segunda-feira, março 08, 2010

_os soutiens que perdemos no incêndio



Dia Internacional da Mulher. Como foi que ganhamos um dia?

Acho que para responder a essa pergunta, temos que voltar no tempo. Não...não no tempo em que nossas ancestrais recentes foram para as ruas queimar seus soutiens de enchimento, muito mais lá atrás.

Tudo começou debaixo daquela árvore.
Nós demos trela para uma serpente falante e ela nos convenceu de que o conhecimento era melhor do que a vidinha besta que estávamos levando como um simples pedaço de costela customizado. Pois bem, usando nossos artifícios primitivos, seduzimos o rapaz aquele que nos forneceu sua costelinha e fomos embora do Paraíso.
Com ele, claro, porque nós tínhamos o cérebro, mas ele tinha a força, logo éramos mais espertas, logo alguém tinha que fazer o trabalho sujo. Básico.
Mas sabe como é homem...tivemos que pagar pelos serviços prestados, com a moeda disponível na época, o que fez com que acabássemos enchendo esse planeta de filhos. E filhas.
Adão era desocupado e tinha energia sobrando. Muito sexo = muito filho, o que resultou em um número de filhos homens maior do que filhas mulheres, e, sabe deus como, eles resolveram que nós precisávamos da sua força mais do que eles de nossos cérebros, e se rebelaram.

Ai ai ai...aí um deles que era mais inteligentinho - acho que era gay - resolveu dar um trucão. Eva já estava velhinha, entediada, coitada, já não prestava mais muita atenção a nada, e deixou passar a historinha que seu descendente inventou.
Well, o rapazinho saiu falando para todo mundo que Deus - esse foi o nome que ele deu para a cientista que usou seu próprio DNA (costela) para criar um clone que saiu errado a quem chamou de Adão, e numa segunda tentativa, usou o moço para fazer um clone feminino - Deus era um homem, ele disse.

No início Eva até pensou: "Esse menino é retardado. Quem vai acreditar numa barbaridade dessas?"
Pobre Eva, morreu sem saber que a mentirinha colou. Aff.
Agora imagina...um monte de troglodita cheio de músculos com nenhum cérebro, se achando poderoso - imagem e semelhança do criador, etc etc. Boring! Boring e dolorido, porque eles eram fortes.
"Ah, não vai obedecer? Hoje eu não caço para você."
"Quer ficar com o outro olho roxo?"

Mais tarde um pouco, um outro maluco desceu de uma montanha com algumas tábuas de pedra dizendo que Deus - aquela? Duvido! - ditou suas regras e quem não obedecesse iria para um tipo de sala de castigo eterno sem direito a ver a luz jamais outra vez; e nomeou seus comandantes - todos homens.
Bom, nós mulheres nunca tivemos muita paciência, então rapidinho descobrimos que fingir submissão era mais barato do que um motim. Com a dose certa de carinho teríamos casa, comida e roupa lavada (mais ou menos), nossos filhos seriam aceitos mesmo quando fossem daquele bonitão que passou pela aldeia ano passado, e um decote mais ousado poderia nos tirar daquele buraco direto para a tenda do Bam Bam Bam, onde a comida era mais farta, as roupas mais quentes e, principalmente, ninguém ousava invadir.
Essas coisas que hoje tiram comerciais do ar, eram bem úteis naquela época.

Durante milênios foi assim. Mulheres se fazendo de burrinhas e frágeis para se agasalhar, comer melhor, e ter alguém que trabalhasse para elas. Até que...parece que Eva reencarnou.
E reencarnou burra!
Foi quando a mulher resolveu que não podia mais ser assim. O tempo passou, o mundo evoluiu, a mulher já não precisava mais dos músculos do homem e a coisa desandou. A essa altura a sociedade havia se organizado de forma que o homem detinha todo e qualquer poder, enquanto a mulher mantinha-se no aconchego do lar sendo sustentada, promovendo saraus e lendo bons livros, sem poder dar palpite em nada.
Ah a ganância feminina...até o aconchego do lar estava ok. O problema foi o "não dar palpite". Como assim?

Uma geração de Evas rebelou-se e resolveu que tinha que votar. Que não era certo que os homens pudessem escolher aqueles que iriam decidir o futuro de seus rebentos e criar leis que não eram lá muito justas com elas. Mas era só isso Dona Eva. Só isso! O resto estava dando certinho.
Mas não...algumas Evas resolveram querer mais. Queriam ser iguais aos homens, como se fosse possível reverter a natureza - nunca seríamos tão fortes, nem eles tão lindos e brilhantes. Isso a essa altura queria dizer: trabalhar, ganhar dinheiro, ter poder de decisão na vida pública de seus países, ser presidentes, primeiros ministros, ficar mais feias, e outras cozitas más, nem todas dignas.
Então soutiens foram queimados. Sim, soutiens, símbolo máximo do cativeiro feminino, o soutien pagou o pato.
E as gerações futuras também.

