terça-feira, dezembro 18, 2007

Grande mosaico de mim


And so this is Christmas…
Época em que eu entro em conflito comigo mesma. Fico dividida entre querer ser criança e só esperar – esperar papai noel, esperar a chegada dos primos, esperar a ceia, esperar os presentes – e ser mãe de todos.
Ano passado a mãe de todos estava exausta e nem quis saber de Natal.
Mas no final das contas, ser mãe de todos é lindo.

Eu sempre gostei demais de Natal, mesmo tendo passado, como todo mundo, por aquela fase adolescente besta de dizer que Natal é triste. Triste nada! Natal é uma delícia. Ele só é triste quando você ainda é novo demais e acha que família é um saco, que ficar trocando presentes não faz sentido – cheio de idéias revolucionárias “super novas” anti-capitalismo - , que a ceia podia ser mais cedo porque você está com fome, e que seria muito mais legal ir pra balada com seus amigos do que ficar ali com um monte de gente que não tem nada em comum com você.
Mas aí você cresce…aí você envelhece…aí todo momento que você pode dividir com a família vale ouro e, meu deus!, como essas pessoas têm coisas em comum com você! É bom ver seus pais felizes por ter todos os filhos outra vez em volta da mesa. É bom lembrar histórias da infância e dar risada. É bom trocar presentes lembrando de como era antigamente quando se era feliz com tão pouco…ou quando sua avó ainda era viva e fazia baba-de-moça para a ceia.
A avó dos meus filhos faz fios de ovos. E não há nada como natal com fios de ovos sobrando para que se possa comer puro, assim, enrolado no garfo, feito macarrão! Não quero nem pensar como vai ser quando houver menos amarelo na mesa, provavelmente neste dia também haverá menos sorrisos.

Um Natal com “menos” coisas marcantes seria mais ou menos assim:
Sem minha mãe: menos amarelo de fios de ovos, menos porto-seguro, menos perfume bom.
Sem meu pai: menos conversa, menos tranquilidade, menos cumplicidade, menos alegria.
Sem meu irmão: menos gargalhadas altas, menos abraços apertados e menos lágrimas de emoção.
Sem minha irmã: menos conversas altas, menos passos fortes pela casa, menos lágrimas de emoção também, é claro.
Sem meu cunhado: menos fotos, menos piadas de última hora, menos olhares com risadas.
Sem meu marido: menos risadas sem fim, menos confusão na hora dos presentes, menos comentários hilários, menos inner jokes repetidas.
Sem meus sobrinhos: menos alegria, menos alegria, menos alegria.
Sem meus filhos: menos abraços, menos felicidade, menos brilho nos meus olhos.
A pior parte é que meus Natais são, quase sempre, sem minha irmã mais velha e sua família inteira que é o máximo. Logo, é sempre sem grande parte de mim.

Eu já disse uma vez que depois que a gente cresce a gente muda os óculos.
Se na adolescência a família era um saco e Natal também, depois tornam-se imprescindíveis. Não pode faltar uma única peça. Todas aquelas pessoas que antes habitavam seu mundo e conturbavam seus planos, são agora parte do grande mosaico que faz de você uma pessoa inteira.
Na confusão de uma noite de Natal, com os olhos meio nublados de pequenas luzes e enfeitezinhos vermelhos, eu vejo cada uma dessas peças desfilando em minha frente, e elas ajudam a compor um quadro muito muito claro de quem eu sou. Às vezes paro na porta e fico observando essas almas que andam para lá e para cá, e falam alto, e comem, e bebem, e têm o vício incorrigível de lembrar histórias de natais passados…e eu sorrio ali parada. Não é a árvore ou a comida, os presentes ou a champanhe que fazem o meu Natal ser Natal. São os pedaços de mim.
Sem eles eu sou bem pouco. Sem eles eu não tenho memória, pois minha história não tem testemunhas para existir. Sem eles eu seria vazia, pois neles nasce meu conhecimento, minha consciência e meus valores. Sem eles não há motivos, nem alegrias, nem “porquês”. Sem eles muito pouco valeria a pena.

Assim eu queria que fosse para sempre. Eu rezo para que meus filhos cresçam unidos, e minha nora e genro aprendam a nos amar, e que seus filhos sejam amorosos, e seus amigos sejam meus amigos, para que nunca nunca nunca eu precise ver um Natal com poucas vozes, pouca música e poucas lágrimas de emoção. Ser feliz é compartilhar. É ter os olhos nublados de pequenas luzes e enfeitezinhos coloridos, e o coração cheio de pessoas para amar.

Meu Natal começa amanhã.
Que todos vocês tenham dias cheios de vozes, música e lágrimas de emoção.
Feliz Natal.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Confesso a minha intolerância

As coisas em que acredito ferem menos as pessoas do que aquelas nas quais eu não acredito. E este meu “não acreditar” vem de algum lugar escondido dentro de mim. Eu já tentei acreditar com todas as minhas forças, e quanto mais tento, mais meu raciocínio lógico me faz cética e eu caio no pensamento de sempre: será que eu não mereço acreditar?
Depois disso meu lado científico – ou sei lá como devo chamar – grita ainda mais alto, me mostrando que este é um pensamento reflexo da minha formação judaico-cristã, que beira o ridículo…e eu fico sem resposta para ele.
Mas eu me lembro de ser criança e querer acreditar; lembro também de ver meus pais sofrendo e perguntar por que. De pequenos questionamentos infantis, em pequenos questionamentos infantis, fui procurando as respostas e elas nunca foram suficientes. Nunca! Eu nunca consegui descobrir a relação que pode existir entre o big-bang e Deus, entre a evolução e a religião, entre a história e a fé cega. A história então…céus!…essa me fez descrer ainda mais, e a cada incursão minha nessa coisa fascinante que é a história eu encontro mais um furo nos fatos que o mundo insiste em se basear para ter fé em algo maior.
Trabalhando em propaganda eu passei a desacreditar na Igreja de uma vez. Foi entendendo o mecanismo da persuasão que eu entendi a grande lavagem cerebral que as religiões fizeram e fazem em seus fiéis. Seja católica, protestante, evangélica, judaica, muçulmana…tudo me parece um claríssimo tabuleiro de xadrez, e as pessoas meros peões desesperados por algo que as lidere e as impeça de pecar e, conseqüentemente, perecer.

Depois veio a vida…e durante a vida precisei parar muitas e muitas vezes para perguntar como um Deus onipotente e onipresente permitiria as cruzadas em seu nome. E a Inquisição? Como deixaria nascer um Idi Amim, um Sadam Hussein, um Mao, um Stalin, um Costa e Silva, um Médici, um Pinochet, e tantos outros ditadores desequilibrados? Com que critério Deus escolheu os 288.826 mortos e mais de 120.000 desaparecidos da Tsunami em dezembro de 2004? Eles eram todos maus? Eram todos ímpios? Eram todos infiéis? E para matar os pais de uma criança de seis meses? E baseado em que pecados terríveis permitiu que 6 milhões de Judeus, homossexuais, paraplégicos, míopes, e outra pessoas com “defeitos” fossem mortas em nome de uma raça pura, durante o Nazismo; e pior!, permitiu que Hitler crescesse? E por que permite que a América invada o Iraque, Israel e Palestina permaneçam em guerra por 50 anos, e Católicos e Protestantes na Irlanda até outro dia, etc etc etc….Quem é esse Deus?

E mais do que isso, por que as pessoas precisam tanto acreditar em algo mais forte do que elas, que possa puní-las se agirem errado e dar-lhes um lugar no céu se forem bons? Elas não sabem agir certo simplesmente por ser certo? Não sabem que não se pode prejudicar o próximo? Não entendem que para toda ação existe uma reação? Que você recebe o que dá e colhe o que planta? Não dá para simplesmente agir direito porque a gente deita a cabeça no travesseiro e dorme tranqüilo? Não sabem que só a paz de espírito é o verdadeiro paraíso?
Que tipo de animais nós somos?

Hoje assisti pela TV a um culto – sei lá se é um culto – de um pastor….putz...Alzheimer deve ser o nome dele, porque eu esqueci! Bom... o sermão dele era parte de um DVD chamado “Grávidos de Avivamento”, que ele, obviamente, estava vendendo e oferecendo o dinheiro de volta se você comprasse e um milagre não ocorresse na sua vida. Eu olhei todo aquele povo apinhado e tive pena. Muita pena. Tive pena dele por ser podre. Tive pena do povo por ser tão frágil e fraco a ponto de se render àquele discurso medíocre com fanatismo, com histeria, com sei lá que nome se pode dar para tanta indigência mental. E eu pensei: “o que foi feito do espírito do homem? Que desespero pode ter tomado essa gente para que ela espere que aquele baixinho brega que mal fala português (e ainda finge falar aramaico) venha a salvá-la?” E eles gritam, e desmaiam, e pulam feito descontrolados e choram compulsivamente por que estão sendo salvos.
Ai meu deus! Que tipo de animais nós somos?

Eu fui ficando mais velha e perdendo a paciência. Eu tenho respeito pela fé alheia mas não respeito quem tenta doutrinar alguém. Não consigo nem começar a ouvir todos os blablablas que eles têm a dizer. Tenho arrepios quando alguém me diz que encontrou Jesus. Ai! Deus! Me salva de verdade agora! Eu encontrei um Jesus uma vez... mas ele era muito melhor e mais inteligente do que essa coisa que fizeram dele. Ele quis que seu povo entendesse coisas que até hoje ninguém se dignou a ouvir, coisas que foram deturpadas! Então não me venha com essa balela de encontrar Jesus, porque me irrita profundamente, simplesmente porque eu odeio gente burra, e essas pessoas não encontraram Jesus: encontraram um pastor que manipula almas desesperadas a quem elas pagam dizimo. Acredite: uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa. Ele ficaria muito furioso se visse a quantidade de dinheiro que circula nas mãos desses pastores, e do Vaticano, e em tantas outras Igrejas por aí que usam indevidamente o nome de um homem nobre para explorar pessoas. Eu li o que ele fez no templo, revoltado com o comércio. O que ele faria se visse este comércio de almas correndo solto por aí?
E eu me revolto com isso aqui no meu metro quadrado de existência, como me revolto com guerras santas, sejam elas travadas em casa ou em campos de batalha. Guerra Santa é oximoro: são duas palavras com sentidos absurdamente conflitantes!

No decorrer da vida conheci pessoas de boa vontade. Outras nem tanto. As de boa vontade nasceram com a alma limpa e o coração grande. Algumas delas são religiosas, outras nunca entraram numa igreja, e o que há em comum entre elas é a boa fé em nome da boa fé, em nome da vida, em nome de um mundo decente.
Outras vão à missa/culto/célula Domingo/sábado/quinta, rezam, têm um terço na beira da cama, fazem retiro, estudam a Bíblia...e odeiam a própria família. São pessoas incapazes de um gesto que não traga um pagamento de alguma forma. São mal intencionadas, agem como insetos que derrubam sua casa pelos alicerces sem que você perceba. Seus corações são cheios de inveja, soberba, ganância... e sim, lógico, elas precisam de um Deus, de um pastor, de um Pajé, um Xaman, um Rabino, de um alguém a quem confessar, a quem pagar por um lugar no céu no dia do arrebatamento. Precisam demais! Eu as vi com meus próprios olhos, e as reconheço de longe.
(É lógico que existem pessoas de boa vontade em todas as religiões, não resta dúvida, mas não é sobre elas que eu estou falando.)


