um passado imenso em comum. Então agora a gente chora porque meu pai não está lá. Mas também porque a gente teve, por todos aqueles anos, a companhia daquele sorriso infalível, daquela ironia deliciosa, daquela alegria que ele era, sempre. E constatar que tivemos a sorte de viver com ele, só traz um mesmo pensamento: "Sempre fomos tão felizes!"
Então acho que Natal é festa e que não custa ter um Natal. Não importa se somos dez, trinta ou duas pessoas. Montar uma árvore, por pequenina que seja... fazer um jantar, por mais modesto...fazer um cartão, um presente, uma coisa qualquer para dar ao outro...e comemorar o nascimento de um sonho, seja ele qual for. Não precisa ser um sonho ambicioso: sonhar estar junto com gente que se ama, pra que mais? Isso já é o suficiente para uma festa. 
E festeje. Porque a vida é uma e não é tão longa, e por mais dura, existem momentos felizes. Invente um.
Piegas? Natal é piegas. O amor também é piegas, famílias são piegas e essa é a hora em que ser piegas é mais permitido. É o que eu desejo: se dê o direito de ser piegas e inventar um sonho.

Não importa se você é ateu, católico, evangélico, judeu, whatever, nasça de novo...e mais uma vez.

Feliz Natal.

Segunda-feira, Dezembro 13, 2010

_I don't belong

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Não é complicado. É simples assim: I don't belong.

Eu simplesmente não pertenço à maioria dos grupos onde estive, que conheci, que convivi, que visitei. Não sou parte deles.

Por mais "dentro" de um determinado grupo, ou por mais próxima que eu seja das pessoas, o que eu sinto é que, de certa forma, eu pertenço a cada uma delas em separado, mas dificilmente sou ou serei como elas, como o grupo que as cerca, suas tribos, suas gangs, suas confrarias.

Sempre foi meio impossível, já deu pra sacar na infância.
A religião não trouxe os meus "iguais", embora meus pais tenham tentado. A escola também não. Mas eu cresceria e quem sabe a faculdade ou o trabalho... Não! Não aconteceu. Nem o esporte, nem o inglês, o francês, a vizinhança... eu não achei os meus iguais. Acho que igual é uma coisa que não existe na minha língua, ou pelo menos não na minha -- esta -- existência. Eu tenho amigos. Isso sim. Tenho muitos amigos e eles são sazonais, simplesmente porque eu não pertenço. Não que eu os esqueça ou deixe de amá-los, isso nunca. Mas eles ficam lá, nos grupos de seus iguais, enquanto eu passo. Eu só passo. Transito de grupo em grupo.

O fato é que eu amo rápida e facilmente a qualquer um que passe pela minha vida e preencha os requisitos básicos para me agradar. Em muito pouco tempo, aquela pessoa é minha. Isso... você me pertence. Muito provavelmente eu pertenço a você bem mais do que você pode vir a imaginar um dia, mas não se engane... eu não sou como você, não sou como o seu grupo. Vou me dar super bem com ele, mas é mentira que vou fazer parte de alguma coisa que não a sua vida. Não que eu não vá tentar. Mas eu vou estar lá, entre todos eles -- tão iguais a você, dividindo os mesmos gostos, as mesmas histórias, as mesmas experiências -- e eu vou olhar em volta com um sorriso e descobrir que não nessa vida, ou em outra qualquer, eu serei capaz de me sentir parte daquilo. Simplesmente porque não sou.

A sensação recorrente na minha vida é esta: sentar numa sala cheia de pessoas e procurar, nos olhos delas, alguma semelhança comigo. Eu me acomodo e me adapto como um vírus... mas não... nada muda. Eu continuo sendo um corpo estranho infiltrado num sistema que funcionaria perfeitamente sem mim. O sistema me aceita. Me deixa entrar e me instalar em todas as frestas, mas mesmo assim, eu não sou dali.

Sempre igual: muito maluca para andar com os certinhos, muito certinha para andar com os malucos. Sempre no meio do caminho, sempre em cima de um muro onde esqueceram de pregar a plaquinha.

