sábado, setembro 18, 2010

_a boina

Mercedes & Felipe
Por volta de 2005, eu e o Felipe Belão (@belao) éramos loucos - não que hoje sejamos normais - e escrevíamos contos no scrapbook do Orkut. A regra era: cada um escrevia uma parte, sem jamais combinar o tema ou o rumo da história, e postava no Orkut do outro. 
Aqui vai um deles: Conto Scrapiano #4

(Me)
É inverno em Curitiba e a Rua do Rio não tem mais a mesma cara.
Nem o frio é mais o mesmo. Hoje o frio é pequeno, não tem a mesma elegância, nem precisa mais de tanta roupa. Qualquer casaco que tenha bolso ajuda, luva já é coisa rara, no máximo um cachecol. Na infância era preciso ceroula, duas meias, a calça do pijama por baixo do uniforme, “japona”, "galocha"...

Ele anda todos os dias até o trabalho e sabe dizer a temperatura só pela cor do céu. Sabe a hora pela posição do sol. Sabe a velocidade do vento pelo movimento dos chorões.
Todos os dias o mesmo caminho da Júlia da Costa até a praça Ozório.
Conhece as esquinas onde o vento levanta a saia das meninas – das que ainda usam saias. Conhece o tempo dos sinaleiros. Conhece os horários de cada porteiro, de cada comprador de jornal da banca da Visconde de Nácar. Conhece os motoristas de táxi, os garis e a velha que nunca tirou os bobs do cabelo. Só não conhece a moça de boina que sai apressada do táxi gritando com alguém no celular.

(Felipe)
Ela não conhece a cidade. Não gosta de frio de nenhuma espécie, muito menos daquele. Uma peça de teatro. Isso era tudo que a atraía àquele lugar. Ela sabia que o texto era péssimo e a direção medíocre. Porém, o dinheiro compensava até o frio e a boina ridícula que estava usando para lhe conferir um "ar artístico".
Direito. Odontologia. Engenharia. Sempre sonhou em estudar pedagogia. Queria ser uma professora certinha e exigente, até recatada. Sempre se considerou tímida. Mal humorada. E o primeiro sujeito que avistou logo que desceu do táxi a fez questionar ainda mais sua profissão, o frio, sua vida, sua boina, seu celular que não parava de tocar.
- Meu troco, seu filho da puta!
Carioca. Ela não conhecia os taxistas do aeroporto Afonso Pena. Voz estridente. Ela deixou o diretor medíocre da peça de teatro de texto péssimo surdo com o grito. Curiosa. Ela olhou pela segunda vez para o sujeito do outro lado da rua. Curitibano. Ele retribuiu o olhar com um pré-julgamento cheio de censura e antipatia.

(Me)
“Carioca. Tinha que ser pra usar essa boina ridícula. Deve trabalhar com cinema e achar que é o máximo. Elas sempre gritam! Chegam aqui achando que todo mundo é burro, que podem tratar todo mundo com essa superioridade. Ou chamam de “BEM” , ou de filho da puta! Todas pseudo-intelectuais. Todas feias de bunda boa.”
Mas nem toda a antipatia curitibana podia impedi-lo de dar uma segunda olhada, já que seria óbvio uma boa bunda ali, e ninguém é de ferro.
“Nessa esquina venta muito. Bem que ela podia estar de saia”
- Hey! Você!
Braços levantados, olhando por cima dos carros, ela acena para ele.
“Tinha que aparecer. Grita mais, ô perua! Vai me pedir o que? Pra carregar as malas?”
Ele aponta para o próprio peito, olha para trás antes de pagar o mico de descobrir que ela chamava um outro qualquer.
- É! Você! Vem aqui um pouco!
Ele pára no meio fio, espera alguns carros passarem, testa franzida, já de mau humor.  
“Vou perder a hora por causa dessa carioca de boina”
Atravessa.
- Quem é você? – pergunta
- Eu? Quem é você, que já chega do aeroporto gritando na rua?
- Desculpa. Aquele cara foi embora com o meu troco.
- Quer que eu corra atrás dele?
- Não. Quero que você vá ao Teatro hoje à noite.
- Porque eu cometeria essa loucura? – sorriso sarcástico nº 5
Ela a tira da bolsa um convite para a peça ruim de texto péssimo.
- Porque eu estou convidando e você deve ser educado.
Ele pega o convite, olha com descaso.
- Só um?
- Eu convidei VOCÊ. Sozinho e desarmado. Chega antes pra tomar um drink.
E diz isso virando as costas, arrastando a mala enorme pela rua, atendendo o celular que não para de tocar.

