segunda-feira, julho 26, 2010

_sobre presentes


Confesso: eu sou romântica. Romântica não, intensa. Intensa e persistente. Não sou muito boa com rejeição, sabe...No início ser rejeitada me fazia sofrer muito. Mais tarde passou a ser um desafio bom. Aí você junta o romantismo latejante da pessoa, com uma grande - quase insurportável - carga de intensidade e uma persistência ferrenha, e o resultado é sempre lindo. Pros outros.
A junção dessas coisas me fez acreditar que eu sou o homem da minha vida. Se eu fosse criar um Frankenstein pra chamar de meu, ele teria que ter o meu DNA e aprender tudo comigo antes que eu pudesse pular pelo sótão gritando: "HE'S ALIVE! HE'S ALIVE!"
E ele seria o namorado perfeito. Romântico sem ser chato. Presente sem ser stalker. Engraçado - sem achar que eu vou rir de piada de pum. Teria seus amigos, seu bar, seu poker/futebol/banda/whatever, só  pra não ser um grudento chato, mas não sem vir me ver no final da noite. Ele ligaria, escreveria, mandaria mensagem, sem se preocupar se está sendo disponível demais, se eu vou achar que isso ou aquilo, sem se preocupar se eu vou querer casar com ele amanhã de manhã ou estragar algum plano que só ele conhece. Mas, principalmente, ele saberia me presentear. 
É... porque eu não conheço alguém que saiba dar presentes como eu sei.
Eu conheci um único homem capaz de presentear como eu. Durante o pouco tempo que estive com ele, ganhei coisas sem nenhum valor financeiro, todas incríveis, com histórias incríveis e efeito (em mim) igualmente incrível. Você pode saber um pouco mais sobre isso aqui, se quiser, embora haja um pouco de ficção misturada à realidade: Coisas da Vida #5. MAS DEPOIS!

Por causa de uma conversa hoje à tarde, resolvi lembrar alguns presentes que dei. Vou tentar passar o perfil do presenteado também. Quem sabe assim, o efeito do presente fique claro para quem ler.

. Namorado #1. 
Tremendo problema. Grego, vaidoso, mentiroso, daqueles que gostam de fingir mais grana do que têm, mais poder do que um dia terão, mais segurança do que um deus do Olimpo. Presente certo, porém erradíssimo. Fique claro que eu só tinha 18 anos e era burra. Vítima perfeita. Mesmo assim, usei todo o meu salário para comprar uma caneta Cartier incrivelmente maravilhosa e, surpreendentemente, não brega, para ele.
Plim! Roda o painel luminoso: ponto para mim. Durante um ano ele ficou ao meu lado, fingindo ser um grande homem e depois foi embora levando a caneta. Mas o vi trocentos anos mais tarde, quando ele apareceu na missa de sétimo dia do meu pai, parou na minha frente sem dizer uma palavra, me abraçou um abraço de trinta anos, me olhou com aqueles olhos indecentemente azuis e sorriu. No bolso do paletó, aposto, uma caneta Cartier.

. Pretendente #2. 
Não era um namorado. Nunca foi. Era a coisa mais linda que eu vi em toda a minha existência...talvez a segunda mais linda. O rosto mais perfeito, o corpo mais incrível (mentira, ele era baixo e eu hoje não posso me imaginar com um homem baixo), a coisa mais deliciosa de carinhoso, de atencioso, de nhenhenhe, mimimi, cuticuti e outras fofices ridículas. Não me dava a menor bola. Dava, mas fugia. Morcego: mordia e soprava, não sabia se vinha ou ia...uma tragédia. Vaidozérrimo, queria que o mundo acabasse em espelho porque niguém jamais seria mais bonito, cool, bem vestido do que ele. Hoje eu diria que ele era gay. Mas eu não sabia nada naquela época.
Um dia, peguei uma foto dele e fiquei olhando...bingo! o que poderia conquistá-lo que não ele mesmo? Com essas mãozinhas habilidosas eu fiz um cartão vermelho -- que eu devia ter guardado proque era uma obra prima -- que quando aberto mostrava ELE. O texto eu não lembro direito, mas mandava que ele abrisse o cartão para ver a coisa maravilhosa que eu havia encontrado e queria para mim. Para acompanhar o cartão, um vaso com um pé de morangos, com morangos. Morangos maduros, cartão vermelho, vaidade ativada. Plim! Piscam as luzes, fogos de artifício: recebi uma visita surpresa aquela noite. E algumas noites seguintes. Depois ele se foi...absorto pelo espelho que não podia parar de refletí-lo.

. Amor literário #3. 
O correspondente dos anos 80 para o amor virtual de hoje. Inatingível. Eu o conheci na hora errada, numa agência de publicidade do Rio, no momento mais absurdo que uma mulher pode conhecer um homem e pensar em qualquer coisa além de apertar sua mão e dizer até logo. Não foi bem assim. Foi meio sofrido, mas eu respirei fundo e esqueci sua existência. Ele era intelectual, brilhante, escritor, brilhante, interessante, brilhante...eu já disse brilhante?
Bom, esqueci a existência da criatura, até o dia em que já era permitido lembrar. A vida é hilária -- de um humor de péssimo gosto -- e fez com que eu fosse trabalhar na mesma agência, só que em outra cidade. Havia uma forma precária de comunicação naquela época chamada malote. Todos os dias, saía um malote para o Rio e vice  versa. Foi aí que começou o romance literário. Cartas via malote. 
Mas eu tenho essa mania de confeccionar coisas (tinha) e de tempos em tempos eu fazia algum cartão absurdo. Uma vez ele me chamou de bruxa...disse que minhas palavras encantavam e isso só podia ser bruxaria, e eu fiz um cartão que incluia uma vassoura, uma foto minha, as palavras dele...e ai ai ai. As cartas dele eram meio lights. As entrelinhas eram perigosas, mas o contexto geral era sempre cuidadoso. Mais uma vez, era alguém bem mais  velho do que eu, que parecia saber onde estava pisando e pisava em ovos, enquanto eu - inconsequente - queria mais era sapatear e dançar uma rumba em cima da granja. Muito bem...e o presente? Uma semente. Uma pequena semente vermelha oca,  tampada com um minúsculo elefante esculpido em marfim. Dentro da semente, deveriam estar 12 micro-mini-elefantes esculpidos na polpa da própria semente. Cada elefante daria direito a um desejo. Eu roubei onze. Deixei dentro da semente apenas um elefante - um desejo - e o desejo era meu. Coloquei a semente dentro de uma caixa minúscula de vidro e mandei junto o manual de instrução dizendo que aquele era o meu desejo. Que ele poderia usá-lo ou jogar fora, ou guardar para sempre com ele. 
Ponto pros dois! Bruxa!
Mais tarde, mas não muito, eu soube que ele trocava as cartas. Escrevia, colocava no malote, depois corria la e trocava por alguma coisa mais leve, menos comprometedora, mais tranquila. Mesmo assim nos correspondemos por alguns anos. E nos encontramos. E ficamos juntos. E depois ainda nos tornamos amigos. Eu ainda tenho todas as cartas, eu ainda falo com ele, e nosso romance por escrito foi uma das coisas mais bonitas que eu vivi. Ele ainda tem as cartas, ainda me chama de Mercedita e ainda diz que eu sou uma bruxa.

. Amor inexistente #4. 
Não, ele não existe. Ele é alto, ele é grande, ele surfa, ele tem olhos azuis, pele bronzeada, cara de Marlboro man. Ele é dourado. O trabalho dele é fascinante, o humor dele é fascinante. É um mix de gentileza extrema e sarcasmo, ele é ácido, ele é romântico, ele é tão impressionante que só podia mesmo ser de mentira. Ele canta, ele toca guitarra, ele dirige um carro enorme, ele te pega no colo para você não pisar na água, ele esconde a chave do seu carro e diz que perdeu, só porque você bebeu; depois ele leva você para casa e no dia seguinte seu carro aparece na sua driveway, a chave na sua porta e ele já pagou as suas multas. Traumatizado por um divórcio que o deixou zerado, ele tem medo de compromisso, mas não sabe não amar profundamente. Ele viaja demais, vive na estrada, encara vendavais e tempestades com a coragem de um gigante...mas tem a docilidade de um menino. Ele desaparece por anos, como se tivesse esquecido você, e quando volta é como se tivesse dado boa noite ontem, com um beijo, antes de dormir ao seu lado. A frase preferida? "Estamos sob a mesma lua."
E o presente? Um zippo. O único isqueiro que acende no vento, na chuva, na água. Aí você vai dizer que isso nem é um presente especial. Não, não seria se eu não tivesse mandado imprimir a lazer, em letras escuras, os dois lados do zippo. De um lado: "me under your moon". Do outro: "you under my moon". E não, se ele não tivesse ido ao banheiro e na volta, eu não tivesse pedido fogo, e ele não tivesse achado o zippo em  cima do Marlboro vermelho, e olhado para ele sem entender o que estava vendo, e não tivesse sorrido com os olhos cheios de lágrimas, e não tivesse acendido o meu cigarro, dado a volta na mesa e me beijado do jeito que beijou. Não seria especial se ele pudesse me esquecer. Não pode. O Zippo não deixa. E se deixar, a lua vem e estraga tudo.

. Amor proibido #5
Eu não podia namorar aquele moço. Eu tinha 19 anos, ele 32. Ou era 34? Não lembro. Ele um intelectual, eu uma menina. Ele me constrangia. A presença dele era grande demais e eu um grande nada em formação. Mas ele queria e eu deixava rolar. Fazia bem para o meu ego recém descoberto que o moço cool, no auge da carreira, olhasse para mim. Era como ter quinze anos e desfilar por aí com um livro da Simone du Bevoir autografado, embaixo do braço: fazia de mim uma intelectual precoce. Até aquele momento, eu era o brinquedo, ele era o ábil manipulador de marionetes. Mas aí chegou o aniversário dele, e não era exatamente fácil agradar um homem com o gosto refinado dele, cuja casa tinha obras de arte por todos os lados, livros autografados por amigos famosos, e uma discoteca (sim, estou falando dos tempos do vinil) que ocupava uma parede inteira. Mas o que eu tinha a perder, fora uma parte do meu salário do mês e algumas horas procurando o presente perfeito? Foi assim que, muito antes de alguém pensar em juntar vários DCs num box, eu comprei toda a discografia dos Beatles, juntos e separados, disco por disco, single por single, e mais alguns discos de nomes importantes que gravaram Beatles em algum momento da carreira...coloquei tudo numa grande caixa, embrulhei para presente e fui entregar.
Ele também foi embora. Mas eu que mandei.