Talvez um psicólogo resolvesse isso, mas hey! Não dói. Não dói e não é incômodo de maneira alguma. E depois, se a essa altura da vida um terapeuta me disser que eu perdi tempo, o que que eu faço? Me mato? Porque voltar é impossível!  Sem falar que o ele falaria em insegurança, necessidade de se sentir aceita, e outras bobagens que realmente não são o caso. Eu sei o meu lugar no mundo e acho que ele me recebe muito bem. Não é isso. Longe disso. Então deixa quieto, doutor.

Outro dia falei sobre domingos de novos amigos. Foi alguma coisa sobre um dia de sol com pássaros cantando, que me lembrou Domingos de adolescência em Curitiba. Daqueles em que alguém resolve ir para o aeroclube ver acrobacia aérea. Eu fiz isso várias vezes na vida, sempre com amigos novos. Os amigos do namorado, os amigos do namorado novo da amiga... whatever. Eu fiz. E os dias de sol ficaram marcados assim: dia de gente nova. Dia de tentar me encaixar. Dia de constatar que, por mais que eu queira, eu não me encaixo.

Agora as coisas se agravam um pouco. Além de ter ainda o mesmo probleminha sobre malucos e certinhos, eu me tornei muito diferente das mulheres da minha idade que, embora tenham a vida um pouco parecida com a minha, por alguma razão misteriosa, não têm os mesmos interesses, nem os mesmos gostos. Aí me tornei também muito mais velha do que as pessoas que compartilham dos meus interesses. Isso não seria problema se elas não fossem solteiras, ou se eu combinasse com os lugares que elas vão, ou com o que elas fazem nestes lugares. Não preciso continuar, você sabe...eu não me encaixo.

Então não é um gosto musical, não é o estado civil nem a quantidade de filhos, não é um jeito de se vestir, não é uma crença ou um talento em comum. Não é. Eu sempre senti que o mundo inteiro é dividido em grupos com diferenças muito claramente definidas que, no fundo, torna todos eles "grupos de pessoas menos eu".
Simples assim.
Aí eu pergunto... sou só eu?

Segunda-feira, Dezembro 06, 2010

_fix me

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Tem dias que a vida me presenteia com cheiros que eu amo.
Nem todos eles existem de verdade. Outros existiram por um efêmero segundo, mas não tem como esquecê-los. À simples menção de um nome, um dia, um lugar, tais cheiros me tomam por completo, trazendo uma nostalgia doída, deliciosa, do jeito que eu - a mãe de toda intensidade - adoro.
I need a fix. É só o que eu penso quando o cheiro imaginário invade as minhas narinas.
Fix me, please.

Era isso. Beijo tchau.

Sábado, Dezembro 04, 2010

_sobre escrever

"e sobre mim"

Era uma vez uma adolescente sonhadora que adorava inventar diálogos na frente do espelho...
É. Isso também. Mas também era uma vez uma pessoa impaciente e nada perfeccionista, que jamais conseguiu ficar muito tempo em cima do mesmo projeto - fosse ele um desenho, um texto ou uma salada.
Essa mesma pessoa - eu - também não gostava de fazer trabalho de colégio. Não! Ui que saco! Sempre deixei para o resto da equipe e a minha parte era a que doía nos outros: a apresentação. Ah o palco! Delícia master subir ali naquele degrauzinho, sem saber nada de verdade,  começar a falar sem parar...e convencer todo mundo de que o trabalho merecia um dez. É o meu jeitinho.
Falar sempre foi meu forte. Falar por escrito não demorou muito a acontecer. Mas eu não gosto... Eu não gosto de escrever certinho. Mesmo que eu publique vinte livros eu nunca vou escrever como se deve. Vou escrever como eu penso, como eu falo, como você escuta. Também não vou querer/gostar/aceitar que um editor meta o bedelho no meu texto e saia arrumando a gramática. Tira a mão do que é meu e foca na ortografia...no máximo. Se eu escrevi assim, era assim que eu queria escrever.