(Felipe)
Uma hora antes da peça, ele ainda estava indeciso. Pensativo de cueca e meia preta. Imagem que combinava perfeitamente com sua barriga de cerveja e com seus joelhos grandes demais. Olhava no espelho e a mera lembrança da boina o excitava. Vestiu seu melhor terno. Pensou com desprezo no teatro. Lembrou-se das pessoas que pensavam que podiam mudar o mundo com peças ruins repletas de críticas sociais ou políticas. Necessárias ou não, odiava críticas. Gravata vermelha. Perfume barato. Conferiu se trancou a porta duas vezes. Chave no bolso esquerdo sempre. Carteira no bolso direito quase sempre. Seu carro era velho. Suas rugas já não lhe conferiam apenas olhar experiente. Sua vida passava rápido e ele se movia devagar.

Teatro. Inesperado bom humor. Pseudos-intelectuais. Ela já estava esperando. O batom mais vermelho que a gravata dele. A boina ridícula continuava no lugar, escondendo suas madeixas com dez tonalidades diferentes do mesmo loiro. Tentou sorrir, mas achou aquele terno terrível. Ele achou tudo nela perfeito, embora não fosse.
- Viu só! Tá pra nascer o homem que nega um convite meu.
- Só vim pelo drink que você prometeu.
- É mesmo? E o que você quer tomar?
- Cerveja.
- Cerveja não é drink. Além disso, só tem vodka com menta.
- Então por que você perguntou?
- Só pra saber o que você queria. Agora sei o que você queria e sei o que você vai tomar.

Sentiu-se velho demais para mandar uma atriz tomar no cu.

(Me)
O drink chega. Ele olha aquela coisa verde com a descrença de um gato frente a um osso.
- Quem inventa uma bebida verde?
- Não adianta. É o que temos aqui.
- Alguma superstição?
- Não, querido. Bom gosto.
- Esses lugares são ótimos pra quem quer comprar óculos. Olha só... É como mostra de cinema iraniano...filmes péssimos, excelente desfile de óculos modernosos!
- Do que você gosta?
- De sexo. E você?

A gargalhada dela foi ouvida em todo o quarteirão. “Se rindo é esse escândalo, imagina na minha cama...”
Ela, subitamente séria, olhou nos olhos dele. Por um momento ele sentiu a espinha gelar como se ela tivesse escutado seu pensamento. Tremeu de medo de olhá-la nos olhos novamente.
Alguém fez um sinal, ela respondeu com o olhar, debruçou-se na mesa deixando que o decote quase o fizesse engasgar:
- Tá na minha hora. Sobe pro camarote e me assiste. Depois me espera.
Há milímetros do ouvido dele, sussurrou:
- Eu quero ver do que você gosta...
Gelado e ansioso, ele assistiu à peça de texto péssimo, pretensioso, medíocre. Teve sono, teve tédio, usou a chave que estava no bolso esquerdo para limpar debaixo das unhas, ficou estupefato com a sensualidade e a falta de talento da sua nova amiga. O tempo não passa, e ele não para de pensar em mostrar para ela do que gosta, mas não entendeu ainda o que ela quer com um velho barrigudo de última que achou na rua.

(Felipe)
As cortinas vermelhas, velhas e cheias de mofo se fecharam.
- Curitiba realmente é a cidade maravilhosa do mofo – pensou ele em voz alta.
E, como num passe de mágica, ela misteriosa e sua boina ridícula apareceram ao seu lado. Ele não sabia dizer quanto tempo passou. Por quanto tempo pensou. Durante quantos minutos o mofo, a peça medíocre e a sensualidade da desconhecida passearam pelos seus pensamentos. Apenas foi despertado por mais um sussurro provocante.
- Me leve pra algum lugar... agora.
Não havia resposta. Nada a dizer. Segurou a mão dela de maneira desajeitada, como quem não faz idéia do que fazer em seguida. Levou-a para seu carro velho. Encolheu a barriga. Colocou o cinto de segurança. Ela não. Lembrou que deveria ter aberto a porta para ela. Tentou imaginar o que fazer em seguida. Pensou quais seriam os movimentos certos. O que o James Bond faria? Lembrou que os James Bond´s de seu tempo já estavam velhos ou mortos. Tentou buscar exemplos nacionais e um dos mais decrépitos veio à sua mente: Tarcísio Meira. Procurou se concentrar em dirigir. Nada daquilo estava ajudando.

