segunda-feira, março 05, 2007

Se conselho fosse bom...

Eu sei, eu sei...se fosse bom seria cobrado. Claro. Também acho. Eu passei a vida, como todo mundo, ouvindo conselhos - dos mais valiosos aos mais estúpidos - e como todo mundo, descumprindo um por um.
É tão lindo aos 15 anos dizer: "eu tenho que aprender com os meus erros". Claro! É ótimo, mas dói. E enquanto estamos falando sobre tomar cuidado com uma amiga, arrumar a cama quando levantamos na casa dos outros, etc, tá muito lindo. Mas existem conselhos que eu gostaria de ter ouvido com OS DOIS ouvidos e, quem sabe, deixado entrar no cérebro por um tempo mínimo que fosse para não esquecer. E hoje, olhando à minha volta, e para mim mesma, existem conselhos que eu gostaria que todo mundo ouvisse.
Naquele texto brilhante do Tim Cox, "Filtro Solar" ele diz: "Conselho é uma forma de nostalgia. Compartilhar conselhos é um jeito de pescar o passado do lixo, esfregá-lo, repintar as partes feias , reciclar tudo e vender por mais do que vale."
Anyway... alguns conselhos que todos deviam seguir, mesmo que eu não tenha feito...mesmo que seja um saco.

. Coma alimentos com cálcio: queijo, leite, iogurte, manteiga, alguns legumes...mas coma! Não tem a menor graça ter osteoporose aos 35 anos, nem aos 60, nem aos 70.
. Use filtro solar. Todos os dias. Para sair, trabalhar, ficar no computador, andar na rua, ou ir à praia. Fator 30 no rosto e nas mãos, sem falta. Você só tem uma pele, embora ela tenha um incrível poder de se auto-renovar para se salvar das barbaridades que você faz. Tirar manchas da pele custa uma fortuna e nem sempre funciona. E não tem mágica: se você não usar filtro solar, sua pele VAI ficar manchada, e você vai ser um velho/a muito muito feio, muito antes da hora, talvez com um câncer de pele. E acredite: agora você acha que não dá a mínima para aparência....mas quando chegar lá, vai dar sim!
. Faça exercícios todos os dias. Não importa se é pouco, não importa se é leve. FAÇA! Aos 40 anos, sua disposição não vai mais ser a mesma, e se for aos 40 não será aos 60. Sem exercícios suas pernas tendem a não te suportar, seus braços não vão levantar seus netos, o mundo vai viver lá fora enquanto você se arrasta. Envelhecer não é o problema: o problema é como você vai se virar quando ficar velho.

. Alongue. Não importa como. Se você não alongar, com o tempo seus músculos vão estar tão curtos, que você terá encolhido demais. E sua postura aos 50 vai ser de uma pessoa de 70. Velho sim...mas com o nariz apontado para frente, por favor!
. Cuidado com tatuagens. Ao envelhecer, sua pele vai ficar flácida e irrugada, por melhor que você esteja. Antes de tatuar pense bem, olhe para a sua mãe, para o seu pai, para os seus avós. Repare quais partes do corpo a gravidade não perdoa. Pense que um lindo pavão pode parecer um repolho em 30 anos. Pense no que você vai ser então: um/a velhinho/a com pinturas disformes penduradas em pelancas. Pense que talvez você fique viúva, talvez case-se de novo, e a pobre criatura que casar com você vai morrer de aflição ao ver uma velhinha nua cheia de "hematomas".
. Diga que ama a quem você ama. Deixa de ser besta e de dizer por aí que "EU TE AMO" é uma frase especial demais para ser banalizada. Isto não é banalizar. A gente hoje vive num mundo em que se é um herói por sair de casa, e uma possível vítima. Quando se volta para casa no final do dia, se é um SOBREVIVENTE. Sobrevivente de uma guerra velada que está lá fora te esperando. Não saia de casa sem beijar os seus. E se possível, diga todos os dias - na hora de dormir, ao telefone, ao se despedir de cada um: "Eu te amo", porque esta pode ser a última vez. Sem drama. É verdade. Alguém pode ter um ataque cardíaco, ou um ataque do PCC, ou do Comando Vermelho, ou da Polícia...sei lá. Na dúvida, exponha seus sentimentos. Não vá dormir brigado com seus pais, seu namorado, seus amigos. Faça as pazes antes de dormir, viajar ou deixá-los ir embora. Amanhã é um incógnita!
. Cuide dos dentes. Use fio dental, escove os dentes 3 vezes por dia por pelo menos dez minutos, e outras mais que podem ser mais rapidinhas. Não tenha preguiça disso, porque não é perda de tempo. Assim como nas suas pernas, os ossos do seu rosto não durarão para sempre, mas durarão um pouco mais se você cuidar das gengivas evitando que seus dentes simplesmente caiam.Vá ao dentista. Mas mesmo se não for, não economize fio dental e escova de dentes.
. Coma direito. Menos do que acha que precisa. Mais vezes do que acha que tem fome. Seis vezes por dia é o número certo para comer. Assim você não fica nem desnutrido nem obeso e seu corpo tende a te obedecer melhor, e por mais tempo.
. Use a cabeça. Leia, leia, leia, leia. Este é o único remédio para o seu cérebro. O único alimento de que ele precisa, fora a glicose que você ingere sem querer. Quem lê fica lúcido até os 100 anos. Quem lê evita a demência e não sobrevive enchendo o saco dos outros. Se você se julga uma pessoa independente, este é o único passaporte para que você continue assim. Se seu cérebro parar, sua independência se auto-distruirá em cinco segundos.
. Beba para ficar alegre, mas não faça isso todos os dias. "Melhor dez anos a mil do que mil anos a dez" é comprovadamente um lema furado. As pessoas que vivem dessa forma, costumam ter cirrose, diabetes, pancreatite. Elas demoram para morrer, mas morrem. E até que morram, vivem dez anos a cinco por hora, sem poder fazer nada, entrando e saindo de hospitais, fazendo diálise, amputando membros, perdendo a visão, sentindo coisas horríveis, e atormentando uma família que não escolheu esta vida.
. Ame, se apaixone, dance, cante alto, dê risada, tenha amigos, escute as crianças, brinque! Sensações são só o que você vai levar daqui quando for embora.
. Seja bom. Doe sem pena. Ajude sem questionar. Só quem é livre para entregar o que tem consegue ter mais. Desapego responsável é o nome: não tire da sua família, mas não se apegue demais ao que você tem. A vida muda em um minuto, e se suas COISAS forem só o que você tem, você pode um dia não ter nada. Seja mais do você tem.
. Se ame. Você é a melhor companhia para si mesmo. O tempo passa, a vida passa, os filhos crescem, os netos crescem. Se seu corpo for forte e sua mente lúcida, você talvez entrerre todos os seus e fique sozinho. Se você não se suportar, e não tiver com você uma vasta bagagem de lembranças maravilhosas, a solidão pode ser um castigo que você não merece. Se você se amar, a solidão será suportável, e muito provavelmente, você vai sempre ter alguém ao seu lado.
. Seja corajoso e viva! Mas respeite o medo alheio. Todos nós sabemos que o medo é uma prisão e uma dor enorme. Se você não gosta de sentí-lo, não force ninguém ao mesmo. Ninguém perde medo de cachorro por ser forçado a conviver com um. Este medo dói, e superá-lo pode ser descartável. Perigoso é ter medo de amar. Para todo o resto se dá jeito.
. Converse com seus pais. Converse com seus filhos. Converse com seus irmãos. Família é um saco, mas no fim das contas são eles que vão cuidar de você, lembrar de você, contar sobre você. Se eles não souberem quem você foi, seus netos também não saberão e em menos de cinquenta anos tudo o que foi você já não existirá mais. E não só por isso...mas porque estar vivo só vale a pena se você convive. O que você ouve e o que você diz formam pensamentos e você é o que você pensa.
. Escreva, pinte, conte histórias, tire fotos, plante árvores de frutas. Não tem nada melhor do que lembrar de alguém que já se foi. Dê aos que te amam a oportunidade de ter coisas suas para olhar. Nem que seja só um pé de jaboticaba que dá fruta toda primavera, e é doce. A ausência dói demais sem lembranças, então, deixe suas pegadas cravadas no chão que você pisa para que as próximas gerações saibam quem você foi.
. Mude de idéia. Não tenha compromisso com o erro. Não seja obtuso. Você não está sempre certo, nem sempre errado. Escute, reflita, reaja. Aceite. Ou não.
. Aceite as pessoas como elas são. As diferênças fazem a vida mais rica.
. Lembre o conselho do Dalai Lama: case-se com alguém com quem goste de conversar. No final da vida, conversar vai ser muito mais importante do que sexo.
. Seja o protagonista da sua história. Pouquíssimos coadjuvantes fazem falta a alguém.
Pois é...acho que estou ficando velha. Ou com medo de.
O fato é que há dias estou pensando nestas coisas. Principalmente no cálcio, no fio dental, no filtro solar e nas pegadas no chão. Eu estou tentando...


Buenas.

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Isto não é um fotolog

Agora que a SHOTS saiu, eu já posso publicar a foto que eu mais gosto. Foi uma das três fotos que eu mandei para a matéria. Pena que eles escolheram a outra.

Claudio Borrelli recebendo o espírito do Jack Bauer.
foto by: Mgmyself & I / model: my own husband

…˙˙…
˙˙
Hoje ganhei mais uma gata. Encontraram a mãe na rua com 5 filhotes.
Todos pretos - mãe inclusive - e, no meio deles, uma espiga de milho!
Mini. A nova habitante da casa

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Mulher orgulhosa.


Saiu na SHOTS, revista inglesa de circulação mundial, esta matéria sobre o meu próprio marido. A matéria conta a trajetória dele de uma forma deliciosa, descontraída e verdadeira até demais.
Como o jornalista esqueceu de citar o nome da mulher fantástica que guiou os passos desta criança até aqui, a foto foi feita por mim, e o crédito está no cantinho inferior direito da primeira página. Ha! Quem diria que a minha primeira foto publicada seria dele?
A foto é uma homenagem "mafiosa" ao sangue italiano dele (e vamos combinar que também à maneira suicida-feliz que ele filma)
Quem puder, leia. Se clicar na foto, acho que dá pra ler. Ou...quando eu tiver tempo, transcrevo, traduzo, etc etc...But not now!
Não preciso dizer que a "famiglia Gameiro Borrelli" está radiante hoje. Não só por isso, mas vem mais por aí...
Foram anos de batalha, dentro e fora de casa, literalmente e globalmente, para que esta pessoa fosse olhada como eu sempre achei que merece. Apesar, além e mesmo sendo...meu marido -- a criança comilona e brincalhona que habita a minha casa -- profissionalmente é um mestre, um talento nato, e um cara legal. Chaaaaaaato! Engraçado, divertido, trabalha como se fosse hora do recreio, e na hora do recreio só trabalha. A vida dele é o set de fimagem. Sem isso ele definha, desparece, morre à míngua.
Todos nós sempre soubemos onde ele ia chegar. E que ainda vai além... Mas de qualquer maneira, a publicacão desta matéria é a consolidação de tudo o que foi plantado. Não que ela o esteja premiando, mas o está colocando na vitrine onde deveria estar desde sempre: o mundo!

Babona, me despeço por hoje. Feliz.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

And my Oscar goes to...

