domingo, setembro 28, 2008

Fragmento (pensando no banho)

Ela estava no balcão, entediada, esperando o tempo passar. Quanto mais tarde saisse dali, menos tempo passaria se dando conta do quanto estava sozinha. Um olhar brilhou do outro lado do bar, por entre todas as mesas, todas as pessoas que conversavam alto, bebiam e riam, e faziam com que ela fosse o único ser solitário de um universo inteiro. Sem saber muito o que ou quem era, ela não pode evitar de virar-se. Do outro lado, ele sorriu discretamente e moveu a cabeça num cumprimento sutil. Ela sorriu de volta, sem mostrar os dentes, e tornou a encarar seu copo de água mineral com gas e suco de limão.
A garçonete passou por detrás dela, puxou uma pequena mexa de seus cabelos crespos, aproximou o rosto de seu ouvido.

- Vai ficar bêbada, Monica.
- Ah vou... - respondeu sorrindo
- Devia. Não aguento mais te ver assim.

Mônica balançou a cabeça sem olhar para trás, num sinal claro de que a conversa não a interessava, e tomou mais um gole de água com gas.
Ao ouvir um pedido de licença, ela afastou um pouco seu banco para a direita, abrindo espaço para uma jaqueta marrom, cujo dono parecia ocupar mais espaço do que lhe era de direito. Incomodada, virou-se para a esquerda pronta para reclamar ou no mínimo fazer cara feia, mas seu mal humor foi interceptado por um sorriso.
- Posso te pagar um drink?
- Não, obrigada. - disse com um meio sorriso querendo escapar, e deu mais um gole na água com gás.
Ele baixou a cabeça, rindo
- Droga...um cheese cake?
Ela abriu um pouco mais o sorriso, sem poder evitar.
- Não...
- Um salgado, um jantar, um café?
- Não, obrigada.
- Flores?
Ela apenas sorriu.
- Carona?
Ela balançou a cabeça negativamente.
- To de carro.
- Uma casa, um castelo na Suíça, um anel de diamante?
- Nada.
- Não é possível...você tem que querer alguma coisa. Não tem nada que eu possa te dar?
Ela virou-se inteira, olhou para ele cuidadosamente observando cada detalhe do rosto, do cabelo, da roupa...
- Não, nada.
- Pena...
Ele se preparava para sair quando ela o segurou pelo braço.
- Mas não precisa ir embora.
- Posso ficar?
- Pode.
- Eu tava me achando um completo loser.
- Losers não usam esse perfume. - e olhando para o barman - dá uma vodka pra ele.
- Como você sabe que eu bebo vodka?
- Eu não sei.
Pegando a bebida, ele disse:
- Você não precisa de nada...mas eu preciso: seu nome.
- Mônica.
- Edu.
Os dois apertaram as mãos, mas quando Monica tentou se desvencilhar, ele segurou sua mão com mais força.
- E se você pudesse pedir qualquer coisa essa noite, e eu pudesse realizar o seu desejo, o que seria?
Ela sorriu.
- Se eu pudesse...hum...um namorado de mentira. Só hoje. Alguém pra fingir que é meu namorado.
Edu soltou a mão dela olhando em seus olhos com estranheza.
- Você não precisa disso...
- Você perguntou, eu respondi.
- Você é linda! Eu não acredito que ninguém...
- Não. Ninguém...
- Não dá pra acreditar.
- Bom, você perguntou. E é isso. Só hoje eu queria que alguém me amasse como eu sempre quis. Me quisesse como eu sempre sonhei. Fosse apaixonado, me surpreendesse...mas...

Ele tirou uma cacho de cabelo do rosto dela
- Por que?
- Porque já passou, eu já tive, acabou, não tem mais.
- Por que?
- Por que o que?
- Ele te deixou.
- Ele estava lá...presente...totalmente presente, e bum. Foi instantâneo, ninguém pôde fazer nada. Se foi. De lá para cá eu não quero. Ninguém vai conseguir que eu....impossível. Mas tem dias...
Com um suspiro longo, Edu afastou o banco alto do bar, pegou a mão de Mônica e a induziu a levantar também.
- Vem cá.
Ela levantou sem entender.
- Onde?
- Vou começar como se começa.
Ele puxou Mônica.
- Dança comigo. Eu sou o seu namorado hoje.

Sem saber reagir, Mônica foi com ele até a pista de dança.
- Que maluca...desculpa Edu. Eu nem te conheço e...você não precisa fazer isso.
- Como não me conhece? Eu sou seu namorado há séculos.
Ela sorriu
- Não sei qual de nós é mais louco.
- Você, claro...ainda bem, senão eu ainda estaria te olhando de longe. Ia ser péssimo. "Quer um drink? um castelo...?" hahaha eu sou patético.

Pela primeira vez Mônica sorriu de verdade, com todos os dentes, vendo nos olhos dele o mesmo brilho que veio do outro lado do bar, minutos atrás.
- O que você quer? - ela perguntou
- De você?
- De mim. Um castelo, um anel de brilhante...?
- Um beijo.

Edu segurou o rosto de Mônica com uma das mãos, puxou-a para perto e beijou sua boca. De olhos fechados, Mônica sentiu nos lábios dele o que já havia esquecido. Entre beijos ela sussurrou:
- Não pode...
- Shhhhh...eu sou seu namorado.
- Só hoje...
e voltando a beijá-la Edu respondeu:
- Impossível...



Fade to black
Sobe música
bye bye.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Fortaleza


Eu reparei que aos 42 anos comecei a construir uma gaiola. Aos poucos fui pintando as grades da cor do céu que me cerca, fui acrescentando um pouco de conforto, boa comida, água fresca, tentando fingir que eu nada construía, e de pedra em pedra, de barra em barra, construí uma fortaleza ao meu redor. Uma fortaleza de paredes sólidas para me proteger.

