terça-feira, novembro 17, 2009

Romeo & Juliet

Epitáfio - Conto nº2
Publicado no MgWritersClub em 22.06.2007


Entregamos nossos corpos, por não precisar deles para eternizar o que sentimos.
Entregamos nossas vidas para que sejamos livres.
Entregamos nossas almas para amar para sempre.

Entregamos um ao outro o que somos e o que fomos.

"Eyes, look your last!
Arms, take your last embrace!"



Carla e Jonas

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Carta lacrada, encontrada na bolsa de Carla

Para
Glorinha Lacerda
Em mãos


Glorinha amada,

Eu preciso contar pra você o que aconteceu de verdade.

Sei que posso, porque você vai entender e não vai contar pra ninguém, porque sempre foi minha melhor amiga, sempre me escutou com paciência e acreditou em mim.
Tudo não passou de um acidente, Glory, juro. Mas ninguém acreditaria em mim. Eu sei disso. Tenho certeza.
Desde pequena ninguém acredita que eu faço coisas sem querer. Desde a vez que quebrei um vaso da minha avó e ela fez queixa para a minha mãe dizendo que eu era dissimulada, sonsa, que fingi que não fui eu. Glorinha, foi tão injusto! O vaso caiu e quebrou quando a Vó não estava em casa. Eu tinha ido na padaria comprar o que ela tinha pedido em um bilhete escrito antes dela sair. Quando ela chegou, eu não tinha voltado ainda e o vaso estava quebrado. Ela perguntou para a empregada quem foi, e a empregada não sabia. Ninguém sabia mesmo…Eu cheguei em casa e, antes de eu poder contar, ela já começou a brigar, dizendo que eu não podia quebrar as coisas e esconder... Você sabe bem o resto.
Foi sempre assim. Sempre. Você sempre viu. Mesmo quando alguém mais estragava alguma coisa, ela dizia: “Essa menina não pode ser tão estabanada! Pra mim ela faz de propósito!”

E essa é a lenda que reza na minha familia. Agora, como eu poderia contar o que acabou de acontecer? Eu não queria acabar com tudo dessa maneira, Glorinha, mas acho que é a saída mais bonita.
Presta atenção:
Eu e o Jonas fomos a uma festa ontem à noite. A festa foi divertida e nós bebemos um pouco. (Você sabe que ele exagera, né?) Dançamos um monte, rimos muito e ele me convidou para encompridar a noite. Viemos para esse hotel. Você precisava ver que lugar legal! Pedimos a maior suite. Glorinha!, dava pra fazer uma festa pra 200 pessoas aqui dentro. É a Disneylandia inteira só pra nós dois. Tem até máquina de fliperama!
A gente chegou, brincou de tudo o que tinha pra brincar, caímos na piscina, fizemos melhor de três no flipper, fizemos sauna, comemos tudo o que tinha no frigobar, bebemos champagne, nos divertimos demais. Depois tomamos um banho e dormimos um pouco.

Quando a gente acordou, o Jonas resolveu brincar um pouco mais pesado. Ele tinha umas balas (você sabe de que bala eu to falando). Ele tomou uma e deu uma pra mim. Ele também cheirou e tomou mais um negócio que eu não sei o que era, mas eu não. Dançamos um monte…depois transamos um monte…e depois mais, depois mais. Ele estava completamente doido, e eu chapada demais. Quando começou a baixar, vimos um filme. Depois, estávamos conversando na cama e ele parou de responder. Glorinha! Assim, do nada! Do nada, ele parou de responder. Eu chamei ele e nada! Eu sacudi ele, e nada! Eu gritei! Eu bati nele! Eu joguei água fria na cabeça dele! Glorinha!!!!!!! Eu quis chamar uma ambulância, mas não adianta. Eu fiz tudo o que eu sabia: boca a boca, massagem cardíaca. Eu girtei, gritei, gritei! Glorinha, o Jonas não se mexe! Ele não responde! Ele morreu, Glorinha! Morreu! Ele está ali na cama, sem vida, gelado!!! Eu acho que ele nem está mais ali naquele corpo. Ele foi embora, Glorinha!
Eu pensei em chamar a polícia, a gerência do hotel…mas não vou.
Eu não vou ficar aqui para ser acusada de fazer tudo errado. Eu não vou sentar e esperar que me apontem o dedo:
" Olha a namorada do drogado do motel! Louca! Promíscula! Drogada!"
Eu não vou esperar que alguém diga que foi tudo culpa minha! Vão querer me internar numa clínica. Eu não sou viciada! Mas quem vai acreditar, Glorinha? Só você. Eu não vou esperar que a minha avó comente com as amigas da minha mãe que eu sempre fui um problema. “Ah…Ela era uma sonsa!”
Então amiga, só você sabe a verdade. Foi um acidente.
Tão horrível... A única coisa boa é que o Jonas estava muito feliz. A noite foi linda. Tudo delicioso...

Depois de pensar por horas, vendo o Jonas, lindo, deitado ali, tão tranquilo, eu decidi que vou junto com ele. Eu sei que ele vai me esperar. Pedi papel e envelope na recepção e resolvi escrever, eu cheirei tudo o que ele tinha na mochila, amiga, e tomei as outras balas. Cinco. Vou ficar por aqui até começar a me sentir estranha e vou deitar ao lado de dele, esperar que ele me pegue pela mão.

Desculpa por isso, minha amiga. Eu te amo demais.
Não conta pra ninguém esse segredo, ta? Deixa eles pensarem o que eu vou fazer eles pensarem.
Não fica triste comigo. Nem fica triste por mim. Eu vou ficar bem.

Um beijo enorme.
Se cuida bem cuidadinho…
Da sua eterna amiga,


Carla

P.S. Fala baixinho pra minha avó que "desta vez, sim, foi de propósito."


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Esta carta foi usada como evidência na defesa de Jonas Ferreira de Andrade -
acusado de tráfico de drogas, aliciação de menores, cárcere privado e homicídio doloso da menor Carla Schimidt. O acusado foi inocentado das acusações mais graves, mas cumpre pena de 3 anos por tráfico de drogas.


2 comentários:

Rocha disse...

O que é isso, Mercedes?! Que doida!!!! Bagunçou tudo aqui. Sabe o que é pior? Não dá pra ter medo de você. Agora eu preciso tomar um café ou alguma coisa forte que me devolva os sentidos...

Adoro!
;)

Anônimo disse...

é muito louco da pra sentir ela apertando a tecla errada do controle remoto da nossas vidas...
resultado: todos perderam...