Ufa! Que canseira.
Os últimos trinta dias foram uma correria louca e eu mal tive tempo de me olhar no espelho. Hm...mentira: me olhar no espelho foi o que eu mais tive que fazer, mesmo sem querer ou gostar. O fato é que desde que saiu a lista dos indicados eu não parei. Primeiro porque tive que triplicar o tempo de exercícios diários. De uma hora e meia, passei para quatro horas pois eu tinha engordado um pouco, e a televisão aumenta demais. Aliás, alguém pode por favor mandar queimar todas as TVs de plasma widescreen? Quanto eu tenho que emagrecer pra sair magra em widescreen? Isso não é justo. Se a Gwyneth Paltrow parece um abajour em widescreen, eu vou parecer o que? Uma versão branca da Queen Latifa?
Anyway...fora os exercícios para tentar salvar a imagem, tive todas as entrevistas e fotos, e tive que ir fazer uma cena em fundo branco para a Academia, depois começaram os telefonemas: Armani, Valentino, Stella McCartney, Reinaldo Lourenço, Donatella Versace, Dolce&Gabana...ai ai ai...será que essa gente tem noção do quanto eu odeio experimentar roupa? O quanto eu abomino bajulação? Até 15 dias atrás eles nem sabiam que tinha uma loira gorducha no Brasil metida a escrever. Agora ficam me achando linda e querendo me dar vestidos de presente. Mas okay...faz parte do jogo, vou ter que me render a isso também. Também! porque estou tendo que me render a outras banalidades insuportáveis: joalheiros também me ligaram para oferecer as jóias para usar com o vestido que eu escolher. Fora os sapatos. Será que alguém vai mesmo olhar para os meus sapatos? Pelo amor de deus! A Cameron Diaz vai estar lá! Ela deve calçar 40, o pé dela aparece muito mais que o meu -- sem falar na Julia Roberts...
Então...tudo isso e o cabelo. O cabelo e o make up. O make up e a passagem. A passagem e o hotel. O hotel e o discurso. Será? "Será que eu faço a estrangeira rebelde e faço meu discurso em português? Acho feio demais. Acho que vou fazer em inglês mesmo e no final falar alguma coisa em português; fica mais simpático. Mas não vou dedicar o prêmio aos cineastas do meu país. Na na ni na não. Seria hipócrita. Eu detesto o que eles fazem. Posso dividir essa glória com quem tem tentado com competência: Waltinho, Fernando e Andrucha. Nem. Só Waltinho e Fernando. O Andrucha casou com a chata da Fernandinha Torres. Quem mandou? Mas posso dedicar a algum cineasta mexicano? Eu queria...mas é feio."
So...só correria, correria, correria, até que finalmente chegou o dia. Aff...e eu ainda tenho que ficar linda -- isso não é justo: o Peter Jackson recebeu o Oscar por Senhor dos Anéis com um terno saído do bucho da vaca e a camisa toda suada. Ele tava um escracho! Mas eu sou menina, né? Meninas sobem no palco do Oscar todas lindas. E tem que chorar.
"Ai não! Eu sei que eu vou chorar. Eu ficou horrível quando choro! - I'd like to thank the members of the academy... and the MAC water proof eye liner".
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Ok, kids, tudo isso eu escrevi ontem no hotel, roendo tudo o que encontrava de tão histérica.
Agora a festa acabou, estou no backstage postando pelo celular e, daqui a pouco, vou para uma super festa em Malibu que a Warner Bros está oferecendo para comemorar o Oscar de "The Departed". O que eu queria dizer é que estou feliz demais pelo Scorcese que merece esse prêmio mais do que ninguém. Não que o Alejandro não mereça, mas é só a primeira vez que o Alejandro é indicado; o Scorcese entrou na fila há muito mais tempo. E eu? Bom...será que eu deveria estar triste por não ter ganho? porque não estou. Na verdade eu nem acho Little Miss Sunshine um grande roteiro. Acho uma delícia de filme, o Michael Arndt é uma delícia de pessoa, mas hey! E eu sou o que?? O Michael escreveu Little Miss sunshine em três dias. TRÊS DIAS!! Vou repetir: ele escreveu em 3 (três) dias. 72 horas. 3 voltas da terra ao redor do sol. Sabe quanto tempo eu levei escrevendo o meu? Pfft...melhor nem contar. Antes do filme entrar em cartaz, ele assinou um contrato milionário com a Pixar pra escrever roteiros (depois desse Oscar eu quero ver ele não querer sair do emprego novo), e por Little Miss Sunshine ele ganhou um milhão de dolares. "Não dava pra me deixar subir no palco, seu egoísta?"
Well...de qualquer maneira, fui indicada e estava ali na platéia , sentada bem pertinho da maioria dos meus ídolos ainda vivos. Isso não tem preço.
Avisa então pra todo mundo que dessa vez não deu, mas outras virão e, agora que eu peguei gosto por telefonemas do Armani e etc...ninguém mais me segura: vou refazer meu guarda-roupas.
Vou pra festa agora, depois vou pro hotel dormir, sem hora pra acordar, pela primeira vez em 40 dias.

Um beijo amigo no seu umbigo


2:58 am, 26 fevereiro 2007...durmo e escrevo enquanto sonho, antes que o despertador toque e seja hora de sentar no meu computador para escrever de uma vez o roteiro que deveria ganhar best original screenplay em um ano qualquer entre 2005 e 2015, antes que o mundo acabe, a amazônia seja invadida ou uma bomba nuclear iraniana destrua Hollywood.

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Outro post sobre o post abaixo

Natasha e Verônica, brincando de tirar foto.

Calma, crianças.
Está tudo bem. Escrevi o post abaixo ontem à noite, ainda tomada pelo cansaço gigante de todo o stress do dia, com a pernas moles e o coração apertado. Mas como todo mundo sabe, sofrimento pra mim, é coisa pra durar pouco.
Saímos do hospital já com a Natasha ensaiando alguns passos de dança. Ela passou super bem a noite e hoje já acordou com toda a mexicanada no quarto. Sim sim...Som alto, cantando junto com a música toda empolgada e dançando. A essa altura do campeonato eu digo que se o "alívio" canta, ele canta em espanhol, e dentro da minha casa.
A mexicanada está correndo solta lá dentro daquele quarto. É tanto, que quando a Shakira começa a cantar eu respiro tranquila, achando que a música começa a ficar boa. hahahaha! E pela primeira vez em dois anos, nada me incomoda. Pode cantar em espanhol! Canta mais alto!

É incrível como ela tem o talento de encontrar músicas em espanhol cantadas por gente que a gente nem sonhava que falasse algo além de inglês, ou ebonics. hahah! Não faço idéia de onde vem isso tudo.
Well...that's it. Ontem foi ontem. E hoje parece ser um dia muito diferente de ontem.

Bom dia!
E obrigada pela preocupação.
Beijos

Frágil

A terça-feira de carnaval começou preguiçosa com café na cama. Já era tarde para um dia comum. Cedo para um feriado. O céu todo indeciso, sem saber se traria sol ou chuva pela porta recém-aberta para o jardim. Eu olho no celular: quinze para o meio dia. Sanduíche quente de cottage e peito de peru, café forte e cheiroso, preguiça mortal.
Meu cozinheiro de feriado desiste de estar vivo e volta para a cama. Eu pego um livro e vou ler no sofá. Dia preguiçoso. Preguiça de ligar a TV, pensar em almoço, ligar para alguém.
Às duas da tarde a casa inteira finalmente termina de acordar e decide encarar o que precisa ser encarado. Protestos. Na noite de ontem eu jurei como Scarlet O'Hara: "Amanhã, vagabundearei solenemente. Ninguém me tira daqui!"
Não é bem assim que funciona.
Semana de check up familiar. Todos no médico. Todos com pilhas de requisições de exame pedindo para serem usadas. Um tinha um M.A.P.A. para devolver no hospital, às quatro da tarde, depois de ter a pressão arterial registrada a cada vinte minutos durante 24 horas.
O que não tem remédio remediado está. Todo mundo se arrumando para almoçar fora e ir até o hospital na sequência. Mais protestos. "Isso não é dia de sair de casa!"
Pois bem. Almocemos.
No meio do almoço, minha filha se queixa de uma dor estranha nos olhos. Dois minutos depois a dor virou uma dor de cabeça súbita e inexplicável. O que eu achei que resolveria com um tylenolzinho, virou um terror. Vinte minutos depois, estávamos entrando no Hospital Albert Einstein no Morumbi, não mais com um aparelho de pressão para entregar; mas com uma menina pálida, chorando, sem cor nos lábios e quase sem conseguir andar. Mais dez minutos e ela estava no soro, tomando medicamento intra-venozo para aliviar a dor que já doía mais em mim do que nela. Foi o tempo de o Cláudio chegar ao quarto andar do Hospital, e eu já estava com ela medicada na emergência, gemendo, com dois médicos e um enfermeiro à sua volta.
Mais cinco minutos e ela me diz que está pior e quer vomitar. Pronto! Quem já teve filhos, quem já estudou um pouco sobre problemas neurológicos, quem já teve um amigo com tumor no cérebro, pode imaginar todas as voltas que a minha cabeça deu, por onde andou, e os dez filmes de terror que eu assisti em segundos. Pânico!
A médica me diz que vai esperar o medicamento fazer efeito e ela estar em jejum para fazer uma tomografia craniana e logo depois o neurologista estaria conosco. E os filmes na minha cabeça ficando mais e mais pesados.
Um pouco de Dramin na veia e ela adormece parecendo mais tranquila. O quarto escuro, ela deitada ali tão pálida e eu tentando não deixar que o chão saia de debaixo dos meus pés.
Muito pouco tempo depois ela volta a gemer, reclama de muita dor. O médico prescreve um anti-inflamatório, o enfermeiro vem adiministrar. O tempo não passa. A cor dela não volta. Onde foi parar o vermelho dos lábios. Eu quero de volta o vermelho dos lábios!
Hora da tomografia e eu tentando olhar para a cara do meu marido de uma forma que o tranquilize. Meu olhar tenta dizer: "Calma...vai ficar tudo bem." Mas eu percebo que o olhar dele é tão falso quanto o meu, tentando me dizer a mesma coisa; e nós dois ali querendo dizer ao outro: "Eu sou forte. Pode se apoiar aqui."
Mas a verdade é que a vida é frágil e as certezas também. Ser forte é muito fácil quando se tem controle da situação, quando a vida não está mexendo nos seus tesouros, quando o mundo não quer desabar sobre a sua cabeça. Durante as quatro horas mais longas da minha vida eu fiz cara de forte, mas por dentro estava dilacerada, pequena, frágil, fraca, arrasada. A vontade que eu tinha era de deitar ao lado dela e dizer para a dor mudar de corpo. "Deixa que eu sinto tudo isso pra você."
Quando o enferemeiro veio colocar o soro e perguntou se ela tinha medo de agulha, a resposta me cortou o coração: "Não. Eu tenho medo de dor."
E aí, isso não corta qualquer coracão. Só o coração de quem conhece bem essa menina. Ela é mimada, manhosa, dramática; faz drama pra tomar comprimido, faz drama para tudo, não deixa tirar um band-aid. Mas a dor era tamanha, que ela praticamente pediu ao enfermeiro para enfiar de uma vez alguma agulha para que o remédio pudesse fazer efeito logo. Corta sim. Corta o meu coração.
Meu coração fica estraçalhado sempre que as lágrimas de um filho são de dor. Já quis tanto estar no lugar do Diogo, naquela época que a gente não sabia o que ele tinha e ele passava mal vinte e quatro horas por dia durante mais de três meses. Perdi o sono sempre que esperei o resultado de um exame pelas enxaquecas dele ou as outras coisas que , graças a deus , já têm solução. E agora, por poucas horas, todos os meus pesadelos voltaram, mudando só o personagem. No final das contas, não se descobriu nada. Ela está bem e em casa. A tomografia não deu nada. Não se sabe o que causou a dor súbita, vamos ter que continuar pesquisando e lá vamos nós de novo....mas pelo menos não era nenhuma das coisas horríveis que eu (e a médica) pensei.
De todas as certezas da vida, frágeis ou não, existe uma inegável: Quando um filho nasce, você consegue vê-lo crescer, imagina seu futuro, faz planos, sabe o que quer para ele, conhece os caminhos a serem percorridos para dar a ele todas as ferramentas necessárias para ser uma pessoa completa, inteira, feliz. A única coisa impossível de se imaginar é perdê-lo.