Nos últimos cinco anos, acho que vivi sim trancada dentro deste forte, tentando me poupar - não me privar - de ver que ali fora alguns maus espíritos transitam para lá e para cá, algumas coisas são feias, algumas pessoas são más. Acho que é isso que meu marido quer dizer quando repete que eu vivo num mundinho cor-de-rosa (deus conserve!). Claro que é.
Pois meu mundinho cor-de-rosa existe sim. Só que deixei janelas abertas nas paredes para que minha voz fosse ouvida.
E foi assim, escrevendo o que eu penso e jogando pelas minhas janelas, que vivi esses anos últimos...como a bruxa do castelo, a fada da gruta, ou a princesa da torre; depende do dia. Foi só quando cheguei aqui, quando terminei de levantar as paredes, que eu consegui gritar mais alto e ser ouvida. Foi só aqui que eu descobri quem eu sou e para quê eu sirvo. Daqui de dentro fiz amigos. "Hello stranger..." isso mesmo, estranhos vindos de lugar nenhum, vindos de todo lugar, vindos do céu que me cerca, e eu posso chamá-los de amigos. Foi daqui que eu pude buscar os amigos deixados para trás, resgatar pessoas que eu sempre adorei, me aproximar delas como a vida lá fora jamais permitiu.
Aí estes amigos estranhos, essas pessoas distantes e ainda tão próximas, falam de luz, de ser imprescindível, de ser única, vêm buscar nas minhas palavras o que às vezes falta às delas...e eu vejo que só depois de aprisionada eu fui realmente livre.

Hoje fazem 47 anos que eu comecei uma busca até então sem fim. Achei.

quinta-feira, setembro 18, 2008

Quem perguntou?

Ninguém perguntou, mas eu vou contar como andam as coisas aqui no reino de Mercedes.

. Toda blusa é uma bata.
. Tem poeira em todos os cômodos.
. Estou dormindo no quarto de hóspedes, porque chegou a hora de pintar o meu quarto.
. Toda calça cai se eu andar rápido.
. Meu closet segue trancado porque agora eu estou com medo que roubem mais alguma coisa.
. Toda vez que eu preciso pegar uma roupa, esqueço de pegar a chave.
. A cozinha tem cheiro de tinta esmalte.
. A escada ainda está forrada com papel craft.
. O banheiro do quarto de hóspedes não comporta este casal espaçoso.
. Meu carro vai demorar quase 20 dias para ficar pronto.
. Meu carro-reserva é uma pulga cujo único feature interessante sou eu.
. Eu ainda fico meio aflita se o Diogo demora pra chegar.
. O lugar preferido do meu marido virou depósito de tinta e roupa fedida de pintor.
. Hoje fiquei sem luz mais de 3 horas.
. Eu não saio de casa antes das 4:30, porque (de novo) tenho medo que roubem mais alguma coisa.
. Meu banheiro está inteiro coberto com plástico preto empoeirado.
. Não treino há quase um mês.
. Sigo comendo mil calorias por dia, mas ontem descontrolei geral e comi pizza. Com certeza, o nome do descontrole era "pintor".
. Desde que roubaram a câmera eu só consegui ir ao médico uma vez.
. Todos os CDs da casa estão dentro de uma caixa plástica gigante e eu nem penso em guardar.
. Estou com a mesma blusa há dois dias, porque esqueci a chave e resolvi vestir a de ontem.
. Não importa para onde se olhe, haverá um rastro dos pintores.

Quer trocar?

sábado, setembro 13, 2008

Contando os dedos

O rostinho dele ainda sujo na sala de parto ainda não saiu da minha cabeça. Eu lá, na minha cesária, esperando que algo acontecesse enquanto o Sena ganhava mais uma corrida e o Galvão - que já era chato naquela época - gritava feito uma gralha na TV...e ele chorou! Aquele chorinho já era ele, e o rosto encostado no meu, tinha olhos que durante muito tempo estaríam enfeitando a minha existência.
Depois de algumas horas, ele veio para o quarto e a primeira coisa que eu fiz foi olhar bem para cada detalhe dele. Abri a manta, tirei o tip-top, quis saber se tudo estava no lugar. De brincadeira, contei os dedinhos. "Ufa...dez nas mãos e 10 nos pés. Tudo sob controle!"

Quinta-feira, 11 de setembro, (já sexta) meia noite e quinze:

- Mãe, eu bati numa pedra na Marginal, não sei de onde ela veio, mas o carro não liga. Arrancou a tampa do carter, não anda de jeito nenhum.

Droga...a gente ia viajar de carro amanhã, mas ainda bem que ele não se machucou...liguei para o seguro, acionei o guincho e o telefone tocou de novo.

- Mãe, ta meio perigoso aqui. Mais quatro carros bateram na pedra...pede pra eles virem logo.

Desliguei a ligação para continuar falando com o seguro, passei o telefone dele para que a moça entrasse em contato, liguei pra ele outra vez...não atendeu. Liguei pro CET pra eles irem pra lá, Liguei de novo pro Di:

- (gritaria..) caralho!!!

Meu coração gelou. Meu cérebro tentou, por alguns poucos segundos, me convencer de que era só uma confusão porque algum outro carro bateu na pedra, mas meu coração não se engana: alguém estava com o celular do meu filho naquela hora, e todas as cenas que eu vi e pensei quase me fizeram morrer.
Impotência! Impotência! Não tem como explicar um filho em perigo. Não tem como explicar que ele esteja em algum lugar que você desconhece, sofrendo, e você não esteja lá para colocar um band-aid, dar um beijo e dizer que vai passar. Não tem como explicar o ódio súbito de quem pode ter colocado as mãos nele, por um segundo que seja. Cada minuto é uma eternidade, cada passo de um lado para o outro é um caminho gigantesco, cada frase da oração que você não sabe parar de repetir é um terço inteiro, uma novena inteira, uma vida inteira, uma promessa, um compromisso eterno com deus ou quem quiser por favor trazer meu filho de volta pra mim. Foi horrível...a maior violência que eu jamais senti. Violência contra a minha alma!

Liguei para a polícia. Não queria ouvir que levaram meu filho. Tive medo de ser tratada com descaso. Tive medo de tudo. O policial me acalmou dizendo que o meu chamado já havia sido atendido porque outras pessoas tinham ligado, e várias viaturas estavam no local. Sim, a pedra foi plantada lá. Sim, era coisa de assaltante.
Perguntei pelo meu filho, o policial perguntou se meu carro era um picasso azul e deu a placa certa. Eu disse que era preto, mas era esse, e ele me informou que já estavam rastreando o meu carro. Mas calma! O carro não liga! "Ah...Então fique tranquila que não levaram seu filho. Ele vai entrar em contato logo." Tranquila? Não existe essa hipótese. Tranquila e filho na mesma frase, num caso desses é, no mínimo, erro de concordância.

O tempo passou arrastado e torturante enquanto o Cláudio foi tentar encontrá-lo, o Marcelo saiu de casa e foi também, o motorista do Cláudio bateu record ao fazer Carapicuíba - Alphaville em doze minutos, e eu não sei quantos recordes de pensamento e esperança eu quebrei. Fiquei em casa esperando alguma notícia, até que o telefone tocou de um número estranho e era ele! Ah! música nos meus ouvidos:

- Oi mãe...ta tudo bem, viu? eu estou com a polícia.

