terça-feira, abril 13, 2010

_ a cegueira da elite

desenho cripta djan - panico celio

Grande e revoltosa foi a reação à notícia de que pichadores entrarão pela porta da frente na Bienal este ano. Pessoas inflamadas gritaram nos comentários do site da Folha que “lugar de pichador é em cana”, marginais, vândalos, monstros, e daí para baixo.
A frase presente em todos os comentários: "pichação não é arte".
Sei...
Eu vou ser escorraçada, mas preciso falar. Vocês me conhecem...eu falo. Então lá vai.

Que tal a gente começar pela definição de arte.
Aurélio diz:

“Arte: Atividade que supõe a criação de sensações ou de estados de espírito de caráter estético, carregados de vivência pessoal e profunda, podendo suscitar em outrem o desejo de prolongamento ou renovação". Ao que eu acrescentaria: ou repúdio.
"O ser que faz arte é definido como o artista. O artista faz arte segundo seus sentimentos, suas vontades, seu conhecimento e suas idéias, o que deixa claro que cada obra de arte é uma forma de interpretação da vida.", alguém disse em algum lugar.

Todos nós sabemos que a arte é uma forma de expressão que retrata e reflete a vida, os anseios, ou a fúria do artista. Ponto.
No decorrer da história, a definição de arte se ajustou aos interesses dos poderosos de plantão, fossem eles reis, o clero, ditadores, ou o status quo. O fato é que o mundo já calou pessoas mas nunca conseguiu calar idéias, e idéias são escancaradas na arte, quer a elite queira, quer não queira.


O que hoje vemos como arte, como belo, ou como símbolo de uma era, foi muitas vezes maldito, combatido e até proibido. Hoje vemos o expressionismo como algo arrebatador e entendemos a necessidade dos artistas da época de protestar, gritar, incomodar. Mas não foi assim que ele foi recebido, acredite. Sempre houve poetas malditos, músicos rebeldes, pintores que chocaram uma geração.


O movimento punk não foi bonito, nem de perto nem de longe. Foi violento, gritou alto, manchou com uma certa quantidade de violência e sangue as ruas de algumas cidades do mundo e fez mais barulho do que se aceitaria com uma música feia (aos ouvidos da elite) gritando contra valores políticos, morais e culturais. Mas o mundo ficou de luto semana passada com a notícia da morte de Malcom McLaren - o homem que colocou o Punk no mapa. Fora isso, todo mundo já teve uma camiseta com o símbolo punk da anarquia e acha lindo.


Preciso ir mais longe? Acho que não.
O fato é que a arte é um retrato social não necessariamente feito para ser gostado. Assim como você tem o direito de achar horrível, o "artista" tem o direito de dar seu grito onde ele bem entender. Se é esteticamente agradável ou não é uma outra discussão. Quem disse que vivemos uma era bonita?


O "Pixo" é um retrato político da vida na periferia das cidades. O Pichador é uma pessoa invisível aos olhos da elite - elite esta que não sabe e não quer saber que ele existe, não conhece sua história de vida, não dá a mínima para a falta de escolas, empregos e moradias dignas nas regiões em que ele vive.
Estas pessoas com escolaridade precária, vocabulário próprio - quase um dialeto - e sub-empregos, precisavam ser vistas.

O que as massas chamam de vandalismo, depredação do patrimônio público, garranchos, sujeira, é a marca de uma época. Não olhamos para eles antes, agora não temos como evitá-los: estão no alto dos prédios, nos muros, nas pontes, dizendo em alto e bom som: EU ESTOU AQUI.
E me desculpem os cegos, isto é arte, assim como era arte o rabisco do homem das cavernas, o Dadaísmo, o Surrealismo e tudo o que incomodou e transformou o olhar dos acomodados de cada época. É arte e não foi feito para te agradar. Foi feito para deixar claro: "eu existo, eu protesto, eu sou diferente de você".

Goste ou não goste, queira ou não queira, o Picho virou arte reconhecida mundialmente. O pichador Djan foi convidado ano passado para pichar a fachada do Instituto Cartier em Paris e agora você vai ter que engolir a ele e sua "banca" na Bienal de São Paulo.
Acho justo.
Desça do seu pequeno Olimpo e encare o mundo onde você vive. Existe um universo que você desconhece ao redor das grandes cidades, cujos habitantes não são melhores ou piores do que você. Eles merecem o mesmo espaço que você mereceria se tivesse algo a dizer.
Too bad... talvez você não tenha do que reclamar, logo a sua arte talvez não seja tão escandalosa, tão eloqüente, tão urgente quanto a dos pichadores.
Fato: a arte modifica o mundo.

E este nosso mundinho anda precisando de umas mudanças.


Alguém chamado Amauri Wensko comentou na Folha Online de ontem:
"Se pixador é vândalo para quem opina, não entende que vandalismo por vandalismo, seria mais barato e fácil destruir aparelhos de telefone público ou coisa do tipo. Pichação é expressão de quem não tem educação artística, mas não é menos expressão artística e merece algum respeito, pois se existem pixadores é porque não existem oportunidades e orientação. Aos jovens artistas compete ser motoboy ou garçom para sobreviver neste país de injustiças, onde fazer a crítica é muito mais fácil do que entender e tentar mudar as circunstâncias de como e porque se expressar."