Hoje, diferente de sempre, estou pequena, consciênte da minha impotência e assustada. Apesar de tranquila com o resultado.

sábado, fevereiro 17, 2007

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

_vida me leva...

O tempo passa, o tempo passa, e as pessoas aparecem na minha frente de tempos em tempos para fazer a mesma pergunta: qual é o seu maior sonho? Qual é o seu objetivo na vida?
Ai! Que invasão de privacidade...que coisa desagradável.
Eu não sei pensar nisso. Não aprendi, não nasci com o gene de quem pensa nisso. Não tenho temperamento para isso. Daí ele me diz: "mas que coisa vazia não ter um grande sonho".
Eu não tenho, dá licença? E a minha vida está tão longe de VAZIA, meu coração está tão longe do abandono, meu caminho está tão longe do deserto...
Eu invejo quem tem grandes ambições. Juro. Porque toda vez que eu parei pra pensar no que queria da vida, tive uma dificuldade gigantesca para me responder. As palavras não aprecem. As imagens ficam embaçadas. Eu quero tudo e não quero nada. Acho que quero viver e ser feliz.

Eu sempre me juntei a pessoas com grandes ambições e ajudei a planejar e alcançar cada um de seus objetivos. E a quem não tinha uma ambição eu apresentei uma. Sou boa nisso. Quem sabe esta seja a minha missão por aqui?
Quando eu era uma namoradeira inveterada, minha mãe conhecia um namorado meu e dizia sempre a mesma frase: "Lá vai ela...transformar um ninguém em um grande homem para depois ir embora." Era isso mesmo. Sempre foi isso mesmo. Colocar coisas no mapa. Colocar pessoas na lista. Instalar lâmpadas e lanternas para que tudo seja finalmente enxergado. Depois, tirava "as rodinhas da bicicleta" e deixava a criatura viajar sozinha.
Isso não faz de mim nada especial. Isso eu faço sem querer, fácil, com o pé nas costas. E talvez eu tenha vindo ao mundo pra fazer só esse tipo de bobagem.
Deus perguntou: "E aí? O que vai ser? Ser grande, ou estar por trás dos grandes?"
Hm...essa imagem me tranquiliza. hahaha.
Esta semana ouvi de uma alma amargurada: "o que é você? Algum tipo de anjo que aparece quando a gente precisa?" Será? Só porque eu vejo melhor a sua dor e a solução para ela do que veria a minha própria? Só porque eu sou metida e não tenho papas na língua? Só porque você estava triste e eu resolvi falar com você? Não sei. Talvez eu esteja aqui para isso. Eu, tão confusa e atrapalhada, sou capaz de tirar pessoas do limbo, de trazer de volta à vida quem estava desistindo. Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço, é o lema. Se você fizer o que eu faço, vai entrar num buraco, porque eu nunca faço nada muito certo. Mas se ouvir as minhas palavras, vai sair desse seu buraco negro. Vem cá. Põe a mão aqui e pode roubar a minha energia porque ela deve estar aqui pra você.
Mas e os meus próprios sonhos? E meu goal in life? Cadê?
Passei a vida deixando que ela me levasse. A primeira vez que fui invadida e ferida gravemente, foi por um chefe que me disse: "Você tem que querer ser a melhor. Não existe nada abaixo dos melhores." Ai! Cala a boca! Eu nunca pensei nisso, nem sei como é tentar isso. Eu tinha 18 anos e era tão feliz! Com que direito chega um cara amargurado com mais de 30 e me diz um barbaridade dessas?
Treze anos depois casei com essa pessoa que anseia ser o melhor; e vem conseguindo a cada dia superar os melhores de uma maneira quase avasssaladora. E ele me diz: "você tem que lutar para ser a melhor."
Ai...eu sou! Eu sou a melhor mulher que você poderia ter. A melhor mãe que meus filhos poderiam sonhar. A melhor amiga que alguém pode ter. A melhor filha. A melhor conselheira. A melhor patroa. Faço o melhor empadão de camarão que você já comeu. Sou a melhor partner in crime que você jamais sonhou. A melhor crítica do seu trabalho que só faz melhorar. O melhor papo da madrugada no msn. A melhor namorada. A melhor enfermeira. A melhor realizadora dos seus sonhos. A melhor platéia dos seus feitos. O melhor apoio nas horas complicadas. A melhor roteirista dos seus passos. A melhor presença...chega?
A vida sempre me levou, apresentando as alternativas e os caminhos nas horas exatas. A vida sempre me presenteou com surpresas não planejadas. A vida sempre me premiou com a capacidade de enxergar o caminho, milhas além de qualquer um.
Eu não preciso ter um sonho. Eu passo a vida sonhando. Acordada. Do not disturb!

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sábado, fevereiro 10, 2007

Pessimismo?

Como eu sou feliz! Meu computador novo recusa-se a abrir o Power Point.
Não é uma glória? Agora eu não preciso mais abrir nenhum arquivo PPS. Na verdade eu já não abria, mas às vezes chega um ou outro de alguém que eu ainda considero, então eu me arrisco...
Agora nem isso! Se eu não resistir à terrível tentação de descobrir se aquela pessoa que eu ainda julgava esperta, finalmente se rendeu à miséria intelectual, meu computador me lembra: "Esquece, Mercedes, mais um caso perdido." E fecha o power point antes de eu saber do que se trata o slideshow breguinha!
Isso sim é a tecnologia usada para própria proteção.
Na verdade acho que os governos deviam se preocupar mais com a miséria intelectual. Veja bem: a Rede Globo está fazendo um melodrama com essa coisa de estipular conteúdos para cada horário e colocar um aviso de recomendado ou não para tal idade, na programação. Oh!... estão falando até em volta da censura. Neste caso eu discordo. Isto é uma volta AO BOM SENSO.
A Globo acha que é responsabilidade dos pais tirarem as criancinhas da sala se a Thelminha for transar com o George antes das 10 da noite. Sim....sim...vamos lá! Todos os pais, tranquem seus filhos no quarto ou aluguem um DVD! Assine TV a cabo! Principalmente se você mora na favela, num barraco de dois cômodos, e ganha trezentos e cinquenta reais por mês. É claro que se essa é a sua condição, você mora no trabalho de segunda a sexta. Então não esqueça de avisar à sua filha mais velha, de 11 anos, que cuida dos seus outros 3 filhos durante a semana, que ela precisa passar na Blockbuster e alugar uns desenhos!
Mesmo tão longe da favela, eu me pergunto se essa liberdade de ver qualquer meleca a qualquer hora, em qualquer idade, não fez das minhas companheiras mandadeiras de arquivo power point essa coisa de mal gosto que elas são hoje.
Sem falar do resto da população que nem teve acesso a nada mais ou menos melhorzinho!
Acho super apropriado que uma menina de 10 anos dance como as loiras do É o Tchan, você não acha? Acho que o figurino do Calypso é tudo o que uma menina de 8 devia querer usar. Acho também super interessante que as 8 da noite, a Luciana Gimenez intreviste a menina de 16 anos que ganhou uma Ferrari do "amigo de 60" e não querem deixar posar pra Sexy. Acho lindo o marido trair a mulher na novela das sete... Que que tem??
Que puritanismo é esse? Quem nunca viu um peito? Quem aos 9 anos não sabe que os casais fazem sexo? Quem não sabe que é normal o patrão estuprar a filha da empregada? Você acha que faz mal isso? Claro que não...
Meu deus! Ta tudo virado...as pessoas perderam a ética, as crianças sabem mais do que precisam ou do que tinham curiosidade de saber, o mal gosto reina absoluto, a ignorância domina a população!
Ai ai ai...se depois da ditadura a gente não tivesse confundido controle com censura, talvez o mal gosto não imperasse hoje no país. Talvez o presidente soubesse falar e não achasse que a América Latina inteira vai de Ushuaia à Patagônia....e talvez o povo escutasse o discurso e visse que ele estava errado, porque o povo saberia que Ushuaia É na Patagônia! Talvez ninguém estivesse conformado com a violência nas cidades. Talvez a polícia fosse mais honesta. Talvez as pessoas que hoje estão com 20 anos tivessem mais noção de certo e errado, tivessem mais cultura...talvez o sensacionalismo não fosse a mola mestra da mídia no Brasil! Talvez a gente não se acostumasse à miséria, não fosse tão indiferente, soubesse ainda gritar.

Sei la...será que eu sou antiquada? Será que o padrão nacional é alto e eu que sou metida a besta? Será que a programação da tarde na TV é mesmo o reflexo do país em que vivo? Pera...deixa eu lembrar: quem vê televisão à tarde mesmo? As mulheres que ficam em casa, né? Copiam receitas, ouvem fofocas sobre celebridades, aprendem artezanato, ouvem psicólogos "de porta de emissora" dando pitaco sobre o comportamento do marido que bate na mulher, e outros assuntos super esclarecedores...Hm...acho que está explicado. Sim sim, senhoras e senhores, a programação da tarde é sim o reflexo das mulheres do meu país...
Vou sugerir ao governo que além das legendas que está pretendendo colocar na programação -- recomendado para maiores de 13, maiores de 16, etc -- que coloquem um letreiro gigante assim: "O ministério da cultura adverte: este programa pode causar burrice e breguice irreversíveis".

Bom domingo. Tentem evitar o Gugu.