E tem mais. Tem muito mais, mas eu estou com preguiça, e algo me diz que se eu me extender mais você também vai ficar com preguiça de ler. Mas tem um piano que chegou junto com uma cesta de café da manhã. Tem um anel gravado com um mantra mágico de amor eterno (que eu espero que tenha sido jogado num rio a essa altura do campeonato). Tem um money clip com o primeiro dolar simbólico de uma viagem sonhada. Tem um escaravelho egípcio que viajou meio mundo para dizer a alguém que aquele era o meu coração que mudou de lugar. Tem um pedaço do meu tempo, da minha vida e do meu pensamento em cada presente que eu dei para alguém a quem eu amei eternamente, mesmo que por pouco tempo. Por que como eu já disse uma vez "amar profundamente é a maior das verdades passageiras".

quinta-feira, julho 22, 2010

_80's

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Outro dia eu comentei com alguém que eu não gosto dos anos 80. Ele me perguntou por que e eu fiquei meio com preguiça de responder. Teria que voltar no tempo e repensar milhões de coisas. Não havia nem tempo nem razão para tanto...e numa resposta rápida eu seria leviana, deixando para trás coisas importantes como, por exemplo, os pontos positivos dos meus anos 80. Sim, os meus, porque os dos outros eu não sei.

Então, tudo começa com a música. Não toda a música, mas o festejado Rock Brasileiro dos 80. Eu não gosto. Já não gostava naquela época, hoje quando não tenho saída e acabo indo numa daquelas festas que acabam com uma banda meia boca ou um DJ executando uma seleção "sou-engraçado-e-você-se-diverte-com-qualquer-merda", eu chego a pensar que a vida numa caverna deva ser mais interessante. Não acho a menor graça em dançar Ursinho Blau Blau e Balão Mágico, odeio a Xuxa e suas próximas vinte e cinco gerações de descendentes, e eu não era criança nos 80 pra lembrar dessas músicas com o menor carinho. Ah...mas eu estava falando do Rock dos anos 80...claro. Rock...Blitz? Paralamas? Três neguinhos tocando mal e um cantando pior? "Eu e minha gata rolando na relva, rolava de tudo"? "Eu não matei Joana D'arc"? Ah me poupe. Eu detestava tudo isso.
Tá, primeiro é preciso explicar que eu era bicho grilo. Sim sim, poncho e conga. Não, espera...são 10 anos de anos inteiros, que começaram quando eu tinha 18 pra 19, terminaram quando eu tinha 29. Como afirmar que eu era bicho grilo? Eu usei alpargata e camiseta do Solidarnosc, depois usei calça jeans justérrima com salto alto e camisa, muito lenço no pescoço (em 2010 eu ainda não tirei os trapos do pescoço), usei ombreiras imensas, fui uma jovem senhora de saia e stiletto, fui de tudo em 10 anos.  Cantei MPB em teatro universitário, fui a um sem número de shows ruins de amigos talentosos. Comecei a década com a MPB que já estava nas veias e não tinha como fugir: Chico, Caetano, Milton, Elis, Gal, etc, claro que Beatles, Rolling Stones e Doors, Janis Joplin e outros já vinham de antes também...passei por The Police, U2, Queen, Eric Clapton, Nina Simone, Genesis e os eternos (não gostava de Led Zeppelin); depois Talking Heads, Laurie Anderson, Annie Lennox, Bruce Springsteen, Bob Geldof, David Gilmour...eu era normal. Mas não tinha como ouvir Eric Clapton e depois deixar o Marcelo Nova ou o Roger entrarem nos meus ouvidos. Não tinha. E eu odiava Legião. Só consegui prestar atenção nas letras do Renato Russo quando alguns outros cantores regravaram, num ritmo mais lento e um arranjo menos irritante. E tinha Cazuza...mas Cazuza eu gostava. Não dá pra comparar. Sem falar que a música dance dos 80 (não todas) tinha uma batida que até hoje me faz achar que é alguma brincadeira de um músico que resolveu curtir com a cara da humanidade.

Então esquece a música. O que foram os anos 80?
Vou ter que contar numa timeline de amores: Comecei com um namoro escondido, com um homem 12 anos mais velho que foi fundamental na minha formação intelectual, mas tive que largá-lo quando, em pleno carnaval, ele usou as frases "guinada na vida", "sentir segurança" e "construir juntos" no mesmo texto. Troquei de namorado.
1983
Me casei em 1983 com meu namorado de dois anos, ou um pouco menos, não lembro. Tive um filho lindo, e uma vida linda -- e curta -- com os dois, cheia de ideais telúricos e revolucionários. Uma vida cheia de música e talento transbordante. Não, eu não casei grávida. Me separei em 85.
Como sempre, meu nome era trabalho. Comecei a trabalhar aos 13 anos e não admitia a hipótese de mudar isso. Era RTVC na filial curitibana de uma agência paulista naquela época, cuidava da casa, do filho, do trabalho, de mim. Como sou impaciente, não esperei que meu ex saísse de casa: peguei minhas trouxinhas, meus livros e discos e voltei para casa dos meus pais, o que não foi legal. Depois namorei quase três anos com um homem com quem jurava que eu ia casar, e mudei de agência. No final deste período de  três anos, tive uma decepção estapafúrdia com ele - quando precisei que ele fosse um homem, ele foi um menino - e o maior amor do mundo se esvaziou em um mês. Neste momento eu ganhava bem, não tinha porque morar com meus pais, me mudei para um apartamento com meu filho, e trabalhei muito mais. Trabalhei e namorei muito mais, até que a história foi mais complicada, vou até mudar de linha pra contar.

grávida em 1984
Conheci o moço antes de casar. Ele era o amigo novinho e lindo do meu padrinho de casamento. No meu casamento bicho grilo, ele tocou uma música que eu nunca vou contar qual era, porque uma coisa é eu dizer que eu era bicho grilo, outra coisa é vocês conseguirem mensurar a bicho grilice da pessoa. Bom, ele tocava muito, cantava incrivelmente bem e não era lindo. Não. Era um deus. A beleza dele era incômoda de tão incrivelmente linda, e o jeito que ele me olhava doía na alma. Mas isso eu só vi depois. Fato, duranto o tempo em que estive casada, só vi esse moço poucas vezes, quando vinha do interior -- sim eu tentei aquela coisa linda de ser dona de casa e deixar o marido comandar a vida, e criar meu filho num lugar verde e livre, ar puro e blablabla...por menos de seis meses -- então eu saía com os amigos para tomar um pouco de poluição e cerveja. Sempre que eu ia pra Curitiba, meu próprio marido ligava para todos e pedia pra me socorrerem. Sim...e o moço-deus estava sempre lá me olhando. Ele casou também e teve uma filha. Então, faz as contas ali em cima, me separei em 85, depois namorei mais dois anos e meio...e foi quando o moço-deus reapareceu, trabalhando comigo na agência, como fotógrafo. Susto no corredor quando o vi pela primeira vez. Susto número 1: o que esta criatura está fazendo aqui? Susto número 2: a que horas ele ficou tão bonito que eu não tinha visto?
Aí põe o papo em dia, eu no estúdio fotográfico, ele na minha sala, eu infeliz com o namorado que virou menino, ele saindo de um casamento recheado de histórias dramáticas...receitinha básica para confusão.
1986
Como estava escrito nos planos dele desde o dia que me conheceu (nem vem agora dizer que não, porque me contaram), pa-buf! Ficamos juntos. Ele era de uma cara de pau tão incrível, que foi morar com o meu ex-marido quando se separou, pode? E, devagarzinho, foi deixando uma pecinha de roupa, um livro, um disco...na minha casa. No final de seis meses eu tive que explicar para ele que aquela era a MINHA casa, e aquele era o MEU armário, que o quadro da sala era MEU e ele não podia mudá-lo de lugar, porque a sala também era MINHA. E, principalmente, que ele tinha que procurar um lugar para morar de verdade. Mas era lindo...assim...em tudo. Eu tenho ainda impressos na memória vários retratos incríveis e cenas impressionantes dele. Unforgettable. Se eu tivesse uma prateleirinha de troféus, ele teria lugar de destaque. Hoje é um bom fotógrafo e continua lindo igual.
Pois então...menos um.
Depois dele eu resolvi que tinha que parar de me apaixonar. Pelo menos tinha que parar de me apaixonar por pessoas frágeis que dependeriam de mim para existir e crescer, e que eu deixaria de admirar em tempo récorde, acabando por usar a ponta da bota em suas lindas bundinhas. Então me coloquei de castigo.
Comofas? Faz assim: você se deixa engordar um pouco (naquela época REALMENTE pouco) se tranca em casa depois do trabalho e escreve, escreve, escreve, sonha, sonha, sonha, e não convive com ninguém. 
Mas a vida não é bem assim. Eu sou antes de tudo um ser social que faz amigos de graça por esse mundo de meu deus. Em pouco tempo, eu tinha um novo grupo de amigos - fora os sempre fiéis que conheci nos lugares por onde passei. Logo as tentações me rondavam mas eu fui firme. Não deixei ninguém se aproximar o bastante para que eu me apaixonasse. Assim, segui até o final dos anos 80 sozinha.

Me e Diogo e a vuvuzela dos 80's
Aí eu pergunto: os 80 foram ruins? Não...não foram. Foram ricos em acontecimentos, paixões, uma criança crescendo a minha volta, realização profissional, e muito mais. Mas foram também anos de estar perdida. Eu troquei de estilo, de grupo de amigos e de namorado, o tempo todo. Isso é um sinal de que eu era uma barata tonta. De 1980 a 89, eu não sabia exatamente quem eu era, a não ser profissionalmente. Profissionalmente foram os anos decisivos para que os 90 pudessem chegar e  mudar tudo radicalmente. Mas até lá, eu estive no escuro. Sabia que era forte. Sabia que era uma super mulher capaz de suportar fardos nunca antes imaginados. Sabia que queria saber mais, pesquisar mais, estudar mais, mas estive de olhos vendados para o futuro -- coisa essa que eu não podia imaginar como seria. Futuro era uma coisa distante, que fazia minha inner bússola enlouquecer. Era mais fácil andar um pouco todos os dias como a vida me permitisse, do que traçar um caminho. Eu simplesmente não sabia para onde ir. Tinha em mente que minha profissão era prioridade, porque ela era o que permitia que meu filho tivesse uma vida decente, e ele sim, era a prioridade máxima. Todo o resto não importava.
Mas os 90 chegaram...no início eu fiz umas bobagens bem grandes, mas logo a bússola passou a funcionar...e eu cheguei aqui.

