sexta-feira, setembro 14, 2007

Delírio - O Mago das Palavras

25 Setembro 2003


Terminei de escrever o que seria a introdução de um livro que nunca escrevi. Li e reli, imprimi, li de novo e fui fumar um cigarro na varanda antes de dormir.
Lá fora, sentada na cadeira de balanço, me imaginei sentada no sofá de um talk show falando sobre o meu livro – O Mago das Palavras - recém-lançado, sucesso absoluto de vendas.

Entrevistador: - Me conta uma coisa, aqui só pra nós dois: Quem é o mago das palavras?
Eu respondo: - Bem... Minha terapeuta.

Ent. - Como assim? A Maga das Palavras? É uma mulher? Tua terapeuta é um travesti, ou eu não estou entendendo nada?

Eu: - Não, calma. Quando eu era normal e fazia terapia, minha terapeuta dizia que eu vivia com o Mago das Palavras. Porque eu falava, justificava, teorizava...Mas não executava nada. Embora soubesse convencer a qualquer um, e até a mim mesma de uma verdade nem sempre verdadeira. Por exemplo: eu sempre disse que ia escrever um livro. Ela sempre me cobrou isso, dizendo que me servia muito bem ficar só dizendo que faria...Pois olha só! Ta aqui o livro. Pronto, nas lojas. Já que eu finalmente consegui, nada mais justo que dedicar o livro a ela.

Ent.: - Ta certo...Mas porque será que eu acho que tem mais alguma coisa ai?

Eu: Não sei. Talvez porque você esteja entrando na minha história como eu entrei na história da rainha da Branca de Neve, e como ela própria entrou na história da Branca de Neve! Você pode! Você senta aí e muda a minha historia. Pode ser divertido.

Ent.: (Olhando pra mim desconfiado): - Mercedes...

Eu: Okay. Vou contar. O Mestre das Palavras é um mendigo que eu conheci em Zuma Beach quando eu morava em Los Angeles. Eu ia andar na beira da praia todas as manhãs, depois de levar as crianças para o colégio, em Chatsworth. Meu marido ficava dormindo e eu ia pra praia caminhar. Longe...Dirigia um tempão pelos lugares que eu mais amo em Los Angeles. Malibu Canyon, PCH... Um dia, vi este homem, um homeless, e ele me deu bom dia “Good Morning, beautiful lady.” Eu respondi com um sorriso, porque o tom dele foi lindo. Segui andando. Isso aconteceu vários e vários dias seguidos. Um dia, eu estava alongando no muro da praia – aquele muro que parece feito de areia, cheio de golfinhos em relevo, e o homeless se aproximou. Começou a falar da neblina que cobre Zuma até o final da manhã e disse que isso lembra a idéia que ele tem de paraíso. Que os bombeiros que vêm treinar na praia de manhã deviam ser os anjos, os cães que ficam esperando seus donos nas carrocerias das camionetes dos surfistas (que são sempre brancos ou dourados) são os guardiões das portas do céu.
Assim acontecia toda manhã: “Good morning, beautiful lady”... E conversávamos um pouco. Eu ia embora pra casa e ele se despedia dizendo que estaria ali, mantendo meu paraíso seguro pra outra manhã. E assim foi. Ele contava historias lindas. Mantinha meu paraíso só meu, e quando eu ia embora, me despedia dele dizendo: Até amanhã, Mago das Palavras.
É isso. Este era o meu Mago das Palavras.

Ent.: - Nossa...Que bonito isso. É verdade?
Eu: - Não.
(A Platéia vem abaixo!)
Ent.: Como você pode ser assim?
Eu: - Ai, como é que eu vou te explicar?
Ent.: - Que tal tentar com a verdade?

Eu: - Ok. Três fatos, três pessoas me influenciaram e me deram coragem pra escrever e pra assumir pra mim mesma esta mania de inventar historias que eu tenho.
Uma foi a minha terapeuta, que realmente dizia que o mago das palavras regia o meu mundo. E que disse (a irresponsável) que não interessa a explicação que você tem pra dar...a justificativa, porque isso sai da boca pra fora. E da boca pra fora não interessa. Interessa o que você sabe da situação que você está passando. Isso tem que ser verdade. O que você vai dizer para as pessoas tanto faz.
Outra foi uma conversa do Egberto Gismonti num programa de TV. Ele disse que adora inventar historias sobre ele mesmo. Ele viaja muito e as pessoas em viagens longas têm mania de perguntar de onde você é, o que você faz, e ele nunca conta a verdade. Toda viagem ele inventa um novo personagem e reinventa a própria vida pra contar pra quem pergunta. Eu achei isso o máximo! Me diverti muito ouvindo a historia dele. É loucura? Será? Kind of. Mas uma loucura saudável que não machuca ninguém.

Ent.: - Você falou que eram três. Falta um.

Eu: - Ah claro...O principal. O homem que cochichou no meu ouvido: “Hey! Você pode escrever...Não precisa ter medo!”

Ent.: Quem?
Eu: - Kurt Vonnegut
Ent.: Nossa! Ele é maravilhoso!

Eu: - É. Eu sou apaixonada por ele! Amo a forma como ele escreve. Quando há muitos anos eu li o Matadouro Cinco, fiquei encantada. Ele é completamente louco, escreve sem ordem cronológica, divagando, perdendo o raciocínio, interrompendo e voltando pra historia...Uma delicia. E o pior é que ele te CONTA a historia. Ele é livre!

Ent.: - Esse sim é um mago das palavras.
Eu: - Com certeza!
Ent.: Ta...Mas e aí? Ele cochichou mesmo no teu ouvido?
Eu: Quem?
Ent.: O Kurt Vonnegut

Eu: Ah...Uma longa história! Eu estava em Nova York, logo depois da segunda guerra. Descendo a Madison, acho que indo numa livraria, não me lembro bem. Estava bem tranqüila quando ouvi um barulhão! Um táxi tinha atropelado um homem...

Ent.: Mercedes! Você nem era nascida logo depois da segunda guerra!

Eu: Não? Nossa...É mesmo...

Ent.: Eu não vou encerrar antes de saber uma coisa!
Eu: xii...Lá vem...
Ent.: Mercedes! E o mago das palavras? Quem é essa criatura?
Eu: - Um pai de santo que eu conheci em Berlim.
Ent.: Não!
Eu: Um escultor leproso?
Ent.: Não!
Eu: O amor secreto da minha vida...
Ent.: é?

Eu: Não. O Mago das Palavras é esse dom que você tem, que eu tenho, esse poder de usar as palavras pra encantar, pra fazer rir, pra sonhar, pra dar vida ao mendigo de Zuma, pra apaixonar, pra chorar na frente do espelho...

O entrevistador fica me olhando calado e a platéia aplaude.

Ent.: A Gente volta já!

(Aplausos... muitos aplausos!...).

Ha!

2 comentários:

Carolina Garofani disse...

Tem Pulitzer pra entrevistado?
Nobel pra Gênia?

Entao ninguém te faz justiça, Mercedes!

marcos freitas disse...

WOOOOW!!!! adoro!!!

uôrduízar iuar...