quinta-feira, julho 22, 2010

_80's

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Outro dia eu comentei com alguém que eu não gosto dos anos 80. Ele me perguntou por que e eu fiquei meio com preguiça de responder. Teria que voltar no tempo e repensar milhões de coisas. Não havia nem tempo nem razão para tanto...e numa resposta rápida eu seria leviana, deixando para trás coisas importantes como, por exemplo, os pontos positivos dos meus anos 80. Sim, os meus, porque os dos outros eu não sei.

Então, tudo começa com a música. Não toda a música, mas o festejado Rock Brasileiro dos 80. Eu não gosto. Já não gostava naquela época, hoje quando não tenho saída e acabo indo numa daquelas festas que acabam com uma banda meia boca ou um DJ executando uma seleção "sou-engraçado-e-você-se-diverte-com-qualquer-merda", eu chego a pensar que a vida numa caverna deva ser mais interessante. Não acho a menor graça em dançar Ursinho Blau Blau e Balão Mágico, odeio a Xuxa e suas próximas vinte e cinco gerações de descendentes, e eu não era criança nos 80 pra lembrar dessas músicas com o menor carinho. Ah...mas eu estava falando do Rock dos anos 80...claro. Rock...Blitz? Paralamas? Três neguinhos tocando mal e um cantando pior? "Eu e minha gata rolando na relva, rolava de tudo"? "Eu não matei Joana D'arc"? Ah me poupe. Eu detestava tudo isso.
Tá, primeiro é preciso explicar que eu era bicho grilo. Sim sim, poncho e conga. Não, espera...são 10 anos de anos inteiros, que começaram quando eu tinha 18 pra 19, terminaram quando eu tinha 29. Como afirmar que eu era bicho grilo? Eu usei alpargata e camiseta do Solidarnosc, depois usei calça jeans justérrima com salto alto e camisa, muito lenço no pescoço (em 2010 eu ainda não tirei os trapos do pescoço), usei ombreiras imensas, fui uma jovem senhora de saia e stiletto, fui de tudo em 10 anos.  Cantei MPB em teatro universitário, fui a um sem número de shows ruins de amigos talentosos. Comecei a década com a MPB que já estava nas veias e não tinha como fugir: Chico, Caetano, Milton, Elis, Gal, etc, claro que Beatles, Rolling Stones e Doors, Janis Joplin e outros já vinham de antes também...passei por The Police, U2, Queen, Eric Clapton, Nina Simone, Genesis e os eternos (não gostava de Led Zeppelin); depois Talking Heads, Laurie Anderson, Annie Lennox, Bruce Springsteen, Bob Geldof, David Gilmour...eu era normal. Mas não tinha como ouvir Eric Clapton e depois deixar o Marcelo Nova ou o Roger entrarem nos meus ouvidos. Não tinha. E eu odiava Legião. Só consegui prestar atenção nas letras do Renato Russo quando alguns outros cantores regravaram, num ritmo mais lento e um arranjo menos irritante. E tinha Cazuza...mas Cazuza eu gostava. Não dá pra comparar. Sem falar que a música dance dos 80 (não todas) tinha uma batida que até hoje me faz achar que é alguma brincadeira de um músico que resolveu curtir com a cara da humanidade.

Então esquece a música. O que foram os anos 80?
Vou ter que contar numa timeline de amores: Comecei com um namoro escondido, com um homem 12 anos mais velho que foi fundamental na minha formação intelectual, mas tive que largá-lo quando, em pleno carnaval, ele usou as frases "guinada na vida", "sentir segurança" e "construir juntos" no mesmo texto. Troquei de namorado.
1983
Me casei em 1983 com meu namorado de dois anos, ou um pouco menos, não lembro. Tive um filho lindo, e uma vida linda -- e curta -- com os dois, cheia de ideais telúricos e revolucionários. Uma vida cheia de música e talento transbordante. Não, eu não casei grávida. Me separei em 85.
Como sempre, meu nome era trabalho. Comecei a trabalhar aos 13 anos e não admitia a hipótese de mudar isso. Era RTVC na filial curitibana de uma agência paulista naquela época, cuidava da casa, do filho, do trabalho, de mim. Como sou impaciente, não esperei que meu ex saísse de casa: peguei minhas trouxinhas, meus livros e discos e voltei para casa dos meus pais, o que não foi legal. Depois namorei quase três anos com um homem com quem jurava que eu ia casar, e mudei de agência. No final deste período de  três anos, tive uma decepção estapafúrdia com ele - quando precisei que ele fosse um homem, ele foi um menino - e o maior amor do mundo se esvaziou em um mês. Neste momento eu ganhava bem, não tinha porque morar com meus pais, me mudei para um apartamento com meu filho, e trabalhei muito mais. Trabalhei e namorei muito mais, até que a história foi mais complicada, vou até mudar de linha pra contar.