É isso. Sempre que alguém morre de saudades dos anos 80, eu torço o nariz por isso: bússolas.


Bom dia

Essa timeline é falha. Contei o que foi importante mas existem dezenas de paixonites, casinhos e coisas que não se conta, ali nas entrelinhas. Os anos 80 foram responsáveis pela teoria das minhas amigas da época, de que existiam 4 homens para cada mulher em curitiba e todas elas estavam solteiras por minha causa. #maldade!

terça-feira, julho 20, 2010

_queria

queria deletar teus textos
engordar trinta quilos
dormir trinta anos
perder o tempo
não ver sumir o homem que eu queria tanto

não ver passar

queria ser bonita --
tão generosa
bondoza
entender teu ponto
te dar razão
encontrar meu equilíbrio e te dar de presente
queria ser perfeita

mas não sou

queria cavar um buraco
trinta metros abaixo dos trinta dias
que tive pra te perder
me deitar dentro dele
me esfregar na lama
de raiva
de ódio

de medo

queria te achar patético

não sentir saudade
não lembrar teu cheiro
queria não querer teu resto
tuas migalhas
nada que seja teu

mentira
não queria nada

queria deitar agora
cabeça no teu peito
teus pelos
teu cheiro
depois acordar nos teus braços
morrer nos teus beijos
e fim

segunda-feira, julho 19, 2010

_iansã e oxóssi

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"Ele é filho de Oxóssi, tu ta perdida, filha...é filho de Oxóssi".
Como ela poderia saber de tão longe? E ainda mais longe estava essa outra cultura, que não traduzia nada em referências que ela pudesse entender. Era só mais uma informação. Ela sabia seu signo -- mas o que importa se ela nem acredita? -- Sabia o nome, o sorriso, a cor do carro. Acho que só. Talvez a preferência escancarada por alguma cor de camisa, mas sabia tudo antes.
Ela deu com os ombros como se ele fosse primo distante de alguma amiga de infância -- nomes que vivem longe, coisas nada palpáveis -- e seguiu com a vida sem olhar os sinais. Mas toda vez que ele franzia a testa ela sorria. Toda vez que as sobrancelhas se juntavam, ela sabia que queria mais daqueles pensamentos, queria mais daquele perfume, queria muito mais.
Orgulho. Era meio que isso: orgulho, como se ele fosse dela, sabe? Dela desde sempre, mesmo que não existisse semanas atrás. "Meu", ela dizia, sem saber porque. E todo gesto dele, todo olhar para o lado, toda gentileza, era um orgulho grande, uma alegria besta, como se fosse dela.
"É Iansã...tua mãe não te deixa largar um home desse".
"O que?"
"Filho de Oxóssi te vira do avesso, filha, faz de tu o que quer...não tem como tu largar." 
"Ele me larga, eu sei."
Frases tão sem sentido...
E foi levando a vida como se fosse assim, antes mesmo dele aparecer. Esperava por tudo,  menos por ele -- só sabia o nome, o sorriso, a cor do carro.
Queria ter entendido quando dava tempo, antes de ver a pele pegar fogo. Queria ter ouvido antes de provar o gosto. Mas não. 

E foi assim que tudo ganhou outra cor: Iansã e Oxóssi -- e a vida do avesso.
.

terça-feira, julho 13, 2010

_fogo

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ela vira de lado fingindo dormir 
mas não há vestígio de sono em qualquer orifício de seu corpo
queria apagar
mas a carne dói uma dor que é forte
domina a sanidade
leva embora o sossego
embrulha o estômago. 

ela abraça o travesseiro extra como se fosse a última pedra antes da cachoeira
é vertiginosa a queda quando o desejo não cede
é sangrento o tombo quando a lucidez é frágil

a cada fechar de olhos uma imagem mais dura
as mãos dele em outro corpo
a boca dele em outra pele
o sorriso dele em outros olhos

encolhe as pernas então
esconde a cabeça no edredon
guarda o gosto dele no fundo morno da boca
procura a última lembrança
                                  ...as luzes
                                  ...a madeira fria nas pernas
                                  ...o toque liso na língua

a cama
em chamas
a consome

.

domingo, julho 11, 2010

_freeze (mais do mesmo)

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"maybe i'm amazed at the way you pulled me out of time, hung me on a line. 
maybe I'm amazed at the way I really need you"

"Café?"
"Isso...um café e só. E a gente fica amigo pra sempre."
Mentiras, mentiras...
Não mentiras graves. Só mentiras de auto-defesa. Não tinha como pensar de outra forma quando os dois estavam morrendo de medo do que encontraríam. Não...mentira de novo. A verdade é que ela estava morrendo de medo de ser rejeitada. Difícil lidar com isso depois de tanta expectativa, tantos finais imaginários.
Café. Que mal poderia haver num café em lugar público? Em caso de ficar sem graça, olhar o movimento seria uma solução. Em caso de susto, quem sabe entrar numa loja, sair de fininho, sei lá. Em caso de rejeição extrema, tem sempre um banheiro por perto para trancar a porta e morrer de chorar.
Café.

"So I look in your direction, but you never even see me, do you?"
Assim que ela virou a esquina do estacionamento, cantando Shiver (da banda que ele nem gosta), com o vidro do carro aberto e a certeza de que ele jamais apareceria, deu de cara com o que seria ele: dois palmos mais alto e cinco vezes mais impressionante do que ela imaginou. Mas no que isso poderia importar quando ele já era impressionante antes, pelas coisas que dizia -- e como as dizia --, pelo sorriso encantador e o olhar delicioso que ela já sabia de cor?
Foi instantâneo.
Num estacionamento aberto, através de milhares de carros e uma multidão de pessoas, os dois se reconheceram imediatamente. Medo. Muito. E os sorrisos rasgados foram como um reflexo natural inevitável -- uma martelada no joelho e a perna pula -- assim.
Ela baixou o volume, parou o carro ao lado dele:
"Vou procurar uma vaga."
Ele entrou no carro, ela estacionou, desligou o motor, olhou para ele. E agora? O sorriso aberto e as duas mãos seguraram seu rosto, em seguida uma delas se aventurou a desbravar sua cabeleira. Ela estática, não sabia para que lado se mexer ou o que fazer agora. A mão macia em seu rosto a impedia de pensar...Ele fechou os olhos e deslisou o nariz pela pele -- testa, face, nariz, boca, queixo, pescoço -- respirou fundo como se a tragasse inteira para desaparecer numa névoa torpe de desejo. Fascinada, ela deixou que seu perfume o tomasse, o agridisse, o arrebatasse. Olhos abertos dentro dos olhos, e ele se movia de um jeito que ela esquecera se vivia ou não. Nem um beijo. Nada. Apenas a pele na pele, a mão nos cabelos, os cabelos no rosto, a voz no ouvido: "você é real...e agora?"
Real. Bem mais do que real. Era o que ele era. Totalmente irreal era o que parecia ser aquele carinho todo, aquele desejo todo. Ela hipnotizada, ele bêbado de cheiros. E todos os indicadores de que o mundo existia, se apagaram como mágica.
O beijo esperado. Não. Espera. O beijo esperado seria um simples beijo bom e nervoso na boca. Não foi bem assim. Daquele instante em diante não havia fronteira entre as bocas e o infinito. O beijo foi um beijo inteiro. A língua morna percorrendo o mundo a passos lentos e molhados, desligando o tempo e deslocando o eixo da terra. O ritmo dos planetas e dos corpos mudou, o big bang implodiu e inexistiu em milhonésimos de nano-fragmentos de vazio, e tudo parou.
O beijo. Um beijo. As mãos. Os cheiros. A voz: "eu sempre soube que era pra sempre."

Sempre, sempre foi um instante infinito roubado da alma do tempo.

...

_fragmento de tango

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Hoje, por causa de uma euforia no Twitter sobre minha novela de 2006 - Um Tango para George, talvez a bobagem mais divertida que eu jamais escrevi - acabei relendo o Tango inteiro e achei que deveria relembrar essa parte (fora essa tem o diálogo do Viagra que é demais, mas fica pra depois).
Antes, quero dizer que quando eu releio coisas antigas, tenho a impressão de que eu psicografo. Não lembro de ter escrito aquilo e fico tentando entrar na minha cabeça daquela data, para saber que mecanismo maluco me levou a pensar sobre aquilo, naquela hora. É gostoso... e sempre me surpreende.
Anyway, aqui vai um trecho de texto que eu gosto, sobre um assunto que eu gosto.


(...)
De qualquer maneira, estou autorizada a dizer que Lívia estava feliz. Seu sorriso era maior do que aquele que encantou George no primeiro dia. E George sorria como um menino que ganhou um autorama.
Homens sempre têm esse ar depois da conquista. Dependendo da pessoa envolvida, o autorama pode ser maior ou menor. Mas essa é mais uma diferença grave entre homens e mulheres: após o sexo, na primeira vez com alguém que quer muito, a mulher tem a expressão da princesa que acaba de ser coroada rainha. Ela tem agora um império para comandar. Seu sorriso é plácido e ela é soberana. Por isso seu tombo geralmente é doloroso ao perceber que o império não existia. Um dia ela é rainha, no outro mendiga! Sente-se usada, derrubada, invadida e esfarrapada. A última mulher moradora nas ruas num filme medieval sobre príncipes e plebeus. A conclusão - "ele só queria isso!" - é o pior de todos os pensamentos que podem atravessar o cérebro de uma mulher. Até porque é o coração que ele atravessa. Há tempos que as mulheres tentam fazer de conta que são capazes de querer só sexo. Mas este é um trabalho para a medicina genética, não para seres isolados.
Já os homens, ganham autoramas. Autoramas e ferroramas existem aos montes por aí. Impérios não. Logo os homens não caem. Eles só imaginam que o autorama veio com defeito, desdenham e deixam de desejar. Hum... Ou pelo menos esta é a visão de uma mulher um pouco mais intensa e dramática.

