Grande e revoltosa foi a reação à notícia de que pichadores entrarão pela porta da frente na Bienal este ano. Pessoas inflamadas gritaram nos comentários do site da Folha que “lugar de pichador é em cana”, marginais, vândalos, monstros, e daí para baixo.
A frase presente em todos os comentários: "pichação não é arte".
Sei...
Eu vou ser escorraçada, mas preciso falar. Vocês me conhecem...eu falo. Então lá vai.
Que tal a gente começar pela definição de arte.
Aurélio diz:
“Arte: Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação". Ao que eu acrescentaria: ou repúdio.
"O ser que faz arte é definido como o artista. O artista faz arte segundo seus sentimentos, suas vontades, seu conhecimento e suas idéias, o que deixa claro que cada obra de arte é uma forma de interpretação da vida.", alguém disse em algum lugar.
Todos nós sabemos que a arte é uma forma de expressão que retrata e reflete a vida, os anseios, ou a fúria do artista. Ponto.
No decorrer da história, a definição de arte se ajustou aos interesses dos poderosos de plantão, fossem eles reis, o clero, ditadores, ou o status quo. O fato é que o mundo já calou pessoas mas nunca conseguiu calar idéias, e idéias são escancaradas na arte, quer a elite queira, quer não queira.
O que hoje vemos como arte, como belo, ou como símbolo de uma era, foi muitas vezes maldito, combatido e até proibido. Hoje vemos o expressionismo como algo arrebatador e entendemos a necessidade dos artistas da época de protestar, gritar, incomodar. Mas não foi assim que ele foi recebido, acredite. Sempre houve poetas malditos, músicos rebeldes, pintores que chocaram uma geração.
O movimento punk não foi bonito, nem de perto nem de longe. Foi violento, gritou alto, manchou com uma certa quantidade de violência e sangue as ruas de algumas cidades do mundo e fez mais barulho do que se aceitaria com uma música feia (aos ouvidos da elite) gritando contra valores políticos, morais e culturais. Mas o mundo ficou de luto semana passada com a notícia da morte de Malcom McLaren - o homem que colocou o Punk no mapa. Fora isso, todo mundo já teve uma camiseta com o símbolo punk da anarquia e acha lindo.
Preciso ir mais longe? Acho que não.
O fato é que a arte é um retrato social não necessariamente feito para ser gostado. Assim como você tem o direito de achar horrível, o "artista" tem o direito de dar seu grito onde ele bem entender. Se é esteticamente agradável ou não é uma outra discussão. Quem disse que vivemos uma era bonita?
O "Pixo" é um retrato político da vida na periferia das cidades. O Pichador é uma pessoa invisível aos olhos da elite - elite esta que não sabe e não quer saber que ele existe, não conhece sua história de vida, não dá a mínima para a falta de escolas, empregos e moradias dignas nas regiões em que ele vive.
Estas pessoas com escolaridade precária, vocabulário próprio - quase um dialeto - e sub-empregos, precisavam ser vistas.
O que as massas chamam de vandalismo, depredação do patrimônio público, garranchos, sujeira, é a marca de uma época. Não olhamos para eles antes, agora não temos como evitá-los: estão no alto dos prédios, nos muros, nas pontes, dizendo em alto e bom som: EU ESTOU AQUI.
E me desculpem os cegos, isto é arte, assim como era arte o rabisco do homem das cavernas, o Dadaísmo, o Surrealismo e tudo o que incomodou e transformou o olhar dos acomodados de cada época. É arte e não foi feito para te agradar. Foi feito para deixar claro: "eu existo, eu protesto, eu sou diferente de você".
Goste ou não goste, queira ou não queira, o Picho virou arte reconhecida mundialmente. O pichador Djan foi convidado ano passado para pichar a fachada do Instituto Cartier em Paris e agora você vai ter que engolir a ele e sua "banca" na Bienal de São Paulo.
Acho justo.
Desça do seu pequeno Olimpo e encare o mundo onde você vive. Existe um universo que você desconhece ao redor das grandes cidades, cujos habitantes não são melhores ou piores do que você. Eles merecem o mesmo espaço que você mereceria se tivesse algo a dizer.
Too bad... talvez você não tenha do que reclamar, logo a sua arte talvez não seja tão escandalosa, tão eloqüente, tão urgente quanto a dos pichadores.
Fato: a arte modifica o mundo.
E este nosso mundinho anda precisando de umas mudanças.
Alguém chamado Amauri Wensko comentou na Folha Online de ontem:
"Se pixador é vândalo para quem opina, não entende que vandalismo por vandalismo, seria mais barato e fácil destruir aparelhos de telefone público ou coisa do tipo. Pichação é expressão de quem não tem educação artística, mas não é menos expressão artística e merece algum respeito, pois se existem pixadores é porque não existem oportunidades e orientação. Aos jovens artistas compete ser motoboy ou garçom para sobreviver neste país de injustiças, onde fazer a crítica é muito mais fácil do que entender e tentar mudar as circunstâncias de como e porque se expressar."
E eu aplaudo.
(pode gritar)

