grávida em 1984
Conheci o moço antes de casar. Ele era o amigo novinho e lindo do meu padrinho de casamento. No meu casamento bicho grilo, ele tocou uma música que eu nunca vou contar qual era, porque uma coisa é eu dizer que eu era bicho grilo, outra coisa é vocês conseguirem mensurar a bicho grilice da pessoa. Bom, ele tocava muito, cantava incrivelmente bem e não era lindo. Não. Era um deus. A beleza dele era incômoda de tão incrivelmente linda, e o jeito que ele me olhava doía na alma. Mas isso eu só vi depois. Fato, duranto o tempo em que estive casada, só vi esse moço poucas vezes, quando vinha do interior -- sim eu tentei aquela coisa linda de ser dona de casa e deixar o marido comandar a vida, e criar meu filho num lugar verde e livre, ar puro e blablabla...por menos de seis meses -- então eu saía com os amigos para tomar um pouco de poluição e cerveja. Sempre que eu ia pra Curitiba, meu próprio marido ligava para todos e pedia pra me socorrerem. Sim...e o moço-deus estava sempre lá me olhando. Ele casou também e teve uma filha. Então, faz as contas ali em cima, me separei em 85, depois namorei mais dois anos e meio...e foi quando o moço-deus reapareceu, trabalhando comigo na agência, como fotógrafo. Susto no corredor quando o vi pela primeira vez. Susto número 1: o que esta criatura está fazendo aqui? Susto número 2: a que horas ele ficou tão bonito que eu não tinha visto?
Aí põe o papo em dia, eu no estúdio fotográfico, ele na minha sala, eu infeliz com o namorado que virou menino, ele saindo de um casamento recheado de histórias dramáticas...receitinha básica para confusão.
1986
Como estava escrito nos planos dele desde o dia que me conheceu (nem vem agora dizer que não, porque me contaram), pa-buf! Ficamos juntos. Ele era de uma cara de pau tão incrível, que foi morar com o meu ex-marido quando se separou, pode? E, devagarzinho, foi deixando uma pecinha de roupa, um livro, um disco...na minha casa. No final de seis meses eu tive que explicar para ele que aquela era a MINHA casa, e aquele era o MEU armário, que o quadro da sala era MEU e ele não podia mudá-lo de lugar, porque a sala também era MINHA. E, principalmente, que ele tinha que procurar um lugar para morar de verdade. Mas era lindo...assim...em tudo. Eu tenho ainda impressos na memória vários retratos incríveis e cenas impressionantes dele. Unforgettable. Se eu tivesse uma prateleirinha de troféus, ele teria lugar de destaque. Hoje é um bom fotógrafo e continua lindo igual.
Pois então...menos um.
Depois dele eu resolvi que tinha que parar de me apaixonar. Pelo menos tinha que parar de me apaixonar por pessoas frágeis que dependeriam de mim para existir e crescer, e que eu deixaria de admirar em tempo récorde, acabando por usar a ponta da bota em suas lindas bundinhas. Então me coloquei de castigo.
Comofas? Faz assim: você se deixa engordar um pouco (naquela época REALMENTE pouco) se tranca em casa depois do trabalho e escreve, escreve, escreve, sonha, sonha, sonha, e não convive com ninguém. 
Mas a vida não é bem assim. Eu sou antes de tudo um ser social que faz amigos de graça por esse mundo de meu deus. Em pouco tempo, eu tinha um novo grupo de amigos - fora os sempre fiéis que conheci nos lugares por onde passei. Logo as tentações me rondavam mas eu fui firme. Não deixei ninguém se aproximar o bastante para que eu me apaixonasse. Assim, segui até o final dos anos 80 sozinha.