Voltemos então aos nossos outros impérios e autoramas.

Lívia já não via George como celebridade suspeita. Ela já havia parado de procurar e apontar os defeitos dele. Agora era a hora perigosa para Lívia: a contemplação que é sempre seguida de paixão contundente. Ela já não estava nua deitada ao lado do ator cuja beleza e talento ela sempre achou discutíveis. Agora ela estava nua, deitada ao lado do homem mais encantador e carinhoso que conheceu nos últimos anos, "... nas últimas vidas".

Silêncio na belíssima e espaçosa suíte do hotel cinco estrelas em Buenos Aires. George dormia. Lívia vivia aquele perigosíssimo momento pós-sexo, em que toda mulher deveria levantar-se da cama e ir fazer outra coisa, qualquer coisa. Ele dormia enquanto ela vigiava seu sono, analisava seu rosto, acompanhando o leve movimento de seus olhos, decorando as linhas de seus lábios, ouvindo a sua respiração. Armadilha! Arapuca! É neste momento que uma mulher se apaixona. Puro instinto materno! Quem inventou esta coisa do homem precisar dormir depois do sexo, sabia o que estava fazendo. Lívia caíra nesta armadilha milenar. Estava dentro da rede, pendurada de cabeça para baixo na árvore, e nem pedia socorro! Todos os seus pensamentos, ao passar a mão nos cabelos de um George adormecido, poderiam ser traduzidos assim: meu amado, meu império...sua rainha vai cuidar de você.

Relógios sem ponteiros. Mundo sem telefones. Vida sem compromissos. Universo sem bússolas. Entre cochilos profundos, palavras sussurradas, pernas entrelaçadas, abraços sonolentos e sorrisos involuntários, o dia passou tranqüilo. Uma cama em Neverland. Não havia vida fora do pequeno império de Lívia e George.

- Hey... Acorda... Tem uma mulher linda na minha cama.
- Hm... Diz pra ela ir embora que você é só meu.
- Boba... Tá com fome?
- Morrendo.
- Vamos sair pra jantar?
- Só se você me der um beijo.
- Só se você me der um banho.
- Também quero.
(...)
Arapuca...eu também acho. Interessante essa teoria de impérios e autoramas. A gente devia aprender isso na infância.
Bom dia pra você que acha que controla as coisas.


quinta-feira, julho 08, 2010

_na caixinha

Eu estava errada...eu estava certa...
A vida me traz surpresas que são velhas novidades.
Eu quero não saber exatamente o que está dentro do pacote, mas eu sei.
Me afasto querendo achar que nada do que vejo é bom.
Dou as costas, querendo a certeza de que não vale o risco da decepção.
Mas lá vem a vida, entregar em minhas mãos o presente perfeito.
E quando puxo a última fita, quando solto o último durex, a surpresa maior não é o que há lá dentro, mas o que eu sempre soube.
Como eu sabia, como eu queria, como eu senti quando desejei...
Sou tomada pelo perfume mais doce...pelo gosto mais delicado...o toque mais preciso, mais necessário. Era tão óbvio, e ainda tão surpreendente, que me rouba as palavras, me inebria, extasia, me vence.
É melhor que um sonho. 
É maior que as horas.

segunda-feira, julho 05, 2010

_broken heart healer

O meu papel na vida de algumas pessoas é surpreendente. E ao mesmo tempo um tormento
Parece que eu chego para mudar as coisas, ponho tudo no lugar, faço curativos, depois vou embora com as mãos vazias. E o peito estraçalhado. Não foi uma vez, não foram dez. Foram inúmeras. Todas elas me deixaram feliz no final.
Mas não ilesa.
É como encontrar um passarinho que bateu no vidro e caiu desmaiado, com a asa quebrada. Você cuida dele, arruma uma caixinha confortável, dá água açucarada no bico...passa dias nessa função. No terceiro dia ele já tem um nome. No quarto ele come na sua mão -- já não se assusta com a sua presença. E no quinto dia, quando você abre a caixa, ele se sacode feliz, bate as asas para mostrar que está curado...e voa.
É tão bonito, ne? É.
Mas no sexto dia, quando você acorda, a caixa está vazia. Ainda tem resquícios de alpiste por ali. Ainda dá para sentir o cheiro na caixa cheia da presença dele. A presença da ausência.
Não há o que fazer...ele não vai voltar. 
O que lhe resta é lembrar destes dias com carinho e se orgulhar de ter salvo uma alma que é livre. Dá uma certa tristeza, é verdade. Mas aí você respira fundo e deixa que a generosidade seja o único sentimento possível, porque era só um presente para o mundo. Um presente daqueles que é arrancado a fórceps do seu peito e quase sangra.
No final, você se sente digno.

sábado, julho 03, 2010

_sobre cordões umbilicais


Não era possível uma gravidez depois de uma pelvio-peritonite que quase me matou aos 29 anos. O último ultrassom mostrava uma bagunça danada...trompas enroladas no ovário como um novelinho de lã, daqueles de desenho animado que tem gatinhos. Fora de cogitação. Mas aí havia um jovem diretor que repetia o nome da futura filha e se recusava a ouvir que não seria possível realizar este sonho, a não ser que ele escolhesse outra loira. Talvez uma que não tivesse filhos. Talvez uma mais nova do que ele. Talvez, talvez, talvez, mas ele não queria. Ele queria aquela, e uma filha, e o nome seria Natasha - desde pequeno ele sabia disso - e eu baixava os olhos pensando que, mais cedo ou mais tarde, teria que abrir mão dele em prol dessa teimosia de infância.
Mas também havia um sexto sentido gritando, dizendo que aquele mal estar não poderia ser gastrite. Um teste de farmácia, por que não? Eu não ia chegar no médico e pedir um exame, porque ele ia sorrir aquele sorriso doce e dizer: "Ô, menina...eu já falei que você não pode mais ter filhos...". 
Era noite, depois da filmagem (lançamento da primeira telefonia celular no Brasil). Enquanto ele analisava um rolo de filme que talvez tivesse se perdido, eu fazia o teste. Oh.My.God! Pensei estar daltônica. Tinha que estar, ou aquela linha cor-de-rosa era uma alucinação. 

Uma Natasha maluquinha. Desde pequena uma gritalhona engraçada, com músicas alegres de letras inventadas: "o petinho dadô dadô e o tapo icaiêta faiô o peti tiêta!"...chorona, exigente, mimada, sorridente, de olhos enormes eternamente brilhantes.
Da noite para o dia, o irmão mais velho tornou-se um adulto (tadinho...pesado) e ela, o nenem da casa, enchendo o lugar com seu barulho. A vida dos que a cercam passou a existir em função da dela, como se fosse um contrato firmado ainda no misterioso interior mágico do meu corpo auto-curante.

Ela cresceu, como era de se esperar, para desespero do pai que queria mesmo que ela tivesses 5 anos para sempre, mas a gente não conseguiu enxergar. Não tem como...caçula é caçula (palavra graficamente horrorosa). De uma hora para a outra ela tem 16 anos, um corpão e uma cabeça que pensa. Pensa e pensa forte, com opiniões duras e regras claras. Mas mesmo assim, nosso cordão umbilical parecia feito de alguma fibra indestrutível...or so I thought.
Ontem eu deixei essa menina alegre e cheia de vontades, num terminal aéreo do Aeroporto Internacional de Garulhos. Sem a menor cerimônia, ela sacou da tesoura e cortou o cordão. Assim, sem uma lágrima, olhando nos meus olhos. E eu sorri orgulhosa.
Tavez isso não tenha a menor importância para nenhum de vocês, mas eu nem ligo. Para mim, foi uma cerimônia de iniciação. Iniciação minha, como mãe de dois adultos. Iniciação dela, numa vida que, agora sim, vai começar.

Era isso.
Bom dia, flores do dia!
É. Eu sou feliz.

domingo, junho 27, 2010

_Math

.
Se X é igual à luz que emana dos olhos e Y é igual à reação causada pelo fator X, Y é igual à toda a luz que move o mundo, vêzes as vêzes que os olhos olham; sendo A o desejo de X e B o elemento que impulsiona a energia de X. 
Então B + X = Y, fazendo com que A seja moto-continuo. Então ABX=Y elevado a uma potência impossível,  dizimando da face do planeta toda e qualquer razão.
Logo ABX=Y = Caos. 
Y=Caos.

ººº

Treze mil cento e quarenta minutos indescritíveis igual a setecentos e oitenta e oito mil e quatrocentos segundos intermináveis, que é igual a setecentos e oitenta e oito milhões e quatrocentos mil milésimos de momentos eternizáveis...que são duzentas e dezenove horas que nunca deveriam acabar.



Acho que é isso.

Confuso.

domingo, junho 20, 2010

_sapo na boca da cobra

.
Peguei o carro, bati a porta e não olhei pra trás.
Chega! Não tinha como passar mais tempo sem olhar nos olhos dele e ver se tudo o que ele me fazia sentir de longe se repetiria assim, olho no olho. Muito medo. Muito medo, porque só de pronunciar a palavra “olho” me vira o estômago. Motim das tropas de borboletas! Elas estão armadas, atirando pra todo lado e...ai, pelo amor de deus! Parem de bater essas asas que eu vou passar mal. Frio no estômago master.
Cheguei em frente à casa e pensei dez vezes. Vou não vou, vou não vou...fui. O portão estava aberto...eu entrei. Nem 15 metros separavam a porta do portão, mas acho que andei uns 10 quilômetros...aquilo não chegava nunca e o único pensamento que eu tinha era o par de olhos escuros olhando dentro de mim. DENTRO, porque eu nunca consegui conceber que ele tivesse um olhar menos poderoso do que isso.

Respira...
Bati na porta uma vez. Nada. Pensei: “ótimo, vou embora.” Mas assim que virei as costas a porta se abriu. Ai. E agora? Desviro? ou faço a louca e corro pro carro e depois digo que não era eu? “Quem, eu? Na sua casa? Imagina...”
Não deu tempo. Borboletas em guerra, frio na barriga, olhos aterrorizantes e eu ainda de costas...e ouvi a voz. O que? VOZ? Eu nunca tinha ouvido a voz dele. Esqueci de contar que esse era outro medo: a voz que eu ouvia quando pensava era linda. Não! Cala a boca! Eu não acho voz de locutor linda...Eu to falando de uma voz gostosa...se bem que eu só pensei nela assim, no meu ouvido...não sei como soaria se ele falasse mais de longe...Tá! Para de ser louca. Foco.