É verdade. As coisas em que acredito ferem menos do que aquelas em que eu não acredito. Trust me. Se eu fosse pedir alguma coisa a Deus, pediria para ser ignorante.


segunda-feira, dezembro 03, 2007

Mentira!


Hoje eu li no blog do Solda um texto do Karam onde ele dizia o que é mentira. Adorei e resolvi imitar assim, descaradamente mesmo, provavelmente com alterações que levam os dois textos para lados completamente distintos, porque ele é ele e eu sou eu, e eu sou muito mais boba do que ele.
Lá vai:

É mentira que quando eu era pequena eu quebrava tudo. Eu só era estabanada, e quebrava tudo sim! Mas sem a intenção que as pessoas gostavam de narrar ao contar para a minha mãe ou ao fazer um "comentário inocente" na frente de uma criança (eu) que devia ser surda. Isso fez com que eu começasse a esconder as partes das coisas que eu quebrava. Mas é mentira que eu era sonsa: eu só não queria que as pessoas deixassem de gostar de mim.
É mentira que aquelas férias no Rio eu roubei o perfume francês da minha prima. Eu só abri a caixa minúscula do perfume e ele voou, aterrissaando dentro do vaso sanitário e eu nunca mais consegui pegar. Até hoje eu não tinha contado isso para ninguém, mas acho que isso faz parte da história ali de cima.

É mentira que eu namorei a cidade inteira. Só seria verdade se dissessem que eu me apaixonei pela cidade inteira. Aí sim! Porque dos 13 aos 16 eu trocava de paixão uma vez por semana e tive mais amores eternos e doloridos do que toda a história do cinema de hollywood e onde mais alguém tenha feito um filme de amor.
É mentira também que nos áureos tempos eu era incrível e irresistível, porque na história acima mencionada era eu a personagem que vivia com o coração partido.

É mentira que eu aprontei demais. Uma vez ou outra eu fui escondido a uma festa, mas nunca alguém me viu com drogas, me esperou até o amanhecer ou teve que ir me buscar num motel ou na delegacia. Se comparada às mulheres da minha geração, eu era quase uma freira, só que com cara de santa do pau oco.

É mentira que eu sou uma mulher super culta. Eu sou mais Zelig do que culta. Eu sou o Peter Petrelli de Heroes -- que absorve os super-poderes alheios mesmo sem querer. Eu só cresci e amadureci entre pessoas interessantes, inteligentes e de cultura muito superior à média. Assim, com meus super-poderes, eu passei a entender um pouco da especialidade de cada um e sempre tive ouvidos para ouvir e olhos para ver. Depois eu fiz uma média dos "poderes que absorvi" e passei a usar todos em minhas próprias experiências. É mentira também que eu sei o bastante para conviver com reis e plebeus: eu só nasci com a lábia maior do que o universo. Este sim talvez seja o meu super-poder.

É mentira que eu sou capaz de fazer qualquer coisa direito. Eu sou capaz de fazer qualquer coisa superficialmente e minha fome de pesquisa é gigantesca. Em pouquíssimo tempo eu posso saber quase tudo sobre um determinado assunto e, se o caso for sobrevivência, acho só não posso ser engenheira e cirurgiã.

É mentira que eu sou uma fortaleza. A verdade é que sou frágil como todo mundo, só que com essa cara de poderosa. Isso fez com que eu passasse sozinha pelas piores situações da minha vida, já que as pessoas costumam achar que eu prefiro ficar quieta comigo mesma.
Ser forte não me ajudou em momentos tristes e de carência. Parecer forte não me salvou de chorar sozinha no escuro. Parecer poderosa não evitou que eu afundasse com o meu barco sem uma bóia para me agarrar. Ser e parecer forte fez com que algumas pessoas abusassem tremendamente de mim, achando que eu aguentaria melhor do que elas próprias. Em compensação, a máscara de forte me permitiu levantar todas as vezes parecendo ter poucos arranhões.

É mentira que eu sempre assumi meus erros. Eu assumi a consequência deles, o que já é pesado demais, obrigada. Alguns dos meus pecados estão guardados numa caixa com etiqueta escrito: NÃO MEXER. São os meus esqueletos no armário. São os corpos enterrados no meu quintal. E não há cristo que me faça abrir a tal caixinha e olhar para eles de novo. Eu sei que existem, conheço um por um, não me envergonho deles, mas não vejo necessidade de ficar remexendo em coisas que, no mínimo, não cheiram muito bem. São erros, e como erros devem servir para aprender e fim. Eu estudei numa escola que não nos permitia apagar ou rabiscar os erros. Quando uma palavra estava errada, devíamos colocá-la entre parênteses e escrever corretamente em seguida. Assim, os erros não deixariam de existir, mas era possível seguir em frente. Assim eu faço com a vida. Lugar de erro, seja ele lama do passado ou só um acidente de percurso, é entre parênteses. Não vou apagar, mas também não vou viver deles.

É mentira que eu vivi incríveis histórias de amor. Eu só sei conta-las melhor do que a maioria das pessoas, dando a elas a importância que eu gostaria que tivessem tido.
Ok....isso é mentira! Vou colocar entre parênteses.

É mentira que todas as mentiras foram explicadas nesse texto. Existem milhares de mal entedidos a meu respeito, milhões, centenas de milhares! Eu só não estou com vontade agora de abrir o baú dos misunderstandings para esclarecer um por um. Um dia quem sabe...
Mas é mentira!



quarta-feira, novembro 28, 2007

Coisa$ $em nenhuma importância


. Cansei de ser gorda. Vou sair dessa vida calórica e cinquentar com dignidade.
Fui num super-médico-das-estrelas e deixei o meu patrimônio na recepção. Os pacientes dele emagrecem porque ficam sem dinheiro pra comer.

. Eu já comprei vestido de 15 reais.

. Meu anel mais bonito custou 3 euros numa barraquinha em Roma e as pessoas me perguntam quem é o designer. Pff!

. Um dia eu ganhei uma bolsa Louis Vuitton igual a uma falsa que eu tinha. Tirei as duas do saquinho para limpar e até hoje eu não sei qual é qual.

. Eu sei gastar uma fortuna em presente para os outros mas me sinto culpada se comprar algo caro para mim.

. Eu já fui de Curitiba a Fortaleza de ônibus convencional. Acho que foi nesse dia que Deus resolveu que eu merecia acumular alguma coisa na vida.

. Eu gosto de sushi e big mac na mesma intensidade, e o melhor restaurante japones do mundo ou um Mac Donald's em qualquer esquina são o mesmo banquete para mim.

. Eu compro óculos escuros de posto de gasolina.

. Eu esqueço de conferir a conta do restaurante.

. Eu odeio pagar super-mercado.

. Minha geladeira custou 350 dolares quando eu morava em Los Angeles em 1996. Eu não tenho coragem de pagar um monte por uma nova e menor.

. Eu tenho coisas lindas compradas em lugares que pouca gente teria coragem de dizer que conhece.

. Eu detesto shopping.

. Era eu quem abria conta no açougue, na padaria e na quitanda para a minha mãe quando era pequena. Ela nunca me pediu para fazer isso. Hoje eu tenho conta no açougue também, e toda vez que passo lá para pagar me lembro daqueles tempos de vacas anoréxicas.

. Eu acredito que quanto menos se pensa em ganhar, mais se conquista. Tenho minhas mãos mais abertas do que deveríam ser, nunca tive medo de perder nem de recomeçar. Às vezes penso que é por isso que eu nunca deixei de ter o suficiente para viver.

. Já fui enganada, lesada, roubada mais vezes do que posso contar. Tenho certeza que a vida me devolveu cada centavo. Já não posso dizer o mesmo sobre meus algózes.

. Toda vez que eu vejo um besouro egípcio eu compro (quase toda história que escrevo tem um também*). Não sei nem dizer quantos eu tenho, mas eu simplesmente não resisto!

. Eu já fui rica e pobre muitas vezes. Já tive que trabalhar onde não queria e já viajei muito mais do que sonhei. Já contei moeda para comprar pão e já sentei na mesa da elite. Já tive natais pobres e natais fartos. Já morei em quarto e sala e mansão. Já andei muito a pé e dirigindo Land Rover. A única experiência que eu não tive foi ser infeliz.



* Uma história com besouro: Um Tango para George


terça-feira, novembro 27, 2007

Coisas da vida #4

Castelo de Areia


Foi um amor tão imenso aquele que ensinou que a paciência é o prazer da vida, que a espera não é inglória, que o sonho é seu melhor companheiro.
Foi quase divina de tão inexplicável a maneira como ela se apaixonou e fez daquele amor seu tesouro maior. A vida passava com seus altos e baixos e nada podia abalar sua fé em que, um dia, toda a distância seria compensada com a realização do amor que ela guardara. Foram tantos anos. Foram tantas noites de sorrisos eternos. Foram tantos sonhos…
Até um dia.
Até que todos os sonhos se realizaram em uma só noite.
Cada cena imaginada durante todos aqueles anos, cada frase sonhada, tudo…tudo em algumas horas tão inesquecíveis que se apagam rápido da memória numa descrença estranha. “Será que aconteceu mesmo, ou eu sonhei?”
A noite de filme, com pés tocando a areia, abraços ao luar, boa música e bom vinho, boa conversa e confissões, durou pouco mais de 6 horas. Seis horas de beijos perfeitos; a mão grande que segurava seus suspiros por um delicado fio de sonho, finalmente tocando seu corpo; o cheiro que ela nunca esqueceu e a voz. A voz grave que sussurra no ouvido todas as palavras que ela quis ouvir. A delicadeza de um sonho compartilhado, em silêncio, há mais tempo do que o tempo saberia calar. O amor explodindo, a voz, a mão, a voz…depois as letras e as palavras e a saudade que corta e ensina novamente a arte da paciência e do sonho acordado.
Até um dia.
Até que uma frase mal escrita no dia errado trouxe o fim, depois o vazio.
Só restaram perguntas. Seria o amor imenso, o tesouro maior, o sonho eterno, tão frágil que pudesse acabar assim?
Um pequeno mal entedido causaria uma decepção capaz de levar seu coração viciado em amor a apagar todos os anos de contemplação e paciência?
Seria uma frase capaz de derrubar o castelo sagrado erguido com a areia úmida sob a lua cheia?
Seria? Seria esta tristeza poderosa o bastante para apagar a chama e o gosto do vinho para sempre?
Seria. Até um dia.