Me e Diogo e a vuvuzela dos 80's
Aí eu pergunto: os 80 foram ruins? Não...não foram. Foram ricos em acontecimentos, paixões, uma criança crescendo a minha volta, realização profissional, e muito mais. Mas foram também anos de estar perdida. Eu troquei de estilo, de grupo de amigos e de namorado, o tempo todo. Isso é um sinal de que eu era uma barata tonta. De 1980 a 89, eu não sabia exatamente quem eu era, a não ser profissionalmente. Profissionalmente foram os anos decisivos para que os 90 pudessem chegar e  mudar tudo radicalmente. Mas até lá, eu estive no escuro. Sabia que era forte. Sabia que era uma super mulher capaz de suportar fardos nunca antes imaginados. Sabia que queria saber mais, pesquisar mais, estudar mais, mas estive de olhos vendados para o futuro -- coisa essa que eu não podia imaginar como seria. Futuro era uma coisa distante, que fazia minha inner bússola enlouquecer. Era mais fácil andar um pouco todos os dias como a vida me permitisse, do que traçar um caminho. Eu simplesmente não sabia para onde ir. Tinha em mente que minha profissão era prioridade, porque ela era o que permitia que meu filho tivesse uma vida decente, e ele sim, era a prioridade máxima. Todo o resto não importava.
Mas os 90 chegaram...no início eu fiz umas bobagens bem grandes, mas logo a bússola passou a funcionar...e eu cheguei aqui.

É isso. Sempre que alguém morre de saudades dos anos 80, eu torço o nariz por isso: bússolas.


Bom dia

Essa timeline é falha. Contei o que foi importante mas existem dezenas de paixonites, casinhos e coisas que não se conta, ali nas entrelinhas. Os anos 80 foram responsáveis pela teoria das minhas amigas da época, de que existiam 4 homens para cada mulher em curitiba e todas elas estavam solteiras por minha causa. #maldade!

7 comentários:

Edilene Ruth disse...

Intenso!! sempre!!
Eu já gosto dos 80... mas aquela coisa de infância... avós e só isso mesmo, pq o restante fica difícil lembrar tudo de qdo se era criança.
Beijos, Edilene

Mari Migliacci disse...

Bicho grilo. Eu tive um tempo - longo - disso. Em certa medida, ainda há em mim resquícios dessas coisa jeans e sandália.
legião urbana nunca me pegou tb. e eu nasci nos anos 80. Morro de preguiça dessa efusividade por conta de xuxas e urinhos blau blau em festas estúpidas. Casament, então? affff
Texto gostoso de ler. Obrigada!
E ontem fiquei lendo seu outro blog - TPM. Adorei também.

Beijos!

Perin disse...

Putz...lendo isso tudo passou um filme na minha cabeça ( eita frase clichê-heheh). Até me reconheci no texto " amigos sempre fiéis". Tô de amigo fiel desde 1986 e com imenso prazer, adoro acompanhar os teus saltos.
A minha bronca com os 80 é outra, eu sei que poderia ter sido mais feliz se tivesse tido coragem, mas já passou. Quanto ao rock brasileiro gosto do Legião, mas de resto te acompanho. Beijo my love.

Fabio Piva disse...

O que dizer sobre os anos oitenta? Bem, no meu caso, é fácil: Nasci no começo da década e passei nela a melhor parte da minha infância. Da época, lembro sim de muita coisa, escuto ainda muita coisa, assisto muita coisa, leio muita coisa. Anos áureos!

O que dizer sobre o texto?
Perfeito, também -- porque os anos oitenta foram (para mim) ótimos, o que não significa que tenham sido menos estranhos. A música, a comida, a idumentária -- enfim, absolutamente tudo -- indicam inúmeras contradições culturais de uma humanidade completamente confusa com que rumo tomar dali em diante.

Ou seja: Ao meu ver, também para a humanidade, a década de 80 foi all about bússolas.

Beijos,
Fabio Piva
http://paciencianegativa.blogspot.com

Karina Mochetti disse...

Quando vc estiver numa festa e começarema tocar o rock brasileiro dos anos 80 que vc não gosta tanto, lembre-se de que eles poderiam tocar o tal "rock" atual, emos, coloridos familías restarts e afins...
Compare as décadas de 50, 60 e 70 com os 80, 90 e atuais... A humandade PERDEU sua bússola na década de 80 para nunca mais achar...

Anônimo disse...

Hahaha Não me desanima, Ka!
você está tão certa que dói...

Mas a gente pode ser mais radical e dizer que emo, restart, nxzero e afins não é Rock! É um derivado de rock de mal gosto, cujas letras nem cabem nas melodias e que a gente simplesmente não precisa ouvir.

Agora imagina quando eu tiver uns 80 anos e for na festa de 15 anos da netinha...e a banda fizer uma retrospectiva EMO dos anos 10, e todo mundo dançar achando engraçado.
A vingança! :)

Beijo
bom ter você por aqui.

Mercedes

Mariana heller disse...

"...teoria das minhas amigas da época, de que existiam 4 homens para cada mulher em curitiba e todas elas estavam solteiras por minha causa"

a teoria entao vem desde os anos 80? eu achando q eu era mt experta! hahahah