Respira...
A voz disse: “Viu como não é tão longe?”
Que diabo de frase é essa? Sabe quanto tempo eu sonhei com a primeira frase? Vamos falar de geografia? Trânsito? Pavimentação de estradas? Pelo amor de deus, você só tem mais uma chance e eu vou embora. Pois é...pensei. Só que ele não disse a segunda frase. Acontece que eu virei pra ele e vi os olhos. Meu deus! Os olhos eram mais fortes do que eu pensei. Eles não olharam dentro de mim, eles me sugaram pra dentro deles. Os olhos sorriam de um jeito que não tinha como não saber tudo o que estavam dizendo. Ou eu que estava nervosa. Não...mentira. Eu estava nervosa sim, mas os olhos estavam gritando! E aquele olhar foi o suficiente pra eu não saber mais nada. O que mesmo ele tinha perguntado? Longe? O que que é longe? Perto, super perto... Quarenta centímetros de distância? Isso não é nada e com um movimentozinho minúsculo eu consigo voar no seu pescoço e abraçar você pra sempre.
Eu não posso imaginar a minha cara. Acho que eu até prefiro não imaginar, porque eu devia estar olhando pra ele como um sapo na boca da cobra. Romântico?

Aquilo durou uns três milhões de segundos. Nós dois ali, olhando um pro outro, trocando faíscas e pensando “Ai meu deus e agora?” (pelo menos eu pensei), e nada acontecia. Total WTF moment. Mas aí ele esticou o braço, e me pegou pela mão...me puxou pra perto e me abraçou falando no ouvido: “Não acredito que você tá aqui...”. Ai a voz, a voz, a voz...eu acertei em cheio! Era exatamente como eu imaginei.

Pensei em respirar, mas não descobri como fazer isso. Assim que a voz terminou a segunda frase - que eu vou chamar de primeira, pra esquecer aquela outra - ele me beijou no canto da boca. Mas assim...não foi um selinho no canto da boca. Foi um beijo de canto de boca daqueles que você fica perdida sem saber se vira e beija direito ou se finge que nem notou. No meu caso, acho que não consegui fingir coisa nenhuma, mas segurei a vontade de virar e lascar um beijo decente nele. Que raiva! Eu odeio esses joguinhos de sedução. (NOT)

Ele me puxou para dentro de casa sem desgrudar o olhos de mim, tirou a bolsa do meu ombro e jogou num sofá, tirou a chave do carro da minha outra mão, jogou junto, desenrolou meu cachecol sem mover os olhos um segundo...eu ainda estava na boca da cobra, completamente hipnotizada e, muito provavelmente, com cara de quem diz: “eu morro de medo de morrer, mas se é você quem vai me matar, por favor, seu moço...mata bem devagar.” Ai como eu sou besta. Eu tenho a cena do cachecol tatuada no cérebro...nunca vou esquecer os olhos dele naquela hora. Um silêncio mortal. Só a dança daqueles olhos - encantador de animaizinhos indefesos.

Assim que o cachecol deu a centésima volta para fora do meu pescoço, ele levantou os cantos da boca num meio sorriso torto, fechou os dois olhos numa piscada longa como se fosse me libertar daquela prisão , inclinou a cabeça em slow motion - ou eu estava completamente inebriada, embriagada e entregue - chegou mais perto de mim e beijou o meu pescoço. Ai ai ai...PAUSA. Deixa eu explicar que você não pode ir beijando o meu pescoço no primeiro encontro. Principalmente se faz uma semana que você não faz a barba. Não pode! Eu sou uma pessoa fácil, entendeu? Eu me controlo, mas determinadas atitudes valem por uma garrafa de vodca, e aí babau. FIM DA PAUSA.

Um beijo no pescoço que fez uma breve passagem pela minha orelha, passeou pelo rosto, e terminou num longo, molhado, lambido, delicioso beijo na boca.

Ai ai...esse era o outro medo. Epic win though. Nada mais a temer. Se todo mundo prestasse atenção no beijo, ninguém teria decepções na cama. Básico. Lição numero 1: um beijo afoito, urgente, com força, igual a sexo afoito, urgente, com força, quiçá com acrobacias e direito a triplo mortal carpado, atletismos, Daine dos Santos e ai que preguiça! Um beijo seco, sem língua, ou pior, língua estranha que parece um bife na sua boca, é igual a... é... não sei, porque na verdade eu nunca me arrisquei a passar de um beijo assim. Eca! Agora... um beijo como esse - lento, mole, molhado, com tempo, um explorando milímetro a milímetro a boca do outro - que hipnotiza e amolece as pernas... isso é igual a sexo bom. Com tempo... com calma... deixa eu perder uma eternidade aqui que tá bem bom... Deixa eu conhecer mais esse pedacinho... Bem, sexo bom pra mim. Sei lá se é bom pra você, mas também se você não gosta assim eu nem quero saber como você gosta. Azar seu!

Foi tudo muito incrível. Tudo muito de verdade. Brincadeira de gente grande, sem se enganar, sem achar que aquilo era pra sempre, mesmo tendo a imensa tentação de deixar o romance ser maior que tudo. Duas pessoas estabanadas que se deixam tomar por uma total falta de controle  quando uma paixão penetra, entrona, metida, que simplesmente não foi convidada pra festinha entrou e comandou a festa assim, do nada; duas pessoas assim, tendem a querer que aquilo dure pra sempre. Tendem a se deixar enganar só um pouquinho, porque seria bom se amanhã de manhã a gente fosse namorado, se saísse de mãos dadas pra algum lugar, e telefonasse pra dar boa noite, e demorasse pra desligar porque ficar longe é ruim. Mas somos como dois alcoólatras habituados à abstinência e a nossa história é vivida assim por horas, por dias, só mais 24 horas porque amanhã não sei. E foi com essa urgência de quem pode morrer amanhã e precisa aproveitar os últimos minutos de vida, segundo por segundo, - mas sem pressa para não ser triste -  que ele fez amor comigo. Não. Eu fiz amor com ele. Não sei, espera... não foi assim. A gente também fez sexo, assim... sexo. Mas fez amorzinho bonitinho. E conversou mais do que eu esperava, e eu esperava muito. Foi lindo, e foi divertido, e foi, sim, romântico, e foi engraçado às vezes, e se tiver que acabar daqui a pouco eu vou morrer de saudade.
Ai.
Doeu.
Fiquei romântica. Pareço triste, até. Mas não... não estou não. Na verdade bem feliz. Outro epic win. Mas eu não vou contar os detalhes sórdidos que você estava esperando. Só vou dizer que algumas coisa que acontecem na vida são VIDA pura. É como se você abrisse um frasco de “vida concentrada” e bebesse inteiro, pra viver um ano em um dia. Uma overdose de milhares de sentimentos e sensações misturadas, uma vida que é só sua. Um ato ao mesmo tempo egoísta ao extremo, do tipo “eu quero essa pessoa pra mim e fim”, e de uma generosidade imensa, porque você quer dividir com essa pessoa cada gole desse extrato mágico concentrado e vê-la bêbada disso ao seu lado. Um presente duplo: a gente abre junto o pacote, ganha esse presente incrível, e nunca mais vai esquecer. Lindo.

Pois é. Foi assim.




Não seja besta! É claro que essa história é ficção. O primeiro que perguntar se é auto-biográfico eu rogo uma praga e vai ficar burro assim pra sempre.

Bom dia flor do dia.


(Rafaela Pedro, viu só? Falhei de novo...cortei pra lareira.)

sexta-feira, junho 18, 2010

_julho

Deixa eu abrir a casa?
Faz tanto tempo que julho não chega com seus céus azuis e a promessa de setembros...
As borboletas se foram e tudo ficou tão chato. A previsão do tempo é sempre a mesma...chuva, só um chuvisco. Sol, só um solzinho. Vento, uma brisa tão morna.
É desse jeito que eu gosto: ventos que façam tremer e geadas que congelem lágrimas. Sol de dias sem núvens, que arrepie a nuca, que machuque os olhos. Fogo aceso...por dentro e por fora. Frio cortante ou calor que queime - não quero nada no meio,  nada pela metade, não quero se não deixar marcas.
E as borboletas que voltam... dançando aqui, dois palmos abaixo da minha garganta. É assim. É desse jeito que eu gosto.
Julho, agosto, setembro, meus meses maiúsculos de coração disparado, sejam eles janeiros, dezembros, abrís! Sempre é julho, quando o cheiro é bom.

Vem então...eu já fiz o fogo. Sente o cheiro do café. Ouve a música tocando.
Declaro reaberta a velha casa do lago.
Enfim.


a casa do lago aqui: 
Sequestro,
Bonnie & Clyde

_um beijo na janela

.
Tanta luz...
O sol vinha da direção errada e batia no meu corpo esquentando a pele em lugares que eu nunca senti. Não era a minha casa...não era.
Abri os olhos para encontrar a luz e não entendi de onde ela vinha. Não era do alto, não era de fora, era de mim.
Andei pelo lugar com cuidado. “Não conheço esse chão, não sei onde ele leva.” Tive medo. “Eu já quis estar aqui mas recuei. Agora me lembro...”

Lençóis brancos na cama - os mesmos lençóis voando no varal -, minha cabeça rodando e toda aquela luz...Eu sabia que era preciso chegar até a janela. E lá estava ela, no final do corredor, toda aberta, com suas cortinas enormes, como asas, mostrando que a casa inteira queria voar.
São sempre as janelas, são sempre elas.
Dei mais três passos:
1...2...3...e senti a  fumaça doce no ar. Eu sabia. Fechei os olhos sorrindo, respirei o mais fundo que pude e traguei a doce névoa branca do cigarro aceso. Era bom, mesmo assim tão cedo. Mesmo assim descalça, perdida, com olhos cheios de luz. O desenho da fumaça me mostrava onde ir: além da janela, em direção ao perigo.
O sol esquentava os meus pés querendo chamar: “vem...” Eu fui.
As asas abertas da grande janela me envolveram como mãos e guiaram o meu último passo. 
Não fechei os olhos - eu queria ver dentro da alma quando ele me tocasse -. 
E foi assim que eu vi os olhos que me esperavam...as mãos quentes pesquisando o corpo, a barba  roçando o pescoço, o calor sussurrado no ouvido...o beijo molhado na boca.


