segunda-feira, julho 19, 2010

_iansã e oxóssi

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"Ele é filho de Oxóssi, tu ta perdida, filha...é filho de Oxóssi".
Como ela poderia saber de tão longe? E ainda mais longe estava essa outra cultura, que não traduzia nada em referências que ela pudesse entender. Era só mais uma informação. Ela sabia seu signo -- mas o que importa se ela nem acredita? -- Sabia o nome, o sorriso, a cor do carro. Acho que só. Talvez a preferência escancarada por alguma cor de camisa, mas sabia tudo antes.
Ela deu com os ombros como se ele fosse primo distante de alguma amiga de infância -- nomes que vivem longe, coisas nada palpáveis -- e seguiu com a vida sem olhar os sinais. Mas toda vez que ele franzia a testa ela sorria. Toda vez que as sobrancelhas se juntavam, ela sabia que queria mais daqueles pensamentos, queria mais daquele perfume, queria muito mais.
Orgulho. Era meio que isso: orgulho, como se ele fosse dela, sabe? Dela desde sempre, mesmo que não existisse semanas atrás. "Meu", ela dizia, sem saber porque. E todo gesto dele, todo olhar para o lado, toda gentileza, era um orgulho grande, uma alegria besta, como se fosse dela.
"É Iansã...tua mãe não te deixa largar um home desse".
"O que?"
"Filho de Oxóssi te vira do avesso, filha, faz de tu o que quer...não tem como tu largar." 
"Ele me larga, eu sei."
Frases tão sem sentido...
E foi levando a vida como se fosse assim, antes mesmo dele aparecer. Esperava por tudo,  menos por ele -- só sabia o nome, o sorriso, a cor do carro.
Queria ter entendido quando dava tempo, antes de ver a pele pegar fogo. Queria ter ouvido antes de provar o gosto. Mas não. 

E foi assim que tudo ganhou outra cor: Iansã e Oxóssi -- e a vida do avesso.
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Um comentário:

Edilene Ruth disse...

Meu comentário é o de sempre:

UAU!!!!!

Amei!!!! Intenso!!!

Beijos e pode desabortar sempre que estiver assim!!

Edilene