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quinta-feira, outubro 28, 2010

_sede (um conto de halloween)

Se você tem estômago 
fraco e a mente imaculada, 
não leia este post.


Era uma daquelas noites em que eu não podia esperar nada além de um sonho bom, já que nada  especial poderia acontecer.
Ah sim... aquele seria o cenário perfeito para um crime: um quarto de hotel de sonho - desses que os mortais só vêem em filme - a lua perfeita pintando de azul todas as coisas brancas da terra; a brisa fria e calma dançando com a cortina pálida numa dança lenta e quase sexy...e um olhar distante.
Mesmo no lugar perfeito, com o figurino perfeito, eu sabia que o toque dos nove travesseiros brancos espalhados na cama, seria a única coisa que eu sentiria durante o sono.

Talvez.
Se ninguém tievesse batido na porta, garrafa de Sake numa das mãos, a outra no bolso, um sorriso irônico, e uma sede enorme rasgando a garganta.
"Seu drink favorito."

Nem uma palavra em retorno. Só um meio sorriso. Mas ele sabia que devia entrar e encontrar um jeito de abrir a garrafa e mais cedo ou mais tarde, eu abriria um sorriso.
Fiquei em silêncio.
Eu o segui com os olhos quando ele entrou como se o lugar fosse dele. Ele sempre teve esse jeito no olhar que parecia dizer que eu era dele, e dele era tudo o que me cercava. Fechei a porta com um empurrão enquanto ele abria a garrafa com a faca que tirou do bolso.

"Que tipo de homem carrega uma faca?" -- pensei em dizer mas, antes que as palavras saíssem, lembrei que ele era esse tipo de homem. Talvez tivesse uma maior na mochila, quem sabe mais.
Ainda na porta, vi quando ele lambeu a lâmina antes de guardá-la. Fechei os olhos num suspiro mudo, só eu sei o que me veio à mente. Ou ele também, porque quando abri os olhos, ele estava sorrindo.

"Saudade?"


Saudade...do que mesmo eu teria saudade? De ter alguém ao meu lado na cama, fosse quem fosse -- e ele servia muito bem a tal propósito -- ou das coisas que eu sabia que jamais teria com outro, não nessa, nem em outra vida?

Ele pegou dois copos, serviu duas doses, me entregou um deles e levantou o dele num brinde.
Virei o Sake num só gole e estiquei o copo pedindo mais. Ele me serviu e continuou parado me olhando, sem se mover. O sorriso não era irônico...era um misto de ironia e admiração...era alguma coisa que me dava frio da barriga e medo. Cheguei a pensar que o Sake estaria envenenado ou que ele havia usado algum calmante, mas o medo passou quando lembrei que ele não tinha motivos para me dopar. Mais do que ninguém, ele sabia que não precisava de artifícios para me seduzir. E mesmo que houvesse dúvida, eu beberia, porque não passaria mais dez segundos sem saber o que ele faria comigo.
Este era o eterno jogo. Ele era perigoso, mas eu pagava pra ver. A confiança era cega, e era mútua. Se um dia eu não sobrevivesse, teria morrido tranquila.
Quebrei o silêncio, e o sorriso dele.

"Como você me achou?"
"Você deixa rastros."
"Não dessa vez..."
"Eu sinto o seu cheiro.
"

Eu atravessei o quarto rindo e fui até a janela. Sabia que ele me acharia mesmo que eu mudasse de planeta. Ele sempre achava...mesmo que eu tomasse cuidado. Ou talvez eu descuidasse num detalhe ou outro para apimentar a busca. Quem sabe?

"É impossível não seguir teu cheiro..."
-- ele disse me abraçando por trás e puxando para baixo a minha blusa de forma a expor meus ombros. Beijou minhas costas e a nuca, e eu tentei não me mexer, não respirar, não mostrar que morria de saudade daquela boca e daquelas mãos. Mas foi impossível. Num impulso, eu levei minhas mãos para trás, segurei suas pernas e o puxei para mim...senti a faca no bolso da calça. Ele interrompeu o beijo por um segundo e voltou a beijar minhas costas sorrindo.

"Saudade...eu sei."
Eu balancei a cabeça num não, mas estava mentindo: saudade sim.

Ele me virou e me beijou na boca. Os corpos colados, a blusa escorrendo pelo ombro, a barba roçando a pele, uma longa lambida no pescoço... e minha cabeça tombou para o lado, olhos em transe. Ele conhecia os meus sinais...
Senti a lâmina fria tocar minha pele e um suspiro profundo veio do estômago, numa contração forte. Ele sabia. Um corte. Nem raso nem fundo: preciso. A língua quente, o gemido...
Senti a faca fria na mão como um pedido urgente e mais do que rápido fiz um corte em seu peito e deixei o sangue correr. Ele se afastou para olhar, a boca suja de sangue me beijou novamente, depois guiou minha boca até o corte. O gosto morno indescritível do sangue era o que guiava a nossa loucura. Sempre. Mas naquela noite, seria diferente.

Joguei a faca na cama e ele sorriu extasiado. Era hora de matar a sede.
Sempre cortes discretos capazes de cicatrizar rápido sem deixar grandes vestígios, mas em lugares onde o sangue é farto...essa era a regra e essa era a graça de fazer amor -- nos lambuzando um no sangue do outro até o gozo, até o êxtase, até nem um de nós ter um único milímetro de pele limpa.

Mas naquela noite, seria diferente.
Enchi a banheira e o convidei para entrar comigo. Bebemos mais, nos beijamos mais...Por fim, descansamos. 
Ele deitou na banheira, eu montei sobre ele e ele entrou em mim. Enquanto fazíamos amor eu peguei a faca na borda e esperei o momento. Ele pedia que eu o cortasse e eu me recusava, dizia que não, ainda não era a hora, mas ele pedia de novo e de novo, e ficava mais excitado quanto mais a expectativa do corte crescia...e eu esperei e esperei...e veio o gozo... foi quando, num movimento rápido, eu fiz um corte profundo em sua perna, rompendo a femural e, num segundo golpe, levei a lâmina até a minha própria perna e fiz o mesmo.

O sangue tingiu a água quente, enquanto um prazer intenso nos tomava...

Nos beijamos uma última vez.



Happy Halloween!

terça-feira, agosto 10, 2010

_coisas da vida #8

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É só uma coisa da vida, mas vamos combinar que estamos falando da MINHA vida, e aí não é bem assim. Eu já disse -- ninguém acredita -- mas as coisas que acontecem na minha vida não são normais. Eu fui sorteada. Deus deu três piruetas e parou apontando o dedo randomicamente para lugar nenhum, só que "lugar nenhum" era eu. O que eu estava fazendo bem na frente dele, não se sabe....o que eu sei é que aí já deu para ver que eu nasci assim, toda do avesso.

Então era 1980 e alguma coisa no final que eu não me lembro. Eu morava sozinha com meu filhote num apartamento perto do Parque Barigui, em Curitiba, e estava em fase de castigo (já falei sobre isso antes), indo de casa para o trabalho, do trabalho para casa, e nos finais de semana sem filho me reunia com meus cinco amigos preferidos no que chamávamos de "Festa de Babbette", pela pobreza absoluta dos cinco na época. Nossos banquetes não passavam de uma lazagna ou algo do gênero, que fazíamos nos amontoando na cozinha e dando risada até passar mal. Mas, vamos ao que interessa.

Naquela época eu era conhecida (não ria!) como "Rainha do Radio Táxi", porque trabalhava em agência de propaganda há 300 anos e não tinha carro, então ganhava um bloquinho de vale-taxi no juizo final...oops...no final do mês, para ir trabalhar. Sendo assim, as atendentes da central reconheciam minha voz, os motoristas todos sabiam tudo de mim (e contavam para todo mundo), e tinha gente que usava o meu nome em dia de chuva para garantir que o táxi chegasse.
Well, 8:15 da manhã, hora de discar o velho e bom número: 3262-6262. Mas eu fiz alguma coisa errada e quem atendeu foi uma secretária eletrônica. Tentador: eu e o meu bom humor insuportável, resolvemos anotar o número discado e deixar um recadinho.

- "Nossa...desculpa, eu liguei errado...o que é uma pena porque a sua voz é incrível. Então bom dia pra você...beijo."
Ha! se um dia eu prestei, foi bem pouco.

Até aí tudo lindo. Liguei para o taxi, desci e fui trabalhar como se nada tivesse acontecido, até porque nada havia acontecido. Mas voltei para casa à noite. Jantar, brincar com o filho, banho na criancinha, coloca na cama, lê uma história...validade de mamãe vencendo...beijo tchau, apaga a luz, sonha com os anjos te amo.
Tédio...casa vazia...silêncio mortal porque eu sempre esqueço de ligar a TV. Fui arrumar umas coisas e "Olha o que eu achei!...o número que eu anotei!"
Quem resistiria, não é? Liguei. A secretária atendeu de novo.

-"Oi, você ligou para xxx-xxxx, eu não estou aqui agora, então deixe o seu recado...você sabe como."
E eu respondi.
- "Oi, sou eu de novo. Liguei errado hoje de manhã quando estava ligando pro táxi...aí achei que devia ligar pra ouvir a sua voz de novo. Que bom que você ainda está aí. Então...meu dia não foi lá essas coisas...trabalho normal, cliente chato e tal...mas eu acabo me divertindo no meio do dia. Pena que você não pode me contar o seu né? Então...beijo. Dorme bem."
E essa se tornou a minha brincadeira preferida durante alguns meses. Quase todos os dias eu ligava para o moço da secretária eletrônica e contava o meu dia. Assim, feito maluca mesmo: contava história, dava risada, contava o filme que eu vi...para uma secretária eletrônica.
Um dia ele atendeu o telefone e eu surtei. Desliguei na cara dele. Meu coração quase saiu pela boca, eu tremia. hahaha! Esperei passar a tremedeira e liguei de novo. Ele atendeu.

- "Fala comigo".

- "Desliga...eu só falo com a secretária."

- "Por favor..."

Desliguei e liguei de novo, a secretária atendeu e eu contei meu dia outra vez. Essa era a rotina. Todos os dias, sagradamente, eu falava horas com aquela máquina. Deixava cinco, seis recados, contando coisas variadas, sem dizer meu nome, sem dar detalhes de mim.
Mas chegou o dia em que eu estava matando a pessoa e ele me deu uma dura. Quando eu liguei, a secretária atendeu com um novo recado:

- "Se você não falar comigo hoje, não vai falar com mais ninguém porque eu vou desligar a secretária. Eu não aguento mais: você está acabando comigo."
Ui! eu contei até dez e liguei de novo. Ele atendeu. Conversamos horas naquela noite. Mais horas na noite seguinte e assim todos os dias por muito tempo. Minha única exigência: não diria meu nome, e nao queria saber o dele.