Bons sonhos.

quarta-feira, junho 16, 2010

_coisas que você não precisa saber sobre mim

ou...Too Much Information



_Necessidades Básicas:

. Eu não consigo dormir de meia, mas consigo dormir de luva.
. Não durmo antes das duas da manhã, mesmo que vá para a cama às onze. Se acontecer de eu dormir cedo, acordo as cinco e não consigo dormir mais.
. Não reclamo quando meu marido ronca. Ao contrário, uso o ritmo do ronco dele para me ninar. Começo a respirar no ritmo do ronco, vou indo...vou indo...É como contar carneirinho: tiro e queda.
. Eu bebo o tempero da salada.
. Eu fico na mesa do café da manhã me enrolando bebendo café e lendo jornal durante uma hora - já cronometrei - mas posso almoçar em cinco minutos ou nem almoçar.
. Não lembro quando foi a última vez que tomei um copo de leite. Simplesmente desmamei.
. Um quilo de açucar dura dois meses na minha casa.
. Eu não leio no banheiro
. Meu banho não dura mais que dez minutos.
. Odeio banheira.
. Eu esqueço que tenho bebida alcoólica em casa.
. Jogo Bejeweled na cama, no escuro, antes de dormir. 


_Manias idiotas

. Não tenho manias idiotas

_Superstições

. Eu acredito que o meu passado me trouxe ao presente, e me fez ser quem sou. Pensando assim, a aliança do meu primeiro casamento foi feita com ouro de presentes dados por ex-namorados. Achei justo levar essa "bagagem" para a vida adulta. Não repeti isso no terceiro - e último - casamento porque não deu sorte. Então escolhi uma aliança Cartier: aquela que são três alianças entrelaçadas...não sei por que...juro que foi sem querer.

. Não corto bolo de cima para baixo. A primeira fatia é sempre cortada de baixo para cima. Não sei se existe relação, mas a minha vida mudou para melhor desde que decidi fazer isso.

. Não me dou muito bem com deus. Não é que não acredite nele, mas acho a história dele meio furada. Nasci católica, estudei em escola católica e foi lá que aprendi a questionar a existência dele como nos é contada Mas eu rezo o Pai Nosso sempre que a coisa aperta.

. Tenho um papelzinho com o nome dos três reis magos (Baltazar, Belquior e Gaspar) em todos os carros da família, desde sempre. Uma cartomante me disse que eles protegem contra roubo. Funciona.
Adoro a minha cartomante e não venha me dizer que não acredita porque só eu sei...só eu sei...

_Mal humor

. Detesto conviver com pessoas que acordam felizes e barulhentas. Só estou casada há 18 anos porque meu marido acorda depois de mim.
. Eu brigo com o cantor quando a música fica repetindo a mesma frase quinhetas vezes: "Eu sei! Já ouvi! Cala a boca!!" Me irrita...
. Mais do mesmo: odeio rock ou jazz progressivos. Solo chama SOLO. A palavra já diz: sozinho!só você! Vai solar no seu quarto! Me irrita...
. Passo o dia feliz até alguém me perguntar o que vamos fazer para o almoço/jantar. Mania ridícula de comer toda hora!
. Odeio quando me pedem para ligar a câmera no msn/skype/whatever. Se escrevo, consigo falar com três, quatro pessoas, twitar, ver meu facebook. Já com áudio e vídeo vira exclusividade. Depois, eu não ponho o pé na rua desarrumada...agora não posso mais ficar desgrenhada na minha própria casa? E a possibilidade do videofone então? Ai, ai ai...que mané tem que ver a minha cara, onde e com quem estou, pra falar comigo? E se eu estiver no banheiro? Me economize!

Acho que era só.


(é eu sei....listinha é falta de assunto)

segunda-feira, junho 14, 2010

_ lembranças de folhetim

.
pensei que o tempo amenizasse as coisas
que o cérebro encontrasse defesas para apagar o que foi ruim
e deixar só as boas lembranças
mas não: é triste

toda a névoa que encobria os seus atos se foi
a imagem é limpa e clara
posso ver cada detalhe
da cuidadosa armadilha que você preparou

vejo
com lentes poderosas
cada milímetro do seu plano
vejo ganância
vejo vaidade
avareza
maldade
vejo inveja

vejo a alma cheia de rancores
e tenho nojo
tenho pena
tenho lembranças
já não distorcidas
de coisas que não seriam escritas no folhetim mais sujo
na novela mais barata

achei que o tempo tornasse a feiúra mais bela
mas não
o abrigo dos seus olhos ruiu
onze de setembro nos meus dias de sol


Não queria postar isso hoje, porque meu humor está elevado, maravilhoso, quase bobo.
Desconsiderem...era um texto que estava na fila.


sexta-feira, maio 21, 2010

_não conta pra minha mãe


. Quando eu era pequena, eu tomava Clistin (anti-alérgico) escondido. Minha mãe mudava de lugar, mas eu achava e tomava. Era vermelhinho e doce...e delicioso, e eu nem ficava com sono.

. Quando eu era pequena, eu descascava fio elétrico e ligava na tomada. Depois apagava a luz e juntava os fios descascados para brincar de trovão. Queimei alguns fuzíveis várias vêzes, mas eu sabia trocar. Ninguém descobria.

. Quando eu era pequena, minha mãe tinha uma empregada que tinha medo de fantasma. Um dia eu escrevi o nome dela com álcool na pedra da cozinha, chamei a menina, coloquei fogo, apaguei a luz e me escondi. Ha! Nem precisa contar o resto.

. Quando eu era adolescente, eu liguei para a Globo dizendo que era jornalista de uma revista Paranaense, marquei uma entrevista com o Fábio Júnior (ele ainda era novinho, não tinha feito plástica e nem ficado brega) e fui pro Rio em férias com a família. Claro que eu não tinha nem como chegar na Globo. Acho que o Fábio Júnior ficou esperando...

. Quando eu era pequena, meu pai tinha um revólver calibre 38 que a minha mãe escondia super escondido, mocado, enfurnado, pra gente não ver. Eu sempre sabia onde estava, e brincava de batom com a munição

. Quando eu era pequena, minhas irmãs ganhavam serenata dos amigos que voltavam com fome das festas. Minha mãe sempre abria a porta, mandava entrar e dava um café pra eles. Eu era apaixonada por 80% deles e ficava imaginando que as serenatas eram pra mim.

. Quando eu era pequena, eu trocava cadeado do portão dos vizinhos, quando eles deixavam abertos. De manhã eles não conseguiam sair. Mas a culpa não era minha...foi o namorado da minha irmã mais velha que ensinou. (meu irmão também fazia isso, ta?)

. Quando eu era pequena, eu e o meu irmão tiramos os parafusos da cama da empregada pra ela cair quando fosse deitar. Também colocamos ovos embaixo do lençol dela. Também embrulhamos cocô de cachorro para presente e demos pra ela. Mas a culpa não foi nossa...a gente viu isso numa novela.

. Quando eu era pequena, eu fazia comidinha de verdade e forçava meu irmão a comer. Uma caixa de sapato com furos e botões de fogão desenhados, uma vela acesa, uma forma de empadinha, óleo de cozinha, batata picada...pronto: batata frita.
No cadápio sempre: batata frita, carne assada (salsicha cortada em rodelas), salada de azedinha (trevinho...mato de jardim) e bala de goma (farinha, água e açúcar). Meu irmão era o marido. Eu dizia: "Agora vai trabalhar! Agora vem almoçar! Agora come tudo! Agora vai trabalhar de novo!"

. Quando eu era pequena, minha prima era mais ágil e mais magra do que eu. Um dia ela me disse que conseguia fazer "ponte" de ginástica olímpica. Deitou no sofá de barriga pra cima e levantava o corpo, crente que era uma ginasta. Ela fazia, e fazia de novo...e eu sentada no chão na beira no sofá vendo a bunda dela subir e voltar...subir e voltar...me irritei com toda aquela agilidade, peguei a caneta bic que estava na mesa de centro, esperei ela fazer a ponte e coloquei a caneta embaixo dela, com a ponta pra cima. Bingo! Ela ainda deve ter uma pinta azul no bum-bum. (ela disse que eu nunca ia conseguir fazer ponte porque eu era gorda, ta?!)

. Quando eu era pequena, vi minha mãe coar um monte de óleo quente em vidros e deixar em cima da pia da cozinha. Ela disse que era pra deixar esfriar antes de tampar, e foi fazer as coisas dela. Naquela casa, tinha uma copa enorme anexada à cozinha (ou eu que era pequena) onde havia um sofá branco. Eu sentei ali e fiquei olhando pra ontem. De repente, meu irmão entrou, viu os vidros e perguntou: "Nossa! O que que é isso?"
Eu olhei para ele, muito angelical, e respondi: "Mel."
Ele enfiou dois dedos dentro do vidro de óleo quente e saiu gritando.
Tá...foi mal. Nem tava tão quente, não queimou de verdade. Mas foi mal. Desculpa aí, Rica.

. Quando eu era pequena eu comia erva doce do jardim, chupava "aguinha" de uma flor vermelha que tinha em qualquer cerca-viva, comia azedinha, e colocava um monte de hortelã na boca ao mesmo tempo com uma colher de sopa de açúcar e mastigava, pra fazer chicletes.

. Quando eu era pequena eu queria ser órfã. Mas eu não era mórbida. Só tinha inveja da "Princesinha"...

Revisando tudo isso (e mais o que eu não contei)...concluo: quando eu era pequena, eu era uma peste!

Bom final de semana para os pais de crianças felizes.

quarta-feira, maio 12, 2010

_vento de inverno


Hoje o céu está em festa. Veloz como quando eu criança.
Azul de um azul perfeito, com desenhos de núvens rápidas
que têm pressa de chegar, não se sabe onde.
Dá vontade de correr com elas:
"hey! espera! me leva junto que quero ver onde acaba o céu!"