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O Cativeiro e as Reticências

Vamos brincar de ilha deserta.
Numa ilha deserta você fala sozinho e ninguém está lá pra te chamar de doido. Ok, não precisa ser numa ilha deserta...alguns lugares abertos e solitários se parecem mais com um cativeiro. Então podemos brincar de cativeiro, ou de "cabana linda no campo sozinha com meu computador"...o telefone não vai tocar, ninguém vai me perguntar o que vai ter de almoço, eu nem vou ver a cara das pessoas que vão conviver comigo, porque elas não existem e podem ser lindas hoje, feias daqui a pouco ou simplesmente vagar por aí sem rosto. Pensando bem, não são asssim as pessoas que a gente vê - sem ver - passando na rua, naquele ônibus lotado, entrando e saindo do banco, no supermercado, nos carros na marginal? Grande parte da população só adquire um rosto depois que olha no seu olho a primeira vez. Mas são tão poucas as que fazem isso, se você comparar com a população mundial...
Por que será que eu uso reticências? Eu gosto de escrever como falo e eu falo com reticências. De que outra maneira se pode pontuar um pensamento que não acabou na palavra. Veja bem (Mercedes) - eu to falando sozinha, lebra? - Se eu peço para você comparar o número de pessoas que te olham nos olhos com a população total do mundo, a minha frase não acabou em "população mundial". Ela só vai acabar depois que você mover seus olhos um pouco para a esquerda e pensar em bilhões de pessoas x milhares de pessoas. Em frações de segundos, sua mente vai viajar para alguma cidade atrolhada da África, atravessar um deserto extenso com alguns camelos e beduínos, passar pelo Cairo e seu trânsito infernal, correr pra Tóquio, Hong Kong, Berlim, Afganistão, estradas lotadas de carros, uma loucura de bicicletas em alguma rua da China...ponto. Ah...agora a frase acabou. Eu não posso evitar as reticências. Preciso delas para não ser didática. Ou você acha que seria mais interessante eu colocar entre parênteses um mapa com o caminho que o seu cérebro deve percorrer depois de uma frase minha? Ha! Mercedes, eu adoro quando você explica coisas. Hahahah!
Então vamos para este cativeiro, ao ar livre ou não, no campo ou não, me diga aí onde você acha que eu devo estar, porque pra mim tudo bem. Tudo o que eu preciso é chegar à conclusão de que eu TENHO que escrever. TENHO, quer dizer: PRECISO. TENHO é TER...e é fato consumado. Se eu TENHO alguma coisa, ela já é minha. Sim...eu TENHO essa obrigação. Now! Agora! Urgente! Anda! PRECISO é verbo e não é...PRECISO de PRECISAR, PRECISO de CERTEIRO, EXATO, ABOSLUTO. Eu TENHO que escrever algo PRECISO, DEFINITIVO, ABSOLUTO. E eu PRECISO absolutamente disso, agora! Now! Urgente!
Talvez reclusa no cativeiro eu consiga, eu faça, eu queira, eu seja precisa e tenha. Talvez depois de dias de cativeiro eu TENHA o que eu PRECISO!
Entendeu o drama? Neste exato instante, eu tenho que me livrar das reticências e colocar um texto de 120 páginas no lugar delas. Estes 3 pontos, devem ser precisamente substituídos por 120 páginas, aproximadamente 60 cenas que fazem aproximadamente 10 sequências, pelo menos 3 grandes clímax(es) fora os 10 pequenos das 10 sequências, tudo isso seguido de um final matador, irreversível que te faça ficar calado como numa grande sequência de reticências ao final de uma frase monstra! Entendeu? Precisamente isso. Eu TENHO que fazer, porque PRECISO dizer que eu TENHO pronta e precisa esta pilha de papéis, sem dúvidas ou reticências... Ai.

Céus!
Não, não se preocupe, eu estou falando sozinha. Dentro de mim moram monstros. Um deles não para de montar um gigantesco quebra-cabeças, enquanto o outro pensa no que vai fazer pro jantar, não esquece a roupa na lavanderia, cadê o cara que vinha colocar as telas no quarto do Di, putz...perdi de novo a reunião do colégio, melhor o Rafael não vir hoje, porque meu corpo está reticente e não quer saber de mais peso do que já existe aqui dentro....o final do primeiro ato está bom, mas acho que tinha que acontecer alguma coisa ali na terceira cena que tá meio parada...O café vai acabar, preciso ir ao supermercado...será que faço peixe pro jantar?

Alguém me interna.

Bom dia. Sem reticências.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Cigarrinho inocente



Houve um tempo em que a inocência era tão grande e a ciência tão precária, que fumar era lindo, chique, glamuroso, prazeiroso e até o médicos recomendavam.
Hoje, a piada corrente é: um homem vai para o jardim dos fundos de uma casa onde está acontecendo uma festa. Acende um cigarro e senta no banco do jardim. O pooddle da família sobe no banco ao lado dele e pergunta: "O que está fazendo aqui? Fez cocô no tapete também?"
É essa a sensação de ser fumante nos dias de hoje. Principalmente na California - estado comandado por um governador "saudável, fortão, sarado". Hoje é proibido fumar nos bares, nos cafés e, pasme, nas mesas das calçadas dos cafés. Uma carteira de Marlboro Light custa quase 5 dolares (R$10,42), e não é muito difícil que o indiano do 7eleven te aconselhe a não fazer essa bobagem, quando você está tentando comprar só 20 cigarrinhos para o seu próprio prazer."Juro que nem vou traficar. Sou usuário!"
A única salvação dos fumantes na Califórnia são os motoristas de taxi africanos. Assim que você entra no taxi, escuta duas frases: 1. pra onde vamos hoje? 2. pode fumar se quiser.
Sim, claro...motoristas africanos fumam (eles também convidam passageiras loiras para tomar um drink, um café, um banho, amanhã à noite; mas isso é outra historinha).
Mas...hove um tempo em que tudo isso era ficção. Coisa para fábulas futurísticas do
Aldous Huxley, como "Admirável Mundo Novo": totalmente fora da realidade!
Preste atencão em algumas coisas inconcebíveis em comerciais nos dias de hoje:
. Uma criança grita o slogan.
. Os desenhos de abertura que retratam Desi Arnaz e Lucille Ball são completamente infantis.
. Tanto Lucille quanto Desi estão péssimos!
. A fotografia é um lixo: olha a sombra deles na parede da sala!

bom dia!
Vou fumar um cigarro...

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

La Femme est Fatalle

Eu fico pensando o quanto interessa realmente a todo mundo a vida de verdade de uma mulher comum. O pior é que interessa...mas eu não entendo como. Por exemplo: você acreditaria se eu contasse que a Condolisa Rice tem TPM, ataque de gorda, bad hair day? Que tem dias que a Rainha Elizabeth não sabe o que vestir porque se sente horrível, desinteressante e com uma barriga descomunal? Que tal contar que a Merryl Strip tem ódio mortal do fato de não poder fazer uma plástica no nariz, porque seria criticada?
Eu não sei como são os homens, mas nós, mulheres, temos esses ataques de insegurança desde que deus tirou uma costela de Adão para criar esse serzinho complicado. Também! Uma costela? Quer pedaço mais mal acabado?
Desde então, lá fomos nós, sendo bajuladas, adoradas, musas de poetas, pintores e filósofos...Eles com seus cérebros avantajados, jamais perceberam o que passa dentro dos nossos. Passaram a história sendo manipulados pela paixão, ou mais diretamente pelo poder de sedução de corpos arredondados e cabelos com cheiro de alfazema. Reis foram alimentados por mulheres brilhantes que sabiam o que queriam para o futuro deles. Generais guerrearam pelo amor de mulheres impossíveis e ardilosas, que guiaram o destino de nações de acordo com seu capricho pessoal. Imperadores foram mortos por suas mulheres...falsos herdeiros foram paridos e assumiram tronos. O sangue real errou de veias milhares de vezes. E à menor suspeita de manilpulação ou traição, uma mulher derramou lágrimas de mágoa que cortaram o coração do Rei impiedoso, que acabou sempre por enxugar-lhe o rosto e presenteá-la com uma jóia fenomenal.
Criatura perigosa essa que saiu da costela de Adão. Analisando a mulher por este lado, faz-me pensar se não foi o pobre incauto Adão quem saiu de um pedaço mal acabado da mulher, tipo o apêndice! Corajosos e destemidos guerreiros, sempre dominados por uma frágil e doce mulher de pele macia e voz dócil. Seja a mãe, seja a amada, não há um grande homem na face da terra que não tenha ao seu lado, ou logo atrás de si, uma mulher poderosa com olhar frágil e lágrimas fáceis. Mulher esta que pode erguer ou aniquilar sua carreira, seu futuro e sua reputação com o estalar de um dedo. Grandes mantenedoras dos segredos reais desde sempre, as amantes tiveram papel fundamental na história da civilização. Não há um grande homem que não tenha mantido em segredo um amor e com "ela" seus segredos e planos mais audaciosos. Muitos foram traídos quando tentaram neutralizar o poder da amante. Muitos foram derrubados por dedos e lábios delicados.

E mesmo assim, com todo esse poder, toda mulher tem ataque de gorda, coloca o guarda-roupa abaixo em dias de TPM, come demais quando está triste ou com raiva, chora quando não tem mais argumentos; se joga na cama como uma adolescente dramática quando é contrariada...tem ódio de ficar menstruada em dia de festa; pelo menos uma vez na vida mudou radicalmente o cabelo num momento de raiva e ficou horrível; pelo menos uma vez na vida jurou que ia sair por aquela porta e agarrar o primeiro homem que passasse na rua; pelo menos uma vez na vida escreveu uma carta melodramática de despedida...
Mesmo com tanto poder, a gente ainda adora pensar que é menina, frágil, e precisa de proteção...
Animalzinho estranho esse!

p.s. Esqueci de dizer que comecei a escrever isso porque hoje estou com um vestido que me deixa uma baleia!

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Being Brazilian

Boa noite, ladies and germs...

Aqui estou eu de volta do lugar que amo...outra vez...porque deus é pai, não é padrasto!
Um dia há milhares de anos, eu escrevi uma carta para o mundo, agradecendo por coisas que já teriam acontecido no meu futuro, assim...como se eu fosse louca. Um dos agradecimentos dizia assim: "Obrigada por todas as minhas idas e vinda à Los Angeles, cidade que eu amo e me recebe sempre como a um filho que retorna."
Wow! Funciona! Isso foi escrito há uns 10 anos, e ontem de manhã um cop negão de dentes brancos estava me dizendo: Boa viagem, volte logo!
De todas as minhas viagens essa foi a mais atípica. Não tive tempo para passear na praia olhando o céu, nem ver meus amigos, nem nada do de sempre. Foram dias malucos, de acordar cedo e ter aula das 9 da manhã às 8:30 da noite, absorver informação, informação, informação, até o cérebro começar a fritar. Chegar no hotel à noite, pedir comida no quarto e morrer de cansada às 10:30.
Fiz as contas hoje, e descobri que em 6 dias vi mais de 16 filmes -- contando com os do avião na ida, os do avião na volta, os do curso, os do "dia livre para shopping" que se transformou em dia internacional da pipoca: sessão enlouquecida de cinema, saindo de uma sala e entrando na outra. Bom demais.
A última vez que eu fui, também para estudar, senti que algo havia mudado na reação das pessoas ao ouvirem a resposta para : "where are you from?" Antigamente, quando eu dizia que era brasileira, via uma reação de estranhamento por eu não parecer com a Sonia Braga...ou no máximo uma certa curiosidade do tipo: você dança tango? (maldade.hahaha) E eu me lembrei de agradecer ao Fernando Meireles e Waltinho Salles por nos fazerem existir! Porque agora, a reação é: "Nossa! Você é brasileira? Como tem gente talentosa no seu país...!"
É tudo novidade... há alguns anos (e ainda em alguns lugares) quando a gente chegava num evento, só encontrava brasileiro trabalhando. Tem sempre um garçom brasileiro, outro servindo café, a moça da limpeza...Desta vez éramos quatro; todos pagantes, alunos, respeitados, iguais aos outros. Não éramos ETs. Ao contrário.
1. Flávio Alguma Coisa: coordenador do núcleo de escritores da Rede Globo
2. André Dória: diretor, roteirista, pai de 4 filhos e gente boa
3. Ian McKee: ator em Los Angeles, vencedor de um Bachelor (hahah isso é incrível) escritor e lindo -- tipo assim um holograma...escritor bonito não existe!
4. Euzinha.
E aí eu fiquei pensando na semana que passou: eu vi a Salma Hayek na TV apresentando os indicados ao Oscar com lágrimas nos olhos, toda emocionada porque o México tem várias indicações (Babel e Pan's Labyrinth e ainda Penélope Cruz com Volver)...e descobri que a nossa hora chegou. Precisamos agradecer a esses 3 homens -- Alejandro Iñaritu, Waler Salles e Fernando Meirelles -- por mostrarem a Hollywood que os Latinos têm histórias para contar e sabem contar muito bem, obrigada. Mas não vamos generalizar, por favor... Eu ainda acho o cinemão brasuca o lixo que sempre achei - me processe! Mas no que diz respeito a Waltinho e Fernando, eu tiro o meu chapéu. O que eles fizeram por nós não tem preço. E o que o Alejandro Gonzales Iñaritu acaba de conseguir, também abre as portas para nós, mortais no terceiro mundo!
E pela primeira vez na história, é tempo de ser Brasileiro. Estão olhando para nós com olhos que vão além do serviço doméstico. Estamos na moda! Ufa...até que enfim.