De tempos em tempos eu sofro influências do que ando lendo, e me pego escrevendo como os outros. Minha sintaxe desaparece e viro uma coisa meio chata, meio arrastada que eu odeio. É como ir pro Rio passar um mês e voltar falando "meixmo", ou voltar de um final de semana em Porto Alegre, tri-diferente. Acontece. Tenho facilidade pra línguas. Ha!
Mas o que a pessoa que não gostava de ficar muito tempo em cima do mesmo projeto tem com isso? Elaborarei.
Eu não escrevo um texto em vários dias. Eu não guardo para revisar e re-escrever. Eu não esquematizo uma história com 1º, 2º e 3º atos e seus clímaxes e final. Eu tenho uma idéia e começo a escrever, como na vida: você nasceu...coisas foram acontecendo...você vai morrer mas não sabe como. É assim que esse meu cérebro doente funciona, e é por isso que meu livro nunca acaba: simplesmente porque quando eu comecei, eu não sabia o que aconteceria, e toda vez que eu sento para escrever, coisas novas acontecem...e agora, o "Senhor dos Livros" ainda não veio me dizer como aquela moça tem que acabar. Não sei! Não sei! não me pressione. Assim que ele ditar, psicografarei.
Assim são os textos do blog. Lá estou eu andando na rua ou dirigindo meu carro e cantando feito uma louca, quando algum pensamento cruza de uma orelha para a outra e resolvo elaborar. Vou para casa pensando (oh! eu penso?) e quando chego, escrevo direto no form do blogger, tipo irresponsável, numa tempestade cerebral...depois dou uma revisada meia-boca, aperto "publicar postagem", ainda com muitos erros.

É assim. Puro instinto. Pura tempestade. Pura paixão cega e burra. É como um beijo na boca que não devia acontecer ali, naquele lugar, na frente daquelas pessoas, mas que não podia esperar. 
Meus textos são como meus amores, como vivo meus dias, como decido o almoço. Se eu estiver inspirada, o mundo inteiro será amado e bem alimentado. Do contrário me aguentem.
É por isso que às vezes publico um texto tosco. Em dias que estou morna, não tem como fazer a coisa fluir, mas me forço a escrever porque passei a vida ouvindo que se eu sentar aqui, uma hora por dia, vou escrever mais. É...funciona com engenheiros da literatura, mas não comigo - o que eu faço nem deve ser literatura.
Comigo funciona me apaixonar: pelo texto, pela idéia, pelas pessoas. Se eu não estiver perdidamente apaixonada, as pessoas estão mortas, a idéia é vaga, o texto inexiste. 
Imaturidade...pode ser. Excesso de intensidade...com certeza. Escrever é como sexo: dá pra fingir, mas né? Que graça faz? Enquanto eu escrever com paixão, cada palavra será verdadeira e eu garanto o meu próprio prazer que, me desculpe, é o que interessa.
É assim que eu gosto.

Sexta-feira, Dezembro 03, 2010

_o caso do sapato azul

Fragmento de "Sapatos"

É manhã de Natal.
Eliza está tirando os seus presentes do porta-malas do carro. São muitos pacotes e caixas que ela vai tentando acomodar nas sacolas que tem. Abre alguns para ver o que é, tira alguns das caixas para caberem na sacola. Entrega várias sacolas para o porteiro que vai levando tudo para o elevador. Quando tira a última caixa do carro, encontra um par de sapatos. Eliza confere o sapato cheia de dúvidas. É um escarpin feminino, de salto alto, feito de pelica azul royal. Ela não lembra de ter ganho aquilo. O sapato é usado, está com a sola suja. Eliza cheira o sapato e faz careta. Coloca novamente dentro da caixa, pensa um pouco, tampa a boca com uma das mãos, horrorizada com o que acaba de pensar, bate o porta-malas e entra no prédio levando o par de sapatos, nervosa.

Ela adentra seu apartamento furiosa, batendo as portas e gritando, larga sacolas e caixas enquanto anda em direção ao quarto para acordar o marido.
- HORÁCIO! o que é isso?