Mas só é possível correr os olhos e depois as mãos. Mãos que se perdem entre a saia e os cabelos.
A rua toda é um balé:
echarpes se fazendo de asas,
cabelos se fazendo de folhas,
vestidos se fazendo de pipas.

segunda-feira, maio 10, 2010

_não me deixa no inferno


O que acontece com o cérebro depois de um derrame? Não...eu sei das lesões. Eu sei das dificuldades todas. Mas com o pensamento? O que acontece?
O que acontece é que ninguém sabe coisa nenhuma. A ciência engatinha e muda de idéia uma vez por mês. Antes nós, humanos, éramos o único animal racional, agora já sabemos que as baleias se organizam para pescar, muito mais do que um bando de homens famintos para coletar doações num caminhão da Cruz Vermelha. Também sabemos que algumas espécies de macacos entendem o que falamos - é, eu vi o Fantástico hoje - e os golfinhos têm uma língua com alguns vocábulos diferentes e a usam bem direitinho.
Fato...não sabemos se aquela pessoa que não anda, não fala e não reaje tem um cérebro vazio, ou se ali, dentro do aparelho supostamente corrompido, suas memórias e pensamentos estão ou não intactos.
Com esta dúvida na cabeça, acompanhe o meu pesadelo...
Então eu saía de casa para fazer alguma coisa quando passei por uma senhora numa cadeira de rodas, sendo empurrada pela enfermeira. Se eu sair de casa todos os dias as nove da manhã e as duas da tarde, vou passar por ela, no mesmo lugar, fazendo seu passeio diário. Bom para ela. Mas aí minha pobre cabecinha atormentada entrou em pânico: digamos que fosse eu. Ou você. É vamos falar de você, porque eu tenho medo de falar essas coisas sobre mim. Vai que bate um vento e....bom...
Você é uma pessoa genial. Lê muito, é super informada, sabe tudo o que acontece no mundo todos os dias, tem um gosto musical respeitável, não é lá exatamente um intelectual mas também não tem muita paciência para a burrice generalizada que assola a mente humana. Tudo isso é meio que uma lenda, mas você não nega porque é vaidoso e lhe serve muito bem a cadeirinha de "elite intelectual". De qualquer forma, suas opiniões sobre as coisas, fatos, religiões, mídia e a vida em geral diferem e muito da opinião das massas, o que faz com que você seja um pouco mais intranzigente e viva meio isolado dos outros seis bilhões de humanos habitantes do planeta. Entendeu o quadro?
Pois bem...aí você tem um derrame. Suas pernas agora não obedecem o comando do cérebro. Tudo bem...você não vai andar. Não é tão mal assim já que você já não era mesmo a fim de sair de casa. Mas aí seus braços ficaram meio burros. Isso já complica um pouco. Sua língua virou um músculo surdo que não atende a nenhum dos seus pedidos e tudo o que você diz são uns blablablas...você era mais eloquente aos cinco mêses.
Tudo parou. Sua familia não tem esperanças de ver reações em você. Parece que você escuta, mas não responde...não se sabe bem.
A vida de todo mundo continua: você agora mora com seu filho, sua nora é um amor mas trabalha fora, seus netos falam com você normalmente mas são ocupados...sobrou a enfermeira.
Ótima essa enfermeira. Ela também é fisioterapeuta e terapeuta ocupacional. Cuida dos seus exercícios, sua higiene pessoal, sua alimentação....mas fala. É aí que começa o pesadelo. Presta atenção...
A enfermeira fala...um amor ela...mas fala. Ela fala, mas fala sobre coisas que não interessam a você. Ela não só fala, como cantarola. E cantarola músicas que você odeia! Ela cantarola "Meteoro da Paixão". Ela gosta de Victor e Leo. Ela é fanzoca do Zezé di Camargo. Ela viu "Se eu Fosse Você", o um e o dois, três vezes, e ADORA o Tony Ramos. Ela liga a televisão as cinco e meia...coloca você para ver Malhação, depois a novela das seis, das sete, das nove, e na hora do jornal ela muda para o TV Fama. Ela acredita que o Zé Mayer é lindo. Ela jura que os gêmeos de Viver a Vida são gatíssimos. Ela lê livros de auto-ajuda em voz alta para você. Os filhos dela se chamam Jeferson, Anderson, e Geysilene.
Hello? Você era ateu e não acreditava em inferno, agora o inferno acorda você todos os dias para tomar café da manhã! E se duvidar ele ainda diz que encontrou Jesus...e conta tudinho sobre o culto de ontem. Onde senhor? Onde está a justiça divina?

Eu não posso cruzar com a velhinha do passeio diário que tenho vontade de parar o carro e sequestrar a pobre. "Vem, minha senhora. Eu vou livrar você desse pesadelo!"
Eu tenho medo...muito medo. Por favor, você que é meu amigo, minha amiga, irmã, filho, filha, alguém! Se um dia eu pifar...lembre-se de quem eu era. Pelo amor de deus faça uma entrevista decente com a minha pseudo-companhia-eterna-quase-inferno. Conte a ela do que eu gostava, entregue apostilas, livros, filmes, para que ela tenha assunto para "conversar" comigo. Se não for possível, por favor, uma injeção de sicuta, uma overdose de algum calmante...mas não me deixe ir para o inferno. Não para esse.
Grata.

domingo, abril 25, 2010

_mudanças

Hoje, tremendo de medo, migrei meu blog do meu ftp para o Blogspot.
Não que eu quisesse fazer isso, mas se não fizesse até dia 1 de maio, perderia tudo - o que seria como tirar os meus braços. Não! o meu cérebro (que já não anda la essas coisas).

Por uma hora, mais ou menos, achei que meu mundo iria explodir. Depois de tudo arrumadinho, largura de post, margens, etc, descobri que todos os comentários haviam desaparecido. Pânico! Quase bati com a cabeça na quina na mesa, e na hora que decidi que faria isso sem dó de mim mesma, todos eles ressurgiram do limbo dos comentários perdidos...assim, do nada.

A mudança, na verdade, não muda nada para ninguém. Quando você clicar no link antigo, vai ser redirecionado para cá em alguns segundos (não poucos, aliás), e tudo estará bem.

Tudo lindo na reino de Mercedes.
Ufa.

Bom dia.

...tempos interessantes - parte 2

Esta é a segunda parte de Tempos Interessantes.
Se você não leu a primeira, clique aqui: Parte 1



"Senhores passageiros,
a partir deste momento todos os
aparelhos eletrônicos devem ser deligados.”

Os dois desligaram seus celulares, se olharam sorrindo, e ele iniciou uma conversa sem limite de caracteres.
“Então…essa viagem…férias?
“Deixa eu pensar como faz pra te contar isso com 140 letras…”

Ele sorriu entendendo a ironia e retrucou.
“Não! Pelo amor de deus, conta usando o máximo de palavras que você conseguir! A gente ta fora da prisão do Twitter!”
"Jura que você não vai desaparecer na terceira frase?”

Ele segurou a mão dela com ar de arrependimento.
“Ai Helo…desculpa. Eu nunca consigo dar atenção pra você direito, sempre alguém me chama…geralmente eu to trabalhando. Desculpa…”
“Eu sei. Ta tudo bem, eu nem te odeio por isso…hoje.”
“Hoje? Nossa…tão ruim assim?”
“Péssimo! Qual dos assuntos interminados você quer retomar agora?”

Os dois riram com a possiblidade de encontrar todas as conversar interrompidas no twitter e retomá-las, e ele voltou à pergunta original.

“E a viagem?”
“Ah…a viagem. Uma amiga de muito tempo vai dar uma festa. Um reencontro.”
“Eu to convidado?”
“Se você tiver um pretinho básico, uma peruca e um salto alto. É um reencontro só de meninas.”

Os dois falaram durante quase toda a noite, sem parar, até os olhos dela não obedecerem mais. Ele percebeu.
“Hey…pode dormir…”

Sem abrir os olhos ela respondeu:
“Teu limite de API acabou?”
“Não, mas a sua proteção de tela já entrou…”

Ela sorriu abrindo um olho só - “Boa noite…nerd”
“Boa noite, amor.”

“Amor”. Esta era a maneira que ele falava com ela no Twitter, sem se dar conta de que cinco letras eram suficientes para que ela derretesse. Mas nem em seus sonhos mais delirantes ela podia imaginar adormecer ao som desta palavra.

......................


No saguão do aeroporto, a confusão de sempre para pegar a bagagem, muita gente, pouco espaço, malas que não aparecem, outras que aparecem em outra esteira. E os dois.

Quando a mala preta com grandes bolas pink apareceu, ela se aproximou da esteira para pegar, mas ele se adiantou trazendo a mala para junto dela. Repetiu a gentileza trazendo um carrinho e ajeitando a bagagem para ela, mas não se mexeu para pegar a sua própria. Um homem grande, de jeans a camisa branca se aproximou batendo no ombro dele.
“Podemos ir.”

Ele concordou com a cabeça, ainda olhando para ela que arrumava os documentos na bolsa.
“Tem uma caneta?”
Ela não entendeu. "Ein?”
"Me dá o seu celular.”

Antes que ela concordasse ou discordasse, ele pegou o celular da mão dela, discou um número, olhou para ela levantando as sobracenlhas como se esperasse alguma coisa. O celular dele tocou no bolso da jaqueta.
“Ta daa! Pronto…eu tenho o seu número, você tem o meu. Vamos nos falar antes de você ir embora?”
Ele falava enquanto salvava os respectivos números nos dois celulares.
“Isso é uma pergunta ou um pedido?”
“Um pedido… numa pergunta.”

Justin colocou o celular na bolsa dela que ainda estava aberta sobre o carrinho de bagagem. Guardou o outro no bolso da jaqueta.
“ Ok. Vamos sim.”
“Ótimo. Se cuida.”
“Você também. Ah…o que que eu falo pra todo mundo que vai me fazer pergunta no Twitter?”
“Que eu sou burro e tenho mal hálito.”
Ela sorriu e o viu se misturar à multidão que saía do aeroporto. Com um suspiro descrente, ela deu a volta na esteira para ter certeza de que não havia esquecido nada – o que seria normal partindo dela – e foi para fora esperar pela amiga, Marina.