Fora isso, que é muito, foi tudo muito bom. Fiz contatos incríveis com gente do mundo todo, todos de olhos e alma bem abertos para saber tudo de todo mundo. Tipo "small planet" mesmo. Adoro! Pessoas falando um mix de línguas para se fazer entender. Babel no bom sentido. Isso é lindo.

É isso, kids...estou exausta e feliz.
Mas acho que isso nem é novidade pra ninguém.
Agora eu vou dormir.

Um beijo amigo no seu umbigo.



segunda-feira, janeiro 22, 2007

Se iludir menos?

Esses dias eu li em algum lugar que obviamente não vou me lembrar uma frase que martelou a minha cabeça por algumas noites: "Me iludir menos e viver mais".
Meu Jesus cristinho, como assim?
Como é que eu ordeno para o meu pobre cerebrozinho iludido: PARE DE SE ILUDIR?
Se eu fizer um balanço da vida, fora toda a realidade indispensável e inevitável, todo o resto foi pura ilusão - ou quase isso. Eu vivi 45 anos com a cabeça nas núvens e puxando todos os que me cercam para a realidade.
Sempre tive uma incrível competência para analisar a situação alheia e resolvê-la em poucas palavras, e sempre estive voando por aí no que diz respeito à minha própria vida. Eu nunca fui capaz de enxergar as pessoas que poderiam me prejudicar, mas foram incontáveis as vezes em que avisei a alguém para tomar cuidado com uma determinada pessoa. Sempre que me perguntaram por que, eu respondi a mesma coisa: "não sei, mas toma cuidado, ele/a vai te fazer mal." E eu nunca errei. Mas, céus! como eu já errei comigo mesma... Sempre na ilusão de que as pessoas mudariam, de que...imagina...uma pessoa tão legal não pode ser do mal. Sem falar nas vezes que eu menosprezei o inimigo, achando que ele JAMAIS me trairia, ou que "coitado...tão infeliz... o que custa dividir um pouco da minha felicidade com ele/a?" Credo...me dá até arrepio pensar nos nomes dessas pobres criaturas infelizes que não eram frágeis, tinham um plano e deixaram cicatrizes gigantescas em mim.
E a ilusão não para aí. Ela serve também para ver o mundo tão lindo...para o emprego perfeito...o chefe adorável...a colega e confidente de trabalho...e para sonhar.
Sonhar é o que eu passei fazendo. Desde a hora do relaxamento nas aulas de educação física na infância que qualquer 3 minutos de silêncio me levam para outro lugar. Tem sempre um diálogo incrível, uma viagem fascinante, um alguém especial que não resiste aos meus encantos, uma festa de prêmio, quem sabe um Oscar? Eu, a escritora mais fantástica do universo, a atriz mais talentosa, a personalidade do ano, a mulher que derrubou o presidente, a que emocionou multidões, a noiva mais maravilhosa, a plebéia que conquistou o príncipe, ai ai...e por aí vai.
Não tem como me transformar em outra coisa. Não tem. Sinto muito!
Se eu me iludir menos vou ter que mudar de nome, de familia, de RG, minha carteira de motorista vai ficar inválida, meu passaporte vai parecer falso, sem falar nos anos de análise para descobrir quem sou eu de verdade.

Meus momentos solitários (que nem são muitos) são preenchidos por pura ilusão. Eu lembro de uma vez há milênios - quando a Hebe só tinha feito 3 plásticas - que uma amiga chegou na minha casa e teve que me esperar tomar banho. Nós íamos sair...acho que tinha Festa de Babbete...não sei. Ela ficou na sala e viu meus papéis em cima da mesa, ao lado da máquina de escrever. Sim sim! Eu sou do tempo da máquina de escrever; foi onde eu aprendi a digitar. Já que eu ia para o banho, ela perguntou se podia ler as coisas que eu escrevia. Pois bem. Quando eu voltei, pronta, banhada, talqueada...ela me disse: "Quem é você, Me?"
Eu não entendi a pergunta, e ela explicou. Disse que eu sempre fui alegre, engraçada, faladeira, sorridente...Ela me conhecia há anos e nunca viu em mim aquela pessoa triste, que parece amar de uma maneira melancólica e morrer de saudade, estampada nas páginas e páginas de poemas que ela leu.
Naquela época eu ainda não sabia explicar que eu ando acompanhada dos sentimentos do mundo. Que meu coração dói de amor quando eu estou sozinha, de um amor por ninguém e por todos os príncipes encatados do planeta ao mesmo tempo. Que eu choro quando falo comigo mesma, e invento histórias tristes e doloridas como aquela ali embaixo (Insanity) onde existem encantos, feitiços, lágrimas e uma saudade sem fim. Mas assim que o texto se vai ou o telefone toca, eu volto a ser a mesma pessoa alegre e faladeira. Essa dor toda anda comigo desde sempre, como se eu fosse condenada a traduzir todas as dores em palavras fáceis, mesmo as dores que eu nunca vivi e as que nunca vou viver. E não dói. É uma tristeza enorme, e linda, que me faz entender melhor as pessoas, os sonhos, os sentimentos, o amor eterno, a falta de alguém...mas não é uma dor real. É pura ilusão.
E essa sou eu. Dúbia. E feliz.

Mas a frase que eu li me deu medo. Eu não sei quem eu sou, se eu não viver dessa ilusão.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Shake up

Ontem foi dia de acordar.
Eu, que vivo em meu castelo encantado, com minhas fadas e elfos, minhas flores e seres das águas, eu que durmo envolta num manto de borboletas levíssimas e acordo com canto de pássaros e a brisa mais leve tocando a minha pele...eu que moro em Neverland desde que me entendo por gente, tive ontem vontade de presentear o mundo com o meu mundo, para tentar curar um coração que me encheu de tristeza. E ao mesmo tempo adimirei a força de quem não tem mais de onde tirá-la, e que sofreu todas as injustiças do mundo em curtíssimo espaço de tempo. Eu mesma não seria ninguém. Acho que eu definharia, desintegraria, ficaria minúscula e talvez desistisse de deixar meu coração bater.

Ontem vi uma menina que poderia ser minha filha. E ela me olhou nos olhos tão profundamente que eu quis a dor dela para mim para tentar aliviar sua aflição. E chorei!
Aos 21 anos essa menina foi estuprada, viu sua própria filha morrer sem poder fazer nada, foi acusada deste assassinato, presa, humilhada, espancada, abandonada à própria sorte pelas autoridades que deveríam protegê-la...exposta a coisas que nem em sonho um de nós poderia imaginar. Quase morta, surda de um ouvido, quase cega de um olho - por consequência dos maus tratos na prisão - ela não enterrou a filha de um ano e meio, porque foi levada para a prisão sem poder se despedir. Não teve direito ao telefonema que todos temos, foi obrigada a aceitar o advogado indicado pelo delegado, assinou sem ler um depoimento que não continha as poucas palavras que disse, depois jogada às feras, como um monstro que deve ser devorado por outros monstros.
Mesmo depois de comprovar sua inocência, ela é apontada na rua como "monstro", insultada no supermercado, no restaurante, na padaria.
Ainda hoje ela acorda à noite chorando, quando sonha que o corpo da filha é exumado e ela vê que o nenem está vivo e chorando...Ainda hoje ela tenta fazer o filho de 3 anos entender que a irmã virou um anjinho, e que está sendo bem tratada no céu.
E eu que vivo num mundo tão bom, quis entregar para ela tudo o que tenho. Não tive palavras para dar esperanças. Todas as boas palavras que conheço deram lugar um silêncio dentro da alma, como luto, como dor. Como eu posso olhar para essa menina e dizer que "você é senhora do seu destino"? Como posso sugerir que ela imagine que pode ser feliz um dia? O que é toda esta dor?
O mais incrível é que em meio a toda essa desgraça, foi a Deus que ela se apegou. Será que eu teria a força, a fé necessária para crer que Deus existe num momento destes? Como ele pode existir e deixar que ela perca sua filha, que seja acusada de matá-la, e se isso não bastasse, ainda fosse espancada por 3 horas inteiras por mulheres enlouquecidas, e ter uma caneta enfiada em seu ouvido? Por que Deus permitiria toda essa atrocidade contra alguém que só fez dedicar-se à saúde frágil da filha caçula? Por que Deus deixaria que ela ficasse em coma, suja, rasgada por 4 dias numa UTI, longe da família impedida de se aproximar...sem que uma alma caridosa tirasse o sangue pisado de seus olhos, a caneta de seu ouvido, limpasse o sangue da pele, fizesse uma compressa nos olhos? Com ossos quebrados, largada como um cachorro atropelado na beira da estrada. Alguém me diz por que? Eu não saberia ter fé neste Deus. Mas ela, apesar dos olhos tristes, confia numa justiça divina. (Só na divina, é claro...da outra ela já desistiu.) E sua força me torna um NADA. Eu tive vontade de gritar, de esbravejar, de quebrar o mundo inteiro para tentar descobrir onde foi parar a justiça do meu país. Para tentar arrumar o que está errado, punir que tem que ser punido, trazer de volta a criança morta, fazer o tempo voltar, fazer a vida dela mudar.