Ai...que dor! Que vontade de me transformar num para-quedas gigante e cobrir o mundo inteiro num campo de força tão poderoso que pudesse deixar todo o mal do universo longe dos meus filhos! Fiquei mais tranquila. Mas horas mais tarde, quando ele entrou em casa, eu queria abraçar e beijar, e conferir. Levaram o que ele tinha: dois celulares, a carteira com cinco reais, todos os documentos e um chiclete. Enquanto um assaltante revistou o carro, o outro fez com que ele se ajoelhasse de costas e manteve a arma na cabeça dele. Depois de pegar o que queriam, mandaram o Diogo correr...ele correu até o carro da polícia que estava chegando na outra pista. End of story.

Tudo acabou bem, pelo menos por enquanto, que eu ainda não sei se ele está bem psicologicamente (eu não estou). Mas o que eu quero mesmo dizer, é que certas coisas não mudam com o tempo. Se eu pudesse, teria tirado a manta e o tip-top, conferido parte por parte para ver se tudo estava lá, depois eu o enrolava bem apertadinho e ficava pra sempre com ele no colo.
Quando ele chegou, eu só queria contar os dedos.

Not a little cake...


importante:
1. atéia que sou, na hora do vamovê eu rezo!
2. a polícia militar de São Paulo, ao contrário do que dizem na TV, é educada, eficiente, extremamemte gentil e eu só tenho a agradecer.
3. a polícia civil de São Paulo tem um serviço de informação no telefone 197 que rocks! E a Delegada Malta da polícia civil é fodona e manda em policial metido que não quer fazer B.O.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Sobre Ex-Provolones Gigantes


22/11/2007 - Mercedes Gameiro toma uma atitude quanto ao seu tamanho incrivelmente avantajado, após experimentar 650 vestidos de avó de noiva, na tentativa de parecer ao menos meio decente numa cerimônica de casamento.

22/01/2008 - Mercedes Gameiro, com 5 kilos a menos, tá crente que tá abafando.

22/05/2008 - Mercedes Gameiro quase pede arrego quando seu peso resolve empacar num número impronunciável dizendo que "não baixa! não baixa! não baixa!"

28/08/2008 - Mercedes Gameiro escuta pela primeira vez o que ela já esperava: "agora chega,! Você era um mulherão e está ficando pequenininha!" Ha! chega nada!

08/09/2008 - Mercedes Gameiro mal se reconhece quando passa pelo espelho e morre de rir toda vez que vê o tamanho de sua própria cintura. Se diverte vestindo roupas que sobram e caem, e anda por aí toda se achando.

A saga do provolone ainda está longe de terminar, mas já é incrivelmente prazeiroso dar de cara comigo mesma, tão parecida comigo mesma antes de não ser mais eu mesma. Entendeu? Ha!


** foto meramente ilustrativa pra dizer: saca a finura do braço da pessoa....eeeeeee!

Meus poetas...

gente que parte sem nunca ir embora


Peu Xavier
*
Poesia estampada nos olhos.

ou são os meus?

*passou dois anos sentado atrás de mim numa sala de aula, abrindo a boca esporadicamente, me fazendo rir invariavelmente. Amigo inesquecível. Fotógrafo querido. Pessoa que não passa.


A tempestade que chega é da cor dos seus olhos...

- Oi.
- Nossa...saudade enorme!
- Nem me fala...achei que não fosse mais te achar.
- Eu também, mas isso não acontece assim.
- Não?
- Só se quiser. Quer?
- Nunca!
- Nunca...
- To aflita.
- Aflita como?
- Não sei, frio na barriga, parece que tem alguma coisa importante que eu não sei o que é.
- Sou eu.
- Hahahah!
- Frio na barriga tipo paixão?
- Não...paixão a gente sabe.

- Você se apaixonaria por mim?
- Um milhão de vezes, vezes mil.
- Mentira.
- Juro. Se desse pra escolher...
- Tipo prateleira de apaixonáveis no supermercado?
- Ahaha! Acho que na farmácia. Paixão ta mais pra remédio.
- Remédio amargo... a gente some anos da vida do outro. Ia doer mais do que curar.
- Eu sei, mas toda volta seria linda.
- Tá lindo agora.
- É.

- Faz um favor?
- Faço. O que?
- Se apaixona por mim? Agora?
- Não precisa.
- Precisa sim.
- Não...de um jeito eu sempre fui meio apaixonada por você.
- Foi nada, nunca me ligou e a única vez que disse que ia me encontrar, me deu um mega bolo.
- Ai, verdade...então acho que você nunca reparou.
- No que?
- Na paixão.
- Na sua? Claro que não, nunca existiu.
- Cego.

- Me diz quando.
- Quando o que?
- Quando você mostrou alguma faísca minúscula dessa paixão mocada?
- Eu não mostrei muito...eu só quase morria, só de olhar você.
- Quando?
- Quando não: quanto! Muito! O tempo todo eu te olhava pensando: "Ai ai...not fair..."
- Mentira, eu que olhava.
- Olhava nada.
- Aquele cabelão...
- Que que tem o cabelão?
- Nossa...um dia eu te mostro.
- Mostra?
- Mostro.
- Promete?
- ...
- Ok sorry.
- Não! eu só fiquei pensando...ia ser genial se você soubesse tudo o que eu pensei...e se me pegasse mesmo da prateleira da farmácia.
- Hmm...
- Sempre quis.
- Ai, não mente!!
- To falando, sempre quis.
- ...
- Me passei?
- Não.
- O que que é o silêncio então?
- Sei lá...passou tanto tempo...
- Passou. Passado...eu to aqui agora.