Os pensamentos dele mal permitiam que o carro seguisse pela pista certa. Ela colocou a mão em sua perna. Não parecia se preocupar com atores mortos, velhos ou vivos. A mão passeava. O carro seguia nervoso pelas ruas de Curitiba. Ele já não controlava seu raciocínio. Cortina. Mofo. Peça. Sensualidade. Tarcísio Meira. Boina. Porta do carro. Ruas. Trocar de marcha. Encolher a Barriga. A mão dela já não estava só na sua perna. “Por que diabos eu estou lembrando do Tarcísio Meira?! 

(Me) 
- Vamos ver o que você tem ouvido... 
Ela empurra a fita para dentro do toca-fitas velho, mas tem que segurar a mão dele que tenta impedi-la.
- “Three witches watch three Swatch watches. Which witch watch which Swatch watch?” 
- Que droga é essa?
Ele tira a fita, sem jeito.
- Um curso idiota de inglês. Nem é sério.
- Que tipo de homem é você?
- O pior!
Pega a mão dela e coloca de volta em sua perna.

No Motel barato, cheirando a tapete úmido e pinho sol, ele bate a porta, joga as chaves, encolhe a barriga, pensa se ela deve tirar a boina ou se aquela coisa ridícula pode dar um ar de filme francês à cena de sexo que ele tenta idealizar  sem saber ainda onde põe as mãos, o que diz, e como se livra da imagem torturante do Tarcisio Meira.
Ela começa a tirar a roupa e ele se atrapalha...não sabe se tira antes a camisa ou a calça, tem medo de ficar de cueca e meia e parecer um perdedor.  Anda pelo quarto desabotoando a camisa e apagando algumas luzes. Depois de uma certa idade e de uma certa circunferência, pouca luz sempre salva a dignidade. “Se ela me convidar pra um banho vai ver a minha barriga. Porque eles não colocam menos luz nos banheiros?”
No sistema de som precário do lugar, Maria Bethânia canta Cavalgada. Maria Bethânia sempre canta nos motéis baratos! O papel de parede descascado, o tapete úmido e queimado de cigarro, os lençóis amarelados e puídos, os quadros com figuras de mulheres feias, a TV em cima da cômoda descascada com gavetas falsas, a esquadria enferrujada da janela... vou cavalgar por toda noite...Por uma estrada colorida...Tarcísio...João Coragem...Tudo revela que será preciso dar muito de si para tornar esse lugar inesquecível.

(Felipe)
E como tornar o momento inesquecível pensando se a cama está limpa ou se o lençol foi trocado? Qual o sabão em pó mais apropriado para aquela roupa de cama? OMO? Estava sendo usado na medida certa? Na quantidade certa?
E, como se não bastasse, o espectro fantasmagórico de Tarcísio Meira ainda se fazia presente. Assim como a voz inconfundível de Maria Betânia em sua canção fervorosa.

Ela não se importava. Porém, para ele o cenário todo exercia uma influência diferente. Atrapalhava psicologicamente. Fisicamente estava tudo funcionando, afinal já fazia dez meses que ele havia parado de tentar contar qual foi a última vez que chegou perto de fazer sexo com alguém que não ele mesmo. Só que o lençol, o ex-galã de televisão, a cabeleira da Maria Betânia formavam um conjunto poderoso. Vinte minutos.
- Não pára!
Aliás, formavam um obstáculo. Trinta minutos.
- Vai continua!
Uma verdadeira barreira intransponível. Uma hora.
- Oh, meu Deus!
Uma muralha que separava o sexo do prazer. Uma hora e meia.
- Ah!!!!
Ela gemia, gritava e parecia estar tendo a melhor experiência pseudo-artística-multiplorgásmica de sua vida. Ele apenas colaborava com o pênis e uma atuação esporádica da pior qualidade tipicamente curitibana. Foi então que ele percebeu. Não era o lençol ou o Tarcício ou a Maria Betânia. Era a boina. Era ela. Era a falta de carinho. Não havia o tal do sentimento e ele sentia falta dele. Não sabia o motivo, mas ele sentia falta da porra do sentimento. “Era o que me faltava! Meu pinto ficou emotivo depois de velho!”
- Ahhh, que foi que você disse?
- Disse que vou gozar.
Boina. Tarcício Meira. Motel Barato. Lençol sujo. Maria Betânia. Pênis romântico. Barriga encolhida. Ela desfalecida. Ele indignado e mentiroso. O preservativo: vazio."

