domingo, julho 11, 2010

_freeze (mais do mesmo)

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"maybe i'm amazed at the way you pulled me out of time, hung me on a line. 
maybe I'm amazed at the way I really need you"

"Café?"
"Isso...um café e só. E a gente fica amigo pra sempre."
Mentiras, mentiras...
Não mentiras graves. Só mentiras de auto-defesa. Não tinha como pensar de outra forma quando os dois estavam morrendo de medo do que encontraríam. Não...mentira de novo. A verdade é que ela estava morrendo de medo de ser rejeitada. Difícil lidar com isso depois de tanta expectativa, tantos finais imaginários.
Café. Que mal poderia haver num café em lugar público? Em caso de ficar sem graça, olhar o movimento seria uma solução. Em caso de susto, quem sabe entrar numa loja, sair de fininho, sei lá. Em caso de rejeição extrema, tem sempre um banheiro por perto para trancar a porta e morrer de chorar.
Café.

"So I look in your direction, but you never even see me, do you?"
Assim que ela virou a esquina do estacionamento, cantando Shiver (da banda que ele nem gosta), com o vidro do carro aberto e a certeza de que ele jamais apareceria, deu de cara com o que seria ele: dois palmos mais alto e cinco vezes mais impressionante do que ela imaginou. Mas no que isso poderia importar quando ele já era impressionante antes, pelas coisas que dizia -- e como as dizia --, pelo sorriso encantador e o olhar delicioso que ela já sabia de cor?
Foi instantâneo.
Num estacionamento aberto, através de milhares de carros e uma multidão de pessoas, os dois se reconheceram imediatamente. Medo. Muito. E os sorrisos rasgados foram como um reflexo natural inevitável -- uma martelada no joelho e a perna pula -- assim.
Ela baixou o volume, parou o carro ao lado dele:
"Vou procurar uma vaga."
Ele entrou no carro, ela estacionou, desligou o motor, olhou para ele. E agora? O sorriso aberto e as duas mãos seguraram seu rosto, em seguida uma delas se aventurou a desbravar sua cabeleira. Ela estática, não sabia para que lado se mexer ou o que fazer agora. A mão macia em seu rosto a impedia de pensar...Ele fechou os olhos e deslisou o nariz pela pele -- testa, face, nariz, boca, queixo, pescoço -- respirou fundo como se a tragasse inteira para desaparecer numa névoa torpe de desejo. Fascinada, ela deixou que seu perfume o tomasse, o agridisse, o arrebatasse. Olhos abertos dentro dos olhos, e ele se movia de um jeito que ela esquecera se vivia ou não. Nem um beijo. Nada. Apenas a pele na pele, a mão nos cabelos, os cabelos no rosto, a voz no ouvido: "você é real...e agora?"
Real. Bem mais do que real. Era o que ele era. Totalmente irreal era o que parecia ser aquele carinho todo, aquele desejo todo. Ela hipnotizada, ele bêbado de cheiros. E todos os indicadores de que o mundo existia, se apagaram como mágica.
O beijo esperado. Não. Espera. O beijo esperado seria um simples beijo bom e nervoso na boca. Não foi bem assim. Daquele instante em diante não havia fronteira entre as bocas e o infinito. O beijo foi um beijo inteiro. A língua morna percorrendo o mundo a passos lentos e molhados, desligando o tempo e deslocando o eixo da terra. O ritmo dos planetas e dos corpos mudou, o big bang implodiu e inexistiu em milhonésimos de nano-fragmentos de vazio, e tudo parou.
O beijo. Um beijo. As mãos. Os cheiros. A voz: "eu sempre soube que era pra sempre."

Sempre, sempre foi um instante infinito roubado da alma do tempo.

...

6 comentários:

Weidell disse...

Não posso acompanhar seu blog como um amante de futebol assiste a disputa pelo terceiro lugar em uma copa do mundo. É demasiado verdadeiro. É muito visceral. E eu quase não suporto isso, de tanto que disso necessito.

Silvia Schiefler disse...

"O beijo. Um beijo. As mãos. Os cheiros. A voz: "eu sempre soube que era pra sempre."
Sempre, sempre foi um instante infinito roubado da alma do tempo."

Pra quem lê uma coisa dessas e revive um momento, não há comentários a fazer... Não há o que dizer, apenar relembrar e sentir novamente aquele intante infinitoefêmero, vivido em algum tempo que já se foi!
Vou ali recuperar meu fôlego e volto no próximo post...rs

Adore!

Mari Migliacci disse...

Você é linda! E se não tiver editora para lançar seu livro, eu lanço independente! Meu primeiro investimento, e certeiro. Adorei encontrar seu blog e você nessa grande teia!
Obrigada!

Beijos

Edilene Ruth disse...

"Apenas a pele na pele, a mão nos cabelos, os cabelos no rosto, a voz no ouvido: "você é real...e agora?"

Gente... que viagem eu fiz lendo esse post... fui muito, mas muito longe mesmo... me somem as palavras...

Continue sempre intensa, estou amando tudo isso!!!

Edilene

Marcos Freitas disse...

ê-laiá... ahahahaha

ô dilícia!

bjs

Natynha disse...

Não consegui pensar sem ser apenas no amanhã...rs