No que pode dar uma história dessas? Todo mundo sabe, não é novidade: paixão. Óbvio!

Um dia, contando uma história, ele falou o nome sem querer. Em troca eu tive que dizer o meu. Depois soube que ele era instrutor de paraquedismo. Eu sou fraca...não aguentei e fui até o aeroclube ver que cara ele tinha. Escondi a cabeleira loira (era o único detalhe meu que ele conhecia) dentro de um boné, cheguei, perguntei por ele, estava no hangar, fui até lá...vi alguém com a bunda mais incrível jamais vista em terras brasileiras, logo abaixo de um costado cheio de músculos que terminava num par de ombros que ocuparia de ponta a ponta uma quadra de tênis...e o dono disso tudo, virado de costas para mim. Sentindo a minha presença, ele me olhou, eu olhei para ele, sorri, e continuei andando como se estivesse indo para outro hangar.

Ele era um menino...não tinha 18 anos...eu não poderia...

Mais tarde eu soube que, na época que eu falava com a secretária eletrônica, havia uma platéia fiel que se reunia na casa dele todas as noites depois do jantar para me ouvir. Depois soube que eu falava com duas pessoas: ele e o roommate -- eles tinham vozes parecidas -- quando a conversa ficava mais saidinha era o roommate falando comigo à traição, quando era mais melancólica e apaixonada, era o dono da voz. Depois, bem mais tarde, eu soube que a vida dele era pior do que as páginas de um romance policial. Complicadíssima! Ele era um amor, tadinho, vítima de uma história feia da qual ele não tinha culpa. Virou meu amigo,  assim como a namorada que foi minha grande amiga durante muitos anos, mesmo depois que ele foi embora.

E assim acabou a história da secretária eletrônica. Um romance telefônico de alguns meses, amigos que ficaram para sempre, e um punhado de tempo com o coração disparado: coisas que sempre me fizeram achar que viver é bom demais.

Sou louca? É...parece que já faz tempo.

domingo, junho 27, 2010

_Math

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Se X é igual à luz que emana dos olhos e Y é igual à reação causada pelo fator X, Y é igual à toda a luz que move o mundo, vêzes as vêzes que os olhos olham; sendo A o desejo de X e B o elemento que impulsiona a energia de X. 
Então B + X = Y, fazendo com que A seja moto-continuo. Então ABX=Y elevado a uma potência impossível,  dizimando da face do planeta toda e qualquer razão.
Logo ABX=Y = Caos. 
Y=Caos.

ººº

Treze mil cento e quarenta minutos indescritíveis igual a setecentos e oitenta e oito mil e quatrocentos segundos intermináveis, que é igual a setecentos e oitenta e oito milhões e quatrocentos mil milésimos de momentos eternizáveis...que são duzentas e dezenove horas que nunca deveriam acabar.



Acho que é isso.

Confuso.

domingo, junho 20, 2010

_sapo na boca da cobra

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Peguei o carro, bati a porta e não olhei pra trás.
Chega! Não tinha como passar mais tempo sem olhar nos olhos dele e ver se tudo o que ele me fazia sentir de longe se repetiria assim, olho no olho. Muito medo. Muito medo, porque só de pronunciar a palavra “olho” me vira o estômago. Motim das tropas de borboletas! Elas estão armadas, atirando pra todo lado e...ai, pelo amor de deus! Parem de bater essas asas que eu vou passar mal. Frio no estômago master.
Cheguei em frente à casa e pensei dez vezes. Vou não vou, vou não vou...fui. O portão estava aberto...eu entrei. Nem 15 metros separavam a porta do portão, mas acho que andei uns 10 quilômetros...aquilo não chegava nunca e o único pensamento que eu tinha era o par de olhos escuros olhando dentro de mim. DENTRO, porque eu nunca consegui conceber que ele tivesse um olhar menos poderoso do que isso.

Respira...
Bati na porta uma vez. Nada. Pensei: “ótimo, vou embora.” Mas assim que virei as costas a porta se abriu. Ai. E agora? Desviro? ou faço a louca e corro pro carro e depois digo que não era eu? “Quem, eu? Na sua casa? Imagina...”
Não deu tempo. Borboletas em guerra, frio na barriga, olhos aterrorizantes e eu ainda de costas...e ouvi a voz. O que? VOZ? Eu nunca tinha ouvido a voz dele. Esqueci de contar que esse era outro medo: a voz que eu ouvia quando pensava era linda. Não! Cala a boca! Eu não acho voz de locutor linda...Eu to falando de uma voz gostosa...se bem que eu só pensei nela assim, no meu ouvido...não sei como soaria se ele falasse mais de longe...Tá! Para de ser louca. Foco.

Respira...
A voz disse: “Viu como não é tão longe?”
Que diabo de frase é essa? Sabe quanto tempo eu sonhei com a primeira frase? Vamos falar de geografia? Trânsito? Pavimentação de estradas? Pelo amor de deus, você só tem mais uma chance e eu vou embora. Pois é...pensei. Só que ele não disse a segunda frase. Acontece que eu virei pra ele e vi os olhos. Meu deus! Os olhos eram mais fortes do que eu pensei. Eles não olharam dentro de mim, eles me sugaram pra dentro deles. Os olhos sorriam de um jeito que não tinha como não saber tudo o que estavam dizendo. Ou eu que estava nervosa. Não...mentira. Eu estava nervosa sim, mas os olhos estavam gritando! E aquele olhar foi o suficiente pra eu não saber mais nada. O que mesmo ele tinha perguntado? Longe? O que que é longe? Perto, super perto... Quarenta centímetros de distância? Isso não é nada e com um movimentozinho minúsculo eu consigo voar no seu pescoço e abraçar você pra sempre.
Eu não posso imaginar a minha cara. Acho que eu até prefiro não imaginar, porque eu devia estar olhando pra ele como um sapo na boca da cobra. Romântico?

Aquilo durou uns três milhões de segundos. Nós dois ali, olhando um pro outro, trocando faíscas e pensando “Ai meu deus e agora?” (pelo menos eu pensei), e nada acontecia. Total WTF moment. Mas aí ele esticou o braço, e me pegou pela mão...me puxou pra perto e me abraçou falando no ouvido: “Não acredito que você tá aqui...”. Ai a voz, a voz, a voz...eu acertei em cheio! Era exatamente como eu imaginei.

Pensei em respirar, mas não descobri como fazer isso. Assim que a voz terminou a segunda frase - que eu vou chamar de primeira, pra esquecer aquela outra - ele me beijou no canto da boca. Mas assim...não foi um selinho no canto da boca. Foi um beijo de canto de boca daqueles que você fica perdida sem saber se vira e beija direito ou se finge que nem notou. No meu caso, acho que não consegui fingir coisa nenhuma, mas segurei a vontade de virar e lascar um beijo decente nele. Que raiva! Eu odeio esses joguinhos de sedução. (NOT)

Ele me puxou para dentro de casa sem desgrudar o olhos de mim, tirou a bolsa do meu ombro e jogou num sofá, tirou a chave do carro da minha outra mão, jogou junto, desenrolou meu cachecol sem mover os olhos um segundo...eu ainda estava na boca da cobra, completamente hipnotizada e, muito provavelmente, com cara de quem diz: “eu morro de medo de morrer, mas se é você quem vai me matar, por favor, seu moço...mata bem devagar.” Ai como eu sou besta. Eu tenho a cena do cachecol tatuada no cérebro...nunca vou esquecer os olhos dele naquela hora. Um silêncio mortal. Só a dança daqueles olhos - encantador de animaizinhos indefesos.

Assim que o cachecol deu a centésima volta para fora do meu pescoço, ele levantou os cantos da boca num meio sorriso torto, fechou os dois olhos numa piscada longa como se fosse me libertar daquela prisão , inclinou a cabeça em slow motion - ou eu estava completamente inebriada, embriagada e entregue - chegou mais perto de mim e beijou o meu pescoço. Ai ai ai...PAUSA. Deixa eu explicar que você não pode ir beijando o meu pescoço no primeiro encontro. Principalmente se faz uma semana que você não faz a barba. Não pode! Eu sou uma pessoa fácil, entendeu? Eu me controlo, mas determinadas atitudes valem por uma garrafa de vodca, e aí babau. FIM DA PAUSA.

Um beijo no pescoço que fez uma breve passagem pela minha orelha, passeou pelo rosto, e terminou num longo, molhado, lambido, delicioso beijo na boca.

Ai ai...esse era o outro medo. Epic win though. Nada mais a temer. Se todo mundo prestasse atenção no beijo, ninguém teria decepções na cama. Básico. Lição numero 1: um beijo afoito, urgente, com força, igual a sexo afoito, urgente, com força, quiçá com acrobacias e direito a triplo mortal carpado, atletismos, Daine dos Santos e ai que preguiça! Um beijo seco, sem língua, ou pior, língua estranha que parece um bife na sua boca, é igual a... é... não sei, porque na verdade eu nunca me arrisquei a passar de um beijo assim. Eca! Agora... um beijo como esse - lento, mole, molhado, com tempo, um explorando milímetro a milímetro a boca do outro - que hipnotiza e amolece as pernas... isso é igual a sexo bom. Com tempo... com calma... deixa eu perder uma eternidade aqui que tá bem bom... Deixa eu conhecer mais esse pedacinho... Bem, sexo bom pra mim. Sei lá se é bom pra você, mas também se você não gosta assim eu nem quero saber como você gosta. Azar seu!