(Me)
Fumaça de cigarro.  Silêncio. Aquele lugar ficava cada vez mais horrível. Agora que a ansiedade e o tesão se foram, ele já nem encolhe mais a barriga e começa a reparar na pintura velha do teto, no descascado das paredes, na decoração pobre e tosca. Dá para imaginar que tipo de casal freqüenta este lugar.
Ela fuma olhando para a porta vermelha do banheiro.  Ele cheira o travesseiro.
- Que tipo de mulher  topa transar numa espelunca dessas?!
Ela sentou na cama indignada, cigarro no canto da boca, falando entre os dentes:
- O que? Você ta falando de mim?
- Não! Claro que não! Pensei alto...tava imaginando quem vem aqui... não você.
- Eu VIM aqui! Não vem tentar salvar a sua pele descarada! Onde mais um homem como você me levaria? Pra um hotel cinco estrelas?
- Calma, eu não quis te ofender!
- Tarde demais!
- Desculpa.
- Eu que não quis te ofender quando entrei por aquela porta! Também não quis te ofender quando vi seu terno horroroso! Nem quando você tirou a camisa. E pra não te ofender eu fingi feito uma atriz barata o tempo todo! E não falei nada!
- Mas você é uma atriz barata!
- E você é o pior tipo de homem que eu já conheci.
- Não te enganei.
- Cala a boca! Não sei onde eu fui achar uma coisa como você!
- Na rua.
- Não sei porque eu fui ceder!
- Ceder? Você que quis!
- Cala a boca! Você me ofendeu, eu digo o que eu quiser!
- Ta. Então diz no carro. Vambora.

(Felipe)
No carro, o silêncio. Ele se sentia sozinho. Não conseguia nem mesmo levar em conta a presença fria da mulher ao seu lado. Já não havia Tarcísio Meira que remediasse seu ódio e repulsa por aquela péssima atriz e terrível amante. Seu sangue corria ao mesmo tempo rápido e gelado.
Pegou um desvio. Andou uns quilômetros. Ela surpreendentemente calada. Já haviam falado o suficiente por uma noite de sexo. “Agora que o sexo acabou, quero o prazer.” O carro velho percorria estradas antigas. Ele lembrou do tempo em que era jovem.

Freiou bruscamente. Não chovia. A lua não se mostrava. Árvores. Silêncio. Nada para recordar. A lembrança teimosa do tempo de juventude dele. Seu sangue continuava correndo rápido e frio. Abriu a porta do carro para ela. Gentil. Abraçou-a por trás até ela sufocar. Seu corpo tremeu. “Os corpos sempre tremem.” Seu último suspiro veio logo. Foi pesado. “Todos os últimos suspiros são pesados.” A lembrança de sua primeira amante misturada com a imagem da mulher de boina saindo do táxi. Prazer finalmente.
Quando soltou o corpo, a queda foi inaudível. Ele olhou para baixo. A imagem fez seu sangue frio parar. Não havia corpo. Não havia mais atriz. Não havia amante. Ele só enxergava sua própria solidão."
 

FIM
 

Felipe e Mercedes aqui
Delírio - outro conto scrapiano parte 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, Final
Felipe Belão aqui

2 comentários:

Felipe "Tito" Belão disse...

Caramba! eu tinha esquecido que um dia escrevi isso! saudade daquele tempo, saudade de escrever mais! Obrigado por me lembrar que de letras somos feitos.

Rafa Pedro disse...

Nossa, lembrei de quando acompanhava tudo isso. Posso falar que sinto saudade do orkut?