...


quarta-feira, setembro 03, 2008

Vão-se os Anéis...e parte da alma


Essa semana começou punk. Logo na segunda-feira eu descobri que minha máquina fotográfica foi roubada debaixo do meu nariz. Muito muito debaixo do meu nariz: de dentro do armário que fica atrás de mim na sala onde eu passo 15 horas por dia, todos os dias.
A minha câmera! Aquela que foi comigo para a Patagônia, Madrid, Barcelona, Aranjuez, Los Angeles, New York, Miami, Disney, Roma, Paris, Curitiba, fotografou natais, amigos, mãos, sorrisos, histórias...e esteve comigo aqui em casa, fotografando detalhes da minha vida que ninguém vê. Quando meu filho pediu a câmera emprestado, e vi que o case estava vazio, vazio foi o que eu senti. Em segundos eu vasculhei o cérebro perguntando onde ele escondeu a informação que estava faltando ali. "Eu emprestei para alguém? Eu levei para Curitiba e esqueci lá? Eu guardei em outro lugar?" Não tem como sair daqui com uma tele 300 sem ser visto!! Não tem? Tem! Tem se você for minha empregada ha 4 anos, tiver toda a minha confiança, for uma amiga sem tempo ruim, for alguém que faz parte do patrimônio da família. Tem!
E foi aí que um vazio maior ainda tomou conta de tudo. Eu perdi uma câmera? Nada...perdi muito mais. Perdi uma pessoa, outra vez. Perdi a esperança, outra vez. Outra vez eu criei uma cobra para me morder, e ela entrou na minha vida na pele de pessoa atenciosa e bem intencionada, pobrezinha e tão boa, dedicada e leal. Outra fucking vez!
Quando é que eu vou aprender?
Por que será que aos quase 47 anos eu ainda não aprendi a reconhecer essas pessoas assim que elas aparecem? Ok...não consigo ver (quando é comigo), mas então por que é que quando eu percebo o primeiro sinal de que a punhalada virá, eu não me livro da criatura? E por que depois da primeira punhalada eu ainda acho que as pessoas mudam e que nunca mais farão aquilo comigo? E por que mesmo falhando em todas as alternativas anteriores, eu ainda fico achando que posso aguentar o baque e resolver tudo sozinha, sem dor, sem incomodar ninguém, sem escândalo? Juro que eu não entendo.
A sensação de ser roubada dessa maneira dói na alma, como doeram todas as outras vezes em que percebi que estava sendo usada, que tanta boa vontade e lealdade não passavam de parte de um plano, que havia um interesse maior capaz de usar meus pontos fracos e o meu coração mole para obter o que a pessoa queria, que ninguém está acima de qualquer suspeita, e se chegar a estar, se colocou lá para poder tirar mais de mim.
Uma, há muitos anos, me tirou o que era meu de direito. Outro me tirou parte da alma, quase leva minha dignidade, meu amor próprio, e minha esperança de viver em paz. Outra levou algum dinheiro e uma máquina fotográfica. Nos três casos, eu permiti.

Cadê a terapeuta aquela para me analisar agora que eu preciso?


...

domingo, agosto 24, 2008

Queimando o Protocolo


Definitivamente eu sou velha, rabugenta, elistista, pentelha, preconceituosa, e o que mais quiserem. Aceito. Aceito...mas não aceito que o protocolo de uma cerimônia importante seja quebrado. Toda vez que isso acontece, enquanto um monte de mané acha o máximo, eu morro de vergonha alheia.

Eu acredito no velho ditado "em Roma como os Romanos" e acho que é assim que é certo. Se eu vou numa casa não-fumante -- e os sinais são claros, falta de cinzeiro na sala, etc -- eu não fumo e fim. Porque não é o dono da casa que tem que mudar por minha causa. E isso serve pra muitas coisas nessa vida de meu deus, mas está cheio de gente mal educada por aí que nem sonha em pensar nisso um dia.

Estou eu sentada em frente à TV vendo a final do Volei feminino, fiquei feliz e emocionada com o ouro delas, lógico, foi sensacional! Aliás, eu chorei trezentas vezes durantes as Olimpíadas...E elas chegam para a cerimônia de premiação. Vamos começar analizando a palavra CERIMÔNIA? Diz aqui no meu dicionário:
Pompa e formalidades para maior brilho de solenidades oficiais; conjunto de formalidades de civilidade, de preceitos de cortesia entre particulares ou entidades;
Veja só que incrível! Toda "cerimônia" involte um "cerimonial" e é "sonele".
Mas alguém lembrou de explicar isso para Brasileiros em geral? Principalmente aqueles cuja profissão sempre acaba, de um jeito ou de outro, numa "cerimônia solene"?

Então as meninas do Volei entraram para a cerimônia pulando. Hm..até aí tudo bem, porque elas estavam felizes, mas a minha ingenuidade ainda dizia que já já elas ficariam quietas e respeitariam o que seria o apogeu de suas carreiras. Santa ingenuidade! Não aconteceu. Para meu desespero, elas receberam as medalhas, e uma delas sacou de um papel todo amassado e abriu um cartaz mal feito e pavoroso que não dava para ler. Para fazer isso ela se desfez do buquê de flores cheio de significados importantes para os chineses e para os atletas sérios.

- Vai acabar aí, né? Perguntava o meu coração já querendo se enfiar debaixo do sofá para não ver mais nada.
- Não! - respondia o Galvão Bueno achando lindo - Elas vão quebrar o protocolo! Elas vão quebrar o protocolo!

Não...elas estavam prestes a queimar o protocolo. O protocolo e a minha cara como Brasileira, em rede mundial, sem a minha autorização! Meu pai! Elas deram as mãos e abriram uma roda...eu aqui já me arrepiei inteira e fiquei de cabeça baixa pensando: "não....oração não! Não reza, não reza...não me envergonha!" Mas sem dar a mínima pra a minha cara chamuscada, elas gritaram "Obrigado Senhor!", morderam a medalha (acho) e se jogaram no chão!
Nãaaaaaaaaaaaaaaaaao! Não faz assim comigo!! Eu não aguento tanta vergonha alheia de uma vez! Eu quis me esconder...eu quis sair correndo...eu olhei bem pra ter certeza de que estava mesmo sozinha...aff...estava, graças a Nossa Senhora do Vexame Mundial.

Não satisfeitas com toda a família de micos, macacos, e afins, elas resolveram rolar no chão e fazer uma pilha humana grotesca de bundas para cima, deixando sem graça o presidente do Comitê Olímpico, o da Feredação de Volei (ou coisa que o valha) e eu!

Gente, que vergonha...por que a gente não pode ser normal? Por que brasileiro tem sempre que dar um show de falta de educação? Por que as pessoas acham bonito não ter postura? Alguém já viu um ator ou diretor ir receber o Oscar de bermuda e fazer o que fazem aqui no Brasil em festival de cinema? É igual aos prêmios de música: o diretor chega la no microfone com uma roupa bem meia boca, que ele deve usar também pra ir na feira, e grita: POOOORRAAAA!! DO CARÁAAAALEEEEO! POOOOOOORRRAAAA!