Foi tudo muito incrível. Tudo muito de verdade. Brincadeira de gente grande, sem se enganar, sem achar que aquilo era pra sempre, mesmo tendo a imensa tentação de deixar o romance ser maior que tudo. Duas pessoas estabanadas que se deixam tomar por uma total falta de controle  quando uma paixão penetra, entrona, metida, que simplesmente não foi convidada pra festinha entrou e comandou a festa assim, do nada; duas pessoas assim, tendem a querer que aquilo dure pra sempre. Tendem a se deixar enganar só um pouquinho, porque seria bom se amanhã de manhã a gente fosse namorado, se saísse de mãos dadas pra algum lugar, e telefonasse pra dar boa noite, e demorasse pra desligar porque ficar longe é ruim. Mas somos como dois alcoólatras habituados à abstinência e a nossa história é vivida assim por horas, por dias, só mais 24 horas porque amanhã não sei. E foi com essa urgência de quem pode morrer amanhã e precisa aproveitar os últimos minutos de vida, segundo por segundo, - mas sem pressa para não ser triste -  que ele fez amor comigo. Não. Eu fiz amor com ele. Não sei, espera... não foi assim. A gente também fez sexo, assim... sexo. Mas fez amorzinho bonitinho. E conversou mais do que eu esperava, e eu esperava muito. Foi lindo, e foi divertido, e foi, sim, romântico, e foi engraçado às vezes, e se tiver que acabar daqui a pouco eu vou morrer de saudade.
Ai.
Doeu.
Fiquei romântica. Pareço triste, até. Mas não... não estou não. Na verdade bem feliz. Outro epic win. Mas eu não vou contar os detalhes sórdidos que você estava esperando. Só vou dizer que algumas coisa que acontecem na vida são VIDA pura. É como se você abrisse um frasco de “vida concentrada” e bebesse inteiro, pra viver um ano em um dia. Uma overdose de milhares de sentimentos e sensações misturadas, uma vida que é só sua. Um ato ao mesmo tempo egoísta ao extremo, do tipo “eu quero essa pessoa pra mim e fim”, e de uma generosidade imensa, porque você quer dividir com essa pessoa cada gole desse extrato mágico concentrado e vê-la bêbada disso ao seu lado. Um presente duplo: a gente abre junto o pacote, ganha esse presente incrível, e nunca mais vai esquecer. Lindo.

Pois é. Foi assim.




Não seja besta! É claro que essa história é ficção. O primeiro que perguntar se é auto-biográfico eu rogo uma praga e vai ficar burro assim pra sempre.

Bom dia flor do dia.


(Rafaela Pedro, viu só? Falhei de novo...cortei pra lareira.)

quarta-feira, junho 16, 2010

_coisas que você não precisa saber sobre mim

ou...Too Much Information



_Necessidades Básicas:

. Eu não consigo dormir de meia, mas consigo dormir de luva.
. Não durmo antes das duas da manhã, mesmo que vá para a cama às onze. Se acontecer de eu dormir cedo, acordo as cinco e não consigo dormir mais.
. Não reclamo quando meu marido ronca. Ao contrário, uso o ritmo do ronco dele para me ninar. Começo a respirar no ritmo do ronco, vou indo...vou indo...É como contar carneirinho: tiro e queda.
. Eu bebo o tempero da salada.
. Eu fico na mesa do café da manhã me enrolando bebendo café e lendo jornal durante uma hora - já cronometrei - mas posso almoçar em cinco minutos ou nem almoçar.
. Não lembro quando foi a última vez que tomei um copo de leite. Simplesmente desmamei.
. Um quilo de açucar dura dois meses na minha casa.
. Eu não leio no banheiro
. Meu banho não dura mais que dez minutos.
. Odeio banheira.
. Eu esqueço que tenho bebida alcoólica em casa.
. Jogo Bejeweled na cama, no escuro, antes de dormir. 


_Manias idiotas

. Não tenho manias idiotas

_Superstições

. Eu acredito que o meu passado me trouxe ao presente, e me fez ser quem sou. Pensando assim, a aliança do meu primeiro casamento foi feita com ouro de presentes dados por ex-namorados. Achei justo levar essa "bagagem" para a vida adulta. Não repeti isso no terceiro - e último - casamento porque não deu sorte. Então escolhi uma aliança Cartier: aquela que são três alianças entrelaçadas...não sei por que...juro que foi sem querer.

. Não corto bolo de cima para baixo. A primeira fatia é sempre cortada de baixo para cima. Não sei se existe relação, mas a minha vida mudou para melhor desde que decidi fazer isso.

. Não me dou muito bem com deus. Não é que não acredite nele, mas acho a história dele meio furada. Nasci católica, estudei em escola católica e foi lá que aprendi a questionar a existência dele como nos é contada Mas eu rezo o Pai Nosso sempre que a coisa aperta.

. Tenho um papelzinho com o nome dos três reis magos (Baltazar, Belquior e Gaspar) em todos os carros da família, desde sempre. Uma cartomante me disse que eles protegem contra roubo. Funciona.
Adoro a minha cartomante e não venha me dizer que não acredita porque só eu sei...só eu sei...

_Mal humor

. Detesto conviver com pessoas que acordam felizes e barulhentas. Só estou casada há 18 anos porque meu marido acorda depois de mim.
. Eu brigo com o cantor quando a música fica repetindo a mesma frase quinhetas vezes: "Eu sei! Já ouvi! Cala a boca!!" Me irrita...
. Mais do mesmo: odeio rock ou jazz progressivos. Solo chama SOLO. A palavra já diz: sozinho!só você! Vai solar no seu quarto! Me irrita...
. Passo o dia feliz até alguém me perguntar o que vamos fazer para o almoço/jantar. Mania ridícula de comer toda hora!
. Odeio quando me pedem para ligar a câmera no msn/skype/whatever. Se escrevo, consigo falar com três, quatro pessoas, twitar, ver meu facebook. Já com áudio e vídeo vira exclusividade. Depois, eu não ponho o pé na rua desarrumada...agora não posso mais ficar desgrenhada na minha própria casa? E a possibilidade do videofone então? Ai, ai ai...que mané tem que ver a minha cara, onde e com quem estou, pra falar comigo? E se eu estiver no banheiro? Me economize!

Acho que era só.


(é eu sei....listinha é falta de assunto)

sexta-feira, março 12, 2010

_pensamentos negros

Linda Hamilton - Sarah Connor em Terminator II

Eu tenho pensamentos obscuros. Dark mesmo.
Fora meus sonhos acordada e meus delírios sobre histórias de amor com final feliz, cheias de romance e frases que ninguém ousaria dizer, um lado da minha mente é dark as dark can be.

Nos momentos dark eu penso em assassinatos horrorosos, em quase sequestros, enchentes, vendavais, traço planos completos de sobrevivência, penso nas coisas que eu devia estar aprendendo enquanto da tempo. Depois passa. Depois eu respiro fundo e solto o ar pronunciando a frase: "credo que horror!", e passa. Mas não posso dizer que isso só acontece às vezes. Isso acontece muito.
A primeira vez que me assustei com a minha cabeça foi quando estava escrevendo uma história para um roteiro e resolvi tomar um Red Bull de madrugada. Uma porta se abriu e eu disparei a escrever uma sequência que jamais pensei que fosse capaz. Toda uma tática de assalto, violência, bandidos falando com uma realidade que não sei de onde tirei, tiroteio, carcereiro morto, uma fuga fenomenal de uma delegacia, com um plano perfeito, na noite do ataque do PCC.
Quando terminei, foi como se a entidade tivesse ido embora. Li as 30 páginas, de cabelo em pé, assustada com o que havia saído da minha cabeça.
Mas isso não era tão novo. Eu sempre tive visões assustadoras.
De um tempo para cá eu penso no fim do mundo e no que a gente deveria saber para sobreviver a ele. Não que eu acredite que o mundo vai acabar como dizem os profetas do fim, mas anyway...

Em primeiro lugar, preciso aprender a fazer fogo sem meu zippo ou uma caixa de fósforo por perto. Eu já sou a pessoa que faz fogo na minha casa, mas ainda tenho dificuldade com a ausência de pólvora ou combustível. Segundo, preciso ter uma arma. Ou "umas". Não vai ser fácil sobreviver a todas as pessoas que vão querer roubar o que a gente tem...as pessoas vão matar por uma caixa de fósforos ou uma lata de salsicha. Ou bem pior: por sexo. Essa é uma das partes que me apavora...penso em como proteger a minha filha, e meu estômago revira quinze vezes em meio segundo, só por admitir que o pensamento passe de raspão por mim.
Também preciso proteger o meu marido dele mesmo, porque ele é criança de apartamento e não sabe nada da vida sem o conforto da tecnologia, sem falar nas aulas de física que ele matou na adolescência e hoje fazem falta em situações simples como passar uma mesa por uma porta, ou acreditar que um secador de cabelo ligado numa banheira cheia possa matar alguém. (Desculpa amor, não resisti.)

Então... fogo e armas. Preciso aprender a caçar e descarnar um animal. Saber que bicho pode me matar e qual pode ser comido. Que plantas são venenosas e quais podem me curar de alguma nhaca. O que pode substituir um antibiótico? e um antinflamatório?
Preciso de um carro de verdade. De verdade, leia-se um carro mecânico, sem perfumarias eletrônicas, sem computador de bordo, sem frescuras de segurança. Um carro que funcione mesmo que tenha um cabide de lavanderia no lugar do cabo do acelerador. Que não páre quando o airbag estoura. Que ande com gasolina, etanol, caldo de cana, whisky, elixir paregórico.
E preciso de uma bússola, um mapa impermeável, um tênis que dure pra sempre, um binóculo que funcione decentemente e não pese cinco quilos. Preciso de uma pá.

E eu sei onde me esconder se alguém chegar na minha casa hoje. Tem um lugar para enchente, um para ameaças humanas, um para proteção temporária...E na casa que eu estou construindo tem um mini bunker. Claro que não foi construído para isso, mas dá para passar uns dias.
Eu sei...isso é loucura. Será?
Há séculos alguém inventou a chave, a arma, a polícia, e a gente sabe que deve trancar a casa antes de dormir. Todo mundo tem portão e guarda noturno. Mas a questão é que onde eu moro as casas não têm muros nem portões. A maioria tem zero segurança, confiando na portaria cheia de meganhas armados, câmeras de segurança, rádios e carros de ronda. Mas e se um dia dá uma caca generalizada? Ninguém está mais ao deus dará do que nós, pessoas dentro dos condomínios, sem trancas e sem grades nas janelas.
O que eu sei é que esses pensamentos me incomodam e, mesmo ponderando, a única frase que me passa pela cabeça quando avalio tudo e me acho louca, é: Noé construiu a arca ANTES da chuva.
Pois é. Não custa...
Sei lá.

sábado, março 07, 2009

damn vampires


Eu disse para uma amiga ler Twilight se ela quisesse uma coisinha digestiva e deliciosa ...livro de menina, super light. Sim sim...eu recomendei rindo baixinho, sabendo que ela ficaria viciada. E ficou, assim como as outras 40 milhões de pessoas que pagaram por um exemplar de Crepúsculo em 20 línguas diferentes. Sem conseguir resistir, essas pessoas acabaram comprando mais 40 milhões de cada volume da série: Lua Nova, Eclipse e Amanhecer.