segunda-feira, novembro 19, 2007

November Rain

Mês estranho de um ano esquisito.
Tudo virado. Frio e chuva o tempo todo, com cara daqueles agostos que as pessoas dizem que ninguém deve viajar.
Acabei de chegar de uma viagem que deveria ter acabado ontem às 11:30 da noite mas só acabou hoje às 4 da tarde. Fui de ônibus pra fugir de um caos aéreo que tirou férias. Todos os vôos chegaram e saíram no horário. Em compensação minha viagem de 6 horas durou 9 horas e meia de tortura num ônibus fedendo a pum alheio. Meu deus! que falta de higiene é viajar de ônibus?! Estava chovendo o mundo, as janelas embassadas escorrendo lágrimas de desespero feitas na verdade da respiração de 30 pessoas diferentes, de endereços diferentes, gostos diferentes, cheiros diferentes....e tudo aquilo escorrendo pelos vidros onde quase se lia, como nos filmes de terror: morra desse ar alheio!
E o perfume? O que aquele povo fez antes de viajar? Comeu ovo cozido e correu 25 kilômetros até ter certeza de estar fedendo? Quantos dias elas ficam sem lavar a roupa até a hora da viagem? Não é possível que aquele cheiro seja normal. É grudento e quase infectante. E não vem me dizer que eu sou preconceituosa e não conheço o cheiro do povo não, porque eu fui povo a vida inteira, e sempre fui cheirosinha. Muito viajei de ônibus, muito andei de ônibus, muito andei no meio do povão.
Credo! Se existe um extrato de pum, ele é retirado do ônibus Golden 5069 da Itapemirim! Pois...foram 9 horas e meia ali dentro cozinhando germes, bactérias e vírus diversos. Além do perfume, havia um menino de 11 anos com alma de palhaço. Jurava que estava no Cirque du Soleil, se pendurou em canos, escalou poltronas, pintou o rosto todo de preto com o lápis de olho da irmã, cantou, dançou, fez malabarismo e recitou todas as frases mais pesadas de Tropa de Elite fazendo caras de Capitão Nascimento. Uma delícia de viagem!
Paramos no posto Graal na hora que deveríamos estar chegando a Curitiba, almoçamos aquele queijo quente que não tem igual no mundo, compramos bananinha...na hora de passar o cartão adivinha? Cartão bloqueado. E porque? Porque ele havia sido usado antes numa máquina com suspeita de clonagem. Ha! Viagem sem dinheiro é tudo de bom! Ainda bem que eu tinha cinquentão.
Bom...e na volta? tudo bem? Não! Na volta choveu ainda mais e eu desisti do buzum...comprei uma passagem de avião pra hoje de manhã e resolvi subir o nível do perfume. Ah que ótimo...e como foi? A crise aérea voltou!!!
O vôo atrasou duas horas e nem tinha lugar pra sentar na sala de embarque. Fiquei sentada no chão jogando joguinho no celular até que o avião -- que deveria ter pousado às 10 da manhã -- resolveu pousar ao meio dia e quinze. Ok, sem problemas, desde que a viagem dure só 45 minutos. Quer saber? Saímos meio dia e meia e chegamos às 3:15 da tarde. ha! Precisamente a uma da tarde sobrevoávamos Congonhas...mas tinha fila de aviãozinho pra descer. Então ficamos rodando (holdando?) sobre a cidade por uma hora mais ou menos, até que o tempo fechou de vez e, para nossa segurança (segundo o comandante) fomos para Cumbica. Acha que pousamos lá rapidinho? Nada! Mais uma hora sobrevoando Guarulhos até o tempo fechar outra vez. E fechou muito. Ficou tudo preto. Preto assim...PRETO! Preto e sacudido! O avião tremeu de todas as maneiras que alguma coisa pode tentar tremer. Subiu , desceu, chacoalhou, pulou, fez de tudo! Parecia o menino do ônibus! E eu, muito sim senhora, fazendo a forte e dizendo pra minha filha ficar calma que a gente já ia pousar, mas dava pra escutar os pensamentos dos passageiros. Dava pra saber que eles estavam lembrando da pista molhada, do acidente da Tam, do Legacy que caiu em cima da casa do tio que estava vendo TV, do Piloto do Air Bus dizendo "Ai não! Meu Deus! Vira, vira, vira!". Dava pra saber que cada uma daquelas pessoas estava só se fazendo de forte, mas no fundo éramos todos vítimas do último ano. Apavorados. Fracos. Entregues. Pensando se estava tudo feito ou deveríamos ter deixado a senha do banco e a do Orkut anotadas em algum lugar vizível..."Se ninguém tem a minha senha, quem vai avisar meus amigos que eu já fui?" "Eu devia ter deixado os documentos do carro na mesa da sala..."
Pois....parece dramático, mas dava pra ver que alguns rezavam sem se preocupar em esconder. Eu mesma lembrei de santos incríveis. Chamei Santa Rita, lembrei que uma vez me disseram que eu sou filha de Iansã então apelei pra mãe também, lembrei de mais duas entidades que sempre andam por perto, falei com elas dizendo que não estava na hora ainda, rezei muito mais "Pai Nossos" do que sabia que conseguiria rezar, falei com Deus milhares de assuntos - tudo quietinha sem mover um músculo.
Num determinado momento, um garoto de uns 20 anos apareceu de pé ao meu lado no corredor do avião, branco, pálido, andando para a frente da aeronave como se pudesse ajudar o piloto. Eu peguei no braço dele e ele me olhou já achando que era o Jack do Lost. Eu perguntei: "O que você está fazendo aí, meu anjo?" Ele franziu a testa, fez que sim com a cabeça e voltou pro lugar. Eu pensei: "Ai ai ai...eu não to pronta, caramba, nem um pouquinho! Pára de brincar disso!" Dei mais um beijo na minha filha que, a essa altura, tinha a cabeça enfiada debaixo do meu braço, e vi as casinhas ficando maiores lá embaixo...finalmente estávamos pousando. Ufa!

Peguei um motorista de taxi que não sabia o caminho para a minha casa. Pensei em fazer cara feia, mas eu estava tão feliz de estar em terra firme que achei que não valia o mau humor.

Estou de volta, amiguinhos!
Beijocas


**a impressora da discórdia chegou e é linda! A HP nunca veio buscar a impressora velha que devia ser parte do pagamento da nova. Aquilo é uma zona!

segunda-feira, novembro 12, 2007

Muito barulho por nada

A noiva linda.

Então, entre mortos e feridos salvaram-se todos e graças à colaboração do Rodolfo Vani eu perdi o medo de ver as fotos do casamento. Nestes tempos de tecnologia avançada, fugir das câmeras é impossível mesmo quando se é um provolone gigante.
Okay eu adimito: eu sou dramática! Faço o tipo Consuelo de las Dolores, principalmente na frente do espelho.
Depois de duas semanas amassando a opulência e comendo (só) salada de pepino em duas refeições todos os dias, o provolone talvez tenha se transformado em apenas mais um salaminho de festa. Ha! Alívio. Agora começa a campanha "Pepinos Forever" para tentar escapar de passar o ano novo de escafandro.
Ao pepino então!
Abaixo, as fotos que o Rodolfo fez com seu celular inquieto durante a festa de casamento do Marcelo e da Gabi. Entre uma foto e outra, risadeira, porque não existe ficar perto do Rodolfo sem rir muito. Adoro!
Lá vai...

Taiz, minha leitora super cool: la dama de negro

Os olhos de Kátia Gimenez, meio Ted Abel e mis manos a encher el caron.

Crianças: Simone, Natasha e Joana (a Saimon é a mais nova. hahaha!)

parte da família Ripinica e el Salamito

Glamorous Julia

Pés de noivos


***Fotos by Rodolfo Vani com seu celular indiscreto.


terça-feira, novembro 06, 2007

Forma de um provolone gigante!!


Não aguento mais ver esse post da insônia na entrada do meu blog, mas juro que não tenho mais nada pra dizer. Mentira. Tenho sim. Mas eu ando preocupada com a quantidade de reclamações que eu venho fazendo aqui. Só mal humor! Só chatice!
Quem sabe então é hora de voltar a ser romântica e sonhadora? Mas tá difícil demais. Parece que tem um buraco negro aqui dentro para onde todas as palavras bonitas foram sugadas. Eu tento. Juro que tento. Abro o blog e fico olhando pro quadrado vazio do post mas as palavrinhas me fogem. Continuo com a velha música do Chris dançando entre os neurônios e não consigo escrever. Pelo menos já estou dormindo. Já é alguma coisa.
Os dias estão completamente ocupados pelo meu excesso de peso. Algum dia do ano passado eu fui dormir linda e magra; um outro dia deste ano eu acordei em forma de provolone gigante!
Ai meu saquinho! "O que você não quer ser na vida?" "GORDA!" Tá bom...aí papai do céu resolveu me irritar e me mandou pra São Paulo. E desde que eu cheguei aqui eu não sou nada além de gorda. Às vezes uma gorda ajeitadinha, às vezes uma coisa disforme. Neste exato momento estou na fase disforme. Ou nem estou...(mentira) eu sou grande, caramba! Mas sabe o é ser grande no Brasil? Ser gorda!
Fui comprar um vestido pro casamento dos meus amigos amados Marcelo e Gabi. Vou ser madrinha dos dois. Eles brigaram por mim e acabaram resolvendo que eu não posso ser madrinha de um só, então sou a didinha do casal. Certo, que lindo! Mas isso requer um vestido. E não pode ser preto. E não pode ser curto. Ai meu deus! Como assim?
Lá fui eu para a via sacra já conhecida de anos....muitos anos. Eu já não fui a um casamento uma vez porque não achei roupa, lembro...e eu nem estava gorda. Hm...será que a gordura está na alma?
Anyway...vou contar.
- Oi, eu sou madrinha de um casamento no sábado e preciso de um vestido que não seja preto.
Tudo parece lindo até a parte do briefing. Aí eu começo a mexer nas araras e ver coisas que eu gosto. Ha! Esse só tem P, esse é 40. Esse é 42. Esse é 38...e assim vamos. Tudo o que é bonito, arrojado, moderno, bacaninha, bontinho ou meia boca, é pequeno. Bom...esquece então e vamos aos grandes. Aff!
Sabe o vestido da vó da noiva? Azul royal, bordado, cheio de drapês pra disfarçar a total ausência de cintura, com uma echarpe pra tapar tudo o que sobra? Esse! E ele existe em várias versões: tomara-que-caia, de alça, decote em V, frente única...mas todos são o mesmo vestido. E o que ele faz com a silhueta é incrível. A cintura desaparece, o peito achata e transforma você numa nadadora olímpica com ombros e tórax gigantescos, o quadril achata, e para entender bem a forma que ele traz para o seu corpinho opulento, tente imaginar um salame da mônica em pé e sem embalagem. Isso! Você está linda!
Gente, que desespero! Entre os mais de 20 vestidos que eu experimentei, só um deixava que se percebesse que existia um corpo embaixo do tecido. Corpo assim...peito, bunda, cintura, braços. Todos os outros variavam entre salame e provolone, no máximo um lombinho.

E eu não vi isso acontecer. Sentei aqui na frente do computador e passei o ano escrevendo. Malhei quase todos os dias. Sei lá o que aconteceu. Talvez os 46 tenham batido na minha testa com mais força do que eu imaginava. Agora, lá vou eu de novo pro médico fazer regime...lá vou eu ficar na dieta líquida até sábado. Lá vou eu correr até ferrar a minha coluna lombar outra vez...
Se nada der certo, vou me jogar da ponte e nascer de novo. Quem sabe eu volto pra terra como viúva da seca pra nunca mais ser gorda.