Horácio acorda vendo um pé de sapato azul royal pendurado na mão da esposa, sem saber o que está acontecendo.
- O que? Um sapato?
Eliza está soltando fogo pelas ventas.
- Eu quero que você me explique o que esse sapato horroroso estava fazendo dentro do seu carro.
- Eu que pergunto. Claro que não é meu! Não é seu?
- Não se faz de engraçadinho, Horácio! Você nunca me viu de sapato alto.
- Nunca?
- Nunca! Você sabe muito bem. Agora me explica de quem é isso?!
Horácio senta na cama como se “tivesse faltado a essa aula”. Ele dá com os ombros
- Sei lá! Eu nunca vi esse sapato.
Eliza se descontrola e começa a gritar.
- Não mente! Eu nunca pensei que tivesse casado com um vagabundo! Vai fazer igual ao Mário, é? Mas olha bem pra minha cara, Horácio. Meu nome não é Clara! Não é não! Eu não vou deixar você entrar na minha casa nunca mais. Vai passar natal e aniversário na casa dessa....
Olha para o sapato mais uma vez e joga nele.
- ...dessa vadia brega que usa um sapato horrível desse!
Horácio começa a rir.
- Meu deus, Eliza...isso está até engraçado...eu nunca vi esse sapato. Juro!
- Não ri que eu te mato, seu vagabundo!
- Não...não rio de você nunca. Calma, Eliza.
- Me diz de quem é isso e pode sair da minha cama!
- Eliza, pelo amor de deus, seja razoável! Eu nunca vi esse sapato na vida. Sabei-me lá de quem é isso. Alguém esqueceu no carro, sei lá quem....
- Ah é...sei lá quem? Quem que esqueceu isso no carro? Quem é a puta que anda pra lá e pra cá com você ein?
- Olha o respeito, Elizinha!
- Que respeito? Que Elizinha? Você sai com uma mulher de quinta categoria e eu que não respeito? Você não respeita a sua família! Eu nunca sonhei com uma coisa dessas, Horácio! Você tem milhões de defeitos...mas esse? Meu Deus! Eu não mereço isso! Ainda bem que meu pai não viveu para ver uma desgraça dessas!
Eliza anda pela casa esbaforida, enquanto Horácio anda atrás dela tentando se explicar, mas ela não pára para ouvir. Fala sozinha pelos cotovelos, evocando todos os santos: Santa Rita de Cássia, Deus, Jesus Cristo, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

CORTA PARA:
O telefone toca na casa de Adriano, filho de Eliza. Quem atende é Maria Alice, sonada, de camisola.
- Alô?
- Alice, é uma desgraça! Meu Deus do céu eu nunca imaginei que isso fosse acontecer comigo um dia. A minha família foi amaldiçoada! Eu falei tanto do Mário e agora vou ter que passar a mesma coisa que a Clara passou! Pelo amor de Deus! Eu não quero viver mais!
- Calma, Eliza! Pára! Eu não entendi nada! Que horas são?
Eliza responde chorando
- Não sei que horas são. Meu natal acabou! Minha família acabou!
- Quem morreu, Eliza? Calma. Você não tá dizendo coisa com coisa...
Adriano acorda com a conversa, tira o telefone da mão de Maria Alice.
- Que foi, mãe?
- Adriano, meu filho...a nossa família acabou!
- O que foi, mãe? Onde você tá.
- Em casa, meu filho! Mas eu vou morrer!
- Ai! O que aconteceu?
- Seu pai tem uma amante, meu filho! Mas pelo amor de deus, não fala para o Augusto, que vai dar desgraça.
- Que amante, mãe? Onde ele ia arrumar isso?
- Eu vi, Adriano, com esses olhos...

Corta para Eliza ao telefone outra nora:
- Um sapato de mulher. Horrível! Brega! Pavoroso! Sapato de puta! De pu-ta-de-quin-ta!
- Tem  certeza que não é seu? Algum sapato que tá lá faz tempo?
- Que meu o que, Joana! Eu tenho cara de quem usa sapato de puta? O salto é enorme. Quem usa um sapato azulão? Só puta!

Corta para Eliza ao telefone com mais outra nora:
- Imagina, Eliza...como assim amante? Não tem como...
- Ele é uma porcaria mas também não é tão ruim assim, né? Tá cheio de menina por aí procurando um velho com cara de trouxa como ele. Burro! Ela deve estar se aproveitando do dinheiro dele, que ódio! Eu quero matar o Horácio! O que que eu faço Maria Cláudia?
- Ai Eliza, primeiro calma. Para e pensa...você já perguntou pra ele?
- E você acha que ele fala? Tá fingindo que não sabe de nada, mas ta todo atrapalhado. Eu conheço a cara de sem vergonha desse desgramado!

corta para Eliza ao telefone com mais uma nora.
- Não é possível, Eliza...que amante?! Impossível!
- Você também vai defender ele, Maria Eugênia?
- Não to defendendo. Eu só não acho possível...fica calma. O Horácio não tem jeito de ser assim.
- Eu vou pedir o divórcio! Acabou tudo! Quero ele fora da minha casa hoje. E ai dele se enfiar essa vagabunda no meu apartamento da praia! Que nojo!