Acho chique...acho que um cara desse não respeita o prêmio que está recebendo. Acho que alegria não se manifesta assim. Acho que uma pessoa que lutou para chegar até aí deve ter um vocabulário um pouco mais extenso - espera-se. Acho um vexame!
As meninas do Volei perderam, na minha opinião, uma grande oportunidade de entrar para história pelo seu feito extraordinário. De minha parte, elas serão lembradas por queimar a cara em rede mundial. Uma vergonha, no que me diz respeito.

Mas eu sou chata.

Buenas!

sábado, agosto 09, 2008

Muitas Mulheres - by Ella Spotlessmind

Eu me pergunto sem parar que tipo de pessoa eu sou e todas as vezes que faço isso, encontro alguém diferente.
Uma vez, de brincadeira, eu disse que sou muitas e sou única e sempre haverá mais de mim. Foi a verdade mais profunda que jamais saiu de mim. Eu posso contar um milhão de histórias de mulheres completamente diferentes, que o mundo juraria que nem se conhecem, e a surpresa final seria saber que todas elas sou eu.
Eu sou essa pessoa que imagina histórias e as vive e vice-versa. Algumas são puro besteirol e eu me mato de rir lembrando delas, outras são tristes de arrancar lágrimas de um iceberg, outras tão românticas, emocionantes e empolgantes a ponto das pessoas dizerem “ah…como eu queria viver algo assim.” E eu vivi.
Vivi mais “Coisas da Vida” do que a Me pode escrever. Vi a lua em vários lugares do mundo e fiz dela testemunha das minhas loucuras -- e só ela viu o que eu vi, só ela ouviu o que eu nunca vou esquecer.


Vivi paixões e histórias tórridas que colocariam "9 Semanas e Meia de Amor" no livro da Mamãe Gansa. Acordei ao lado de amores antigos que eu não veria nunca mais, adormeci no peito de quem estaria ali para sempre.
Amei incrivelmente, homens com caráteres, personalidades e histórias diferentes. Amei escondido, amei errado, fui a outra, fui a única, fui mais uma. Desejei pessoas que nem sonham com meus desejos, outras que sabem de cor meus pensamentos mas jamais me tocaram – e não tocarão. Chorei no carro, no meio fio, na escada do prédio, no elevador, na cama, na estrada, no ombro do desconhecido, de amor, de tristeza, de alegria, de emoção, de decepção profunda. Fui santa, fui perversa, fui pervertida. Fui rainha e fui ninguém.

A cada história que conto, lembro-me de outra que não contei. Fiz coisas não-contáveis, incontáveis vezes e de novo. Fui à igreja, ao centro espírita, ao terreiro de umbanda. Rezei para deus, Cristo, Santa Rita, Iansã e Maria Padilha. Sentei na mesa dos nobres, bebi com a burguesia, andei com os pobres. Vivi todas essas mulheres toda a minha vida e elas foram felizes. Elas brincaram com fogo mais vezes do que eu sozinha poderia. Traíram e foram traídas, amaram e foram amadas. Disseram verdades que ninguém acreditou, contaram mentiras que jamais foram descobertas, omitiram fatos, revelaram tudo. E foram loucas!

Umas amaram meninos, outras conquistaram prêmios, umas criaram deuses, outras beijaram demônios. Em algumas me reconheço, em outras mal me vejo…mas todas tinham um traço em comum: a minha alma – essa alma imensa, capaz de abraçar o mundo inteiro sem distinguir certo e errado. Essa alma feita dos milésimos de segundo do pensamento do universo, que insiste em se deitar, se espalhando pelo mundo como um véu transparente, que acha que pode dividir-se em milhares e doar-se, e mesmo assim, estará inteira.
Toda vez que alguém se espanta com algo que vivi, eu me pergunto que tipo de pessoa sou . Eu sou isso: Única e muitas…um véu transparente encharcado de vida, feito dos pedaços diversos de mim.


Colaboração: Ella Spotlessmind

quarta-feira, agosto 06, 2008

Corta pra lareira

Escrevendo o meu livro aquele que parece que eu nunca vou realmente escrever, eu descobri que tenho um bloqueio gravíssimo: eu não sei falar de sexo. Não...calma...eu sei FALAR de sexo, mas não sei escrever cenas de sexo.
Sabe aqueles filmes dos anos 50 que mostravam o casal, o beijo, e cortava para lareira, para o copo, para o cigarro queimando no cinzeiro? Então...é isso que eu faço. Eu levo o casal até a cama...e corto para a lareira! Hello?! Todo mundo sabe o que eles vão fazer depois que ele tirou a roupa dela!

Certo...seria perfeito se isso não estivesse me incomodando brutalmente.
Aí ontem à noite resolvi escrever um conto erótico. Ha! eu sou péssima! Nossa Senhora da Psicoterapia me salve! Fala pinto, penis ou bimbim? Eu suei frio para escrever. Ai gente...comofas? Por que eu vejo a cena e não descrevo assim...direito? No comprendo.

Desisti. Quase. Vou fazer mais uns "exercícios", e se não rolar eu vou cortar pra lareira!


segunda-feira, agosto 04, 2008

Post my Secrets?


Como todos os domingos, acordei, peguei uma mega-caneca de café e vim para o computador entrar no Post Secret - tarefa número 1 de domingo para xeretas em geral que gostam de saber o que passa pela cabeça alheia.
Sou uma fã ardorosa do Frank Warren, - o maluco diabólico que criou o PostSecret.com - e mudou a maneira das pessoas desabafarem sobre coisas que não podem contar para ninguém (a mãe dele diz que o que ele faz é diabólico). Tenho os três livros que ele lançou com os segredos alheios, entro no site todo domingo, e agora que a coisa não para de crescer, confiro o site alemão, o francês, o em espanhol, o Facebook e o blog no Myspace. Toda vez que faço isso, fico pensando se eu teria paciência de fazer um cartão postal manualmente, endereçar ao PostSecret e ir até o correio enviar. Depois disso penso o que eu diria ao Frank Warren e ao mundo se tivesse paciência para tanto. Pensei um segredo..."hmm, esse eu já contei pra um monte de gente!", pensei outro..."Hm...já contei esse também!"
Gente, entrei em crise! Será que eu sou uma pessoa sem segredos? Um livro aberto? Uma porta de banheiro público? Um outdoor ambulante? Deixa eu ver...olhando aqui pra minha lista do MSN, vejo que fulano não sabe o que eu contei pro ciclano, aquela outra nem sonha o que a lá de baixo sabe...mas cada um desses nomezinhos sabe algum segredo meu.
- "Hey! Será que você manda pro postsecret pra mim? É porque eu não lembro mais qual segredo te contei."
Que complicado...Fiz as contas, voltei uns anos, aí...lembrei que eu escrevo. Eu escrevo em meu nome, no nome dela, dele, da outra, em inglês, eu fotografo, eu sonho, eu misturo tudo, eu rio de mim mesma, eu digo tudo o que sinto, eu conto histórias, histórias, histórias...como eu poderia guardar um segredo?
Como eu poderia guardar um segredo se eu tenho todas as ferramentas para exorcisar os meus demônios todo o tempo, e ainda rir da cara deles? Que tipo de pessoa eu teria que ser para cozinhar histórias dentro de mim por tempo suficiente para que se tornassem segredos pesados, que só um terapeuta ou o PostSecret fossem capazes de me fazer cuspir? Eu lá tenho caráter pra isso? É...porque é preciso ser perseverante para guardar amarguras, rancores, tristezas, traumas...eu não sou capaz de colecionar nada, muito menos amarguras. É preciso ser muito mais "gente" do que eu para isso. Eu daria uma péssima suicida inclusive, praticamente um vexame! E para postar segredos eu teria que inventar dramas...ai que chato.
Frustrei. Não tenho nada pra mandar, e se mandasse, com certeza receberia algumas mensagens dizendo: "Nossa...vi um segredo seu no PostSecret."
Que lástima!