Bom, depois de ler a história da Stephenie Meyer, eu pirei. Se não bastasse ter vendido tudo isso de livro e ter ficado indecentemente rica às custas do sangue alheio (piadinha sem graça), ela conta que sonhou com um vampiro que se apaixonava por uma menina e não podia ficar com ela porque a vontade de matá-la era mais forte do que qualquer outra coisa. Quando acordou, Stephenie escreveu o sonho para não esquecer. Wow! O sonho virou o primeiro livro - Crepúsculo - e sem ter escrito nada antes na vida, fechou um contrato de 750 mil dolares para escrever mais três livros. Essas e outras coisas me deixaram morrendo de inveja e querendo perguntar pra ela onde eu assino pra fazer o mesmo pacto com seja lá que demônio ela fez!

Tudo isso é quase sobrenatural, mas não mais do que o fascínio das mulheres pelo vampiro que ela criou. No começo, ele - Edward Cullen - roubou o coração de uma multidão de adolescentes. Em seguida ele invadiu os aposentos das mães dessas meninas e depois disso perdeu o controle. Minha tia de 70 anos está irremediavelmente apaixonada por ele. Minhas amigas de 40 a 55 também. Eu mesma te digo que se esse moço existisse e quisesse o meu sangue, eu o serviria em taças de cristal...e se ele quisesse me matar, no problem, desde que fizesse isso bem devagar (aff!). O fato é que Edward Cullen saiu pelo mundo roubando o coração de cada pessoa que ousou abrir as páginas de "Crepúsculo", fosse homem, mulher, adolescente ou não.
Como faz pra entender? Aí eu que tenho tempo, fiquei especulando a possibilidade de uma criatura supostamente perigosa e mortal exercer tamanha atração. Bom, não é de hoje que histórias de vampiros atraem as mulheres, e nas minhas elocubrações eu cheguei a uma conclusão terrível. Acompanha o meu raciocínio:

. Vampiros são irresistíveis. Feitos para matar, tudo neles atrai a presa para perto de si. Diz Edward Cullen: "Eu sou o predador mais perigoso que jamais existiu. Tudo em mim é convidativo: minha voz, meu rosto, até o meu cheiro, como se fosse preciso...como se você pudesse fugir de mim ou lutar comigo, eu fui criado para matar." Então, por mais que você queria dizer não a ele, ele vai vencer você. Ele é perigoso e forte enquanto você é frágil. Existe desculpa melhor para dizer sim? Quem pode condenar uma mulher indefesa? Você nunca será julgada.

. Ele “ataca” durante a noite pois não suporta a luz do dia. Chega quando você dorme, desprevinida e desarmada, logo – de novo – você não fez nada de errado.

. Quando alguém deseja você, deseja o seu toque, o seu gosto, o seu corpo. Isto é o que estamos acostumadas. E parece suficiente. Mas...quando um vampiro deseja você, é muito maior e mais profundo. Ele quer o seu cheiro, o seu gosto, a sua carne…e não basta que ele lhe domine e possua completamente, ele ainda quer você invadindo o corpo e a corrente sanguínea dele. Ele quer o seu sangue correndo dento dele. Ou seja, ele quer você inteira… Em troca, ele lhe dá o que ninguém mais poderia: imortalidade e juventude eterna.
Ah…vai! Me diz que isso não é lindo! Quem pode amar e desejar tanto assim? Quem pode dar um presente tão generoso?

Minha conclusão é simples: o perigo real são as mulheres.

Mulheres são assustadoras. A verdade sobre a existência do vampiro está diretamente relacionada à sede de poder feminino: nós não queremos ser simplismente amadas. Queremos um amor tão imenso que seja imortal. Queremos um homem aos nossos pés, implorando para ser alimentado, para que sua sede seja saciada com o único nectar que pode mantê-lo vivo - a nossa existência. E queremos tudo isso sendo inocentadas de nossos crimes.
O vampiro, então, passa de agressor a vítima. Ele não tem dentes afiados nem tanto poder...ele não passa de um homem. O homem que escolhemos.
E aquela pobre mulher frágil, indefesa que não deveria ser julgada? Bom, ela ainda não nasceu.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Alô?

"Eu gostaria de falar com o Sr. Mercedes."
"Pode falar...é ela."
"Ah...nossa...é que aqui dizia Mercedes, então eu achei que fosse SENHOR."
"Como assim?"
"É...pensei que fosse um senhor, Mercedes."
"Mas Mercedes é nome de mulher."
"É? Não sabia...achei tão diferente..."
"E me ligou para...?"
"É que a revista Isto É está com uma campanha de incentivo à leitura...a assinatura vai sair por só 6 vezes de 35 reais."
"Puxa que bom...mas aqui em casa ninguém lê."
"Não?"
"Não...obrigada."


"Alô...?"
"A Senhora Menezes se encontra?"
"Não tem ninguém com esse nome."
"Não?? E o Tiago?"
"Também não tem Tiago."
"Ai...é da telefônica, eu sou o técnico, precisava terminar um reparo..."
"Não seria Mercedes? Diogo?"
"Ah...isso!"


"Por favor o Senhor Diogo?"
"Ele não se encontra...são 3 horas da tarde...ele trabalha."
"A que horas eu posso encontrá-lo?"
"A que horas você chega na SUA casa?"
"Não importa, Senhora...a que horas ele se encontra?"
"Depois das 9."
"Só trabalhamos até as 18, senhora."
"O que você quer que eu faça?"
"Tem um telefone onde eu possa encontrá-lo?
"Alguém liga pra você no trabalho?"
tuuu. tuuuu. tuuuu. tuuuu...


"Alô? Senhor Luiz?"
"Não."
"O Senhor Luiz se encontra?"
"Ah!...não."
"A que horas ele chega?"
"Não sei...ele não mora aqui."
"Mas ele chega em algum momento?"
"Ele não mora aqui."
"Sim, mas ele vai aí as vezes?"
"Só se vem escondido, porque eu não conheço nenhum Luiz."
Tuuuu. Tuuuu. Tuuuuu.

"Senhora Mercedes, então, daqui a uns cinco minutinhos, uma mocinha muito simpática vai ligar para a senhora...a senhora explica que falou comigo - o Jean - e que quer cancelar as assinaturas...ela é uma mocinha muito simpática...a senhora explica para ela. Assim ela cancela as assinaturas e bloqueia os seus cartões para nunca mais acontecer de a senhora receber revistas indesejadas, está bem? Então...daqui a uns cinco minutinhos, uma mocinha muito simpática vai ligar...a senhora atende, entendeu? Daqui a uns cinco minutinhos, uma mocinha muito simpática..."
"ENTENDI, JEAN! CHEGA!"

No dia seguinte...

"Alô?"
"Senhora Mercedes? O Jean da editora me pediu para ligar para a senhora para confirmar as assinaturas das revistas Isto É Gente, Menu, Planeta, blablablablabla"
Tuuuu. Tuuuu. Tuuuu.

Me diz pra que é que eu ainda atendo telefone!

segunda-feira, setembro 08, 2008

A tempestade que chega é da cor dos seus olhos...

- Oi.
- Nossa...saudade enorme!
- Nem me fala...achei que não fosse mais te achar.
- Eu também, mas isso não acontece assim.
- Não?
- Só se quiser. Quer?
- Nunca!
- Nunca...
- To aflita.
- Aflita como?
- Não sei, frio na barriga, parece que tem alguma coisa importante que eu não sei o que é.
- Sou eu.
- Hahahah!
- Frio na barriga tipo paixão?
- Não...paixão a gente sabe.

- Você se apaixonaria por mim?
- Um milhão de vezes, vezes mil.
- Mentira.
- Juro. Se desse pra escolher...
- Tipo prateleira de apaixonáveis no supermercado?
- Ahaha! Acho que na farmácia. Paixão ta mais pra remédio.
- Remédio amargo... a gente some anos da vida do outro. Ia doer mais do que curar.
- Eu sei, mas toda volta seria linda.
- Tá lindo agora.
- É.

- Faz um favor?
- Faço. O que?
- Se apaixona por mim? Agora?
- Não precisa.
- Precisa sim.
- Não...de um jeito eu sempre fui meio apaixonada por você.
- Foi nada, nunca me ligou e a única vez que disse que ia me encontrar, me deu um mega bolo.
- Ai, verdade...então acho que você nunca reparou.
- No que?
- Na paixão.
- Na sua? Claro que não, nunca existiu.
- Cego.

- Me diz quando.
- Quando o que?
- Quando você mostrou alguma faísca minúscula dessa paixão mocada?
- Eu não mostrei muito...eu só quase morria, só de olhar você.
- Quando?
- Quando não: quanto! Muito! O tempo todo eu te olhava pensando: "Ai ai...not fair..."
- Mentira, eu que olhava.
- Olhava nada.
- Aquele cabelão...
- Que que tem o cabelão?
- Nossa...um dia eu te mostro.
- Mostra?
- Mostro.
- Promete?
- ...
- Ok sorry.
- Não! eu só fiquei pensando...ia ser genial se você soubesse tudo o que eu pensei...e se me pegasse mesmo da prateleira da farmácia.
- Hmm...
- Sempre quis.
- Ai, não mente!!
- To falando, sempre quis.
- ...
- Me passei?
- Não.
- O que que é o silêncio então?
- Sei lá...passou tanto tempo...
- Passou. Passado...eu to aqui agora.

...


sábado, agosto 09, 2008

Muitas Mulheres - by Ella Spotlessmind

Eu me pergunto sem parar que tipo de pessoa eu sou e todas as vezes que faço isso, encontro alguém diferente.
Uma vez, de brincadeira, eu disse que sou muitas e sou única e sempre haverá mais de mim. Foi a verdade mais profunda que jamais saiu de mim. Eu posso contar um milhão de histórias de mulheres completamente diferentes, que o mundo juraria que nem se conhecem, e a surpresa final seria saber que todas elas sou eu.
Eu sou essa pessoa que imagina histórias e as vive e vice-versa. Algumas são puro besteirol e eu me mato de rir lembrando delas, outras são tristes de arrancar lágrimas de um iceberg, outras tão românticas, emocionantes e empolgantes a ponto das pessoas dizerem “ah…como eu queria viver algo assim.” E eu vivi.
Vivi mais “Coisas da Vida” do que a Me pode escrever. Vi a lua em vários lugares do mundo e fiz dela testemunha das minhas loucuras -- e só ela viu o que eu vi, só ela ouviu o que eu nunca vou esquecer.