Muito muito triste. Meu coração está mais partido do que no dia 26 de dezembro de 2005, quando a maior Tsunami de todos os tempos varreu milhares de vidas da face da terra deixando crianças sem pais, pais sem filhos, dor e desturição. Naquele caso não havia culpados. Mas agora, estou falando de uma catástrofe natural: causada pela NATUREZA HUMANA...e inexplicável.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Frankstein

Então você se apaixona. Passa alguns meses sem querer comer muito, ou pelo menos não quer comer sozinho. Só pensa na outra pessoa: primeiro pensamento do dia, último da noite. Olha para o celular o dia inteiro, vê a cara dele (dela) em toda vitrine, todo filme, toda música, e nem percebe que isso se dá ao fato de você ter visto com ele (ela) toda vitrine, todo filme, toda música. Um grude infernal, só vou se você for, só quero se você quiser, se você gosta do meu cabelo eu não corto, se ela gosta da sua roupa vai esgarçar de tanto repetir, se ela gosta de homem de brinco você fura a orelha, se ele gosta de loira você pinta o cabelo, bla bla bla bla....
Lá vem casamento...ou não...lá vem filho! Ha!
Nos primeiros anos é incrível ver aquela pessoinha se formando. Primeiro é meio sem nexo...come, dorme, faz barulho, faz cocô e começa tudo de novo. Depois é a coisa mais linda do mundo, dá vontade de morder, de não largar, de ficar grudado, de filmar cada nova conquista. Depois já parece uma miniatura de gente...quase tem um caráter definido, o temperamento já é claro, a cara da mãe, o gênio do pai, a inteligência da mãe (cof cof), a determinação do pai...e vai ficando mais alto, e vai tomando forma, mas ainda não se sabe de que. Aquela pessoa anda pela sua casa...dorme e acorda no meio da sua vida. Sua cama está superlotada, seu carro está superlotado, seus CDs sumiram, seu DVD tem marca de dedo, seu sofá tem marca de nescau. Depois tem uma menina na cama dele, tem 5 meninas no quarto dela, 8 mochilas, 5 pares de sapatos, 4 toalhas de banho cor-de-rosa com estampados esdrúchulos, 3 colchões no chão...4 homens barbados cheirando a cerveja dormindo na sala, 1 que aparece no sábado e fica uma semana, um preservativo na mochila dele...um brinco no chão do carro...a foto de um menino no fichário dela...mensagens engraçadas no celular...festa, salão, vestido, salto alto, namorada firme, "não venho pra casa hoje", "mãe me empresta o seu pó da MAC, aquela bolsa preta, tem um brinco dourado?"Lágrimas quando namoro acaba, lágrimas quando as amigas fazem fofoca...ai ai...
Tudo isso vai acontecendo e você nem sente que o tempo passou. Você é ainda aquela mulher que usava saia muito curta e cabelo muito crespo, ainda se sente igual, ainda sente frio na barriga, tem acesso de riso, adora sexo, estar bonita, rock 'n roll, rap, dirige cantando alto, dança na cozinha, enfia o dedo no glacê do bolo, sonha com viagens e contos de fadas...E mesmo assim, sendo essa menina, existem pessoas que coexistem com você e não são mais pessoinhas fofas que dão vontade de morder. São PESSOAS como você, que merecem respeito, espaço, opinião, voz ativa, e muitas vezes dão conselhos de tirar o fôlego.
Durante anos você foi a única pessoa com voz ativa e permissão para dar conselhos. O alicerce da casa, o porto seguro, o oráculo. Agora, você convive com seres humanos prontos, que pensam; e eles aprenderam com você a pensar...logo não há de ser tão fácil derrubar suas opiniões, seus quereres, suas ambições (ou alguém derrubou as suas?). Aqueles que você criou estão vivos, independentes, com vontade própria.
A questão já não é mais o time pra que se torce ou o tipo de música que se ouve. A questão não é mais se é melhor ir na festa de terno ou se aluga um smoking. A questão não é mais se faz maria-chiquinha ou deixa o cabelo solto. Agora discute-se política, ética, homossexualismo, preconceito, comportamento, respeito ao próximo, aquecimento global....respeito. Discute-se o direito do pai de invadir o quarto quando ela está conversando com as amigas. Discute-se permitir ou não que a namorada ocupe o quarto do filho. Discute-se preservativos, aids e gravidez com as meninas, ídem com os meninos; carreira, trabalho, dinheiro com os meninos, ídem com as meninas... e a vida mudou!

Quem enchia a casa de perguntas agora chega com as respostas.
E eu...ainda sou aquela menina...agora orgulhosa das sementes que plantei.

Bom dia!

domingo, janeiro 07, 2007

Profecia

Dito. Eu previ o futuro! George Clooney não foi a Buenos Aires, não conhece a Patagônia, não faz idéia de quem seja Lívia, muito menos Mélia. Perdido, coitado...desorientado no mundo, ouvindo o insconciênte coletivo, as preces da multidão, ele saiu correndo para atender à voz que soprava em seus ouvidos: "Faça a coisa certa, George...faça o que tem de ser feito!"
Aquela voz projetava em sua mente uma palavra: TANGO.
Pobre George...achou que a coisa certa seria comprar um carro caro pra burro, feio pra burro, mas políticamente correto. Lá se foi a última esperança de Lívia...George não correu para as ruas de Buenos Aires. Ele comprou um carro elétrico: Tango.

Tá aí...Que anta!!

Morning, kids.

Já é 2007

English version of the e-mail I sent to my Orkut friends for holiday greetings

Wow! Quem diria?
Quem diria que chegaríamos a 2007 sem o mundo acabar?
E agora? Será que os pobres coitados que ficaram esperando o fim -- os que se mataram, os que rezaram sem parar, os que pararam a vida, os que decoraram a bíblia -- será que eles sabem o que fazer daqui pra frente?
Será que se deram conta de que então - veja só que maravilha - a vida deles acaba de começar do zero? Nossa! É preciso correr então...muito foi deixado para trás, muito foi abandonado já que era o fim do mundo...
E Jesus não desceu do céu? E Deus não mandou sua ira? E o arrebatamento? Alguém recebeu um e-mail avisando pra quando foi adiado? Dammit! Não se acaba mais com o mundo como antigamente...estes deuses modernos são muito desorganizados...vish!

Ai ai ai, que peninha que me dá, daqueles que acham que só vai para o céu que reza...que só anda direito que anda na igreja...que só será salvo aquele que crê no que mandaram, sem questionar...Que pena me dá de quem não enxerga que o mundo vem acabando todos os dias no Oriente Médio há séculos. E que o mundo de algumas pessoas acaba de um dia pro outro sem elas terem tempo de rezar, se redimir ou lembrar de andar direito uma vez na vida. E o mundo de outras...das que andam direito eternamente, por índole, acaba também. Porque não há o que controle o fim das coisas. E não é nenhum deus quem desce do céu para salvar alguém: são seus gestos, seus atos, seus sentimentos. A única salvação esperada é paz de espírito, tranquilidade, sorriso na alma.
Ai ai ai que peninha dos que esperam. Ficam esperando que a vida valha a pena e esquecem de fazê-la valer.
Muitos dirão: a fé é um presente, Mercedes...um dom...pena de você que não a tem.
A eles eu só posso responder: Olhe mais perto. Mais perto...ainda mais perto. Veja a fé que me move e que vem de dentro de mim...entenda o que eu entendi para acreditar e buscar o que só existe em você. Não olhe para cima...olhe para dentro! E não sofra: você não está perdendo sua muleta. Só está ganhando força verdadeira.

Feliz 2007.
Não permita que seu mundo acabe. Você já nasceu salvo.

Bom dia

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Resoluções de Ano Novo

1. Não vou mais ser preguiçosa
2. Vou sair mais de casa
3. Não vou abandonar tanto os meus amigos
4. Vou ser paciente com adolescentes em casa
5. Vou no mínimo manter meu peso (já que a resolução de 2005 está no auge de seu efeito maravilhoso)
6. Vou escrever mais
7. Vou escrever mais
8. Vou escrever mais
9. Vou escrever mais
10. Vou escrever mais
11. Vou escrever mais
12. Vou escrever mais
23. Vou escrever mais
(...)
2007. Vou escrever mais


I'm off, Kids... Feliz Natal pra todo mundo. Vou tentar postar on the road. Acho que vou conseguir.

Tudo de melhor, porque a gente merece. Se você não merece Shhhhhhh! shut up e faz de conta que está tudo bem.
Um beijo natalino com gosto de panetone.


See you later.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

Free Hugs, Free Soul

Todo mundo já viu isso, inclusive eu, mas toda vez que vejo sinto-me da mesma forma: Emocionada!

Dizem que quando duas pessoas se abraçam, e seus corações - fisicamente - se encontram, as almas sentem-se aliviadas por se completarem um pouquinho.
Abraçar é fundamental. Eu não confio em gente que não consegue abraçar.

Isto é um desejo de Natal: Não sonegue contato físico. Não renegue o que é da sua natureza. Talvez hoje em dia você nem goste muito de chegar muito perto das pessoas, mas sua memória afetiva sabe que jamais houve sensação melhor do que o toque da sua mãe, ou um abraço do seu primeiro amor...
ABRACE. Treine esse exercício único de doar e receber ao mesmo tempo. Um abraço pode curar uma alma, e se acompanhado de um sorriso, pode salvar alguém.

ABRACE MAIS, pra que a sua alma seja livre. Talvez isso seja só o que a humanidade precisa para se dar conta de que, mesmo com tantas diferenças, somos todos feitos da mesma coisa...e mais do que nunca, precisamos uns dos outros.


FELIZ NATAL.

Pessoas incríveis passam por mim...

Eu tenho sorte.
Mais do que sorte, eu tenho olhos. Mais do que olhos eu tenho pessoas.
De tudo o que eu tive na vida, o que sempre gostei mais de ter são as minhas pessoas.
Elas chegam dos lugares mais incríveis, da maneira mais surreal, e vão ficando contra todas as probabilidades, contra todas as possibilidades. E para falar delas seria preciso antes descrever a palavra DIVERSIDADE.
Palavrinha essa que já virou papo de eco-chato, na verdade veio ao mundo só para dizer "diferenças"...quando a diferença é tão desimportante, e ao mesmo tempo é o que faz a mágica existir. Mas antes de mais nada, o dicionário nos diria que diversidade quer dizer mesmo diferença. Ou a melhor das palavras que encontrei: DISSEMELHANÇA. Dissemelhança é tudo de bom. Veja como soa deliciosamente diferente e atraente, ser dissemelhante de alguém. Dissemelhanças me interessam...
Para que servem as semelhanças? Para nos envaidecermos ao dizer: " Nossa...você é demais! Incrivelmente igual a mim!" Wow, claro! igual a mim é lindo. Diria aquele a quem odeio citar (o moço que canta com a boca tremidinha e virou o chato mais chato do clube dos chatos): "É que Narciso acha feio o que não é espelho." Ok, espelhos são o máximo, ao menos para mim que sempre adimiti ser vaidosa e convencida. Especialmente um dos meus espelhos, ouso até dizer que é muito mais interessante do que eu.
Mas de qualquer maneira, a diversidade me interessa e é dela que eu quero falar.
Então...pessoas são o que eu tenho de melhor. As minhas. Minhas pessoas e só minhas, que algumas outras que fazem parte do meu dia a dia nem sabem que existem. Mas minhas demais. Elas chegam através de outras, ou por acidente.
Quando eu tinha meus 14, 15 anos, fazia amigas em lojas. Hahah! Puro acidente. Preguiça de ir para o inglês, parei para ver um sapato, já estava atrasada mesmo, papo vai, papo vem, as tres filhas do dono da loja se tornaram minhas super amigas, a quem guardo com o maior carinho até hoje. Se eu tivesse apresentado minha mãe a elas, provavelmente ela me olharia no caminho de volta para casa e diria: " Quem é você afinal, minha filha?" de tão diferentes que elas eram de mim. Tenho amigos em cabeleireiro. Tenho confidentes em academia. Tenho pessoas amadas na padaria. Tenho grandes amigas no shopping. A balconista da lavandeira me liga quando chove para saber se está tudo bem aqui em casa. Eu faço o mesmo pra ela, porque a casa da mãe dela alagou no mesmo dia que a minha. E a mãe dela pergunta por mim com frequência, e me convida para ir na casa dela tomar um café qualquer dia.
Minha melhor amiga nasceu no msn de um amigo do meu filho. Hoje ela é a presença mais forte na minha vida e a filha dela entrou para a minha família. Alguns dos meus amigos e amigas mais amados vieram da tela do meu computador e hoje são reais. Um tão diferente do outro que talvez um encontro coletivo fosse catastrófico.
E existem as surpresas...A menina do blog vizinho, a quem hoje leio com carinho. O moço/espelho/artista que veio da amizade relâmpago com o meu fake e hoje, como diz minha filha, faz parte da vida "do meu off". E os meninos do flog perfeito...Céus, que prazer imenso é lê-los. Barba Mal Feita é o nome do fotolog que me deixou estupefata um ano atrás. A mesma foto postada todos os dias, com textos incrivelmente bem colocados, sobre assuntos nem sempre importantes, nem sempre reais, mas um exercício maravilhoso da palavra e do conceito de vida. Hoje, numa visita rapida, me deparei com uma das melhores coisas que já li. Barba falava sobre os motivos de um homem se apaixonar por uma mulher...que não são os detalhes que importam. E ele termina assim:

"Quando nos tornamos eu e você na última esfera possível do humano, quando somos praticamente bichos, quase animais irracionais, eu te amo. Eu te amo muito, por completo, totalmente, inteiro, irrestrito. Tudo o que representa ‘eu’ em mim te ama. E só. Tem mais não."