O cheiro da cidade nunca muda. Café, mar, sol quente. Não importa a estação do ano, este é o cheiro que ela sente quando chega e respira fundo, deixando o perfume penetrar em cada poro do seu corpo. Heloísa fechou os olhos por alguns segundos e sorriu… “Minha casa…”

Ao abrir os olhos novamente, procurou por Marina, sem sucesso, olhou em volta e viu Justin próximo a uma sport utility preta que estava cercada de pessoas.
Antes que Justin entrasse no carro, uma loira estonteante de seus 18 anos, com sua calça justa e suas botas altas, o abraçou longamente. Ele levantou a menina, que cruzou as pernas em torno de sua cintura, e colocou-a no banco traseiro do carro.

Aquela estava longe de ser a cena que Heloísa esperava ver, e ao que tudo indica, ele também se preocupou com isso. Depois de colocar a garota dentro do carro, ele correu os olhos pela saída do aeroporto procurando por Helô, que rapidamente disfarçou e olhou para o outro lado, fingindo não ter visto nada. Justin ficou observando a imagem de Helô parada ali: a echarpe bege de bolas pretas envolta no pescoço, a mala de bolas cor-de-rosa deixando escapar seu temperamento alegre, sua risada infantil, e o estilo que não a deixaria passar despercebida em lugar nenhum.

Ele foi até ela.
“Helô!”
Ela se virou, fazendo-se de surpresa.
“Você tem como ir embora? Quer carona?”
“Não…obrigada, minha amiga já deve estar chegando.”
“Tem certeza? A gente pode te levar…”
“Não…sério mesmo…ela deve estar estacionando.”
“Eu espero com você.”

“Justin!” - Gritou a menina, gesticulando de dentro do carro.
Vendo a cena, Heloísa disse.
“Não…Vai…eu to bem…a Marina já chega.”
“Mesmo?”
“Mesmo. Vai.”
Helô ficou olhando o carro de Justin se afastar…e o braço dele que apareceu para fora da janela, acenando para ela. Um suspiro. Isso foi tudo o que deu tempo de fazer antes que Marina encostasse o carro e abrisse o vidro do passageiro.
“Acorda, mulher!”
Ela virou-se rápido e viu Marina, a porta do carro já aberta…
“Entra e me conta TUDO!”
…jogou a mala de bolas no banco de trás, fez o mesmo com o casaco, bateu a porta e entrou no lugar do passageiro. As duas se abraçaram longamente.
“Ai que bom ter você aqui de novo! Você me mata de saudade!”
Heloísa não respondeu, mas abraçou a amiga da maneira mais terna que podia, tentando trazer, de trás da decepção momentânea, o verdadeiro motivo de sua presença ali.
“Eu sinto saudade até do seu cheiro!”
Marina riu e arrancou o carro.
“Ah a mania de cheiro…Me conta do cheiro do “Lives”.
“Ai ai…o cheiro do Lives…o Lives…a voz do Lives…as mãos do Lives…Posso fumar?”
“MÃOS DO LIVES? Como assim? Não muda de assunto…pode fumar. Ta com fome?”
“Não…to empapuçada de comida de avião.”
“Conta.”
“Ele mandou dizer que é burro e tem bafo…”
“Sei…por isso que você tava olhando pra ontem, parada ali, quando eu cheguei: o bafo!”
“Hahah…não. Antes fosse o bafo. Um Halls resolvia.”
“A mão…?”
Heloísa ligou o rádio do carro, apertou o botão do CD.
“O que você anda ouvindo?”
Marina desligou o rádio.
“Desembucha…o que que rolou naquele avião que você ta com essa cara?”
Helô voltou a ligar o rádio, olhou para Marina pronunciando cada sílaba…
“O.que.você.anda.ouvindo?”

Aumentou o som do carro, abriu a janela e colocou o rosto na direção do vento.
Marina franziu a testa estranhando a reação da amiga.

...............................

No final daquela tarde, no apartamento de Marina, Heloísa entrou na cozinha onde a amiga preparava um café.
“Hm…cheiro bom…”
“…de café ruim.” - Completou Marina.
“Não! Seu café é bom. To com fominha…posso assaltar a geladeira?”
“Mi casa su casa.”

Heloisa pegou um prato no armário e uma lasca de queijo na geladeira, encheu uma caneca de café e sentou-se à mesa da copa. Marina ficou encostada no balcão tomando seu café, olhando para a amiga que tinha o olhar distante.
“Você ta mais bonita. O que você fez?”
“Ah sei lá. Acho que são os 30. Meu pai sempre disse que a mulher desabrocha aos 30.” - levantando a sobrancelha ironicamente - “Desabrochei. Hahaha.”
“Você é ‘desabrochada’ desde que eu te conheci, na 6a. série.” – Marina disse, usando a mesma careta irônica de Heloísa. Helô deu risada e voltou a tomar o café.

“Me conta…você sabia que ia encontrar o Lives?”
“Não. Eu entrei no vôo sem saber nem que ele estava no aeroporto, você sabe que ele é um escondido e nunca diz direito onde está. Tá sempre em Londres. Blé…mentiroso ridículo.”
“Mas como foi?”
“Ele me reconheceu…pela foto no celular. Você viu o Tweet dele?”
“Vi…que roubaram o seu iphone.”
“Isso. Foi a hora que ele viu a foto, assim que sentou na poltrona. Foi engraçado…Ele é um bonitinho, todo carinhoso, tímido…um amor.”
“Sobre o que vocês falaram?”
“Ah…sobre tudo e coisa nenhuma. Filme, música, a mulherada do Twitter…”
“Como assim? Ele te contou quem dá em cima dele, quem manda mensgem, essas coisas?”
“Imagina! Ele é um gentleman! Nunca.”
“Ai…ele é um chato! Eu queria saber.
“Pelo amor de deus, Ma…a gente SABE quem dá em cima dele.
Aliás….ele é ELE mesmo né?”
“Você não quer saber essa parte.”
Marina saiu pela cozinha dando pulinhos.
“Ok…respondeu. Ha! Eu sabia! La la la la!”
“Você fica quieta, Ma…não sai falando!”
“Juro juro juro! – cruzando os dedos na frente da boca - Ah! Nunca me enganei!”
“Hahah parece uma adolescente. Por falar em twitter, posso entrar online rapidinho?”
“Claro. Vai lá que eu vou tomar um banho.”

Marina foi andando saltitante para o quarto enquanto Heloísa ia até a escrivaninha no canto da sala de estar.
“Agora que você sabe eu vou ter que matar você.”
De longe, Marina respondeu:
“O que?”
“Posso fumar?”
Marina apareceu na porta da sala, de calcinha e sutian.
“Se você vai ficar perguntado se pode comer, se pode fumar, se pode entrar online, eu vou reservar um hotel pra você, porque eu odeio visita!”
“Aff que grossa!…vai pro banho.”
“Só abre a janela que eu odeio visita que fuma.”
“Hahahah. Desaparece da minha frente, Marina!”

Heloísa abriu a página inicial do Twitter, digitou seu nome e senha e acessou sua conta chocada com o que encontrou. Depois do seu último tweet no avião, recebeu cinquenta mensagens diretas e, de alguma forma, havia respondido a todas, e todas falando mal de Justin.
“Como assim?”

Ela resolveu ler uma por uma suas respostas, tentando entender em que momento Justin podia ter feito esta brincadeira se não é permitido ligar o celular durante o vôo. As mensagens eram assim: “Não quero falar nisso. Vou esquecer que ele existe” “Ele estava cheiroso quando chegou, mas quando tirou o sapato eu quase vomitei!” “Ele é a coisa mais sem graça que eu já conheci” “Por favor, vamos mudar de assunto.”
Mas uma das mensagens, endereçada a Marina, era diferente das outras: “Eu sou, definitivamente, muita areia para o caminhãozinho dele.”

Mais do que rapido ela abriu seu próprio perfil para ver quais foram seus últimos tweets e lá estava uma pérola: “Por favor, gente, sem perguntas sobre @livesnowhere. Vou esquecer que o conheci.”

“Desgraçado!” – Heloísa falou alto, e foi para a porta do banheiro falar com Marina. “Você acredita que o Lives usou meu celular e twitou na minha conta enquanto eu dormia?”

Marina abriu a porta do banheiro com o celular na mão.
“Não minha amada…o Lives tuitou ha uma hora atrás USANDO o seu celular.”
“O que??”
“Uma hora atrás, olha aqui.”
Marina mostrou a mensagem que recebera no twitter. Embaixo estava escrito: "1 hour ago, from mobile" Helô franziu a testa e correu até o quarto. Voltou com o celular na mão.
“Meu deus…ele está com o meu telefone!”
Voltou para o computador e escreveu: "@livesnowhere você estava certo. Alguém pegou o meu iphone.”

Imediatamente chegou uma mensagem de texto que dizia: “Descobri antes de você. Quem é MikeRoss e por que ele te chama de babe?”

Ela colocou as mãos na cabeça e resmungou:
“Meu pai!! Tudo menos isso! Eu vou matar essa criatura!”

Digitou uma mensagem de texto. “Não responde pra ele! E não atende meu celular!”
A resposta veio rápido: “tarde demais…desculpa, BABE. Alguém me ligou?”
Helô falou alto: “Argh! Eu vou matar…ele respondeu pro Mike!!”

Marina morria de rir enquanto se vestia. Mas Heloísa ficou furiosa, largou o telefone e foi conferir se tinha alguma mensagem de MikeRoss - um inglês que mandava mensagens todos os dias, a quem ela não respondia nunca, por achar que ele era folgado demais. Mas não, não tinha nenhuma mensagem do Michael em sua caixa de entrada, porque obviamente, Justin deletou. Ela abriu o perfil de Michael e também não viu nenhum tweet endereçado a ela. Ainda na esperança de descobrir o que Justin fez em relação a Mike, ela voltou às mensagens enviadas e encontrou:
“MikeRoss: stop DMing me asshole. I’m commited.”

Ao ler a mensagem ela soltou uma gargalhada.
“Obrigada, meu amor…eu não faria melhor.”

O telefone de Marina tocou. Era Justin. Helô correu para atender.
“Você é ridiculo, Justin, sabia?”
“Ah…ta brava comigo.”
“Como você descobriu o telefone daqui?”
“Daer…”
“Hm…na minha agenda…Por que você twitou na minha conta?”
“Porque eu precisava telefonar pro meu agente, e descobri que não podia.”
“O que isso tem a ver?”
“Tem que não dá pra resitir.”
“Hm…eu não tinha pensado por esse lado.”

Continua…um dia...