corta para Eliza ao telefone com a irmã.
- Bem feito pra tua cara! Achava que essas coisas só aconteciam comigo? Bem feito! Eu te avisei: “não seja burra...homem nenhum presta...” Mas não! Você ficou endeusando esse banana!          
- Banana, Clara? Já viu banana arrumar amante?
- Banana sim! Sempre foi uma anta. Deve ter arrumado uma mulher feia e burra.
- Ele é um homem bom, ta bom? Você não pode falar assim dele!
- Eliza! Ele tem uma amante! É pra falar bem dele?

Volta para Eliza ao telefone, agora com o Filho mais velho.
- Eu vou colocar ele pra fora, hoje! Não espero nem mais um dia, César.
- Calma, Dona Eliza...é só um sapato.
- Sapato de puta!! Aquele sem vergonha vai se ver comigo! E se um de vocês receber ele em casa, também não entra mais na minha casa, entendeu?


Na casa de Maria Cláudia e Máximo, o outro filho de Eliza, Cláudia entra na cozinha rindo sozinha e encontra o marido tomando café .
- Qual é a graça?
- Sua mãe ligou.
- Ah...quer saber de quanto era o cheque que o pai me deu? Eu não mostrei pra ela ontem. Deve estar morrendo pra saber.
- Não. Pior.
- O que?
- Ela disse que teu pai tem uma amante.
Máximo quase engasga com o café, numa risada impossível de conter.
- De onde ela tirou isso?
- Sei lá. Encontrou um sapato no carro dele. Diz que é sapato de puta. Tá muito engraçado.
- Imagina o estado do meu pai tentando se explicar! Vou ligar lá.
- Não põe pilha que ela mata ele...


Horas mais tarde, no apartamento de Eliza e Horácio, todos os filhos se reunem para tentar resolver o caso do sapato azul. Augusto e Adriano estão sentados num dos sofás e Horácio em outro, como no banco dos réus.
- Por que estão me olhando assim? Eu não sei de quem é aquele sapato. Juro!
Augusto, muito sério, começa o interrogatório.
- Pra gente poder te ajudar, você tem que falar, pai. Pára de ser teimoso. Quer que vire tudo uma desgraça?
Adriano completa:
- A gente não tá aqui pra te julgar, mas puta que o pariu, hein? Que cagada!
Horácio levanta, bravo:
- Mas que coisa! Ninguém mais me respeita? Eu sou um homem honrado! Eu levanto às seis horas da manhã para trabahar todos os dias, faço tudo de melhor pra vocês...não vou ficar sentado aqui ouvindo desaforo de filho! Tá pensando o que?
Dentro do quarto, Eliza chora copiosamente sendo consolada por Maria Alice e Maria Joana.
- Ai Eliza...pára com isso. Como é que você pode pensar que ele tem outra...
Maria Joana tenta consolá-la.
- É...deixa de ser boba. Ele só falta deitar pra você passar em cima.
Eliza responde aos prantos:
- Eu nunca pensei numa coisa dessas. Tanto sacrifício pra acabar desse jeito! Eu nunca mais vou sair desse quarto!
Alice tenta ser severa, para mudar a reação de Elisa, sem muito sucesso.
- Ah, que ótimo! Aí sim que ele arruma outra, sua trouxa. Imagina se isso é hora de ficar trancada. É hora de ficar linda e mostrar que você é melhor.
- Você acha que ele vai achar? Você viu aquele sapato? Acha que eu posso com uma vadia daquelas? Eu to velha e ela deve ter 20 anos! Ai que raiva!
- Meu deus, Eliza, que velha nada. E não pode com quem? Duvido que ele tenha mesmo alguém.
- Eu vi! Eu vi! Eu sei que ele tem outra!