Meu saquinho!!!


quarta-feira, outubro 31, 2007

Insônia

Click here for english

Fui me deitar as 3 da manhã por pura obrigação mas sem sono. Milagrosamente dormi até as 5:30 quando o despertador do Claudio tocou avisando que ele tinha que ir para a locação. Acabei levantando, fazendo uma vitamina pra ele, ajudando em coisas que ele não pediu e ele se foi. Eu não gosto quando ele não vai sorrindo. Queria que ele pudesse sorrir 24 - 7, mas ele diz que nem tudo na vida é o meu mundo cor-de-rosa. Que droga! Por que não? Se não para o resto do mundo, porque não para as pessoas que eu amo? Simplesmente não consigo fingir que não vejo, então faço vitamina de papaia, que é quase cor-de-rosa, abraço forte, me penduro, e beijo cor-de-rosamente sua boca de papaia, como se isso mudasse a cor do seu sorriso.
Voltei para a cama achando que dormiria até as 9 sem interrupções. A manhã ainda era noite, por isso fresca. Entrava um vento gostoso pela janela do meu quarto, o ventilador de teto e um edredon gelado...meus 350 travesseiros fazendo o contorno perfeito para que qualquer posição seja um convite aos sonhos....e eu acordada.

O relógio gritava histérico a cada dois minutos tentando me convencer a fechar os olhos, mas meu cérebro não pode parar. Uma retrospectiva dos últimos meses, uma visita aos próximos anos, tentativas de entender minhas ações e meus sentimentos. Escuto a voz da minha mãe dizendo sua palavra preferida: "Analisemos...analisemos..."

Fui tão longe enquanto o relógio tentava segurar o ponteiro dos segundos como Hiro Nakamura; fiz contas, quantos anos, quantos meses, quantos dias, quantas contas, quanto é justo, quanto, quanto, quanto... Lembrei de pessoas, lembrei de coisas e meu cérebro estriquinado como se eu cheirasse, parecia um letreiro de aeroporto mudando os vôos e os nomes das cidades....no meu caso, mudando o nome das pessoas, os assuntos pendentes, as vontades e frustrações.

Entre um tic e um tac, meu amado Chris Isaak veio cantar pra mim.
- Hey...o que você está fazend na minha cabeça?
- Você me chamou.
- Foi só um pensamento. Essa música não sai da minha cabeça.
- Só a música?
- Uma música nunca está sozinha...
- Behave. - Ele responde como sempre e vai embora mas esquece de levar a música que continua gritando: "I never dreamed that I'd meet somebody like you..."

Ao som da voz nova do Chris outras pessoas vêm me visitar. Nem todas foram convidadas, nem todas eu queria ver. Algumas aparecem e dizem só uma palavra, outras sorriem para me lembrar que eu deixei alguma coisa para trás. Eu deixei muita coisa para trás...só queria saber onde foi que eu ME deixei. Eu procrastino...I procrastinate...je empurré la vie com la barrigue e em noites de insônia a vida vem me pegar! E as frases - minhas e de outros - que martelam minha cabeça numa total e nonsense desordem:

"I don't want my experiences in blogs. They are not yours!"
"There's no substitute for enthusiasm, no substitute, no substitute, dammit."
"I wish I had Mark Zupan's strength"
"Imagination! imagination! Is it really more important than knowledge? I'd like to be wiser, Mr. Einstein...my imagination kills me somehow"
"Evolution is an imperfect and often violent process"
"I'm tangled in my blanket of clouds, dreaming aloud"
"Read my soul, not my words!"

"My name is Dito Montiel and I'm gonna leave everyone in this film"
"Passing hearts, passing hearts...so sad"
"I don't know how to play this game of yours"
"Remember, remember, the 5th of november..."
"in the heart, not in this land or that. Lasting victories are won IN THE HEART"
"I don't miss those days, I miss you!"
"Send god, don't send Jesus...this ain't no place for children"

Esquizofrênica assim....meu cérebro pensa o tempo todo em duas línguas. Alguns pensamentos não se processam em português, alguns sentimentos...não. Nenhum. Eu sempre fui maluca, sempre tive amores imaginários, aprendi inglês sonhando - tanto dormindo quanto acordada - desde pequena sabia que se havia uma única coisa que eu realmente precisava fazer na vida, era ser fluente em inglês. Mas minha preguiça de estudar sempre foi maior do que eu, então algo quase sobrenatural me fez aprender, do nada. Desde então meu cérebro não distingue uma língua da outra, mas sim um sentimento do outro, usando o português para o que é lógico e o inglês para o que não é. Já me pediram para cortar o "anglicismo" - blegh! palavra pseudo-antipática - Isso seria auto-mutilação.
"I need to sleep. I need to sleep. I need to sleep"
Outubro foi um mês estranho, e talvez neste último dia eu precisasse catar feijões, separar o bom do ruim, ver se ainda sobrou algo bom para guardar. Outubro provocou mudanças para as quais eu nunca me preparei. Um ponto final. Não reticências. Um grande e redondo ponto final numa sensação antiga de futuro suave. Futuro companheiro de todas as horas, futuro que preenchia o coração em dias vazios. Um ponto final que alivia e pesa como o peso do vácuo.
"It's empty out there" é a outra voz que escuto enquanto enfio a cabeça no travesseiro. Eu quero dormir!

- Nighty night, Miss Mercedes.
- Sing to me, Christopher.


sábado, outubro 27, 2007

Pain


Quando eu fiz essa foto, achei que parecia carne.
Algum órgão humano despedaçado por uma dor profunda.

Hoje, olhando para ela de novo,
descobri qual parte do corpo
pode ser estraçalhada,
esfacelada em mil partes vermelhas,
atravessada pelo metal frio,
ardendo como pimenta.

Yeah!
My version of a broken heart.


Foto: Mercedes Gameiro, euzinha, MgMyself - 2005

quinta-feira, outubro 25, 2007

TPM Suporte


Digite por favor o número do seu pedido de serviço. Pee, pee, pee pee, pee, pee. Para pessoa jurídica, digite 2. Para pessoa física, digite 3. Para mandar a HP introduzir a sua impressora, digite 4!
Você já tentou encontrar uma forma de consertar uma impressora HP? Tenta. É interessante. Se sua vida anda aborrecida, calma demais, sem grandes acontecimentos, é a grande pedida.
Faz assim. Vá até um lugar que venda super-mega-hyper-impressoras e gaste uns bons pilas em uma que seja scanner, fax, impressora de foto, copiadora e faça massagem nas costas.
Use-a normalmente durante dois anos no máximo. Não precisa usar muito...só quando você tiver que imprimir roteiros de 120 páginas umas 12 vezes. Mas isso nem é muito. Assim que você precisar MESMO, ela vai pifar. Não assim...pifar sem dar nenhuma esperança. Só vai fazer um barulho estranho e se recusar a imprimir. Pronto! Pode começar a aventura!

www.hp.com.br. Bingo! Agora tente descobrir como acessar o suporte. Leva mais ou menos umas quatro horas, contando todas as vezes que você vai desistir. Ah achou! Lá diz: recomenda-se suporte via chat. Oba! Isso é rápido. É...bem rápido se irritar no chat da HP.
Você vai falar com pessoas estranhas. Na terceira pessoa, vai ter a incômoda sensação de que tudo não passa de uma pegadinha, porque o primeiro atendente se chama Yuri, o segundo Hudson, o terceiro Robson. O que é isso? Parecem todos virtuais demais, mesmo pra um suporte via chat! Mas tudo bem. Depois que você não conseguir acessar o chat antes de digitar o número de série, modelo, sistema operacional, seu e-mail, etc etc... O Yuri vai dar bom dia, perguntar no que pode ajudar e você vai contar a ele toda a sua longa história. Quando você achar que ele vai começar a responder, lá vem: "Para darmos prosseguimento ao atendimento, precisamos que algumas perguntas sejam respondidas". E adivinha quais são? Todas aquelas que você respondeu PARA ENTRAR no chat. Quando você falar com o Hudson, apesar do seu nome aparecer antes de cada frase, ele vai achar que você não é quem diz ser:
Mercedes: não consigo ligar nem desligar a impressora.
Hudson: o senhor tentou tirar da tomada?
Mercedes: óbvio!
Hudson: O senhor pode aguardar mais um instante?

Well...o senhor já está irritado que chegue...
Bom, pra encurtar a história, Yuri me perguntou se eu já tinha tentado tirar a impressora da tomada e ligar de novo. Esta foi só a primeira vez que eu exclamei: "Você só pode estar brincando comigo!"
Yuri tentou um full reset que eu avisei que não adiantaria, mas espiões russos não confiam em mulheres! Depois de confirmar que não dava mesmo certo, me mandou levar a pobre impressora para a assistência autorizada. Levei. Chegando lá, escuto: ah...esse equipamento já está obsoleto e não tem conserto.
COMO ASSIM???? "Você pode dar esta como entrada numa nova mas não vale a pena, porque nós vamos comprar no mercado e vai ficar caro!"
Uh???
Voltei para casa cuspindo fogo, corri para o chat da HP. Hudson! We have a problem! (trocadilho péeeeessimo). Contei a história para Hudson que me disse que a informação não procedia. Eu deveria então voltar no mesmo lugar, com a impressora de muitos quilos no colo e tentar convencer a mocréia de que a criança está doente mas não é terminal!
"Diz pra mim que você está brincando!"
Ele não estava, e para provar que falava sério, copiou e colou uma lista de 12 assistências técnicas HP em São Paulo, sendo que a mais pertinho era em Diadema. Ai meus sais!! Fiz um comício particular para Hudson sobre "O CONSUMIDOR E SUA FALTA DE PACIÊNCIA", seguido de um pedido: "Quero um documento da HP que diga que o equipamento tem conserto, ou eu não levo a lugar nenhum e vou comprar uma Lexmark de 100zão sabendo que não vai durar, mas pelo menos não vou ser enrolada."
Hudson, o grande rio dos chats de suporte, prometeu que mandaria por e-mail a conversa que tivemos para servir de documento. Você mandou? Nem ele!
Volto ao suporte e finalmente consigo um número de telefone para ligar. Isso apenas para confirmar que a HP é super bacana e não vai fazer a velha impressora cansada funcionar. Ela vai fazer melhor: vai facilitar a compra de uma nova muito melhor, mais moderninha, que além de massagem, faz cafuné. Puxa que bom! Pela metade do preço! Puxa que ótimo! E vão entregar em casa! Nossa...que demais! E à vista. Ah...
Como assim, à vista? Eu nem queria comprar nada e agora tenho que pagar à vista? Eu só queria ver a velhinha cuspindo folhas de papel escritinhas...quanto era mesmo a metade do preço? UM MONTE!
Pois...o que não tem remédio, remediado está. Comprei a desgraça da impressora. Fiz tudo como me mandaram. Fiz uma transferência bancária antes das 19 horas do dia 23. Mandei o comprovante para o e-mail que a Monalisa me deu.
(Ah, sim! Esqueci de contar: os atendentes virtuais são importados. Os telefônicos são obras de arte: hoje falei com o Davi estou com medo de ligar amanhã e falar com a Vênus ou o Pensador em pessoa). Só que o e-mail que a Gioconda me deu não funcionou. Ok...não me preocupei.
Que anta! Hoje liguei só por desencargo de consciência e , falei com o Davi - mas não perguntei se ele estava pelado, nem por que razão o bim bim dele é tão pequeno. Adivinha o que eu descobri? Que "este e-mail está mesmo com problemas." Bom, confirmei o pagamento, perguntei quando receberei a minha super impressora carézima pela metade do preço e em casa.
- Sete dias úteis, senhora Mercedes".
- Você só pode estar brincando comigo! Eu fiz o pagamento dia 23 para receber a impressora em sete dias úteis. Hoje, dia 25, você me diz que tenho que esperar os mesmos sete dias úteis?
- Sim, porque os dias são contados a partir da comprovação do depósito.
- Mas o depósito não foi confirmado antes porque vocês me deram o e-mail que não funciona.
- Desculpe o procedimento errado da nossa companheira, senhora, mas esta é a regra.

