domingo, agosto 29, 2010

_Sempre

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Quanto tempo dura um sempre?
Menos, muito menos do que o desejado, pode ter certeza, a não ser o sempre que dói.
Um momento de alegria dura um "pra sempre" ínfimo e, o quanto mais ele vai durar, só depende da memória, porque nem todo "pra sempre" é pra sempre mesmo...a não ser que você fotografe, grave, se esforce para não perder nenhum detalhe, porque ele se vai...e é rápido.

"Existem sempres que eu tenho", ela disse, "mas não necessariamente os sempres que eu queria ter. Eu tenho pra sempre o peso do paletó dele, guardado aqui na memória. Memória inútil, parece? Parece, mas nem é, já que posso ter perdido outros detalhes. Lembro que era marinho e muito mais pesado do que eu esperava, quando fui arrumá-lo no banco de trás, para nao amassar...boba, Amélia de quem não quer uma. 
Mas tenho pra sempre a vontade de ser. Sabe, tem gente que passa pela vida assim, de longe, de besta, por acaso e só. Mas tem gente, que mesmo passando rápido, por muito muito pouco tempo, parece que dá tempo de querer tanta coisa...e querer tanto. 'Pra sempre' é asssim: rápido, porém demorado...passageiro, porém eterno... e faz uma confusão no tempo e no espaço que atrapalha toda a matemática e a relatividade e faz com que você possa querer. Então eu quis. Eu quis cuidar dele, eu quis adormecer ao seu lado, eu quis ouvir o barulho do chuveiro, quis saber os sons de escovar os dentes. Tão rápido, tão urgente, antes que acabasse, eu precisava saber se ele dorme de lado ou de bruços, pra saber como eu me encaixo, como me enrosco, como me enredo em suas pernas pra lembrar pra sempre. Mas esse 'pra sempre' eu perdi...
Mas tenho outros...tenho sim. 
Tenho cheiros e gostos e sensações na pele. Tenho lembranças que parecem retratos: um sorriso, um olhar, um jeito de suspirar, um gemido, uma lambida, mordida, gargalhada. Tenho uma cara bem boba olhando pra mim como menino, sorrindo e mordendo o lábio com cara de travessura. Tenho todo o pensamento entre as sobrancelhas...porque eu escuto e não esqueço o jeito dele pensar.
Tenho o andar -- o jeito atrapalhado e indeciso, meio exibido, meio inseguro, meio tão meu que dava medo --.  
'O que foi?'
'Estou aqui esperando você cair no meu conceito...vai por açucar no café?'
'Não, nunca...'
'Ufa!'
pra sempre e sempre e sempre!
E o jeito de me chamar pelo nome que não é meu...o nome só dele e de ninguém mais. Não tem como apagar isso, e eu vou lembrar quando estiver indo embora, depois dos 90, quase aos 100, e vou sorrir um sorriso tão enorme que meus bisnetos vão achar que é delírio. 'Foi sim...foi um delírio, o melhor de uma vida toda...' E vou fechar meus olhos lembrando que assim que 'pra sempre' é.
Tenho tantos outros momentos que lembro e relembro, e repasso milhões de vezes pra não perder...são pequenos trejeitos, são grandes frases, são brevíssimos momentos de gigantesco prazer. Não vou perder nada...nada mesmo...sei que vou lembrar enquanto meu cérebro ajudar. O único 'sempre' que eu preciso perder é o sempre da dor, que já durou demais. A saudade imensa que dói na boca do estômago e sobe depois para a garganta, faz arderem os olhos e baixar a cabeça perguntando em voz alta: 'Por que tem que ser desse jeito?'
'Sempre, sempre foi um instante infinito roubado da alma do tempo'. Mas enquanto o sempre da saudade não passa, é o que se tem pra hoje: essa coisa misturada e confusa. Lembranças que me fazem sorrir no meio do dia, sozinha, em lugares e situações totalmente impróprios; e a tristeza que já me trouxe lágrimas na frente das pessoas erradas, nos lugares errados, mais vezes do que eu queria permitir."