Se você é mais gente do que eu, este é o endereço:

quinta-feira, julho 31, 2008

100000

CEM MIL HITS

eu disse: 100.000 vezes!


Pessoas entraram 100.000 vezes neste blog!
É pra ficar feliz, ou não?

Bom dia!

quarta-feira, julho 30, 2008

Coisas da Vida #7

Lembrança

Eu encontrei a carta que ela escreveu e fiquei triste de dor ao me colocar em seu lugar e entender o vazio enorme que vem da presença dele, tão forte e, ainda assim, inexistente.

"Foi lindo imaginar o dia que você entrou no meu carro e fomos para aquele lago, onde pela primeira vez consegui olhar nos seus olhos e manter os meus ali até me enxergar dentro deles. Ainda posso sentir o resto do vinho no gosto da sua boca. Foi lindo dormir com você ao meu lado, sentir suas mãos, saber de manhã que o seu beijo me acordaria e depois de novo, e de novo, para me mostrar que estou viva. Ainda sinto o frio do lago subindo pelas minhas pernas e o toque do cobertor aquecendo os ombros, enquanto olhávamos as estrelas se despedirem da noite. Ainda tenho seus cabelos entre os dedos, o seu cheiro na minha pele, o calor do seu peito no meu rosto.
E depois, depois de anos, ao ver você de novo, seu perfume, seus olhos, seu jeito incrível, seus gestos, tudo...cada movimento seu me fez sorrir por dentro: as pernas dobradas, o pé no banco do carro, a blusa tirada pela cabeça despenteando o cabelo, o sorriso, os braços, a pele, as mãos...Ah! as suas mãos...e os olhos negros que eu amo...
os olhos negros que eu amo...
os olhos negros que eu amo e não sei encarar.
Mas foi lindo imaginar que eu entraria no seu carro e olharia dentro deles outra vez até me enxergar ali, e você me beijaria. O seu perfume colando outra vez nas minhas mãos...o seu sorriso falando baixo, quase dentro da minha boca, e o seu gosto em mim mais uma vez. A conversa deliciosa, a sua voz, o seu sotaque forte, o lençol bem passado com cheiro de ferro quente, sua pele quente, sua saliva quente, seu suor quente, seu calor...e eu. Nossas pernas se confundindo de novo, o ar da sua boca em meus ouvidos, sua boca no meu corpo, o seu corpo em mim... E agora, depois de tantos anos, eu não sei mais o que é verdade e o que sonhei. Eu tenho seu cheiro aqui, eu sei, eu sinto! Eu sinto o seu gosto, sim! Eu vejo seus olhos que eu amo e eles são negros, como é negro o vazio da incerteza. Eu não quero saber. Não quero que me contem. Me dá sua mão...me deixa ouvir a sua voz...posso deitar no seu peito?...canta de novo pra mim?...me diz que é tudo verdade. Não quero saber que cada segundo das minhas lembranças é só um fragmento do meu delírio.
Traz os seus olhos pra mim..."



Bom dia.

terça-feira, julho 29, 2008

Speechless

O solo de algumas guitarras têm o poder de me tirar a voz.
As palavras somem e eu simplesmente inexisto. Sou só ouvidos e alma por algum tempo, como anestesiada, extasiada, sei lá.
Aconteceu algumas vezes...só algumas.
Não adianta você chegar aqui com uma lista de guitarristas, de deuses, de virtuoses...porque só acontece como a música deve acontecer: sem lógica...puro instinto.
Não sei porque, mas só é assim quando é uma guitarra. Nenhum outro instrumento.

Quer a lista dos homens que me tiraram o fôlego? Pega aí:
Eric Clapton. David Gilmour. Slash. B.B.King. Geoff Farina. Prince. Zakk Wylde. E agora John Mayer.

Eu sei eu sei! Frank Zappa, Jimi Hendrix, Eddie Van Halen, Stevie Ray Vaughan não estão na minha lista! Sinto muito...reclama pra minha alma. Isso não é consciente...é uma coisa ouvida no coração e na boca do estômago. Se for para o ouvido não vale.

Enjoy

terça-feira, julho 22, 2008

Sobre amor, beleza e outras manias...