Olha se não é maravilhoso conhecer alguém que trata o amor e a intimidade assim: "Quando nos tornamos eu e você na última esfera possível do humano." Isso bate em vocês como bate em mim? Dá vonta de de gritar EURECA!!! Alguém definiu melhor o que " nos tornamos" quando amamos. E é sim a última esfera do humano. Wow! é lindo! Ou eu sou uma boba...
Mas o que preciso dizer é que se meus amigos fossem classificados por raças, seria imporssível popular a terra. Seria impossível criar guetos, porque cada um deles é de uma raça rara, especial, estranha e única. Tem esses que definem a vida, tem os que alegram a vida, tem os que inspiram a vida, tem os que me fazem viver, tem os que não temem a vida, mas todos enriquecem a minha. Todos eles são brilhantes em alguma coisa. Seja no humor, no pensamento, no companheirismo, na disposição de estar perto quando eu preciso, seja no que for. Mas todos, com suas raças, enchem meus dias ou noites de palavras e sentimentos deliciosos.
Alguns muito muito longe. Outros logo ali do lado. Todos aboslutamente dentro de mim.


Bom dia

P.S.Estou com sono e não vou revisar esse texto. Se estiver tudo errado, I'm so sorry, outra hora eu arrumo.
Beijo amigo no seu umbigo.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Texto de Natal

O Natal já chegou, eu ainda não estou nele, mas já me perguntaram se não vai ter um texto de Natal no Caixa Preta. Putz...Pela primeira vez na vida estou com preguiça, me recusando a encontrar papai noel, peru, tender, ou qualquer farofa bem ruim cheia de castanhas e coisas que eu nao gosto. Péssimo.

Que tal então alguns desejos mal humorados de Natal?

1. Quero acreditar em papai noel. Para isso tenho algumas exigências:
a. Não vou fazer compras de natal, mas mesmo assim a árvore vai estar cheia de presentes na noite do dia 24.
b. Não vou dizer o que eu quero, não vou escolher pra alguém passar pra pegar depois, nåõ vou comprar nada pra mim. Mesmo assim, vou ter vários presentes debaixo da árvore (as mães nunca ficam surpresas ou ganham muitas coisas)
c. Se por distração eu passar por um shopping center, não vai ter um papai noel muito magro lá dentro, nem com a barba fake horrível
2. Que ninguém precise encomendar ceia de Natal, nem determinar quem leva o que, não precise ir ao mercado municipal comprar vinho e champagne, ou enfeitar a casa e montar árvore. Mas na noite do dia 24 um lindíssimo jantar cheiroso vai estar na mesa enfeitada, a casa vai estar cheia de pequenas luzes piscando e velas acesas.
3. Ninguém vai ligar a televisão. Não vamos ver a cara da Fátima Bernardes, nem o Natal de Friends, nem zorra total de Natal, nem ouvir a voz do Roberto Carlos pedindo um milhão de amigos (que coisa! Pra que?) Ah…e a Xuxa vai estar ocupada com seu prórpio natal.
4. O Tender não vai ter mel, melado, karo, mapple syrup, cravo, damasco, laranja, abacaxi, pêssego em calda ou parentes distantes de uma dessas coisas que são deliciosas…mas não no meu tender!
5. O peru vai estar fatiado, lindo, arrumado, mas nada que tenha açúcar vai tocar as fatias. Nenhuma cereja vai manchar de vermelho a carne branquinha do nosso peru.
6. Fios de ovos serão servidos como macarrão. Qualquer um pode meter seu próprio garfo dentro do pote e enrolar como fetuccini…e sair de boca cheia tentando dizer: Huuummmm! (cerejas também. Frescas. Em natura. Nada de calda de marasquino)
7. As sobremesas serão simples. Mousses, sorvetes, essas coisas que as pessoas realmente gostam. Nada vai ter uma calda de room ou cassis, nada vai ser seco e cheio de nozes. Os panetones estarão abertos, para serem comidos. E com a mão. Vai estar terminantemente proibido usar faca para cortar panetone. Como na Itália, todas as pessoas terão direito de arrancar grandes pedaços e come-los amassando antes. Os chocotones voltarão para a casa dos diretores de marketing do fabricante.
8. Todos nós vamos saber que Natal é uma data inventada no Império Romano pelo imperador Constantino para tentar conter a fúria dos pagãos em sua festa mais importante - o Solstício de Inverno – e que Jesus nasceu mesmo em Abril, por isso não precisamos cantar noite feliz nem rezar. Mas precisamos estar felizes e alegres, porque geográfica, metereológica e historicamente, este é um dia de festa.
É okay trocar presentes, já que estamos reunidos.
9. Nenhuma tia vai mencionar o fato de termos envelhecido, engordado, embagulhado, estarmos ficando iguais à mãe, ao avô que era careca, ao tio que foi internado no manicômio. Também não vai acontecer dela citar a semelhança entre a sua bunda/barriga e a de alguém detestável e gigante.
10. Os presentes vão se desmaterializar e aparecer na casa de cada um, pra que às 3 da manhã, ninguém tenha que carregar o carro, perder as pilhas do brinquedo, procurar a parte de cima do biquini que ganhou, ligar porque o filho está aos prantos por esquecer o carrinho de controle remoto novo na casa da avó.

Posso desejar coisas mais filosóficas se vocês quiserem, mas só quando eu não estiver tendo que entrar e sair de loja feito uma doida, perdendo a minha lista sagrada em todas elas e vontando pra buscar. Enquanto o Natal parecer uma festa que, para ser boa, precisa encher o saco 3 meses antes, eu me recuso a ter pensamentos filosóficos sobre ele.
Natal é bom quando a gente é criança, ou quando tem criança; depois disso torna-se uma infinita lista de obrigações dezembrinas.

Ok...é claro que toda essa queixa não passa de TPM, mas de qualquer maneira será preciso esperar que a TPM passe para que eu possa fazer uma carinha dócil, com um sorriso meigo, deixar uma lágrima cair discretamente pelo rosto, enquanto escrevo um lindo texto de natal. Mas ainda vai ter a fase da cólica.
Paciência...


Beijos revoltosos porém natalinos...

terça-feira, dezembro 12, 2006

Medo

Está ventando lá fora nesse país inteiro tomado pela água.
Barreiras estão caindo, morros desabando, quanto mais pobres as pessoas, mais água entra arrasando o pouco que elas têm. O vento me dá medo da chuva porque me lembra o dia que a tsunami entrou pela porta da garagem arrastando quase tudo e a mim mesma.
Vai chegando o verão, as tempestades de fim de tarde em dias lindos, e meu coração já não responde mais com alegria aos raios e trovões.

Fui uma criança sem medo que abria a janela pra ver a tempestade.
Todas as vezes que a chuva caiu com violência, raios, trovões, barulho, granizo, eu abri a janela e molhei meu rosto. Chuva e prazer andaram juntos pela minha existência. Mas já não é mais assim.
Me entristeço quando vejo na TV uma pessoa desesperada com sua casa cheia de lama tentando salvar o pouco que tinha. Me entristecia antes, claro. Mas agora é diferente. Dói no estômago uma dor que vai além da solidariedade: eu sei o que aquela pessoa está sentindo.
E vou contar o que ninguém imagina: numa hora assim, não se chora pelo que se perdeu. Se chora pelo que se podia ter perdido. A sensação de impotência é milhares de vezes maior do que qualquer sentimento material. Quando tudo acaba e a sua casa está acabada também, você olha para a família à sua volta e entende o que poderia ter perdido, o que poderia ter sido tão infinitamente pior e mais dolorido.
Às vezes fico lembrando detalhes:
A luz não acabou. Ao contrário, ficou acesa todo o tempo. A caixa de luz na área de serviço ficou coberta pela água até a metade, e aberta. Até me baixar o Hulk e eu tirar o Claudio a força de dentro d'água, ele correu o risco de ser eletricutado. Eu também quando arranquei ele de lá. Parece que, no desespero, ele achava que ainda podia salvar alguma coisa e queria abrir a porta dos fundos, queria desligar a máquina de lavar, queria tentar fazer alguma coisa que já não resolveria nada debaixo de 1,60 de água. Quando escutei as palavras "TIRAR DA TOMADA", não pensei...agarrei o Claudio pela camisa, gritei "CHEGA!" e puxei ele para o alto da escada. Sei lá que força é essa que toma conta de mim na hora que é preciso...

Podia ter sido tão pior: ele podia estar vendo filme lá embaixo...e ter ficado preso dentro da sala. Eu pedi pra minha filha descer para pegar um balde. A porta poderia ter estourado nessa hora, e a água subiu tão rápido que eu não sei se ela conseguiria sair de lá. Não sei se eu entenderia o barulho da água a tempo de fazer alguma coisa para ajudá-la.