Resumindo: toda e qualquer ação da HP, definitivamente, só é boa para ela!
E eu que só queria imprimir um texto, estou estrebuchando a minha TPM há 5 dias.

Depois de tudo isso, eu jurei a mim mesma que passaria uma semana sem falar com suporte de coisa nenhuma. Mas assim que entrei no site da HP para escrever uma reclamação indignada no "Fale conosco, se conseguir", a internet caiu e eu tive que ligar para a Telefônica. Você não quer saber como foi essa outra ligacão, mas eu posso adiantar que:
1. Me perguntaram outra vez tudo o que eu digitei para entrar
2. Perguntaram se eu restartei o modem e o computador
3. Mais de 3 vezes eu exclamei: "Você só pode estar brincando comigo..."



terça-feira, outubro 23, 2007

Que não seja imortal, posto que é chama

Tudo na vida tem um fim - já dizia Sérgio Amon quando ainda me conhecia - menos a linguiça que tem dois.
E eu fico sentada aqui no meu troninho de observadora passiva da vida alheia, assistindo de camarote os fins inevitáveis de coisas impensáveis. São amizades de milênios, daquelas que você jura que as pessoas já nasceram grudadas, que estarão para sempre juntas, e de repente, bluft! It's over. Sociedades perfeitas tanto na vida pessoal quanto na profissional, que se desfazem sem muita explicação, sem muito dizer porque.
É como se, do nada, o fluído que os mantinha unidos perdesse a validade.

Eu tenho sempre medo da empolgação que uma amizade ou um amor envolvem. Sabe aqueles primeiros meses incríveis de achar semelhanças, experiências idênticas, gostos e manias? É como a lua de mel entre amigos. Nesta hora só se vê perfeição, e se tem aquela sensação maravilhosa de que quanto mais iguais, mais almas gêmeas seremos, contrariando todas as leis da física.
São os meses de espelho. Está no pacote: quanto mais parecido comigo você for, mais "pra sempre" eu vou te amar. Se fôssemos adolescentes, sairíamos escrevendo por aí "BFF" (best friends forever). Mas para saber se tudo isso funciona, basta freqüentar os álbuns adolescentes do Orkut. Eleja uma pessoa, corra para o álbum desta pessoa uma vez por semana durante três meses. Vai ser fácil saber quanto exatamente é "for ever".

É claro que será preciso manter as devidas proporções: somos adultos agora, então nada será tão passageiro quanto na adolescência. Já sabemos que as verdadeiras amizades são raras e levam anos para ser construídas. E é por isso que ainda nos supreendemos quando dois grandes amigos que dividiram a vida, aprovaram ou desaprovaram as namoradas do outro, participaram de todos os momentos, dividiram apartamento, bebida, prato de comida, carro; se separam.
Mas não entendo a surpresa, se existem famílias que se separam. O que falta para que estas duas pessoas consigam realmente viver juntas para sempre? Sexo? Não sei...existem esses casos também - amigos que acabam dividindo a cama e que um dia também se separam.

O grude é o problema e a solução. Grudar faz você se cansar rápido da pessoa errada. Grudar faz você esgotar de uma vez todas as ilusões e descobrir defeitos, o que acaba ajudando a avaliar se você é capaz de suportar aquela pessoa para o resto da vida. Depois disso vem o aceitar. Depois o relevar. E por aí vai até o tal do "pra sempre".

O fato é que o fim, qualquer fim, não deveria nos surpreender, já que somos adultos e sabemos que "para sempre" não existe. Eu ouvi muita gente criticando a frase final deste poema do Vinícius, quando ele diz "que seja infinito enquanto dure".
- Então o amor é descartável?
- Então você entra num relacionamento esperando que ele acabe?

Não! Esperando não. Mas coisas acabam. A vida tem um ciclo. Se um amor ou uma amizade começam é porque um dia acabarão, senão com uma briga, com a morte. Todo grande sentimento acaba fatalmente em lágrimas, e não é por isso que vamos deixar de vivê-lo ou prezar por ele. "Para sempre" é uma visão egoísta e escapista, uma negação inconsciênte da morte. Quem é você, cara pálida, para achar que PARA SEMPRE é enquanto VOCÊ viver?
A vida na terra teve início em 24 de setembro de 1961 e se extinguirá no dia da minha morte?
Não seja assim...considere pelo menos o dia do nascimento do Thomas Edison e do Bill Gates, já que você não seria nada sem eletricidade e o seu computador!

Para sempre é para sempre - milhões de anos, vários séculos, muitos milênios...e pouca coisa dura tudo isso. Mas você pode deixar uma obra ou um grande feito que não supra apenas as necessidades momentâneas da população - como criar o Google, por exemplo. Não! Precisa ser muito infinitamente maior do que o Google para que dure mais um aquecimento global, mais uma era glacial...sim, porque ISSO é para sempre ou nem isso.
Mas se isso for grande demais para você, o negócio é viver sua vida num pra sempre diário. Tipo "a vida é hoje". Eu ganhei uma caixa de fósforos com um palito só. Nele estava escrito "agora". É isso. Agora é já, e acaba rápido. Pra sempre é já, e acaba rápido. Você acaba rápido se comparado à existência do planeta.

Então que mal há em achar que tudo é infinito enquanto durar? Até o planeta está acabando...Ele é gigantesco para nós e ínfimo se comparado ao universo. Dá para se tirar uma grande lição daí: a vida é gigantesca para nós, e ínfima se comparada ao tempo como um todo. O que fazer então? Abandonamos o planeta já que um dia ele vai acabar? Abandonamos a vida já que vamos morrer? Saímos matando e fazendo tudo de errado, já que talvez não haja céu e inferno e a vida eterna seja uma farsa? Nah!! Vivemos. Vivemos agora e hoje, e mais uns dias, só para garantir uma continuidade do que fazemos aqui. E enchemos esses dias de significados e momentos fortes, bonitos bons, considerando e reconhecendo que há um fim para tudo. O fim não é a desgraça de tudo. Ele é o motivo para que a gente risque este fósforo e aproveite os segundos de luz que vêm dele. É o que temos. Prezemos!
E mais...

...que não seja imortal, posto que é chama,
Mas que seja infinito enquanto dure.




quinta-feira, outubro 18, 2007

Frase do Dia


Em dias de mau humor, as mulheres costumam ficar 100 vezes mais inteligentes do que o normal. Isso, é claro, as que são inteligentes -- as que tem HUMOR.

Humor é sinal de Q.I. avantajado, assim como a ironia e o sarcasmo. Só pessoas inteligentes são capazes dessas três coisas sem ser chatésimas. E não tem nada pior do que humor burro.
Pessoas sem graça têm um tipo sarcasmo ridículo que não faz rir a ninguém além delas próprias, se é que são capazes de entender a própria piada.

Um homem sarcástico, inteligente e irônico, costuma fazer uma mulher rir. PERIGO! Se um homem faz você rir, você vai se apaixonar por ele. Claro, se você for inteligente. Do contrário, você não vai entender o tipo de humor dele e vai achar o moço um mala. Neste caso, é melhor você assistir Zorra Total ou Tom Cavalcanti para se divertir a valer somando o seu Q.I. (quem irrita) com o brilhantismo daquelas piadas incrivelmente sem graça.

Aliás, parece que já existem testes de Q.I. sendo desenvolvidos com base em programas humorísticos:

1. Com que freqüência você ri vendo Zorra Total?
a) Dou muita risada
b) Rio 3 vezes por episódio
c) no máximo uma risada por sábado
d) Quando passa isso?

2. Caso você consiga rir vendo Zorra Total, sua risada é:
a) HAHAHAHAHAHAHAHAAH! QUA QUA QUA! HAHAHAHAHA!
b) hahahahahahahah! ai ai!
c) ha!
d) Não tive esta experiência.

**não conta pra ninguém, mas se a resposta à pergunta 2 for A, você não passa nem em teste para estátua de praça

Então...concluindo o meu raciocínio, mulheres inteligentes ficam maravilhosamente brilhantes quando estão de mau humor. Se elas se irritarem com o namorado, com o ex, com a ex do namorado ou com alguém que deu uma medida na farmácia, tornam-se geniais. Já os homens...não sei...já disse que eles preferem chutar umas latas quando estão chateados.

Bom, tudo isso para avisar que os dias têm sido engraçados.
De tanto mau humor do tipo C - contagioso, eu e um batalhão de mulheres amigas estamos nos superando (Sim...somos inteligentes e modestas). Baseando-me em coisas ditas e escritas nos dias que passaram, elegi a frase do dia. Aliás...duas.
Lá vai:

"Homens são tão previsíveis que dá vontade de discutir física quântica."


"Depois que o Pateta me pediu um cigarro no posto de gasolina, ao lado do buffet infantil, estou escrevendo sobre suicídio coletivo."


Frases de
Flavia Melissa - uma mulher de refinado mau humor




***imagem: placa para a porta da sala da Mari Heller, diz: seja inteligente, ou caia fora!

terça-feira, outubro 16, 2007

Um beijo do Johnny Depp


Nunca fui muito de tomar refrigerante. Como eu sou curitibana nascida nos anos 60, tive que passar por aquela experiência terrível que é ter que tomar Laranjinha Cini, Gengibirra, Gasoza de Framboeza. Eca...Todas aquelas coisas doces demais que estragavam o gosto do brigadeiro no aniversário.

Curitibano é um animalzinho estranho. Odeia tudo o que é de lá. Faz cara feia quando vê outro Curitibano fazendo sucesso fora de Curitiba. A reação é como um espasmo invonluntário: a boca torce, a testa franze e a voz pronuncia alguma coisa tipo "ah! esse cara estudou comigo...era uma anta!". Ou então aperta o play na memória inútil e conta alguma passagem podre da vida do incauto que só fez cuidar da própria vida, e deu certo. Mas na hora de consumir, adora as coisas locais. É o que acontece com Gengibirra e a Gasoza de Framboeza. A breguice do rótulo é equivalente ao Guaraná Dolly, o gosto é gosto de infância pobre, embora crianças de todas as classes tenham bigode vermelho em Curitiba.
A boca azeda depois de um copo de Gengibirra. Se você tomar mais de dois copos de gasoza, em uma hora vai estar sentindo cabelos na língua. Nada produz maior efeito-língua-peluda do que Gasoza Cini. E o aroma é de lancheira de plástico! Um horror.

Então...eu nunca fui a fim de refrigerante. Quando casei, fiquei chocada com a quantidade de Coca-Cola consumida pelo meu marido (que é também um consumidor de Gengibirra profissional. Eca!). Isso porque na casa da minha mãe, coca-cola era coisa pra ter domingo, se tiver visita. A vida toda tivemos na mesa uma jarra d'água e um garrafão de vinho.
Mas, a gente vai abrindo a guarda para agradar marido...quando vi, tinha passado a tomar coca-cola e gostar muito!