Eu lembro de ser bem pequena, de saia curta, sapato de verniz branco, meia três quartos, e sonhar com o dia que eu seria Miss Brasil. Lembro de querer ser bonita muito mais que todas as outras coisas que as pessoas queriam. Lembro que nunca me vi como os outros me vêm. Nunca tão brilhante. Nunca tão bonita.
Eu não quis ser nada importante, na verdade quis muito poucas coisas e ser alguma coisa me assustava como boa libriana: "hey! mas eu vou ter que escolher?" Como sempre fui incapaz disso, a vida foi me levando...eu já falei sobre isso por aqui e não quero me repetir...só quero chegar ao ponto: eu não quis nada, eu tive tudo, mas a desgraça da beleza nunca deixou de me assombrar. E o tempo passa... e o tempo é cruel - o tempo, a gravidade, a gravidez...
O culto ao intelecto do meu tempo, fez com que achássemos que o corpo era só um meio de transporte para o cérebro, nos matando mais cedo, nos trazendo marcas precoces, nos detonando aos poucos (e aos montes). Fumamos tudo e bebemos todas para conseguir filosofar mais claramente, ter mais talento, ser mais interessantes. Alguns de nós ainda resgataram a saúde a tempo, sem achar feio, sem achar que ficariam mais burros ou menos dignos. Outros não. E aí houve uma inversão tão perigosa quanto a primeira: minha geração cuidou demais do corpo, se plastificou, se encheu de botox, ficou neurótica, e era a academia ou a depressão, o personal ou o sentimento de abandono, a seringa ou o medo de ser mais velho do que todos os seus iguais. Enquanto os sedentários criticavam e viam a diabete e o colesterol chegarem, os novos atletas pareciam se conservar em formol.
A minha geração correu atrás de uma aparência impossível, porque não inventaram nada para trazer de volta a pele dos vinte anos. Preenche-se tudo, mas perde-se a identidade. Troca-se tudo...peito por silicone, ruga por restyline e botox, pernas finas e bundas chatas por próteses, maridos por meninos, esposas por modelos, famílias por aventuras.
E eu tenho medo de descobrir mais tarde que toda uma geração se perdeu ao perder a maturidade, por achar que a adolescência não precisava passar. Medo que todo mundo se olhe no espelho daqui há um tempo e descubra que está disforme, irreconhecível, e...sinto muito...ainda assim, velho!

Já bem tarde na vida, encontrei um homem cinco anos mais novo do que eu. Vampira que sou, guardei ele para mim, garantindo a porção de juventude que podia me faltar um dia. E nós crescemos juntos. Ao lado dele eu virei uma matrona várias vezes. Ao lado dele eu cheguei aos quase 90 quilos. Ao lado dele eu jamais escutei uma crítica referente ao meu corpo ou às marcas do tempo. Se saí correndo para malhar, para fazer regime, para fazer uma lipo, para fazer um laser, foi sem que ele jamais sugerisse nada. Aí...no fim desse meu regime enlouquecido, em que já dei adeus a quase todos os quilos a mais, eu olho para ele e percebo que para ele tanto faz. É a mim que ele ama! Ele não quer saber se eu tenho músculos ou flacidez, se minha pele tem manchas, rugas, celulite...ele quer saber se eu estou feliz. Ele está envelhecendo ao meu lado e a história de vida que temos é muito mais valiosa do que uma injeção de botox que vai durar no máximo quatro meses. Ele sabe que olhar no espelho e gostar de mim mesma me faz feliz, mas isso só serve para ele apoiar as minhas loucuras, e seguir sorrindo, porque para ele, seja velha ajeitadinha ou velha carcomida, o importante é que eu esteja lá.
Um amigo me disse outro dia que as mulheres não têm idéia do quanto são lindas aos cinquenta anos...veja só...quem diria? Quem sabe ele nem é louco. Quem sabe nós, mulheres, é que exigimos demais de nós mesmas. Ao ver aquele cartão no Post Secret desse Domingo, me lembrei do meu amigo, e do meu marido, e do quanto o tempo passou...o quanto ele deixou marcas, e o quanto o tempo faz parte de mim...e eu dele.

Então eu quis ser miss, eu quis ser musa e esse querer não tem, no fim das contas, nada a ver com beleza. Mas eu, boba, não sabia.



Um beijo amigo no seu umbigo.


PostSecret é aqui.

terça-feira, julho 15, 2008

Acordar...

...e abrir a porta do quarto, sempre reserva surpresas.
É um tatu nadador na piscina, um gato escondido nas lavandas, pulando para dar bom dia, ou uma visão mágica qualquer.
Se isso não é "Bom Dia", o que há de ser?

Depois de uma cena assim, nada é capaz de estragar o dia que começa.
Combinado, dia?
Faz favor!


Bom dia!

quinta-feira, julho 10, 2008

Dear Therapist,


Depois do post aí embaixo eu achei injusto dizer que você leria os textos balançando a cabecinha e fazendo tsc tsc. Acho que seria justo economizar o seu tempo e dar de uma vez a lista das conclusões que você vai tirar ao adentrar as portas da minha intimidade pública. Assim você não precisa ler os 237 textos postados aqui. Veja que bacana que eu sou. Tentemos uma análise por post.
Vamos à lista:

1. Um Tango para George - mini-novela em 9 capítulos e meio:
Você vai dizer que eu projetei uma história que eu gostaria que acontecesse comigo, porque falta algo na minha vida, blablabla. Juro que eu nunca pensei em ficar com o George Clooney. Sério.

2. Protect me from what I want
Você vai ficar feliz por eu ter consciência da minha esquizofrenia light.

3. A Mão Grande do Amor da Minha Vida
Você vai achar que eu preciso de proteção paterna...que eu me sinto desamparada...mas eu te adianto que se eu "desamparar" o resto da casa cai, minha nega.

4. Daren e Mariana
Vish...no mínimo vai chamar o hospital psiquiátrico. Mas eu quero levar o clubinho junto!

5. Eu que sou chata?
Você não vai dizer nada porque eu aposto que você também manda uns pps. hehehe

6. Medo
Divirta-se com esse. É sério e tem trabalho pra você nele.

7. Se iludir menos?
Você vai dizer que eu vivo à busca de uma outra realidade, como se ela fosse a minha referência de vida, mas não necessariamente a vida que eu quero. E que isso é um leve sintoma de esquizofrenia...não...bipolaridade? Não...talvez só uma infantilidade mesmo, mas vamos falar sobre a sua infância...

8. Insanity
Oh my God, essa vai te arrepiar os pelinhos da orelha! Pobre, pobre, pobre e atrapalhada Mercedes, perdeu a bússola há anos e nem se deu conta. Ou se deu conta mas está achando graça do que pode na verdade ser terrível.

9. Pessimismo
Sim sim, você vai dizer que eu nego o comportamento das mulheres da minha idade porque eu me recuso a envelhecer, amadurecer, enchatecer, etc...Não é verdade. Eu só não sou igual a elas. Period.

10. Vida leva eu...
Talvez você cale como até eu calei agora quando reli este texto.

11. Desabafo de Ella Spotlesmind
Ai ai ai...vai ser um saco ouvir tudo o que você vai ter pra dizer. Vai ser péssimo ouvir o que eu já estou careca de saber. Céus! Eu tenho 47 anos; se eu não me conhecer, quem há de?
Mas hey! Ella não sou eu...Ha!