Muita coisa podia ter acontecido...como pensar no carro, no sofá, no sistema de som, na tela de alta definição, no tapete, nas máquinas da lavanderia em tudo o que estava no andar de baixo, na quantidade enorme de roupas que estavam para passar? Nunca me importou na verdade as coisas que a gente perdeu - nem as que o seguro pagou (os carros) nem as que não pagou (todo o resto). Eu escrevi aquele dia, e repito agora...foi a primeira vez que eu compreendi o sentido real do ditado aquele: "vão-se os anéis, ficam os dedos". Os dedos...os dedos eram só o que me importava. Todo o resto eram coisas, e eu aprendi muito cedo que caixão não tem gaveta. Cada vez mais me convenço de que a vida só é tão boa para mim porque eu não tenho apego algum. Se algum dia na vida eu tivesse chorado por dinheiro, ou desejado demais ter alguma coisa que outra pessoa tinha, ou não me conformado por ser menos ou ter menos que alguém outro, acho que a vida trataria de ser mais dura comigo, pra me ensinar alguma coisa útil.
Só eu sei de quantas "coisas" abri mão na vida. Quantas vezes disse não a "dinheiros" que levaríam embora a minha dignidade ou a minha paz de espírito. Quantas vezes joguei para o ar tudo o que eu poderia vir a ter, por uma vida digna...pela liberdade de ser quem eu sou...pela simples idéia de não dever nada pra ninguém. Deixei de ser rica muitas vezes. Abri mão de uma herança que seria minha por direito, mas que eu não queria, por achar que não...não seria direito! Quase apanhei de muita gente no dia que assinei os papéis abrindo mão da herança...mas realmente eu não sentia que aquilo fosse meu. Eu não quero nada que não seja meu. Muitas vezes fui chamada de burra por isso. Mas como é bom ser burra de consciência limpa. Não que isso adiante alguma coisa...muitas vezes escutei insinuações de que eu seria capaz de estar com alguém por interesse. Hahha! Essas pessoas tinham que olhar as coisas mais de perto e saber quem eram esses "grandes homens" quando eu os encontrei! Mas esse é outro assunto, meus amiguinhos...voltemos à chuva.

Tenho medo da chuva. E morro de tristeza por isso. Tenho lembranças lindas de banhos de chuva memoráveis na infância. Tempestades lindas servindo de fundo para romances ainda mais lindos...e não sobrou nada. Agora, quando o tempo fecha, fecho a minha testa preocupada...não sei mais ser feliz quando chove. E a pior parte é que a minha filha tem um grande pavor de tempestades. É muito difícil tirar da cabeça dela a imagem terrível da água arrebentando a porta e entrando com aquela violência toda, trazendo lama, pedaços de árvores, fazendo ondas e carregando coisas pesadas como se fossem caixas de fósforo.

Tenho medo do verão. Não consigo mais ficar em paz...quero a primavera de volta.

Rezando para não chover...
Bom dia

domingo, dezembro 03, 2006

Insanity

[foto: Sagrada Família - Barcelona - Nov 2005 - by Mgmyself]
Acho que já passou da fase bonitinha, em que uma garota se apaixona e sonha acordada o dia inteiro...e fala sozinha...e dirige sorrindo porque pensa em coisas lindas...
Acho que já passou da desculpa esfarrapada de buscar personagens, de imaginar cenas para futuros quem sabe um dia livros or something...
Acho que está na hora de encarar tudo isso como insanidade mental.
Tenho muito muito medo dos meus 70 anos.
E se eu estiver sozinha? Eu vou ser uma velha louca! Eu sei que vou...eu sei! Os vizinhos vão falar de mim. As crianças da vizinhança vão jogar ovo na minha porta. Elas vão ter medo de me encontrar. Vão entrar correndo em casa quando eu abrir a janela de manhã. Será que eu vou me lembrar de abrir a janela de manhã?
A vizinha da esquerda vai ter se mudado há dois dias, quando a da direita vai até a sua porta com uma torta de maçã nas mãos se apresentar e dar as boas vindas...e vai dizer: "Olha...aqui do lado mora uma senhora tão bonita...mas é louquinha, coitada. Ela não faz mal a ninguém, mas as crianças dizem que ela é bruxa. Fala sozinha e canta o dia inteiro...dizem que é escritora, mas não sei...acho que ela pensa que é."
Meu cabelo vai estar enorme e prateado, e eu vou me olhar nos espelho e me achar linda e loira como anos antes...e vou olhar pra ele (o espelho) e dar bom dia: "Good Morning my love...I'm cooking your breakfast." Sim...vou falar inglês sozinha o dia inteiro. No mundo dos sonhos a gente não fala a língua da gente, senão a realidade bate na porta e estraga tudo. E vou para a cozinha fazer o meu café da manhã, como se estivesse fazendo o de alguém mais. E vou cozinhar conversando...conversando com alguém que eu sonho...porque há sempre alguém ao meu lado, esteja eu onde estiver.
Mas agora, já velhinha, eu nem vou mais estar preocupada se alguém pode ouvir ou não...já vou acreditar que eu realmente estou acompanhada; e é natural que uma familia converse no café da manhã.
As crianças, esperando o ônibus do colégio vão adorar rir de mim na janela da cozinha, com as torradas na mão falando com "ninguém" que está sentado la...esperando o cream cheese.
E vou ter gatos. Uns cinco. Todos com nomes de pessoas que eu amo.
Eu vou chorar muito, deitada no sofá da sala imaginando meu texto final, no leito de morte. A cada dia, vou pedir que meus filhos chamem alguém de quem não posso deixar de me despedir...e quando essa pessoa chegar, vou dizer coisas lindas e fazê-lo chorar e se arrepender de não ter passado uma existência inteira ao meu lado. Seja quem for a pessoa imaginária, eu vou chorar...e ver meu último suspiro emocionada...e correr para o computador para escrever mais esse incrível texto de despedida.
Na beira da minha pequena piscina, que já há de ter se transformado num lindo tanque de peixes dourados, ou num vaso gigante de alfazema e rosas, eu vou tomar sol contando a história do encanto que fez com que eu e o meu amor nos encotrássemos em todas as vidas, sempre de forma tão forte. Sempre com tanta paixão:

" Você era um guerreiro. Forte, corajoso, destemido. Homem de confiança do Rei. Passava muito tempo na guerra e eu rezava e esperava a sua volta. Havia sempre uma lanterna acesa na nossa cabana, que era a luz que te guiava de volta para mim. Um dia, você se foi novamente. Os meses passaram e todos os guerreiros da adeia começaram a voltar para suas casas. Eu passava os dias na porta esperando, perfumanda, a volta do meu amor...Perguntava por você e eles não me olhavam nos olhos. O último soldado chegou e me entregou sua espada dizendo que você morreu como um bravo. Que é um herói. Que nunca haverá outro como você.
Não...nunca haverá outro como você.
Eu chorei e me desesperei, e maldisse cada general, cada gota de sangue derramada. Pedi aos céus que todos os que um dia desejaram uma guerra evaporassem da terra e vivessem uma vida de dor nas profundezas do inferno.
Sentei e escrevi uma oração pedindo a todos os santos, fantasmas, entidades, anjos, espíritos, toda forma de energia do bem e do mal, que trouxesse você de volta pra mim. Juntei sobre a nossa cama as suas roupas e as minhas, seus objetos, sua espada, nossos lençois, nossas taças e nossa intimidade; usei todas as suas garrafas de vinho, todo o óleo perfumado dos banhos que eu preparei para você e a lanterna da luz que o deveria ter guiado, e incendiei nossa casa.
Transformei nosso amor em fumaça perfumada de saudade e tristeza....e essa fumaça subiu ao céu limpo de lua cheia, cobrindo as estrelas. Nela, estávamos eu e você, unidos para sempre, em forma de sentimento puro...sem matéria...só lembranças.
Enquanto o fogo consumia tudo o que tocamos juntos, eu repetia minha oração e implorava ao mundo que usasse a fumaça para nos guiar nas próximas vidas. Que você voltasse para mim em todas elas, e jamais fosse para guerra outra vez. Que o sangue e a espada não fossem mais capazes de tirá-lo de mim.
Ajoelhada chorando e vendo a fumaça transformar desejo em certeza, fui presa. Fui torturada. Confessei ser impura. Não senti dor. Minha alma já não fazia mais parte de nada. Meu corpo padecia e definhava sem um ai. Fui queimada numa fogueira, com todos os seus amigos e nossos parentes gritando "Bruxa! Bruxa!" à minha volta. O último músculo que se contraiu trouxe um sorriso...já se aproximava o momento de estar com você.
O tempo passou...muito tempo passou...Nascemos separados pelos oceanos. Eu não me lembrava de nada, até que uma guerra estourou. Eu ouvi a notícia de que as tropas chegaram naquele lugar quase sagrado, e soube no mesmo instante que algo grande estava prestes a cortar meu peito. Meu coração explodia e eu não sabia ao certo porque. As lágrimas que caiam involuntariamente do meu rosto gritavam que um grande guerreiro estava de volta a uma guerra santa. E eu, outra vez impotente. Foi o aviso de que eu precisava atravessar o oceano.
A guerra nunca acabou, mas meu coração me disse que você estava seguro. Atravessei o mar a procura do que me fez chorar. Vaguei, viajei, olhei todos os cantos do mundo sem saber o que eu queria encontrar, até que numa noite comum senti o perfume do óleo misturado à fumaça de madeira seca. Um perfume que me deixou tonta e ninguém mais naquela mesa sentiu. A porta do lugar se abriu deixando o vento gelado de inverno entrar...com cheiro de perfume, sangue, fumaça, veio você: meu guerreiro. Seus olhos brilharam ao me ver sentada lá. Sua barba clara, sua pele queimada, seu sorriso iluminado, sua camisa branca reluzindo como uma armadura...e eu lembrei do seu beijo na porta da nossa cabana, levantando meu vestido e me tomando nos braços como a última vez. Todas as vezes, como a última vez....
E agora, aqui, eu te beijo e me perfumo nas nossas almas...que nunca mais serão duas."

Enxugar as lágrimas...respirar fundo...alguém me interna.

Bom dia.

sábado, dezembro 02, 2006

Alma de Borboleta


Descobri! Descobri porque eu tenho esse fascínio por borboletas!
Claro que tem o probleminha aquele de eu viver cheia de borboletas no estômago, mas agora sei de onde elas vêem.
Meu amigo querido - Marquito Freitas - postou uma foto linda no blog dele. Hoje no MSN ele me contou que é um trabalho da Su Blackwell - uma artísta plástica inglesa incrível que faz escultura em livros e outras coisas geniais.
Fui correndo pro site dela, e acabei lendo a história desse vestido. Aqui vai:
Um vestido de algodão de menina se desintegra e vira outra coisa...uma núvem de borboletas.
"Enquanto você dormia" foi inspirado pela lenda da Win-laik-pya ou "alma-de-borboleta". Acredita-se que a alma-de-borboleta voa por aí enquanto seu dono está dormindo. Ela viaja entre o tempo e o espaço, encontrando as almas-borboletas de outras pessoas e animais, voltando quando seu dono acorda.
As crianças de Myanmar ainda aprendem que nunca se acorda uma pessoa bruscamente , porque a win-laik-pya pode não conseguir voltar a tempo, o que mataria a pessoa, ou pior... ela viveria ..sem a alma.

Então...está explicado? Eu durmo muito pouco. Coisa de quatro horas por noite...seis se eu estiver muito cansada. Não dou muito tempo para a minha win-laik-pya passear por aí à noite. Então, fizemos um acordo não verbal...não material...não escrito em papel, mas sim em sonho:
Eu continuo dormindo só as horas que gosto de dormir, mas permito que ela passeie mesmo enquanto estou acordada... Assim, vivemos as duas por aí - às vezes juntas, às vezes separadas - mas sempre voando entre o espaço e o tempo, num mundo de sonhos e vidas irreais.
Isso faz de mim uma semi-borboleta e me dá mais asas do que alguém pode sonhar. Isso faz de nós duas uma coisa só, vivendo em conivência absoluta: eu mostro a ela o sonho, ela viaja para mim. Ela me mostra o caminho, eu viajo para ela. Perfeito!

Descobri. Estou melhor agora...

Bom fim de semana.
Que o sol não fuja...mas sua alma sim.