Vivi paixões e histórias tórridas que colocariam "9 Semanas e Meia de Amor" no livro da Mamãe Gansa. Acordei ao lado de amores antigos que eu não veria nunca mais, adormeci no peito de quem estaria ali para sempre.
Amei incrivelmente, homens com caráteres, personalidades e histórias diferentes. Amei escondido, amei errado, fui a outra, fui a única, fui mais uma. Desejei pessoas que nem sonham com meus desejos, outras que sabem de cor meus pensamentos mas jamais me tocaram – e não tocarão. Chorei no carro, no meio fio, na escada do prédio, no elevador, na cama, na estrada, no ombro do desconhecido, de amor, de tristeza, de alegria, de emoção, de decepção profunda. Fui santa, fui perversa, fui pervertida. Fui rainha e fui ninguém.

A cada história que conto, lembro-me de outra que não contei. Fiz coisas não-contáveis, incontáveis vezes e de novo. Fui à igreja, ao centro espírita, ao terreiro de umbanda. Rezei para deus, Cristo, Santa Rita, Iansã e Maria Padilha. Sentei na mesa dos nobres, bebi com a burguesia, andei com os pobres. Vivi todas essas mulheres toda a minha vida e elas foram felizes. Elas brincaram com fogo mais vezes do que eu sozinha poderia. Traíram e foram traídas, amaram e foram amadas. Disseram verdades que ninguém acreditou, contaram mentiras que jamais foram descobertas, omitiram fatos, revelaram tudo. E foram loucas!

Umas amaram meninos, outras conquistaram prêmios, umas criaram deuses, outras beijaram demônios. Em algumas me reconheço, em outras mal me vejo…mas todas tinham um traço em comum: a minha alma – essa alma imensa, capaz de abraçar o mundo inteiro sem distinguir certo e errado. Essa alma feita dos milésimos de segundo do pensamento do universo, que insiste em se deitar, se espalhando pelo mundo como um véu transparente, que acha que pode dividir-se em milhares e doar-se, e mesmo assim, estará inteira.
Toda vez que alguém se espanta com algo que vivi, eu me pergunto que tipo de pessoa sou . Eu sou isso: Única e muitas…um véu transparente encharcado de vida, feito dos pedaços diversos de mim.


Colaboração: Ella Spotlessmind

quarta-feira, agosto 06, 2008

Corta pra lareira

Escrevendo o meu livro aquele que parece que eu nunca vou realmente escrever, eu descobri que tenho um bloqueio gravíssimo: eu não sei falar de sexo. Não...calma...eu sei FALAR de sexo, mas não sei escrever cenas de sexo.
Sabe aqueles filmes dos anos 50 que mostravam o casal, o beijo, e cortava para lareira, para o copo, para o cigarro queimando no cinzeiro? Então...é isso que eu faço. Eu levo o casal até a cama...e corto para a lareira! Hello?! Todo mundo sabe o que eles vão fazer depois que ele tirou a roupa dela!

Certo...seria perfeito se isso não estivesse me incomodando brutalmente.
Aí ontem à noite resolvi escrever um conto erótico. Ha! eu sou péssima! Nossa Senhora da Psicoterapia me salve! Fala pinto, penis ou bimbim? Eu suei frio para escrever. Ai gente...comofas? Por que eu vejo a cena e não descrevo assim...direito? No comprendo.

Desisti. Quase. Vou fazer mais uns "exercícios", e se não rolar eu vou cortar pra lareira!


segunda-feira, agosto 04, 2008

Post my Secrets?


Como todos os domingos, acordei, peguei uma mega-caneca de café e vim para o computador entrar no Post Secret - tarefa número 1 de domingo para xeretas em geral que gostam de saber o que passa pela cabeça alheia.
Sou uma fã ardorosa do Frank Warren, - o maluco diabólico que criou o PostSecret.com - e mudou a maneira das pessoas desabafarem sobre coisas que não podem contar para ninguém (a mãe dele diz que o que ele faz é diabólico). Tenho os três livros que ele lançou com os segredos alheios, entro no site todo domingo, e agora que a coisa não para de crescer, confiro o site alemão, o francês, o em espanhol, o Facebook e o blog no Myspace. Toda vez que faço isso, fico pensando se eu teria paciência de fazer um cartão postal manualmente, endereçar ao PostSecret e ir até o correio enviar. Depois disso penso o que eu diria ao Frank Warren e ao mundo se tivesse paciência para tanto. Pensei um segredo..."hmm, esse eu já contei pra um monte de gente!", pensei outro..."Hm...já contei esse também!"
Gente, entrei em crise! Será que eu sou uma pessoa sem segredos? Um livro aberto? Uma porta de banheiro público? Um outdoor ambulante? Deixa eu ver...olhando aqui pra minha lista do MSN, vejo que fulano não sabe o que eu contei pro ciclano, aquela outra nem sonha o que a lá de baixo sabe...mas cada um desses nomezinhos sabe algum segredo meu.
- "Hey! Será que você manda pro postsecret pra mim? É porque eu não lembro mais qual segredo te contei."
Que complicado...Fiz as contas, voltei uns anos, aí...lembrei que eu escrevo. Eu escrevo em meu nome, no nome dela, dele, da outra, em inglês, eu fotografo, eu sonho, eu misturo tudo, eu rio de mim mesma, eu digo tudo o que sinto, eu conto histórias, histórias, histórias...como eu poderia guardar um segredo?
Como eu poderia guardar um segredo se eu tenho todas as ferramentas para exorcisar os meus demônios todo o tempo, e ainda rir da cara deles? Que tipo de pessoa eu teria que ser para cozinhar histórias dentro de mim por tempo suficiente para que se tornassem segredos pesados, que só um terapeuta ou o PostSecret fossem capazes de me fazer cuspir? Eu lá tenho caráter pra isso? É...porque é preciso ser perseverante para guardar amarguras, rancores, tristezas, traumas...eu não sou capaz de colecionar nada, muito menos amarguras. É preciso ser muito mais "gente" do que eu para isso. Eu daria uma péssima suicida inclusive, praticamente um vexame! E para postar segredos eu teria que inventar dramas...ai que chato.
Frustrei. Não tenho nada pra mandar, e se mandasse, com certeza receberia algumas mensagens dizendo: "Nossa...vi um segredo seu no PostSecret."
Que lástima!



Se você é mais gente do que eu, este é o endereço:

quarta-feira, julho 30, 2008

Coisas da Vida #7

Lembrança

Eu encontrei a carta que ela escreveu e fiquei triste de dor ao me colocar em seu lugar e entender o vazio enorme que vem da presença dele, tão forte e, ainda assim, inexistente.

"Foi lindo imaginar o dia que você entrou no meu carro e fomos para aquele lago, onde pela primeira vez consegui olhar nos seus olhos e manter os meus ali até me enxergar dentro deles. Ainda posso sentir o resto do vinho no gosto da sua boca. Foi lindo dormir com você ao meu lado, sentir suas mãos, saber de manhã que o seu beijo me acordaria e depois de novo, e de novo, para me mostrar que estou viva. Ainda sinto o frio do lago subindo pelas minhas pernas e o toque do cobertor aquecendo os ombros, enquanto olhávamos as estrelas se despedirem da noite. Ainda tenho seus cabelos entre os dedos, o seu cheiro na minha pele, o calor do seu peito no meu rosto.
E depois, depois de anos, ao ver você de novo, seu perfume, seus olhos, seu jeito incrível, seus gestos, tudo...cada movimento seu me fez sorrir por dentro: as pernas dobradas, o pé no banco do carro, a blusa tirada pela cabeça despenteando o cabelo, o sorriso, os braços, a pele, as mãos...Ah! as suas mãos...e os olhos negros que eu amo...
os olhos negros que eu amo...
os olhos negros que eu amo e não sei encarar.
Mas foi lindo imaginar que eu entraria no seu carro e olharia dentro deles outra vez até me enxergar ali, e você me beijaria. O seu perfume colando outra vez nas minhas mãos...o seu sorriso falando baixo, quase dentro da minha boca, e o seu gosto em mim mais uma vez. A conversa deliciosa, a sua voz, o seu sotaque forte, o lençol bem passado com cheiro de ferro quente, sua pele quente, sua saliva quente, seu suor quente, seu calor...e eu. Nossas pernas se confundindo de novo, o ar da sua boca em meus ouvidos, sua boca no meu corpo, o seu corpo em mim... E agora, depois de tantos anos, eu não sei mais o que é verdade e o que sonhei. Eu tenho seu cheiro aqui, eu sei, eu sinto! Eu sinto o seu gosto, sim! Eu vejo seus olhos que eu amo e eles são negros, como é negro o vazio da incerteza. Eu não quero saber. Não quero que me contem. Me dá sua mão...me deixa ouvir a sua voz...posso deitar no seu peito?...canta de novo pra mim?...me diz que é tudo verdade. Não quero saber que cada segundo das minhas lembranças é só um fragmento do meu delírio.
Traz os seus olhos pra mim..."



Bom dia.

quinta-feira, julho 10, 2008

Still crazy after all these years


Hoje fui ao médico. Na verdade médica. Fui me pesar e descobrir quanto tempo falta para eu me olhar no espelho e ficar feliz. "Quanto tempo é 4 kilos?" Conversando com ela, eu acabei dizendo para mim mesma o que está acontecendo comigo: eu estou feliz demais para escrever. É isso! Eureka! Preciso de algo que me deprima, urgente! "Dá um remedinho?" Como eu posso escrever coisas emocionantes se eu dirijo até o consultório dela cantando alto e sorrido feito uma doida? Se eu dou risada o dia inteiro? Se meus ataques de brabeza não duram mais do que cinco minutos e, não conta pra ninguém, eu não fucking tenho do que reclamar!

Por falar em dirigir, a trilha sonora no meu carro hoje esteve meio vergonhosa por alguns minutos, mas eu não pude evitar. Juro que não pude!

"Hello...is it me you're looking for?
I can see it in your eyes...
I can see it in your smile..."

