sexta-feira, outubro 12, 2007

Feijões


E se naquela manhã ela tivesse um ruim e contasse para todo mundo que a vida dela estava virada de cabeça para baixo?
Será que as pessoas reagiriam como ela queria? Sim, porque na ilusão equivocada dela, todos diriam: “okay…certo então…vai em frente.”
Vai! Enfrente! Enfrentar nada. No mundo cor-de-rosa que ela criou não existia espaço para a vida real. E se alguém gritasse? E se alguém se matasse? E se tudo desse muito errado? Ela se preparou realmente para isso?

Sabe como funciona cabeça de criança?
Assim: O menino se acha o próprio Superman, tem certeza que criptonita não existe, então ele planeja três golpes certeiros e uma fuga para o alto…pronto! Eles está preparado para enfrentar os meninos da escola. Chega a hora e ele avança logo para cima do maior. Desfere um soco na barriga dura do garoto e machuca sua mão, fica sem força para os outros dois golpes e a fuga para o alto não rola. Ele cai no chão, apanha e é suspenso da escola, ainda leva uma baita bronca dos pais em casa, e tem que voltar para a escola sozinho, no dia seguinte, e encarar todo mundo. Ha! Ele esqueceu do plano B, e nem pensaria em um. Ele só pensou em sua saga vitoriosa de herói super-poderoso.

Assim era ela também. Como menina que planeja a fuga para a festa, escondida da mãe, mas esquece de pensar em como vai voltar ou entrar em casa de madrugada.
Pois…E se ela contasse para todo mundo que sua vida estava de pernas para o ar? Ha! Apesar dos pesares, já existia um quê de maturidade naquele cerebrozinho prejudicado. Não exatamente maturidade, mas visão de futuro. Era óbvio que nada seria cor-de-rosa. Era óbvio que nada seria recebido como uma notícia banal. Alguém seria chato e adulto e mandaria ela dar um jeito de arrumar a vida, sob pena de perder tudo o que conquistou! Lógico.

Então talvez fosse mais fácil manter o sonho. Claro. Super mais simples. Pega-se o cérebro e divide-se em dois. Parte vai cuidar da chatíssima vida prática e real, a outra cuida de sonhar, delirar, imaginar coisas incríveis e histórias de amor.

O que? Você acha ridículo? Pois eu vou te dizer que depois de todos os meus milênios de vida e quilômetros de estrada, eu não conheço alguém que não tenha um sonho secreto. Não conheço quem não leve uma vida dupla. Não estou dizendo que as pessoas vivem uma vida REAL que é dupla. Mas que elas vivem a vida real "E" uma imaginária, todos os dias. Sim! Pasme! O mundo é esquizofrênico. Até os psiquiatras são! (talvez eles até sejam mais)

Os “normais” sonham acordados enquanto lavam louça, dirigem para o trabalho, sentam no ônibus no banco de trás, ou se seguram no cano do metrô. Assim que chegam onde tinham que chegar, o despertador da mente toca, eles acordam e começam a vida. Talvez repitam isso várias vezes ao dia.
Os outros fazem tudo isso, mas nunca acordam. Passam a acreditar em suas próprias histórias e acabam metendo os pés pelas mãos. Porque como disse Lincoln, não é possível enganar a todos o tempo todo – o que ele esqueceu de dizer é que é um pouco mais fácil enganar a si mesmo, mas a hora da verdade sempre chega, e aí vem o mais grave de todos os tombos.

Conheci gente que jura que é legal. Jura que é tudo o que todo mundo precisa para sobreviver. Jura que é competente, profissional, adorável, amigo, feliz, generoso, indispensável, e se faz assim mesmo, por algum tempo. Por onde passa, a história se repete: de uma hora para outra o mundo começa a desmoronar e ele não consegue entender porque. Essa é a hora em que a máscara cai, e as pessoas que “precisavam” dele começam a perceber que há pouco de verdade no auto-retrato que ele pintou. Então ele começa a perder as rédeas da coisa, joga um contra o outro para tentar se defender e acaba perdendo o controle, mostrando exatamente quem é: fraco, limitado, complexado, incompetente com a própria vida, invejoso, agressivo, violento, neurótico, psicopata.

A tênue linha que separa os que deliram dos que acreditam em seus delírios.

Mas ela era uma louca do bem. Quando não aguentava mais, fugiu para um parque, sentou embaixo de uma árvore, resolveu chorar e colocar para fora todos os seus monstros, seus bofes, seus tormentos. Quando conseguiu ver todos eles ali na sua frente, agiu como quem cata feijão: os bons para cá, os ruins para lá. Se eu cozinhar tudo junto, vai ficar uma nhaca! Se eu guardar só os ruins não vou poder me alimentar. Se eu limpar tudo e ficar com os bons, estarei nutrida e posso sobreviver.

Foi assim que ela quase fechou o cérebro para balanço. Foi assim que ela enterrou a parte podre do coração. Foi assim que aprendeu a sonhar tranqüila e colocou as pernas da vida de volta no lugar. Feijões. Os que prestam e os que estão vazios. Os que alimentam e os que enganam o estômago. Os que são plantados e vingam, e os que servirão de adubo.

5 comentários:

rafaela disse...

Viu, feijões! Nesta semana filosófica da minha vida, vc me mostra feijões são um bom começo para solucionar nossos problemas.
bj

Pati Castilho disse...

Hummm...Mê, sabe aquele texto, sobre o sonho? Não precisa mais ...O que eu queria mesmo eram feijões!
tks, bj

Mercedes disse...

Rafa, mas Platão devia dizer alguma coisa um pouco mais complicada, que queria dizer a mesma coisa. Relaxa! hahahaha!

Pat, sei...sonho, feijão, delírio, tudo a mesma coisa! hahahaha

Beijos

marcos freitas disse...

wow

Anônimo disse...

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