Quando a minha filha tinha um ano e pouco, o ortopedista sugeriu uma tala que ela usasse todos os dias para forçar o tendão de Aquiles a alongar. Pois...fui com ela até a A.P.R.- Associação Paranaense de Reabilitação - único lugar em Curitiba que faz órteses.
Entramos na sala do molde. Era um terror. Lembrava algum hospital abandonado de filme tipo Expresso da Meia Noite, ou Twelve Monkeys...a sala pintada de uma cor feia, descascada, meio verde meio suja, com respingos de gesso no teto, nas paredes, na maca. Uma maca enferrujada pavorosa, e um enfermeiro de jaleco puído, com cara de mau, forçando o pé dela para uma posição que, antes da cirurgia, não era natural. Tudo um terror. A Natasha berrava como se estivesse indo para a forca (ela ainda é escandalosa-mexicana-doida), e eu tive vontade de arrancar a minha filha dali à força. Ninguém deveria ter que passar por coisas assim.

Assim que cheguei em casa, fiz uma promessa. "Só volto a tomar Coca-cola quando ela ficar boa".
Wow. Foi difícil! Água com gás e limão espremido passou a ser o manjar do deuses, só porque tinha umas bolinhas! Era sofrido assistir alguém virando um mega gole gelado de Coca. Mas eu consegui. Foram 4 anos sem chegar meus lábios perto de uma lata prateada.

A gente se mudou pra Los Angeles, a gente voltou de Los Angeles, a Natasha operou a perna, foi melhorando cada vez mais, hoje mal se percebe o problema que ela teve. A escoliose que era esperada não apareceu, o RPG arrumou a postura dela e vai continuar arrumando porque ela nunca vai deixar de fazer, ela dança, pula, se arruma, usa saia, está com 1,70m, magra, tem um andar só dela, é feliz. Que lindo!

Mas e a Coca-cola? Quando eu vi a minha filha no palco do Guairão numa apresentação de balet clássico, na fileira da frente, toda linda e retinha, com postura de princesa, tomei a primeira Coca em 4 anos. E foi como morrer, ir pro céu e ser recebida pelo Johnny Depp me chamando de my love e me beijando na boca. Que glória! Redenção! Recompensa! A vida não é nada sem uma lata de Coca light gelada. Uh hu...
Me fartei de Johnny Depp! Passei a tomar, sagradamente, uma lata por dia e os anos passaram. De 2006 pra 2007, eu estive sentada muito mais tempo do que nos outros 45 anos da minha vida. Sentada na frente desta minha tela gigante, martelando incansavelmente o teclado, escrevendo feito uma desesperada. Dois foram os meus companheiros da uma da tarde às duas da manhã, todos os dias: o cigarro e a coca-light.
Semana passada - acho que na quarta - olhei para o lixo aqui embaixo da minha mesa e vi que ele estava cheio. Foi quando descobri que, em um dia, eu tinha tomado SETE latas de Coca Light, e nenhum copo de água. CREDO! Isso é mais de dois litros!

Parei pra pestar atenção e percebi que eu vinha fazendo isso há meses. Então decidi outra vez: a partir de sexta-feira, dia 12 de outubro de 2007, eu não tomo mais coca-light. E achei que fosse mole. Mas não. É um vício mesmo. É doença. De sexta-feira pra cá em descompensei. Eu me irritei. Eu briguei. Eu tive cólica, dor de barriga, enjôo, diarréia, tontura! Tive ataques de mal humor quase assassinos. Precisei fazer café no meio do dia e colocar um monte de cafeína para dentro pra compensar, e respirar fundo milhares de vezes para me suportar - sim, porque eu estou insuportável. Consegui brigar com a pessoa mais doce do mundo...E comigo mais do que tudo. Crise de abstinência! Dói. E dói dentro do cérebro. Dói no estômago. Dói na boca. Dói no pensamento. Dói no sono. Dói na paciência.

Então, amiguinhos...Está complicado. Eu achei que um dia fosse passar por tudo isso para parar de fumar, e descobri que o cigarro estava me fazendo menos mal do que a Coca. Que ironia!
Por isso, vou acender um cigarro, bater a cabeça na quina da mesa até sangrar, depois tomar um enorme copo de água tentando fazer com que pareça um beijo na boca do Johnny Depp!
Aff! Dá vontade de domir até tudo isso passar.

Bom dia, pra quem está de bom humor.
(manda um pouco pra cá)


domingo, outubro 14, 2007

Ms. H as in Heart

Mariana Heller por Rafa Pedro


Hoje ela me disse que quando chega em casa meio deprê, lê o meu testimonial e melhora.
Eu achei lindo! Eu sempre acho lindo quando alguém me diz que eu ajudei a melhorar alguma coisa. Não que eu queira ser canonizada quando morrer - só um papa chapado faria uma barbaridade dessas! - mas é sempre gostoso justificar a existência. Eu nasci para que? Que utilidade esse corpinho com uma cabeça aloprada e esquecida em cima tem, para um mundo habitado por muito mais gente do que cabe nele?

Faz as contas aí, você que consegue, porque eu já assumi a minha incapacidade de saber quanto é qualquer coisa acima da tabuada do nove: quanto de bem eu posso fazer que atinja um número de pessoas maior do que 5? Quanto dos meus escritos poderia chegar a pessoas que realmente sofrem, e - por sorte - que elas saibam ler, e mais sorte, que tenham se alimentado o suficiente na infância para que consigam entender o que lêem, e por uma sorte caída do céu e ainda maior, que tenham tempo, disposição e um segundo de não sofrimento para dar importância a uma frasezinha que possa mudar alguma coisa?
Complicou? Imagina pra mim...

Como eu não sou a Angelina Jolie, eu não viajo o mundo adotando crianças. Até porque se eu fosse adotar criancinhas, faria isso por aqui mesmo, que está cheio de criança pedindo pelo amor de deus uma família. Como eu não sou o Bob Geldof, eu não faço concertos mundiais para arrecadar grana pra fome na África. Como eu não sou o Bono, eu não vendo pulserinha branca para salvar o mundo da Aids e da fome. Como eu não sou o Al Gore, eu não conscientizo o planeta de que ele pode acabar (por isso não vou ganhar um Nobel. Droga!)

Okay...agora quem deprimiu fui eu! Que meleca de ser humano sou eu que não faz nada disso? Que ínfima, que patética, que minúscula, que insignificante! Essas pessoas não tem nada - ou quase - de diferente de mim. Elas fazem cocô, sabia? Elas têm dor de cabeça. Elas sentem ciúmes. Gostam de sorvete. Têm coceira no nariz. Por que eu não posso salvar o mundo? Que loser!

Não, não é exagero. Agora meu texto perdeu completamente a função que tinha. De um segundo para o outro, só por causa de um parágrafo, eu me tornei um grande zero à esquerda e comecei a achar que estava escrevendo um texto penitencial, daqueles onde a gente se justifica um monte para dizer que é um bosta, mas não tem culpa! Deixa eu tentar parecer bonitinha na foto e me justificar:

Eu não posso ser como eles, porque não sou celebridade, não ganho 20 milhões por filme, não fui quase presidente, não canto bem, não nasci falando inglês (bela justificativa de araque), mas eu posso usar a velha frase que nasci ouvindo: "revolução começa em casa". Se eu atingir 3 pessoas dentro da minha casa, essas 3 podem atingir mais 3 cada uma , que vão atingir mais 3 cada uma...e eu não sei taboada, mas lembro de progressão geométrica.
É muito mais fácil plantar erva daninha do que ervas que curam...elas pegam mais rápido e se alastram por tudo. Mas as ervas que curam também podem se alastrar numa progressão rapidinha.

Funcionaria mais ou menos assim: eu adoro a Mari Heller e escrevo uma coisinha para ela que causa um sorriso de tranqüilidade quando ela lê. Ela, que estava deprê e irritada, se acalma e não briga com o roommate dela, ao contrário, faz alguma coisa que o agrade. Ele, que estava num dia meia boca, fica feliz e não briga com o baterista da banda. O baterista que achava que ia tomar uma bifa porque saiu do tempo no ensaio, dá uma gorjeta decente para o garçom no bar depois do ensaio....e assim vamos...pequenos gestos que "fazem o dia" da pessoa ao lado, podem mudar o dia de uma pequena multidão. Isso não é nada se comparado a mandar toneladas de alimentos para o Sudão. Mas talvez alguém no Sudão precise muito mais de um abraço do que de um quilo de arroz caindo de um avião. Ou os dois? Ou alguém que leve um prato até ele quando ele está fraco para correr atrás da rasante do avião da ONU? Who knows?

Anyway...vim aqui para falar da Mari Heller. Ela não está no Sudão. Ela não precisa ser adotada. Ela não tem fome. Ela não tem um drama terrível. Ela só existe e está mais perto de mim do que as pessoas na África, e por isso eu digo pra ela que acho ela demais, todas as vezes que posso. Se isso enxugar uma lagriminha dela, pode sair enxugando milhares. Então, pra ela não chegar em casa meio deprê na próxima semana, eu vou colar aqui o testimonial que eu escrevi pra ela no Orkut. Depois, eu vou cuidar do meu dia, bem bem feliz, porque o scrap que ela me mandou me deixou assim, e em progressão geométrica, vai salvar o dia de uma pequena multidão.


She mixes the good and the bad.
She's the calm inside craziness, the lasy river inside a thunderstorm.

Halfway to hell and halfway to heaven.
Or should I say Hell "is" heaven?

Ms. H and in Heart.
Yes, sir...I do love her!


Bom dia, flores do meu dia.

P.S. Hoje é Domingo, dia de www.postsecret.com


sábado, outubro 13, 2007

Saudade

self portrait


Saudade do tempo em que a vida era tão imediata que a saudade quase não existia.
Saudade de não saber planejar, nem pensar no futuro, quando um ano eram imensos 365 dias. Impensável eternidade! Estrada quase sem fim! Saudade da irresponsabilidade e das dores passageiras; das vontades pequenas, por isso imediatas.
Saudade de quando a morte era uma entidade. Uma coisa distante que só acontecia com os outros, só longe de casa, e lágrimas eram associadas a broncas e abstinência de pequenas bobagens. Saudade de nunca ter ido a um velório, nunca ter pago um caixão, nunca precisar enxugar lágrimas que não fossem minhas, nunca morrer de pena de uma mulher que chora a falta do marido, simplesmente por nunca ter visto uma. Saudade de não precisar abraçar uma menina de 18 anos como se eu fosse adulta. Saudade de não ver amigos queridos sofrendo. Saudade de quando a perda mais grave era de um passarinho, ou um peixinho dourado. Saudade de não entender a tristeza, de não ter medo, de não conhecer a dor...

Existe uma tranquilidade em amadurecer. Maturidade vem junto com uma calma assustadora. Um ano é pouco tempo. Uma semana quase não existe. Olhar um rosto adolescente angustiado traz um sorriso tranquilo que diz : " tadinha, já passa...essa dor praticamente nem existe." Amadurecer traz a mãe de todas as paciências. A gente aprende a esperar as mudanças, esperar pelo tempo, esperar que os filhos cresçam, esperar que alguém entenda, esperar, esperar, esperar. E nenhuma destas esperas é dolorida. O tempo se torna amigo e as mudanças de estação existem para distrair os olhos, não para contar os meses.
Vem a primavera com as flores, vem o inverno com céu azul, vem o outono todo amarelo, vem o verão com suas meninas coloridas...e você só sorri. Às vezes dizem que ainda há tempo, às vezes que o dia está chegando, mas quem se importa? Elas distraem os olhos e o coração de quem está vivo para ver.

