sexta-feira, setembro 17, 2010

_ritual do fim

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A vida antigamente era mais difícil numa série de coisas, mas em outras era milhares de vêzes mais fácil. Principalmente no que diz respeito aos relacionamentos.

Falar e ver a pessoa amada não eram coisas tão simples, nem tão complicadas. Deu pra entender? Eu explico:
As pessoas se conheciam no bonde, no ônibus, na festa, no clube, whatever. Fato: elas se conheciam assim, fisicamente, olho no olho. A primeira impressão era realmente à primeira vista. Uma ouvia a voz da outra, sabia a altura, o tamanho, os atrativos e os nem tanto, sentia o cheiro. Sabe assim? Como os homens da caverna? Coisa antiga...
Pois bem. Como fazer para se encontrar de novo? Pouquíssimas possibilidades. Nem sempre alguém passa pelo mesmo lugar duas vezes em uma semana, a não ser quem se conhecesse no trabalho -- mas não se come a carne de onde se tira o pão (cof cof...eu nunca!).

Depois tinha o telefone. Era preciso descobrir o número da pessoa e, para tal, bastava procurar na lista telefônica de assinantes, caso tivesse dado tempo de saber o sobrenome . Depois de conseguir este tesouro, telefonar era uma coisa meio cara, então ninguém abusava. Falar todo dia já era uma coisa exagerada, mais de uma vez por dia era coisa de gente louca. Sem celulares e mensagens de texto, era impossível mandar um  :)  de vez em quando para se fazer presente.
Em compensação, naquela época, se um homem aparecesse de surpresa na porta da casa ou do trabalho da moça, ou se telefonasse para a casa dela, ele não era considerado um stalker, ao contrário, era uma demonstração de interesse e afeição apreciada até. E as pessoas escreviam cartas. Isso: Cartas! O carteiro não trazia contas, trazia CARTAS. Para as contas, existiam os carnês -- que não eram enviados pelo correio.

Pois bem...um namoro envolvia cartas, bilhetes, fotografias, presentinhos fofos. E o final de um namoro envolvia devolver, rasgar ou queimar cartas, bilhetes, fotografias e presentinhos fofos.
O ato de rasgar era a grande catarse. Depois de lágrimas sem fim, dias de sofrimento ou de raiva, você simplesmente abria aquela caixa, remexia tudo, escolhia meia dúzia de coisinhas para guardar - isso entre soluços e ataques de fúria - e rasgava página por página, envelope por envelope, jogando toda a sua energia e todo o seu sofrimento neste ato. Um ritual de luto. É como enterrar seus mortos.
O luto é necessário para a aceitação. Depois do enterro, você chora, se descabela, mas não encontra mais o morto andando por aí. Depois do enterro, você espera lá seus sete dias, manda rezar uma missa ou o que quiser...e está liberado do sofrimento. Kind of.  Rasgar cartas e fotos é exatamente a catarse do luto dos relacionamentos. Queimar então...maravilhoso. Depois deste momento, você é oficialmente uma pessoa mais leve.

Pois bem...ERA!
Porque hoje não tem como. As pessoas terminam e continuam vendo o nomezinho da criatura ali na janela do messenger com uma bolinha verde que praticamente diz "disponível, mas não para você". E fotos que mudam todos os dias. E Facebook, Orkut, Twitter, notícias que não param de chegar. São lembranças postadas por todos os cantos da web e ainda tem o grande cemitério das almas perdidas -- que se chama Google -- capaz de achar as imagens de vocês dois juntos que aquela tia dele postou.
Se ela pinta o cabelo, ele vê. Se ele começa a malhar, ela repara. Se um dos dois namora, o status muda como um tapa na cara.
É a vida eterna dos amores perdidos.
Quando você termina um relacionamento, o histórico do messenger também desaparece? E o do Skype? Não...você pode encontrá-los bem na hora que já estiver se recuperando, reler tudo e ter uma master recaída. E os e-mails? Você pode deletá-los todos, mas ao contrário do ato de rasgar, o que fica não são fragmentos de declarações de amor em forma de papel picado...é o vazio. Deletar não cumpre o ritual do luto.
A internet é a volta dos mortos vivos. Ex-namorados-Zumbis. Ex-mulheres-imortais. Eles se vão, mas nunca partem. E se bebem, entram de madrugada pra escrever mensagens saudosas que não vão lembrar de manhã. Como lidar?

É preciso criar outro ritual de luto para preservar os corações dessa bagunça. É urgente!






(Eu guardo as cartas e rasgo as fotos)

6 comentários:

kelly disse...

escrito pra mim? meu ex-marido se casa no sábado. estou separada há 7 anos. moro com o atual há quase 7. mesmo assim, o luto voltou, o nó na garganta... e já estou com medo de todas as fotinhos de felidade que aparecerão no facebook

Mercedes Gameiro disse...

Ai meu deus...isso é terrível!

Respira. Vai ser forte. :(

Beijo

Alice Salles disse...

'Ex-namorados-Zumbis' aaahhh! que visão dos infernos... E REAL!

marcos freitas disse...

que magavilha! adoro!

essa imortalidade virtual é realmente um inferno!
...e no 'cemitério das almas perdidas' ainda existe a possibilidade da cópia... e da cópia da cópia, e a postagem alheia... indeletável pelo possuidor do 'original' (mesmo que o tal já tenha sido 'queimado' no ritual virtual DEL=fire !!!)

bjs

Giovani Rodrigues disse...

Muito interessante sua reflexão. Não que seja meu caso, pois graças a Deus, eu e minha espôsa somos eternos namorados. Mas dá uma certa angústia em colocar-me no passado com a tecnologia de hoje.

Menina, acho que sofreria horrores.

Mercedes, venho acompanhando seu blog há um certo tempo no Google Reader. Parabéns, é muito massa (gíria saudosa).

abraço, Giovani.

Fabio Piva disse...

É... terminar um relacionamento nunca foi algo agradável, mas ao menos encontrávamos conforto nestes pequenos atos de vandalismo emocional supracitados pela autora. E ao direcionarmos nossa energia a rasgar bilhetinhos e cartinhas, era como se estivéssemos suprindo aquela vontade incrível de nos dirigirmos até a casa do ser desprezível e enchê-lo de porradas pelo mal que nos causou. Vontade essa que, na modernidade em que vivemos hoje, permanece insatisfeita.

Mas há ainda alguns de nós -- sortudos, estes -- que se envolvem com verdadeiros Houdinis digitais. Seres que no dia seguinte do término simplesmente se esfumaçam das terras digitais -- não há mais MSN, email, Orkut, Twitter, Facebook... até o Google parece contribuir para o esquecimento de que aquela pessoa sequer existiu. É como se um grande botão vermelho tivesse sido pressionado e aquela pessoa (ou seu Avatar) simplesmente tivesse deixado de existir. Acho lindo.

Beijos,
Fabio Piva
http://paciencianegativa.blogspot.com/