O que estava implícito na revolta das Evas era que elas queriam sua dignidade de volta. Nada de homem mandando, nada desse equívoco durar mais tempo. Mas o que elas não sabiam é que há um fator na natureza que faz com que tudo volte à essência de tempos em tempos. Então elas lutaram, se descabelaram, queimaram langeries carésimas, se indispuseram com seus maridos, filhos, pais, padres, rabinos...para tudo voltar ao que era, meio século mais tarde, com algumas pioras.
Aconteceu que a mulher foi trabalhar. Conquistou seu direito à igualdade, mas com funções acumuladas. Agora ela é tratada como homem, mas ainda tem cólica e músculos mais frágeis. Agora ela vai para a guerra e morre como um homem. Sai para caçar por comida, mas ainda precisa cuidar da caverna. Algumas não conseguiram ter o marido, mas tiveram os filhos. Conseguiram o emprego mas não o respeito. Conseguiram o dinheiro mas não o poder. O poder, mas não o sono tranquilo...e assim por diante. E agora precisamos de um Dia Internacional da Mulher para lembrar-nos uma vez por ano que somos mulheres, que lutamos por um lugar no mundo, que ainda temos mais conquistas pela frente, e que tudo isso seria bem mais simples se nos uníssemos aos homens ao invés de combatê-los. Opa! Opa! O que eu acabei de dizer? Que ficamos rancorosas e combatemos o que nós mesmas criamos? Céus acho que precisamos de mais dias da mulher pare tentar descobrir outra vez onde foi que erramos.

Ta. Acabou aí? Não! Ainda não falei o que quis dizer com “tudo volta à essência”.
Uma nova geração de Evas nasceu, olhou em volta e pensou: "O que? Moi? Nunca que eu vou ser trouxa igual à minha mãe."
Então saíram e compraram soutiens de enchimento, roupas mais justas de decotes mais amplos; super-valorizaram o corpo, elaboraram coreografias sensuais, mudaram o rumo...e agora permitem tudo o que revoltou as segundas Evas, em prol de casa, comida e roupa lavada. Se fingem de burras - ou são, não sei ainda - jogaram fora as cinzas dos soutiens passados e fazem do sexo seu principal instrumento de segurança e conforto. São milhares. Dezenas de milhares de mulheres que vão levar o nome de Eva para o lixo junto com camisinhas previamente furadas - garantia de uma gorda pensão em curtíssimo prazo - e dançar até o chão, chão, chão (é eu sei...eu exagero).
É claro que ainda existem milhões de Evas batalhadoras e bem sucedidas, mas outro tanto não funciona bem assim. Essas são as que estão retrocedendo para a idade média, só que com menos roupa.

E o que virá depois? Voltamos todos para a caverna, ou para o tubo de ensaio, antes que seja tarde. De novo.

Espero que a primeira Eva ressurja das cinzas.



(não me xingue...é só uma elucubração)





6 comentários:

Alice Salles disse...

a gente sempre quer o que não entende, quando chega no que quer parece que faz tudo voltar a estaca zero! dia da mulher é palhaçada master... sempre achei.

Luiz Mussio disse...

Dia da mulher marca o momento em que a força bruta deixou de ser o principal e nos tornamos mais civilizados. Só isso. Se a tendência for voltar a essência vamos nos embrutecer novamente em breve.

Anônimo disse...

Luiz,

Olha para os morros e periferias. Estamos embrutecendo...só as elites não estão vendo.

Mercedes

Perin disse...

Texto brilhante...adorei as elocubrações...bjo amore

patricia disse...

ahahahaha. Adorei o texto, tô me matando de rir com a forma que vc passou a triste realidade conquistada pela mulher.

LilianBuzzetto disse...

Tem um lado meu que pensa como você. O problema é que as pessoas - e não só as mulheres - estão dando mais do que podem, fazendo de qualquer jeito. Não tem certo ou errado, tem o de cada um. Mas do jeito que as coisas vão, a vida está passando muito rápido.
.
Parabéns pelo texto, pelo estilo afiado, por não ter medo de falar, por ser diferente - ou por assumir que é diferente - do resto. Virei fã cativa.