Crescer traz coisas lindas e coisas chatas. A parte da tristeza alheia me destrói mais do que se fosse minha. Eu enxergo dentro da alma de quem é triste e tenho vontade às vezes de roubar a tristeza para mim. "Deixa que eu sinto pra você!" Eu queria ter a alma do mundo numa caixinha para não deixar ninguém sofrer, ou voltar a ser criança para simplesmente não perceber que existe dor.



sexta-feira, outubro 12, 2007

Feijões


E se naquela manhã ela tivesse um ruim e contasse para todo mundo que a vida dela estava virada de cabeça para baixo?
Será que as pessoas reagiriam como ela queria? Sim, porque na ilusão equivocada dela, todos diriam: “okay…certo então…vai em frente.”
Vai! Enfrente! Enfrentar nada. No mundo cor-de-rosa que ela criou não existia espaço para a vida real. E se alguém gritasse? E se alguém se matasse? E se tudo desse muito errado? Ela se preparou realmente para isso?

Sabe como funciona cabeça de criança?
Assim: O menino se acha o próprio Superman, tem certeza que criptonita não existe, então ele planeja três golpes certeiros e uma fuga para o alto…pronto! Eles está preparado para enfrentar os meninos da escola. Chega a hora e ele avança logo para cima do maior. Desfere um soco na barriga dura do garoto e machuca sua mão, fica sem força para os outros dois golpes e a fuga para o alto não rola. Ele cai no chão, apanha e é suspenso da escola, ainda leva uma baita bronca dos pais em casa, e tem que voltar para a escola sozinho, no dia seguinte, e encarar todo mundo. Ha! Ele esqueceu do plano B, e nem pensaria em um. Ele só pensou em sua saga vitoriosa de herói super-poderoso.

Assim era ela também. Como menina que planeja a fuga para a festa, escondida da mãe, mas esquece de pensar em como vai voltar ou entrar em casa de madrugada.
Pois…E se ela contasse para todo mundo que sua vida estava de pernas para o ar? Ha! Apesar dos pesares, já existia um quê de maturidade naquele cerebrozinho prejudicado. Não exatamente maturidade, mas visão de futuro. Era óbvio que nada seria cor-de-rosa. Era óbvio que nada seria recebido como uma notícia banal. Alguém seria chato e adulto e mandaria ela dar um jeito de arrumar a vida, sob pena de perder tudo o que conquistou! Lógico.

Então talvez fosse mais fácil manter o sonho. Claro. Super mais simples. Pega-se o cérebro e divide-se em dois. Parte vai cuidar da chatíssima vida prática e real, a outra cuida de sonhar, delirar, imaginar coisas incríveis e histórias de amor.

O que? Você acha ridículo? Pois eu vou te dizer que depois de todos os meus milênios de vida e quilômetros de estrada, eu não conheço alguém que não tenha um sonho secreto. Não conheço quem não leve uma vida dupla. Não estou dizendo que as pessoas vivem uma vida REAL que é dupla. Mas que elas vivem a vida real "E" uma imaginária, todos os dias. Sim! Pasme! O mundo é esquizofrênico. Até os psiquiatras são! (talvez eles até sejam mais)

Os “normais” sonham acordados enquanto lavam louça, dirigem para o trabalho, sentam no ônibus no banco de trás, ou se seguram no cano do metrô. Assim que chegam onde tinham que chegar, o despertador da mente toca, eles acordam e começam a vida. Talvez repitam isso várias vezes ao dia.
Os outros fazem tudo isso, mas nunca acordam. Passam a acreditar em suas próprias histórias e acabam metendo os pés pelas mãos. Porque como disse Lincoln, não é possível enganar a todos o tempo todo – o que ele esqueceu de dizer é que é um pouco mais fácil enganar a si mesmo, mas a hora da verdade sempre chega, e aí vem o mais grave de todos os tombos.

Conheci gente que jura que é legal. Jura que é tudo o que todo mundo precisa para sobreviver. Jura que é competente, profissional, adorável, amigo, feliz, generoso, indispensável, e se faz assim mesmo, por algum tempo. Por onde passa, a história se repete: de uma hora para outra o mundo começa a desmoronar e ele não consegue entender porque. Essa é a hora em que a máscara cai, e as pessoas que “precisavam” dele começam a perceber que há pouco de verdade no auto-retrato que ele pintou. Então ele começa a perder as rédeas da coisa, joga um contra o outro para tentar se defender e acaba perdendo o controle, mostrando exatamente quem é: fraco, limitado, complexado, incompetente com a própria vida, invejoso, agressivo, violento, neurótico, psicopata.

A tênue linha que separa os que deliram dos que acreditam em seus delírios.

Mas ela era uma louca do bem. Quando não aguentava mais, fugiu para um parque, sentou embaixo de uma árvore, resolveu chorar e colocar para fora todos os seus monstros, seus bofes, seus tormentos. Quando conseguiu ver todos eles ali na sua frente, agiu como quem cata feijão: os bons para cá, os ruins para lá. Se eu cozinhar tudo junto, vai ficar uma nhaca! Se eu guardar só os ruins não vou poder me alimentar. Se eu limpar tudo e ficar com os bons, estarei nutrida e posso sobreviver.

Foi assim que ela quase fechou o cérebro para balanço. Foi assim que ela enterrou a parte podre do coração. Foi assim que aprendeu a sonhar tranqüila e colocou as pernas da vida de volta no lugar. Feijões. Os que prestam e os que estão vazios. Os que alimentam e os que enganam o estômago. Os que são plantados e vingam, e os que servirão de adubo.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Meus Poetas

José Buffo, poeta meu.


tem gente que é poeta porque
só de existir
já é pura poesia.

Solda, também.



***Fotos roubadas do site do Solda

segunda-feira, outubro 08, 2007

A Yellow Walk in the Morning

Meu mundo é amarelo!

Fotos tiradas hoje, com o meu super-celular, depois de correr 4 km percebendo que a primavera tem uma cor.


Me acorda quando algo novo acontecer!


Incrível como o tédio tem um rosto!

quinta-feira, outubro 04, 2007

O melhor do meu mal humor

Preciso fazer um power point chamado "A Vingança".
Quero encher todas as caixas postais das pessoas que me mandam arquivos .pps, com o meu próprio slide bomba! Seria algo assim:

Slide 1: Se você abriu este arquivo, com certeza já passou dos 40 anos.

Slide 2: Não?

Slide 3: Então você precisa fazer um exame para detectar a sua idade mental.

Slide 4: Pesquisas comprovam que uma nova doença vem atingindo mulheres ao redor do mundo, com incidência mais grave no Brasil. CUIDADO!

Slide 5: É a Síndrome do PPS: virus gravíssimo e ainda sem cura , que altera a capacidade de discernimento entre "divertido e ridículo", "bonito e piegas", "cool e brega", etc etc.

Slide 6: Os casos mais graves atingem os neurônios de modo a alterar o gosto musical das vítimas, fazendo com que elas realmente achem lindas as músicas da Maria Betânia e da Celine Dion.

Slide 7: Se você tem algum deste sintomas, limpe a sua caixa postal.
Manter determinados slideshows em arquivo, pode causar danos irreparáveis e irreversíveis ao seu cérebro. Principalmente quando eles chegam com o título: "lindo! aumente o som!"
Os mais contagiosos:
. os que tem letrinhas dançantes
. fotos de homens parrudos de tórax à mostra
. qualquer gracinha usando fotos de "ídolos da tia", tipo Richard Gere ou George Clooney
. textos de auto-ajuda sobre a força da mulher, a força do amor, ou a superioridade feminina

Slide 8: DEFENDA-SE! PROTEJA-SE! MOSTRE O SEU PODER!

Slide 9: Mande este e-mail para o maior número de pessoas da sua lista. Uma amiga demorou 24 horas para fazer isso e estas foram as coisas terríveis que aconteceram com ela:

Slide 10:
. O personal da academia nunca mais deu oi com beijinho quando ela chega.
. O jogo de cartas de quinta-feira foi cancelado sem data para voltar
. Todos os reality shows de decoração, alimentação, dieta, e make overs saíram do ar na TV a cabo dela
. A microsoft não deu um monte de dolares por ela ter encaminhado todos aqueles e-mails
. Ela parou de receber textos dos outros assinados pelo Jabor
. Os shopping centers proibiram sua entrada indefinidamente
. E o mais grave: A empregada dela pediu demissão!

NÃO PERMITA QUE ISSO ACONTEÇA COM VOCÊ! ENCAMINHE!

terça-feira, outubro 02, 2007

Efeito Brokeback Leibovitz


Eu já disse que eu choro?
Claro que já. Mas fazia tempo que eu não dizia. Só não fazia tempo que eu não chorava. Se eu fosse tentar mentir, vocês saberiam, porque ha dois post eu estava chorando. Pois é...porque eu choro!

Demorei para acordar hoje. Não assim, de acordar tarde. Acordei cedo mas já meio anestesiada. O dia de hoje já tinha uma cara de quem queria chorar. Tomei café, paguei conta (blegh! odeio o primeiro dia do mês), não li o jornal, entrei online...conversei um pouco e fui para a cama.
A porta do quarto estava aberta para o jardim, com um dia lindo e gelado lá fora. Um vento delicioso entrando e gelando as minhas pernas, então eu me cobri, fiquei sentada na cama e abri o meu presente de aniversário. Abri porque um livro se abre. E este é grande. é quase preciso usar as duas mãos para abrí-lo. Pois abri e comecei a virar as páginas esperando encontrar apenas o trabalho brilhante de um fotógrafo, mas encontrei bem mais. Encontrei o relado de uma vida. O retrato de um amor, da sua descoberta ao seu fim, se é que acabou. Não...se tivesse acabado não estaria num livro.
É o livro da Annie Leibovitz chamado "A photographer's Life", onde ela conta através de fotos, sua história de amor. Ou seriam várias histórias de amor e uma de grande coragem e generosidade?

As fotos mostram momentos de cumplicidade extrema entre ela e a escritora Susan Sontag. As viagens, o apartamento, a vista do estúdio, escritos de uma e fotos da outra...e vai de 1990, quando tudo começou, a 2004, quando Susan Sontag morreu de câncer no útero e leucemia. Ao mesmo tempo, vemos os pais de Annie envelhecendo até o aniversário de 90 anos da mãe e a morte do pai, também em 2005. É uma história de amor em família.

Quando a filha mais nova de Annie - Sarah - nasceu, Susan já estava doente. E as fotos registram passo a passo sua doença, mostrando uma coragem imensa das duas.
Conheço pessoas que acharíam absurdo fotografar a morte lenta da pessoa que amam. Mas folheando o livro, o que se vê é lindo. Mesmo quando Suzan não tem mais um dos seios, ela se mostra nua nas fotos. Quando faz quimioterapia, Annie está lá com a câmera. Quando precisa cortar o cabelo, quando está no hospital se preparando para uma cirurgia, quando a cama de hospital está vazia na sala de estar dos pais de Annie, quando Susan está morta, quando está vestida para o funeral. E Annie. E a câmera. E a atenção. E esse amor todo.

Dá para pensar que o livro é tétrico e fúnebre, mas não é. É editado de uma forma que se vê a vida passando e mudando durante 15 anos. Nas últimas 20 páginas, você já é parte da família e já sofre por ver Susan terminando aos poucos e Annie ao seu lado, ou melhor, na sua frente com a câmera. É incrível. Tudo isso sem texto...apenas com fotos de uma força imensa.