(PAUSA! Vamos ler isso como uma peça de teatro, certo? Que é o que isso parece)
M.ALICE: - Viu o que, Eliza? Você só viu um sapato. Isso não prova nada.
ELIZA: - Por que que vocês estão defendendo ele? Se você achasse um sapato azul turquesa no carro do seu marido, ia estar calma? Isso não é a mesma coisa que ver?
Maria Alice e Maria Joana se olham com cara de “tem razão”, Maria Alice não consegue segurar o riso e sai do quarto, deixando Maria Joana com Eliza, numa situação chata, tentando não rir.
ELIZA: Vocês agora vão rir de mim? (começa a chorar como criança)
Maria Joana tenta consolá-la com um abraço.

De volta à sala, Maria Alice bate no ombro do sogro e fala ironicamente:
M.ALICE: - Que beleza hein, Horacinho...Agora o circo tá armado de uma vez.
HORÁCIO: - Eu não sei de nada! Já estou achando que fiquei louco! Não sei de quem é aquele sapato e ficam me tratando como um criminoso. Eu vou sair. Chega!
Horácio levanta e sai de casa todo atrapalhado.
Augusto vai atrás dele.

Um pouco mais tarde, a irmã de Eliza -- Clara -- também está no quarto, junto com a filha Cristina, Adriano, e duas noras de Eliza, que chora jogada na cama enquanto todos se olham com aquela cara de “ai meu deus, e agora?”
CLARA: - Me deixa ver o sapato, Eliza. Onde está?
ADRIANO: - Pra que? Vai fazer DNA?
CLARA: - Deixa de ser idiota, guri! Eu só quero ver. Cadê, Eliza?
ELIZA: - Tomara que esteja no lixo! Ai meu deus! Isso é pra eu pagar a língua...
CLARA: - Isso mesmo, falou de mim até cansar.
CRISTINA: - É...a língua é o chicote da bunda!
ELIZA: - Pára, Cristina! Se você veio aqui pra me zombar, pode ir embora!
MARIA ALICE: - Onde tá o sapato? Eu também quero ver.
ELIZA: - Naquela caixa ali do lado da mesinha.

Cristina pega a caixa e coloca em cima da cama. Eliza senta para tomar mais uma dose daquele veneno...olha curiosa para a caixa enquanto Cristina abre. Todos estão em volta da cama, querendo ver o conteúdo da caixa.
ADRIANO: - Abre logo. Até eu quero saber o naipe da perua.
Cristina abre a caixa. 
Assim que põe os olhos no sapato, Eliza volta a chorar. Todos exclamam ao mesmo tempo:
ADRIANO: - Putaqueopariu!
M.ALICE: - Que de última!
CLARA: - Mas que mal gosto, senhor do céu!
CRISTINA: - Azulão é demais hein?
Adriano pega um pé do sapato e cheira.
ADRIANO: - E tem chulé!
Todos começam a rir, e Eliza chora mais alto!
ELIZA: - Eu não sei o que eu fiz pra merecer isso! O que eu vou fazer da minha vida? Agora acabou tudo!
Todos falam ao mesmo tempo, menos Maria Joana que olha para o sapato intrigada. Ela pega um pé do sapato, olha embaixo, vira várias vezes.
ADRIANO (gozador): - Vai cheirar?
M.JOANA: - Deus me livre!
Maria Joana pega a caixa, lê a embalagem...
M.JOANA: - Gente.
Todos continuam falando ao mesmo tempo enquanto Eliza chora alto.
M.JOANA: - Gente! Me escuta!
Silêncio...
M.JOANA: - Esse sapato é da minha mãe...
ADRIANO - Como assim da sua mãe?
ELIZA: - Que da sua mãe o que? Você está querendo salvar o seu sogrinho querido.
M.JOANA: - Que sogrinho querido, ta louca? To falando. Esse sapato é da minha mãe. Eu fui com ela buscar no sapateiro, e a gente esqueceu no carro. Faz muito tempo isso. Quando a gente tava sem carro e o Horácio emprestou o dele, lembra?
ELIZA: - Ah....mesmo?
MARIA JOANA: - É. O sapato....de puta...é da minha mãe!

Maria Alice e Cristina começam a rir muito, sentadas na cama. Adriano não consegue se conter sai do quarto para rir em outro lugar. Clara olha séria para o sapato.
ELIZA: - Sabe que nem é feio...?
M.JOANA: - Eu vou levar o sapato de puta. 

Maria Joana fecha a caixa de sapato, coloca debaixo do braço e sai do quarto.




Esta história é baseada em fatos reais. Mas não contem pra ninguém.