E eu aplaudo.


(pode gritar)



13 comentários:

Anônimo disse...

Eu só discuto a GRANDE hipocrisia da prisao do ano passado e a entrada triunfal este ano..... Eu como consumidora de arte só tenho a ganhar mas a hipocrisia me irrita MUITO.

TT

Mercedes Gameiro disse...

Pois é...
E a grande piada é: se o Djan não tivesse ido pra Paris, será que o Brasil olharia pra ele?

É por isso que o Miran tinha um endereço de Nova York no cartão de visita dele. Brasileiro não gosta de quem sai no jornal local. Só respeita quem faz sucesso la fora.

M.

Alice Salles disse...

Eu sempre fiquei do lado dos tais "pixadores", como em todas as épocas, as formas de expressão que são vistas como novas e fora do comum sempre levam um tempo para serem vistas como arte. É a história que se repete outra vez, e denovo e mais uma vez...

Anônimo disse...

Pixou e disse! ;-)
Ale Moretti

Jota. disse...

concordo que eles mereçam espaço, como qualquer outra manifestação artística.
mas não concordo com algumas atitudes como essas:

http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/imprensa/index.php?p=5503

protesto é uma coisa. desrespeitar obras feitas pelos poucos que conseguiram sucesso por mérito próprio é outra. lembra aquela atitude de quem acaba de entrar em um movimento e quer cobrar atitude de alguém que realmente lutou pra esse movimento crescer.

MgMyself disse...

O que não é o caso, Jota. Porque quem fez isso luta pelo movimento há muitos anos.

Eles tem algum motivo. Não deve ter sido de graça. Mas quem sou eu pra saber isso?

Beijo

Jota. disse...

por isso eu disse "lembra", mgmyself. não os conheço e não sei qual a motivação pra fazer isso.

a questão é que eu acho difícil justificar esse tipo de atitude sem usar aquele tipo de argumento do tipo: "eles são vendidos, porque tão ganhando dinheiro, pintando com patrocínio da prefeitura, etc. então vamos atropelar as pinturas deles".

sou profundo admirador da arte marginal. do punk ao hip hop. mas isso é coisa de moleque.

beijo!

MgMyself disse...

Eu sei, Jota. Eu te conheço. :)

E eu entendi que você disse "LEMBRA".

Beijo

Me

marcos freitas disse...

swallow it dry!!!

arte reflete mundo
bienal reflete arte

num mundo doente e feio
com arte corrompida e ruim...

por todos os lados
em todos os sentidos
tudo é o que deve ser
doa a quem doer

bjss
m.

p.s. o ataque ao andar vazio da última bienal foi muito lindo... mas o que resultou dele não foi melhor ou pior do que o que havia antes, dentro ou fora do prédio... qualquer beleza reside apenas nos olhos e na alma de que a vê e sente!

marcos freitas disse...

mas só pra deixar claro que:

uma coisa é uma coisa, outra coisa é oooutra coisa!!! né? ;)


http://www.youtube.com/watch?v=a0b90YppquE

Flavio Morgenstern disse...

Primeiro, achar que a BIENAL reflete alguma forma de arte é simplesmente como pensar que a Academia Brasileira de Letras reflete algo da literatura séria feita no Brasil.

Mas esse discurso anti-elite também não cola. A elite não está nem aí pros pichadores? Então deveria pensar que toda a periferia acha que os pichadores são verdadeiros Da Vincis.

E aí levanta-se outra questão: os pichadores têm uma forma de expressão para dar um tapa na cara da elite? Ótimo. Mas quantas dessas formas merece algo além de um "E daí?", seguido por um tonitruante bocejo?

UM artista é reconhecido. Entre trocentos outros que pintam só cores sem sentido. Eu mesmo estudo design com pessoas que se inspiram em grafiteiros.

Mas é por isso que "a elite" (?!) não gosta de pichadores? Ou é porque, afinal, alguns PICHAM de fato propriedade que não é deles? Uma casa PICHADA, e não desenhada, fica mais "bonita" e é uma manifestação legítima contra a elite burguesa neoliberal anti-cotas reacionária?

No mais, muito mais pichadores poderiam entrar de frente na Bienal. É tão insignificante quanto seus rabiscos.

Mercedes disse...

1.Eu não disse que a "elite" não está nem aí pros pichadores. Eu disse que NÓS - a classe média, a classe alta, as pessoas que moram, comem, estudam e vivem bem - não damos a mínima pra quem não vive como nós. Eles não existem para nós...nem hoje nem antes.
Os pichadores são uma consequência disso. Foi o que eu disse.

2.Um casa pichada não fica bonita. E isto é o que eles querem...que fique feio. O "pixo" não é bonito. É agressivo, feio, rabiscado e feito para incomodar.

3.O que é insignificante para você significa muito para eles, que é o que importa neste momento.

Mais? To pouco me importando com o que a Bienal e a Academia de Letras refletem...

Mercedes

Mercedes disse...

Só mais uma coisinha: Nós - escritores, publicitários e estudantes de design, inclusive - somos a "ELITE".