Meu pai! Eu só tenho perdão porque não era o Lionel Richie cantando. E lá vai Mercedes na Marginal Pinheiros, vidro aberto, cigarro na mão, óculos escuros, berrando: I can see it in your eeeeeyes...

E as pessoas querem que eu escreva? Você tem noção do quanto eu dei risada da minha própria trilha sonora? Como eu vou chegar em casa depois disso e escrever um texto sério? Inventar uma história de amor? Contar uma lembrança singela de infância? Impossível! A verdade verdeira é que há duas semanas eu tive uma decepção gigante que me tirou o chão de um jeito, que depois dela eu fiquei leve. Juro. Estou leve e feliz como...como...hmmm...sabe namorado novo? Assim. Como se eu tivesse namorado novo. Não tenho, viu? Tenho aquele de sempre, que acorda aqui em casa todo dia, mas adoooouro!

A outra coisa que eu lembrei quando estava conversando com a minha little médica (sim, ela é meio miniatura), é que na primeira conversa com a terapeuta nova da Natasha, eu acabei falando que eu escrevo. Ai meu deus, eu e a minha boca grande! Já menti tanto nessa vida de meu deus, fui falar a verdade logo pra terapeuta...Pois ela perguntou do meu blog e você não sabe o que eu fiz. EU DEI O ENDEREÇO DO BLOG PRA CRIATURA. NÃAAAAAAO! PRA TERAPEUTA NÃAAAAO! Depois eu só faltei bater a cabeça na quina da mesa até sangrar! Você pode imaginar a terapeuta com aquele jeitinho meigo e professoral de falar, lendo esse blog? Isso não vai prestar... Eu tenho certeza que ela vai ler post por post balançando a cabecinha e fazendo "tsc, tsc, tsc" com olhar de "hãn...está explicado". Quando ela me chamar para entregar o diploma negro da mãe deformadora de filhas, eu vou mandar dizer que fui pro Tibet passar sete anos com o Brad Pitt. Pra Londres cuidar dos cachorrinhos da rainha! Pra Colômbia, me juntar às FARC e comer minhoca na selva por 10 anos! Ai jesus me leva!

Então, senhoras e senhores, é isso por hoje. Eu realmente sinto muito se não tenho nada de muito útil para dizer, mas a culpa é do Lionel Richie.

Um beijo amigo no seu umbigo.

terça-feira, julho 08, 2008

Meus Não Gostares

. Não gosto de legume refogado. Tem cheiro de hospital e casa de velho.

. Não gosto de gente que fala olhando para baixo. Geralmente são pessoas enrustidas que se fazem de humildes, mas humildade não é submissão. Espero sempre a punhalada, e ela vem!

. Não gosto de quem anda como gato, sem fazer barulho, se esgueirando pelas portas, que pede licença pra existir. Gosto de gente espaçosa que pisa firme e fala grosso.

. Não gosto de dirigir com som muito alto: entro em transe e saio do chão. É perigoso demais. (eu nasci chapada, lembra?)

. Não gosto de olhar para baixo quando estou em lugar alto. Meu medo de altura supera toda a razão do universo.

. Não gosto de pagar contas. Acho injusto pagar para comer. Já disse isso antes: devia ser proibido pagar por qualquer coisa que dure menos de 7 dias ou vire cocô de alguma forma.

. Não gosto de sentar no banco do passageiro, ou atrás. Quero o volante na minha mão, e isso cabe a todas as áreas da minha vida.

. Não gosto de montanha russa, carrocel, pêndulo, trapézio, chapéu mexicano e das coisas que divertem a maioria das pessoas. Mas qualquer prazer me diverte. (Eu disse "prazer". Frio na barriga e tensão não me dão prazer nenhum, muito pelo contrário).

. Não gosto de pimentão cozido, banana crua, doce de laranja, limão depois de meia hora, torta de requeijão, carne bem passada, azeite que não seja de oliva, bebida muito seca, perfume muito doce, melado com farinha, goiabada com queijo, pão doce, coisas à califórnia a não ser eu...na Califórnia.

. Não gosto de música repetitiva. Mesmo os maiores gênios da música são capazes de me irritar profundamente com um instrumento repetindo a mesma nota, que você nem sabia que estava lá. Isso serve também para refrões, solos infinitos, jazz ou rock progressivos, finais de música que repetem a mesma letra: "Tá bom! Já ouvi! Cala a boca, praga!"

. Não gosto de amigo folgado que acha que o que é meu é dele: meu celular, meu cigarro, minha máquina fotográfica, minha grana.

. Não gosto de esperar resposta no msn.

. Não gosto de gente que fala fala fala e na minha vez tem que sair.

. Não gosto de pagode, sertanejo, sambinha mal cantado, nem daquela voz de carpideira das mulheres da velha guarda da mangueira. Também não gosto desse novo-emo-rock-brasileiro-mal-cantado-pra-carái-com-letra-ruim-demais.

. Não gosto de filme de terror. Cinema não é pra passar mal.

. Não gosto de perder o controle, não saber o que falo ou faço, não estar firme para caminhar ou raciocinar. Por isso nunca me dei bem com as drogas e detesto tomar calmante. Pra mim é um "prazer-terror", igual às montanhas russas e etc. Não entendo essa sensação de "liberdade" incompreensível. Sou super livre com meus pés no chão. Rio, me divirto, crio e saio da realidade sem precisar de agentes externos. Bem...já mensionei que nasci chapada?

. Não gosto de ingratidão.

. Não gosto de um monte de outras coisas pequenas que na verdade não fazem muita diferença na minha vida. Sou tolerante o bastante pra aguentar até cheiro de abobrinha refogada. Mas só de vez em quando!

. Ah...não gosto de falta de assunto. ;)

Bom dia.

sábado, junho 28, 2008

Em algum lugar da galáxia...

Por SMS, mãe e filho conversam:

Me: Vem almoçar!
Diogo: Vou.
Me: To indo pro banho.
Diogo: Ok...logo mais
Me: O q?
Diogo: Eu
Me: Ta vindo?
Diogo: Ta
Me: Que língua é essa????
Diogo: Simpolês
Me: Shhhhh...Os terráqueos podem ouvir...



(família normal é tudo de bom...)

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Coisas da vida #5


Sobre Porcos e Generais


Então eram dias tranquilos.
As coisas corriam normais: do trabalho pra casa, de casa pro trabalho, eventualmente um jantar com amigos.
Mas ela nunca mudou aquele jeito de falar mais do que a boca, palpitar em tudo o que ouvia, impor sua presença mesmo sem querer pelos corredores da empresa. O simples fato de subir as escadas já dizia a todos quem ela era e a que veio. Mas como toda garota boba, achava que era só mais uma.
Mal sabia que deixava um rastro de perfume que inebriava os probres passantes. Mal sabia que deixava um gosto de inveja na boca das mulheres que tentavam imitá-la sem sucesso, querendo só um pouco de tudo o que ela era.
Aquele dia não foi diferente. Com sua blusa curta e sua calça larga, ela subiu as escadas balançando os quadris daquele jeito que só ela, entrou na sala, sentou-se à mesa, tomou seu café, pegou o telefone e começou o dia. O sol invadia a sala com força naquele verão, e quem passava pela porta não sabia ao certo de quem era a luz.
Foi num dia assim, de sol, que ele sentou à sua frente com seu sorriso e perguntou se ela estava bem. Oras, quem a conhece sabe que esta pergunta pode mudar o mundo. Ela era incapaz de responder com poucas palavras porque sempre foi incapaz de dar pouca atenção a quem quer que fosse.
Largou a caneta, pegou um cigarro e o isqueiro, e foi interrompida pela mão dele fazendo o tipo de gentileza a que ela não estava acostumada. Seu olhar, atencioso por natureza, ganhou um brilho de curiosidade. “O que ele quer?”
Ele era brilhante, engraçado, sarcástico, falante, atraente.

Parênteses: Vamos definir atraente. Atraente não é necessariamente bonito. Atraente é charmoso, instigante, cheiroso, de olhar bom. Olhar bom a gente define outro dia, mas já vou avisando que é tudo!

Não…ele não era bonito. Era alto, magro, cabelo despenteado, figurino casual… não! mais do que casual -- não era nada usual para a época. Ele era moderno demais para viver naqueles dias. Era muito mais velho do que ela, e feio. Sim. Feio: um de seus traços mais impressionantes. Mas em meio aos assuntos interessantíssimos, às gargalhadas constantes, aos olhares incríveis, a feiura desaparecia. Ela ainda o define como o homem mais interessante que conheceu.
Pos...naquele dia, ele roubou grande parte do seu tempo, mas mesmo que ela tivesse notado, não seria possível se livrar dele. Sua companhia era a mais agradável e o tempo ao seu lado passou sem existir.
Ok…de volta à rotina: do trabalho para casa e, hoje, sem jantar com os amigos.

Ela já estava deitada, lendo debaixo das cobertas, quando o telefone tocou.

- Alo?
- Oi, sou eu, Marcos.
- Oi…como você me achou?
- Ha! Tenho informantes…
- Então?
- Então vou te buscar em meia hora, ok?
- Uh? Buscar como?
- Buscar: dirigir meu carro até a sua casa, você entra no carro, eu te levo pra jantar. Assim. Ok? Fica pronta?
- Hey! Não!…espera. Eu não vou sair com você.
- Por que?
- Não. Você tá com a Laura, ela é minha amiga e eu não vou fazer isso com ela nem de brincadeira.
- Quem disse que eu to com a Laura?
- Ela!
- Ela tá completamente louca!
- Bom…isso é entre você e ela.
- Mas eu não tenho nada com ela, juro! A gente conversa bastante e …ai! Será que ela se apaixonou?
- Sei lá Marcos…Mas eu sei que vocês têm saído e que estão meio juntos. Eu não posso fazer isso. Vai dormir, vai? Era o que eu ia fazer.
- Hm…vou não. Eu quero ir jantar com você. Fica aí que eu já te ligo. Beijo

Ela abriu novamente o livro, rindo da situação, mas antes de terminar de ler uma página o telefone voltou a tocar.