O dia passou calminho, ainda sob o impacto das lágrimas matutinas, e a noite chegou. Lá fui eu assitir Brokeback Mountain. Ai meu deus! Que tristeza! Quanto desencontro e quanta dor...Quanta delicadeza...Não preciso dizer o quanto eu me debulhei. O abraço dos dois, ao se reencontrarem quatro anos depois, foi uma das coisas mais eloqüentes que eu vi no cinema, em anos. E credo como eu chorei! E tem milhares de sentimentos engasgados e observações e coisas passando pela minha cabeça que não são traduzíveis. Não ainda. Não hoje.
E eu, que choro, chorei.

Então...este foi o meu dia gay. Será que os gays amam mais bonito que os héteros? Me pareceu.
Nem quero escrever mais. Meus olhos estão embassados e ardendo. Acho que preciso dormir, ou chorar mais um pouco e digerir o baque.

Bom dia.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Atire a primeira pedra!


Somos todas loucas.
Você não? Hm...não ainda! Ou é ex-louca. O fato é que toda mulher já surtou um dia, ou está a ponto de, ou vai surtar mais tarde. SURTAR é verbo feminino. Prerrogativa de mulher.
Homem não surta. Quer dizer...surta, mas diferente. Tem ataque de pelanca! Surto de homem inclui gritos, coisas quebradas, soco na cara do opositor, chute em objetos no caminho, cantada de pneu, essas coisas mais patéticas.
Surto de mulher é silencioso. Ta, ok, nem sempre. Antes do silêncio talvez a gente quebre um telefone na parede, atire o celular pela janela, quebre um copo. Mas sozinha, amiga...sem escândalo. Mulher que é mulher surta quando é traída ou acha que foi, ou tá num momento rejeição imaginária, mas não mostra pra ninguém. Você quebra seus copinhos, sua mantegueira do aparelho, aquele pato country que você não sabe porque ainda está enfeitando a estante...mas ninguém vê nem os cacos. E depois da tempestade vem o silêncio. Ah, momento perigoso este!

Surto silencioso inclui flores mandadas para si mesma. Vai querer me convencer que você nunca fez isso? Ha! Me engana que eu gosto...Nunca mandou um buquê de flores imenso com um cartão anônimo escrito pelo moço da floricultura? Du-vi-d-o-dó! Se você quiser mentir eu respeito, mas nós duas sabemos, querida...Assim como sabemos que funcionou. Ele ficou furioso, queria saber quem é o mané, desconfiou de uns dois amigos seus e uns três clientes, queria quebrar o mundo, e você foi pra casa com um sorriso delicioso nos lábios. Sweet revenge...

Surto silencioso inclui festas imaginárias. “O que você vai fazer hoje?” “Tenho uma festa.” Hm...ele fica ali quietinho esperando você convidar e nada...Você ouviu um telefonema estranho marcando um futebol suspeito, e resolveu colocar atrás da orelha dele uma pulga maior do que a que está te mordendo agora. Ele vai pro futebol, você vai para a casa da sua irmã ver a novela. Aff...que horror. Mas não atende o celular. E ainda faz hora! Bom é chegar bem tarde, depois dele! E quando você finalmente atender o celular, já está chegando em casa! “ah...esqueci o celular no carro.”
Você também nunca fez isso. A-hã. Acreditei. E nunca apagou nenhum nome da agenda do celular dele. E nunca vasculhou as mensagens de texto. Não sabe a senha da caixa postal dele, nem a do e-mail. E nunca respondeu o e-mail daquela “amiga fofa” que ele tem, dizendo:
“Oi,
O fulaninho nunca lê os e-mails dele, por isso eu resolvi responder.
Tudo bem com você?
Saudade...”

Claro! Você é uma mulher equilibrada, esqueci. Você jamais mandaria a secretária dele passar para você a ligação quando aquela mocréia que vive dando mole pra ele ligar. “Ele não está. Quer falar com a esposa dele?” Imagina. Quem faria uma coisa dessas?

Surto silencioso pode ser o mais perigoso dos momentos de surto. É nesta hora que você liga compulsivamente para “a mulher dele” e desliga na cara. É nesta hora que você liga para o seu ex para matar a saudade. É nesta hora que você planeja um dramalhão, tipo um sequestro relâmpago... e você tentou ligar para ele milhões de vezes... e está tão chocada que precisa que ele fique ao seu lado. É nessa hora que você compra uma lata de cerveja, joga o líquido fora, e coloca a lata no bolso da porta do carro, do lado do passageiro. “O que? Pensa que só você tem amiguinhas para dar carona? Nada! E os meus caronas bebem!”
Ele sai de casa sem celular, você não faz idéia de onde ele esteve, mas jura de pé junto que uma tal CARLINHA ligou no celular dele! Ele fica nervoso, furioso, não conhece nenhuma Carlinha, mas vira um anjo nas próximas duas semanas para não te irritar.
Confessa que você já se deu presente de aniversário, já se mandou cesta de café da manhã no aniversário de casamento dizendo que era da turma do escritório, já inventou festa, amigo imaginário, um cliente que te irrita porque fica se insinuando, um momento de fragilidade extrema, um cabelo novo inimaginável que faz ele pensar que é influência do cara alternativo que trabalha com você. Vai...pode falar. Todas nós somos loucas. Já nascemos assim.
Eu conheço uma que compra sapatos quando se sente rejeitada. Muitos sapatos. Deixa todos escondidos no porta-malas do carro. Quando usa um e o marido diz: “Wow! Sapato novo?” Ela tem um chilique histérico dizendo que o sapato é velho e isso prova que ele nunca repara nela! Conheço outra que cada vez que o marido faz uma viagem suspeita, sai e compra um jóia. Assim, tipo uma vingança inexplicável. I don’t get it! Mas ela ainda tem a manha de escrever o valor mais baixo no canhoto do cheque, só pra irritar.
Não são só as casadas e mais velhas que surtam, não. Vai dizer que você aí, mais novinha, nunca teve um pití e bloqueou a criatura no MSN e ficou vendo se ele estava online ou não, só para dar uma gelada básica e fazer ele te ligar? Nunca abriu um Orkut fake para testar a fidelidade dele? Ou pior, um Orkut fake masculino para fazer ciúme? Duvido! Duvido! Somos todas loucas! Desde pequenas. Desde que batemos na priminha porque ela tava brincando com o nosso brinquedo. Desde que odiamos aquela menina loira da sexta série porque o Flavinho, o Cauê, o Fernando, sei lá quem, estava conversando com ela. Ha!

Se você nunca teve um surto silencioso com trejeitos de vilã de novela, atire a primeira pedra. E mesmo que você atire, eu não vou acreditar. Eu atiraria também...só pra negar!

segunda-feira, setembro 24, 2007

4.6



O dia chegou com chuva, diferente do que foi há 46 anos, e sem festa, diferente do que foi também quase sempre. Não festa festa. Só festa assim, de barulho e gente festejando.
Pela primeira vez em muito tempo, acordei sozinha. Ninguém na minha cama, ninguém na minha casa. Não não! Isso não quer dizer que eu esteja ou seja sozinha....só uma contingência de momento. Só porque não se faz aniversário numa segunda-feira, catzo! Que dia besta!
Claudio há milhares de kilômetros, Diogo na casa quase dele, Natasha na escola. Pois é...assim são os aniversários das mães. hahahah! Dramalhão! Mentira! Só quando é segunda-feira, este dia besta, catzo!
Então adivinha qual foi a primeira voz que eu ouvi hoje? A do meu pai. Ufa! Já falei longamente uma vez, o quanto é maravilhoso ouvir a voz dele me dando parabéns todos os anos, principalmente quando ninguém acreditava que isso pudesse continuar acontecendo. Se isso não é felicidade, não sei o que é. Mais uma vez, aquela voz forte e sorridente nos meus ouvidos logo cedo. Isto é um presente!
E agora, enquanto eu escrevia, minhas duas empregadas perguntaram se podiam subir para falar comigo e me deram mais um presente e tanto: elas me interromperam para me felicitar e dizer, nestas palavras: "uma patroa como a senhora, ninguém nunca mais vai ter. A senhora tem sido muito mais do que uma mãe para a gente, e a gente veio agradecer, porque não existe ninguém no mundo capaz de fazer tudo o que você faz. A gente não tem nada para dar, mas tem muito para agradecer."
E eu chorei! E ainda estou chorando. Elas não fazem a menor idéia do quanto "me dão" todos os dias com o carinho com que cuidam de mim, da minha família e da minha casa. (Fora a paciência que têm comigo).
Eu, que comecei a escrever querendo brincar sobre fazer 46 anos, agora estou afogada em lágrimas. Ia pedir um botox e um super-lift-alguma-coisa, talvez uma conversa com o Dr. 90210, agora só quero uma caixa de klinex.

Uma vez eu contei para vocês que talvez apareçam amigos estranhos no meu velório: a caixa da padaria, o moço do estacionamento...pois é mesmo...assim que eu sou. Existem essas pessoas na minha vida, que muita gente não dá valor, mas que costumam encher o meu coração de um sentimento muito bom, e me mostram todos os dias que o que existe dentro de mim faz pequenos milagres por aí. E são essas pessoas que fazem pequenos milagres em mim. Pessoas que os outros não conseguem olhar nos olhos, como a sogra, a empregada, o moço da floricultura, a secretária, são as pessoas com quem eu não me importo de perder algum tempo e dar a elas o que elas precisam, que é um pouco de atenção e um olhar dentro dos olhos. Em troca, elas me dão uma força incrível para ser quem eu sou e me dizem, com um sorriso apenas, que aquele não foi um tempo perdido.

Ao fazer 46 anos - o que não é mais 40 e poucos, mas já quase 50 - eu posso dizer que até este momento da minha vida eu sou completa. Tive a sorte de realizar muitos dos meus sonhos. Tive perseverança para terminar trabalhos que eu nem sabia que era capaz de começar. Nunca fui santa, mas nunca fui cruel. Tenho dois filhos incríveis e um marido que me fez ficar e amar e perceber que a vida pode ser tranquila e não precisa ser, para sempre, um turbilhão de acontecimentos para se ser feliz. Tenho uma casa linda, que pode sim ser chamada "home", e muitos outros lugares onde também me sinto em casa. Tenho uma família que vive em paz e soube resolver todas as velha picuínhas para poder se amar para sempre. Consegui ser um tipo de "fator de união da família" e manter todos debaixo do mesmo teto nos Natais e aniversários. Usei todos os meus talentos e todos eles me deram prazer: tenho fotos feitas por mim nas paredes da minha casa, vasos pintados por mim no meu jardim, textos escritos por mim publicados aqui e em outros lugares, pensamentos meus circulando por várias outras cabeças, pessoas que me chamam de "irmã" em vários países e cidades. E quando todos esses corações estão em recesso, eu sou a melhor das companhias para mim mesma. Acho que isso deve ser "ter uma vida plena".
Por isso, e por tantas outras sortes, felicidades, alegrias, pessoas, momentos, amores, etc, etc, etc...eu agradeço!
Um dia disseram que eu sou como a luz da varanda atraindo pessoas, como insetos que gostam de voar ao redor da luz nas noites de verão. Mas eu acho que tive a sorte de viver cercada da luz imensa de todos estes "insetos" que fazem de mim uma pessoa melhor.

Bom dia, flores do meu dia. E obrigada por me fazerem existir.