quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O Cativeiro e as Reticências

Vamos brincar de ilha deserta.
Numa ilha deserta você fala sozinho e ninguém está lá pra te chamar de doido. Ok, não precisa ser numa ilha deserta...alguns lugares abertos e solitários se parecem mais com um cativeiro. Então podemos brincar de cativeiro, ou de "cabana linda no campo sozinha com meu computador"...o telefone não vai tocar, ninguém vai me perguntar o que vai ter de almoço, eu nem vou ver a cara das pessoas que vão conviver comigo, porque elas não existem e podem ser lindas hoje, feias daqui a pouco ou simplesmente vagar por aí sem rosto. Pensando bem, não são asssim as pessoas que a gente vê - sem ver - passando na rua, naquele ônibus lotado, entrando e saindo do banco, no supermercado, nos carros na marginal? Grande parte da população só adquire um rosto depois que olha no seu olho a primeira vez. Mas são tão poucas as que fazem isso, se você comparar com a população mundial...
Por que será que eu uso reticências? Eu gosto de escrever como falo e eu falo com reticências. De que outra maneira se pode pontuar um pensamento que não acabou na palavra. Veja bem (Mercedes) - eu to falando sozinha, lebra? - Se eu peço para você comparar o número de pessoas que te olham nos olhos com a população total do mundo, a minha frase não acabou em "população mundial". Ela só vai acabar depois que você mover seus olhos um pouco para a esquerda e pensar em bilhões de pessoas x milhares de pessoas. Em frações de segundos, sua mente vai viajar para alguma cidade atrolhada da África, atravessar um deserto extenso com alguns camelos e beduínos, passar pelo Cairo e seu trânsito infernal, correr pra Tóquio, Hong Kong, Berlim, Afganistão, estradas lotadas de carros, uma loucura de bicicletas em alguma rua da China...ponto. Ah...agora a frase acabou. Eu não posso evitar as reticências. Preciso delas para não ser didática. Ou você acha que seria mais interessante eu colocar entre parênteses um mapa com o caminho que o seu cérebro deve percorrer depois de uma frase minha? Ha! Mercedes, eu adoro quando você explica coisas. Hahahah!
Então vamos para este cativeiro, ao ar livre ou não, no campo ou não, me diga aí onde você acha que eu devo estar, porque pra mim tudo bem. Tudo o que eu preciso é chegar à conclusão de que eu TENHO que escrever. TENHO, quer dizer: PRECISO. TENHO é TER...e é fato consumado. Se eu TENHO alguma coisa, ela já é minha. Sim...eu TENHO essa obrigação. Now! Agora! Urgente! Anda! PRECISO é verbo e não é...PRECISO de PRECISAR, PRECISO de CERTEIRO, EXATO, ABOSLUTO. Eu TENHO que escrever algo PRECISO, DEFINITIVO, ABSOLUTO. E eu PRECISO absolutamente disso, agora! Now! Urgente!
Talvez reclusa no cativeiro eu consiga, eu faça, eu queira, eu seja precisa e tenha. Talvez depois de dias de cativeiro eu TENHA o que eu PRECISO!
Entendeu o drama? Neste exato instante, eu tenho que me livrar das reticências e colocar um texto de 120 páginas no lugar delas. Estes 3 pontos, devem ser precisamente substituídos por 120 páginas, aproximadamente 60 cenas que fazem aproximadamente 10 sequências, pelo menos 3 grandes clímax(es) fora os 10 pequenos das 10 sequências, tudo isso seguido de um final matador, irreversível que te faça ficar calado como numa grande sequência de reticências ao final de uma frase monstra! Entendeu? Precisamente isso. Eu TENHO que fazer, porque PRECISO dizer que eu TENHO pronta e precisa esta pilha de papéis, sem dúvidas ou reticências... Ai.

Céus!
Não, não se preocupe, eu estou falando sozinha. Dentro de mim moram monstros. Um deles não para de montar um gigantesco quebra-cabeças, enquanto o outro pensa no que vai fazer pro jantar, não esquece a roupa na lavanderia, cadê o cara que vinha colocar as telas no quarto do Di, putz...perdi de novo a reunião do colégio, melhor o Rafael não vir hoje, porque meu corpo está reticente e não quer saber de mais peso do que já existe aqui dentro....o final do primeiro ato está bom, mas acho que tinha que acontecer alguma coisa ali na terceira cena que tá meio parada...O café vai acabar, preciso ir ao supermercado...será que faço peixe pro jantar?

Alguém me interna.

Bom dia. Sem reticências.

8 comentários:

Carol disse...

Mas é que... sei lá, eu nao uso reticências muito, elas são meio perigosas.
Deixam margem pra interpretação.
Fica tudo em aberto e os outros podem pensar o que quiserem, e eu não gosto de ser mal interpretada.

Olha que bonito que li no site de um amigo hoje (com reticências):

"pra onde me leva?", perguntou a chuva
"fecha os olhos e sonha..." respondeu o vento


pronto. final.

Mercedes disse...

Mentira. Isso não é ponto final!
Tem mais reticências do que na história da civilização do planeta das reticências!

marcos freitas disse...

...eu também...

Marília disse...

Eu ADORO reticências!!!
Adoro "brincar de cabana linda no campo sozinha com meu computador".
Não ligo de ser mal interpretada, a menos que eu goste muito da pessoa.
Quanto ao texto...Guadalupe...voce é capaz!!!

Mercedes disse...

Hahahahah! Guadalupe! hahahahha

Marília disse...

Ahhhhhhhhhh o Gabriel achou o Caixa Preta " mó legal" !!!Eu disse...claro, se não fosse eu não estaria aqui lendo!!!HAHAHAHAHAHAHHAHAHAHA
Beijoooo

Alice Salles disse...

Humm...
não preciso falar nada sobre o uso das reticências...
eu sou a próprio reticência woman!
é claro...
gosto de tudo assim...
prolongado...
vivenciado...
"reticênciado"...
Beijos!

Fê Savino disse...

Monólogos interiores ás vezes se exteriorizam... brilhante!!! Adorei... nossa cabeça é complicadinha, né? hehehe
Ah, e eu tb amoooo as tais reticências... vai saber!
Bjocasssss