- Alo?
- Oi. Eu de novo.
- Oi.
- Pronto. Tudo resolvido.
- O que?
- Com a Laura.
- Do que você ta falando?
- Eu liguei pra ela, deixei bem claro que a gente não tem nada e nem vai ter.
- Você não fez isso por telefone!
- Ué…fiz. Agora você não precisa mais se sentir mal por jantar comigo. Vambora?
- Meu deus, você é louco! Eu não vou. O fato de você ter ligado deve ter deixado a Laura super triste. Ela jamais me perdoaria se eu saísse com você.
- Escuta…eu nunca tive nada com ela. E eu tenho o direito de sair com quem eu quiser. Ela é carente, só isso. Como eu dou atenção pra ela, ela já acha que a gente vai casar em 3 meses.
- Bom…ela me falou que vocês estão planejando comprar uma casa na Lagoa em Floripa.
- O que? Ela pirou MESMO!

Bom, eu não vou contar a história inteira, mas o fato é que ele e sua lábia incrível, fizeram-na rir muito, falar muito tempo ao telefone, e acabaram conseguindo levá-la para jantar, com a condição de ser um jantar de amigos e não um encontro.
O restaurante estava cheio e ela estava linda. Espera de 30 minutos, de pé, sem ter onde colocar as mãos, mas ainda assim ela sentia uma certa superioridade, pelo fato dele ter insistido e praticamente mendigado que ela saísse com ele. Ela estava segura, embora pouco desconcertada pelos olhares dele, e pensava sem parar a mesma coisa: “Se ele acha que vai me ganhar está enganado. Eu vim, mas ele não vai ter nada de mim.”
An hã! Tá bom.
No meio daquela multidão espremida no bar do restaurante mais concorrido da cidade, ele começou a contar uma história.
- Sabia que em Bora Bora, quando um casal resolve ficar junto, existe todo um ritual super bonito para os dois dizerem um ao outro que querem compartilhar a vida, seja casando, seja namorando?
- Ah é? Acho que existe uma certa dança do acasalamento em todo lugar.
- Não…nada assim grotesco. É lindo. Eles dão bouquês de bouganville um pro outro, porque bouganville é o símbolo da fertilidade; e tomam água juntos num pote de cerâmica em forma de porco, porque o porco é o símbolo da fartura. Assim, os dois prometem compartilhar da fertilidade e da fartura que o amor proporciona, e isso garante que eles fiquem juntos pra sempre.
- Nossa! Mas por que você lembrou disso agora?
Ali -- apertado entre todos os integrantes do concurso por uma mesa de canto, fumante, longe do vento frio da porta -- ele tirou do bolso um micro-potinho de cerâmica em forma de porco e disse:
- Eu queria tomar água aqui com você…pode ser? O bouganville murchou no carro...

...


Pelo amor dos três porquinhos, alguém chama o lobo mau! Aquilo puxou o chão com tanta força, que nossa amiga quase despencou. Quer dizer…quase? O desmoronamento instantâneo dos seus ombros naquela hora só mostrava que, lá dentro, o comando central gritava: “Descer ponte elevadiça! Recolher canhões! Desarmar catapulta!”
A Rainha rendeu-se ao exército vizinho!
E agora? E agora? Desarmada, rendida, muda, abobalhada, a Rainha perde a magestade e se joga no fosso dos crocodilos? Ela precisava de uma palavra, de um cigarro, de um copo na mão para dar um gole, alguma coisa para procurar uma reação. Nada! Lá se foi toda a teoria da amiga leal…lá se foi a mulher super resolvida de durona! Ela abaixou a cabeça sorrindo e ele foi buscar seu queixo. Comandante velho de guerra sabia que a batalha estava ganha. Com um só dedo – esforço menor do que nunca – ele levantou o rosto dela com um meio sorriso e disse.
- Acho que ouvi um sim.
Ela, ainda abalada, piscou longamente e sorriu, entregando o rosto para que o novo rei pudesse beijá-la.

End of Story.

É claro que isso só durou o tempo da mágica do potinho. Mas foram alguns meses de dias incríveis e noites interessantes. No fim, o Rei saiu para lutar por outros castelos por odem da própria Rainha, que já não tinha sede da água do porquinho. Talvez um pote maior tivesse resolvido a questão tempo. O fato é que os dois são ainda hoje gratos pelos dias em que passaram momentos deliciosos.
Por muito tempo ainda, ela foi espectadora das batalhas que ele enfrentou dali para frente. “É sempre um prazer observar as táticas de um grande General.”

segunda-feira, agosto 20, 2007

Coisas da Vida #3

A Noite das Conversas Infinitas

Nossa...há quanto tempo ela não ia àquelas festas?
Eram eventos profissionais tão chatos, mas ela conseguia fezer deles sempre um prazer. Ela sempre navegou entre a vida pessoal e a profissional com tranquilidade, misturando as duas, por isso, qualquer festa chata era uma desculpa para reencontrar amigos e dar risada.

Naquela noite, ela estava um pouco triste. A pessoa que ela queria encontrar já havia avisado que estaria acompanhado, o que a irritou profundamente. Por isso, quase deixou de ir à festa, quase cobriu a cabeça com um cobertor e deixou que Morfeu a guiasse até algum lugar melhor. Que nada! Não era assim tão fácil derrubar essa mulher. Ao contrário, tomou um banho de pétalas de rosas, se perfumou e foi encontrar os amigos e ostentar maldosamente sua beleza em frente ao “bofe acompanhado”. Muito bem.

Atrasada como sempre, fez com que muitos olhos do salão se voltassem em sua direção quando o primeiro amigo a viu. Lógico, era sempre um escândalo! Ela é sempre festejada. Assim, atravessou os 30 metros de salão – da porta ao fundo – sendo abraçada e parando a cada passo para falar com alguém. Até o fundo. Até ele.

Ele. Vamos falar dele: Ele era só uma presença constante em salas de reunião. Nunca houve uma conversa mais pessoal, um assunto mais íntimo, nada. Logicamente ela estava muito longe de estar morta ou cega, então já havia notado o quanto ele era interessante. Mas de qualquer forma, era distante a hipótese, e até mesmo a vontade de chegar mais perto.
Estranho…As vezes parece que alguém sempre esteve lá, mas você meio se negava a ver. Um dia, como se o universo decidisse que basta desta sua cegueira estúpida, sinais divinos de neon escandalosos piscantes apontam para a pessoa dizendo: “olha pra cá, sua monga!”
Que saída? Ela teve que olhar.

Parou e deu um "oi" de quem não vê alguém há muito tempo (claro…nunca olhou direito mesmo) e ali ficou. Foram muitas horas. Incontáveis horas de conversas infindáveis, temperadas por alguns olhares vindos do grande público, que os dois não repararam.
Como o som da festa estava alto, os dois falavam perto do ouvido um do outro. Muito perto. Cada frase parecia mais com um beijo no pesoço do que com uma conversa comum. Mas não era uma conversa com alguma intenção assim... Era uma coisa mais sem querer, que aproximava. Que misturava os perfumes, que permitia que o hálito de um se misturasse à bebida do outro.
Poderia ser algo a mais. Poderia, se ele não fosse tão sério e ela tão preocupada, ou se ela não fosse tão séria e ele tão desligado. Poderia ter continuidade se fosse mais cedo, se fosse em outro lugar, se fossem duas outras pessoas. Para eles não foi nada. Nada além da descoberta de uma pessoa boa para conversar. Mas para os outros, foi muito.
Durante muito tempo ela ouviu falar daquela festa. O “bofe acompanhado” nunca conseguiu engolir o fato dela passar tanto tempo ao lado dele, respirando seu hálito, encostada em seu rosto e - segundo o próprio bofe – fazendo a platéia esperar pelo beijo. As mocinhas de plantão passaram a odiá-la escancaradamente. E foram muitos os telefonemas de amigos perguntando o que tinha acontecido ali e se “deu frutos”.
Deu...deu frutos. Já faz anos que eles são amigos. Este tipo de frutos. Há anos ela deixa escapar nas conversas algumas confidências, e ainda sente que ele invade seu “campo de força” às vezes, derrubando barreiras inimagináveis. Há anos ela finge que não sabe que ele vai invadir de novo o "campo de força" e que não percebe que só ela faz confidências e ele mantem a armadura. E, querendo ou não, toda vez que alguém pergunta quem ela acha interessante, o nome dele é um dos primeiros a querer escapar de sua boca.
Sem o perfume, a bebida e o hálito, os dois se provocam às vezes. De longe... à distância segura. Nunca mais chegaram tão perto. Nunca mais ouviram a voz um do outro próxima a boca ou ouvido. Mas ainda assim, de tempos em tempos, ele invade seu território com perguntas ainda menos discretas do que aquela conversa de rosto colado.
E assim foi... sem mais. Sem nada. Nada demais. Muitos anos passaram. Muito mais anos do que a gente costuma contar. E em todos eles ele esteve presente de uma forma ou de outra.

Não foi uma paixão, não foi uma história emocionante. Não foi algo memorável. Só uma "regular story" que ela conta tranquila.

Mas, mesmo sendo assim tão nada, ela nega, mas lembra perfeitamente do perfume misturado à sua bebida.

* o nariz dele não era tão grande.

segunda-feira, janeiro 22, 2007

Se iludir menos?

Esses dias eu li em algum lugar que obviamente não vou me lembrar uma frase que martelou a minha cabeça por algumas noites: "Me iludir menos e viver mais".
Meu Jesus cristinho, como assim?
Como é que eu ordeno para o meu pobre cerebrozinho iludido: PARE DE SE ILUDIR?
Se eu fizer um balanço da vida, fora toda a realidade indispensável e inevitável, todo o resto foi pura ilusão - ou quase isso. Eu vivi 45 anos com a cabeça nas núvens e puxando todos os que me cercam para a realidade.
Sempre tive uma incrível competência para analisar a situação alheia e resolvê-la em poucas palavras, e sempre estive voando por aí no que diz respeito à minha própria vida. Eu nunca fui capaz de enxergar as pessoas que poderiam me prejudicar, mas foram incontáveis as vezes em que avisei a alguém para tomar cuidado com uma determinada pessoa. Sempre que me perguntaram por que, eu respondi a mesma coisa: "não sei, mas toma cuidado, ele/a vai te fazer mal." E eu nunca errei. Mas, céus! como eu já errei comigo mesma... Sempre na ilusão de que as pessoas mudariam, de que...imagina...uma pessoa tão legal não pode ser do mal. Sem falar nas vezes que eu menosprezei o inimigo, achando que ele JAMAIS me trairia, ou que "coitado...tão infeliz... o que custa dividir um pouco da minha felicidade com ele/a?" Credo...me dá até arrepio pensar nos nomes dessas pobres criaturas infelizes que não eram frágeis, tinham um plano e deixaram cicatrizes gigantescas em mim.
E a ilusão não para aí. Ela serve também para ver o mundo tão lindo...para o emprego perfeito...o chefe adorável...a colega e confidente de trabalho...e para sonhar.
Sonhar é o que eu passei fazendo. Desde a hora do relaxamento nas aulas de educação física na infância que qualquer 3 minutos de silêncio me levam para outro lugar. Tem sempre um diálogo incrível, uma viagem fascinante, um alguém especial que não resiste aos meus encantos, uma festa de prêmio, quem sabe um Oscar? Eu, a escritora mais fantástica do universo, a atriz mais talentosa, a personalidade do ano, a mulher que derrubou o presidente, a que emocionou multidões, a noiva mais maravilhosa, a plebéia que conquistou o príncipe, ai ai...e por aí vai.
Não tem como me transformar em outra coisa. Não tem. Sinto muito!
Se eu me iludir menos vou ter que mudar de nome, de familia, de RG, minha carteira de motorista vai ficar inválida, meu passaporte vai parecer falso, sem falar nos anos de análise para descobrir quem sou eu de verdade.