Eu acho assim: existem pessoas que só passam, outras que parecem nunca passar. Isso é meio que "pra sempre". E eu não invejo quem tem uma saudade que dura um "pra sempre" qualquer, por menor que ele possa ser.




7 comentários:

Edilene Ruth disse...

Nossaaaaaa!!!!
E por mais que o tempo passe, essa saudade vai estar lá... é só fechar os olhos...
Beijão, Edilene

Paulo disse...

Lugar comum, não diz nada com nada. Parece querer copiar instante da vida de alguém que não é vc, mas: dá errado!
É tão lugar comum o que vc escreveu como aquilo que vc imagina, que nem por instante deve captar a realidade das coisas.
Infelizmente é assim: Mentes pequenas avaliam as coisas dos outros pela suas próprias óticas limitadas sem se dar conta que existe vida plena sendo vivida.
Vai se aprofundar e viva mais cada instante, porque quem vc pensa que está recordando esta vivendo cada gota. Isso é o que me parece dessa sua avaliação superficial!

Mercedes Gameiro disse...

"Avaliação superficial"
Hello? hahahaha! Eu nao estou AVALIANDO nada, Paulo, se é que é este o seu nome. Quem está avaliando é você.

Mas este é o MEU blog, e nao está aqui para ser AVALIADO. Eu escrevo sobre o que eu quiser,sendo piegas, lugar comum ou o que for. Você tem toda a liberdade de nao ler. Use-a.

"Vai se aprofundar e viva mais cada instante" foi a sua melhor frase. Juro. Adorei mesmo.
E quanto a quem EU PENSO QUE ESTÁ RECORDANDO...eu sinceramente espero que esteja vivendo cada gota, porque é assim que eu vivo.

Só queria entender a sua agressividade...você tem dormido bem? Melhoras, ta?

Mari Migliacci disse...

Eu estava voltando para casa de um cinema com meu namorado agora e pensando pq a gente tem q se separar todo domingo à noite, pq a gente tem que morar tão longe e pq mesmo assim é tudo tão gostoso e querendo organizar toda essa sensação de amor para sempre e a todo instante para chegar aqui e escrever. E tá aí! Mas eu vou escrever um lá no clube e te aviso para você ler também.
Adoro essas surpresas boas que o caixa sempre traz.
Beijão!

Fabio Piva disse...

Não concordo com o comentário do Paulo. E acrescento: Acho que ele viu no texto uma história particular, ao invés da ficção pretendida pela autora. Obviamente, cada história é uma história -- e se a dele não condiz com o conteúdo aqui tão bem descrito, este fato não invalida as intenções per se.

Tudo isso para dizer o seguinte: A carapuça está jogada. Se não lhe serve, não a vista.

Fabio Piva
http://paciencianegativa.blogspot.com/

Pedro Rocha disse...

'Sempre, sempre foi um instante infinito roubado da alma do tempo'.

Eu precisava ter lido isso hoje.

Obrigado

Anônimo disse...

meg,
não sei o que anda acontecendo comigo... ou com você... mas tudo o que tenho lido aqui ultimamente tem tido um efeito devastador sobre mim. as palavras dançam no meu cérebro, formigam na minha boca e escorrem nos meus olhos.
acho que a saudade alimenta as lembranças pra que elas mantenham o "pra sempre" vivo. mesmo que tenha acontecido há 10, 20, 30 anos... é pra sempre...

acho muito chato gente que vem aqui avaliar ou criticar. não tem nada de bom pra dizer, não diga nada. já fui mal interpretada num comentário que fiz sobre um post seu, mas não era uma crítica e pareceu ser. quem sou eu pra criticar? quem é qualquer pessoa pra vir aqui pra criticar? pagou pra entrar? não! então não enche o saco, certo?

adoro o que você escreve. acho lindo, lindo, lindo!!!!

jacque