Meus momentos solitários (que nem são muitos) são preenchidos por pura ilusão. Eu lembro de uma vez há milênios - quando a Hebe só tinha feito 3 plásticas - que uma amiga chegou na minha casa e teve que me esperar tomar banho. Nós íamos sair...acho que tinha Festa de Babbete...não sei. Ela ficou na sala e viu meus papéis em cima da mesa, ao lado da máquina de escrever. Sim sim! Eu sou do tempo da máquina de escrever; foi onde eu aprendi a digitar. Já que eu ia para o banho, ela perguntou se podia ler as coisas que eu escrevia. Pois bem. Quando eu voltei, pronta, banhada, talqueada...ela me disse: "Quem é você, Me?"
Eu não entendi a pergunta, e ela explicou. Disse que eu sempre fui alegre, engraçada, faladeira, sorridente...Ela me conhecia há anos e nunca viu em mim aquela pessoa triste, que parece amar de uma maneira melancólica e morrer de saudade, estampada nas páginas e páginas de poemas que ela leu.
Naquela época eu ainda não sabia explicar que eu ando acompanhada dos sentimentos do mundo. Que meu coração dói de amor quando eu estou sozinha, de um amor por ninguém e por todos os príncipes encatados do planeta ao mesmo tempo. Que eu choro quando falo comigo mesma, e invento histórias tristes e doloridas como aquela ali embaixo (Insanity) onde existem encantos, feitiços, lágrimas e uma saudade sem fim. Mas assim que o texto se vai ou o telefone toca, eu volto a ser a mesma pessoa alegre e faladeira. Essa dor toda anda comigo desde sempre, como se eu fosse condenada a traduzir todas as dores em palavras fáceis, mesmo as dores que eu nunca vivi e as que nunca vou viver. E não dói. É uma tristeza enorme, e linda, que me faz entender melhor as pessoas, os sonhos, os sentimentos, o amor eterno, a falta de alguém...mas não é uma dor real. É pura ilusão.
E essa sou eu. Dúbia. E feliz.

Mas a frase que eu li me deu medo. Eu não sei quem eu sou, se eu não viver dessa ilusão.

domingo, dezembro 03, 2006

Insanity

[foto: Sagrada Família - Barcelona - Nov 2005 - by Mgmyself]
Acho que já passou da fase bonitinha, em que uma garota se apaixona e sonha acordada o dia inteiro...e fala sozinha...e dirige sorrindo porque pensa em coisas lindas...
Acho que já passou da desculpa esfarrapada de buscar personagens, de imaginar cenas para futuros quem sabe um dia livros or something...
Acho que está na hora de encarar tudo isso como insanidade mental.
Tenho muito muito medo dos meus 70 anos.
E se eu estiver sozinha? Eu vou ser uma velha louca! Eu sei que vou...eu sei! Os vizinhos vão falar de mim. As crianças da vizinhança vão jogar ovo na minha porta. Elas vão ter medo de me encontrar. Vão entrar correndo em casa quando eu abrir a janela de manhã. Será que eu vou me lembrar de abrir a janela de manhã?
A vizinha da esquerda vai ter se mudado há dois dias, quando a da direita vai até a sua porta com uma torta de maçã nas mãos se apresentar e dar as boas vindas...e vai dizer: "Olha...aqui do lado mora uma senhora tão bonita...mas é louquinha, coitada. Ela não faz mal a ninguém, mas as crianças dizem que ela é bruxa. Fala sozinha e canta o dia inteiro...dizem que é escritora, mas não sei...acho que ela pensa que é."
Meu cabelo vai estar enorme e prateado, e eu vou me olhar nos espelho e me achar linda e loira como anos antes...e vou olhar pra ele (o espelho) e dar bom dia: "Good Morning my love...I'm cooking your breakfast." Sim...vou falar inglês sozinha o dia inteiro. No mundo dos sonhos a gente não fala a língua da gente, senão a realidade bate na porta e estraga tudo. E vou para a cozinha fazer o meu café da manhã, como se estivesse fazendo o de alguém mais. E vou cozinhar conversando...conversando com alguém que eu sonho...porque há sempre alguém ao meu lado, esteja eu onde estiver.
Mas agora, já velhinha, eu nem vou mais estar preocupada se alguém pode ouvir ou não...já vou acreditar que eu realmente estou acompanhada; e é natural que uma familia converse no café da manhã.
As crianças, esperando o ônibus do colégio vão adorar rir de mim na janela da cozinha, com as torradas na mão falando com "ninguém" que está sentado la...esperando o cream cheese.
E vou ter gatos. Uns cinco. Todos com nomes de pessoas que eu amo.
Eu vou chorar muito, deitada no sofá da sala imaginando meu texto final, no leito de morte. A cada dia, vou pedir que meus filhos chamem alguém de quem não posso deixar de me despedir...e quando essa pessoa chegar, vou dizer coisas lindas e fazê-lo chorar e se arrepender de não ter passado uma existência inteira ao meu lado. Seja quem for a pessoa imaginária, eu vou chorar...e ver meu último suspiro emocionada...e correr para o computador para escrever mais esse incrível texto de despedida.
Na beira da minha pequena piscina, que já há de ter se transformado num lindo tanque de peixes dourados, ou num vaso gigante de alfazema e rosas, eu vou tomar sol contando a história do encanto que fez com que eu e o meu amor nos encotrássemos em todas as vidas, sempre de forma tão forte. Sempre com tanta paixão:

" Você era um guerreiro. Forte, corajoso, destemido. Homem de confiança do Rei. Passava muito tempo na guerra e eu rezava e esperava a sua volta. Havia sempre uma lanterna acesa na nossa cabana, que era a luz que te guiava de volta para mim. Um dia, você se foi novamente. Os meses passaram e todos os guerreiros da adeia começaram a voltar para suas casas. Eu passava os dias na porta esperando, perfumanda, a volta do meu amor...Perguntava por você e eles não me olhavam nos olhos. O último soldado chegou e me entregou sua espada dizendo que você morreu como um bravo. Que é um herói. Que nunca haverá outro como você.
Não...nunca haverá outro como você.
Eu chorei e me desesperei, e maldisse cada general, cada gota de sangue derramada. Pedi aos céus que todos os que um dia desejaram uma guerra evaporassem da terra e vivessem uma vida de dor nas profundezas do inferno.
Sentei e escrevi uma oração pedindo a todos os santos, fantasmas, entidades, anjos, espíritos, toda forma de energia do bem e do mal, que trouxesse você de volta pra mim. Juntei sobre a nossa cama as suas roupas e as minhas, seus objetos, sua espada, nossos lençois, nossas taças e nossa intimidade; usei todas as suas garrafas de vinho, todo o óleo perfumado dos banhos que eu preparei para você e a lanterna da luz que o deveria ter guiado, e incendiei nossa casa.
Transformei nosso amor em fumaça perfumada de saudade e tristeza....e essa fumaça subiu ao céu limpo de lua cheia, cobrindo as estrelas. Nela, estávamos eu e você, unidos para sempre, em forma de sentimento puro...sem matéria...só lembranças.
Enquanto o fogo consumia tudo o que tocamos juntos, eu repetia minha oração e implorava ao mundo que usasse a fumaça para nos guiar nas próximas vidas. Que você voltasse para mim em todas elas, e jamais fosse para guerra outra vez. Que o sangue e a espada não fossem mais capazes de tirá-lo de mim.
Ajoelhada chorando e vendo a fumaça transformar desejo em certeza, fui presa. Fui torturada. Confessei ser impura. Não senti dor. Minha alma já não fazia mais parte de nada. Meu corpo padecia e definhava sem um ai. Fui queimada numa fogueira, com todos os seus amigos e nossos parentes gritando "Bruxa! Bruxa!" à minha volta. O último músculo que se contraiu trouxe um sorriso...já se aproximava o momento de estar com você.
O tempo passou...muito tempo passou...Nascemos separados pelos oceanos. Eu não me lembrava de nada, até que uma guerra estourou. Eu ouvi a notícia de que as tropas chegaram naquele lugar quase sagrado, e soube no mesmo instante que algo grande estava prestes a cortar meu peito. Meu coração explodia e eu não sabia ao certo porque. As lágrimas que caiam involuntariamente do meu rosto gritavam que um grande guerreiro estava de volta a uma guerra santa. E eu, outra vez impotente. Foi o aviso de que eu precisava atravessar o oceano.
A guerra nunca acabou, mas meu coração me disse que você estava seguro. Atravessei o mar a procura do que me fez chorar. Vaguei, viajei, olhei todos os cantos do mundo sem saber o que eu queria encontrar, até que numa noite comum senti o perfume do óleo misturado à fumaça de madeira seca. Um perfume que me deixou tonta e ninguém mais naquela mesa sentiu. A porta do lugar se abriu deixando o vento gelado de inverno entrar...com cheiro de perfume, sangue, fumaça, veio você: meu guerreiro. Seus olhos brilharam ao me ver sentada lá. Sua barba clara, sua pele queimada, seu sorriso iluminado, sua camisa branca reluzindo como uma armadura...e eu lembrei do seu beijo na porta da nossa cabana, levantando meu vestido e me tomando nos braços como a última vez. Todas as vezes, como a última vez....
E agora, aqui, eu te beijo e me perfumo nas nossas almas...que nunca mais serão duas."

Enxugar as lágrimas...respirar fundo...alguém me interna.

Bom dia.