12. Inexistência
- Mercedes, me conte esta história....
- Nunca! "Não quero falar de você. Não lembro. Não sei quem é."

13. A Outra História
...

14. Coisas da vida 1, 2, 3, 4, 5, 6
...

15. Feijões
"Quem você pensa que é para tornar tudo tão simples?"

Olha, eu tenho certeza que você tem muito mais o que ler.
Não adianta ler os meus textos tentando me analisar. Em cada um deles eu estou inteira. Em cada história, cada frase, cada linha.
Não há como dissecar algo que se apresenta inteiro. Para facilitar o seu trabalho, vou dizer: em duzentos e poucos textos, mais o TPM, o in english e os outros, eu sou eu e sou muitas. Não há Aaron Beck que possa mudar isso. E se ele tentar eu grito!

Still crazy after all these years


Hoje fui ao médico. Na verdade médica. Fui me pesar e descobrir quanto tempo falta para eu me olhar no espelho e ficar feliz. "Quanto tempo é 4 kilos?" Conversando com ela, eu acabei dizendo para mim mesma o que está acontecendo comigo: eu estou feliz demais para escrever. É isso! Eureka! Preciso de algo que me deprima, urgente! "Dá um remedinho?" Como eu posso escrever coisas emocionantes se eu dirijo até o consultório dela cantando alto e sorrido feito uma doida? Se eu dou risada o dia inteiro? Se meus ataques de brabeza não duram mais do que cinco minutos e, não conta pra ninguém, eu não fucking tenho do que reclamar!

Por falar em dirigir, a trilha sonora no meu carro hoje esteve meio vergonhosa por alguns minutos, mas eu não pude evitar. Juro que não pude!

"Hello...is it me you're looking for?
I can see it in your eyes...
I can see it in your smile..."

Meu pai! Eu só tenho perdão porque não era o Lionel Richie cantando. E lá vai Mercedes na Marginal Pinheiros, vidro aberto, cigarro na mão, óculos escuros, berrando: I can see it in your eeeeeyes...

E as pessoas querem que eu escreva? Você tem noção do quanto eu dei risada da minha própria trilha sonora? Como eu vou chegar em casa depois disso e escrever um texto sério? Inventar uma história de amor? Contar uma lembrança singela de infância? Impossível! A verdade verdeira é que há duas semanas eu tive uma decepção gigante que me tirou o chão de um jeito, que depois dela eu fiquei leve. Juro. Estou leve e feliz como...como...hmmm...sabe namorado novo? Assim. Como se eu tivesse namorado novo. Não tenho, viu? Tenho aquele de sempre, que acorda aqui em casa todo dia, mas adoooouro!

A outra coisa que eu lembrei quando estava conversando com a minha little médica (sim, ela é meio miniatura), é que na primeira conversa com a terapeuta nova da Natasha, eu acabei falando que eu escrevo. Ai meu deus, eu e a minha boca grande! Já menti tanto nessa vida de meu deus, fui falar a verdade logo pra terapeuta...Pois ela perguntou do meu blog e você não sabe o que eu fiz. EU DEI O ENDEREÇO DO BLOG PRA CRIATURA. NÃAAAAAAO! PRA TERAPEUTA NÃAAAAO! Depois eu só faltei bater a cabeça na quina da mesa até sangrar! Você pode imaginar a terapeuta com aquele jeitinho meigo e professoral de falar, lendo esse blog? Isso não vai prestar... Eu tenho certeza que ela vai ler post por post balançando a cabecinha e fazendo "tsc, tsc, tsc" com olhar de "hãn...está explicado". Quando ela me chamar para entregar o diploma negro da mãe deformadora de filhas, eu vou mandar dizer que fui pro Tibet passar sete anos com o Brad Pitt. Pra Londres cuidar dos cachorrinhos da rainha! Pra Colômbia, me juntar às FARC e comer minhoca na selva por 10 anos! Ai jesus me leva!

Então, senhoras e senhores, é isso por hoje. Eu realmente sinto muito se não tenho nada de muito útil para dizer, mas a culpa é do Lionel Richie.

Um beijo amigo no seu umbigo.

terça-feira, julho 08, 2008

Meus Não Gostares

. Não gosto de legume refogado. Tem cheiro de hospital e casa de velho.

. Não gosto de gente que fala olhando para baixo. Geralmente são pessoas enrustidas que se fazem de humildes, mas humildade não é submissão. Espero sempre a punhalada, e ela vem!

. Não gosto de quem anda como gato, sem fazer barulho, se esgueirando pelas portas, que pede licença pra existir. Gosto de gente espaçosa que pisa firme e fala grosso.

. Não gosto de dirigir com som muito alto: entro em transe e saio do chão. É perigoso demais. (eu nasci chapada, lembra?)

. Não gosto de olhar para baixo quando estou em lugar alto. Meu medo de altura supera toda a razão do universo.

. Não gosto de pagar contas. Acho injusto pagar para comer. Já disse isso antes: devia ser proibido pagar por qualquer coisa que dure menos de 7 dias ou vire cocô de alguma forma.

. Não gosto de sentar no banco do passageiro, ou atrás. Quero o volante na minha mão, e isso cabe a todas as áreas da minha vida.

. Não gosto de montanha russa, carrocel, pêndulo, trapézio, chapéu mexicano e das coisas que divertem a maioria das pessoas. Mas qualquer prazer me diverte. (Eu disse "prazer". Frio na barriga e tensão não me dão prazer nenhum, muito pelo contrário).

. Não gosto de pimentão cozido, banana crua, doce de laranja, limão depois de meia hora, torta de requeijão, carne bem passada, azeite que não seja de oliva, bebida muito seca, perfume muito doce, melado com farinha, goiabada com queijo, pão doce, coisas à califórnia a não ser eu...na Califórnia.

. Não gosto de música repetitiva. Mesmo os maiores gênios da música são capazes de me irritar profundamente com um instrumento repetindo a mesma nota, que você nem sabia que estava lá. Isso serve também para refrões, solos infinitos, jazz ou rock progressivos, finais de música que repetem a mesma letra: "Tá bom! Já ouvi! Cala a boca, praga!"

. Não gosto de amigo folgado que acha que o que é meu é dele: meu celular, meu cigarro, minha máquina fotográfica, minha grana.

. Não gosto de esperar resposta no msn.

. Não gosto de gente que fala fala fala e na minha vez tem que sair.

. Não gosto de pagode, sertanejo, sambinha mal cantado, nem daquela voz de carpideira das mulheres da velha guarda da mangueira. Também não gosto desse novo-emo-rock-brasileiro-mal-cantado-pra-carái-com-letra-ruim-demais.

. Não gosto de filme de terror. Cinema não é pra passar mal.

. Não gosto de perder o controle, não saber o que falo ou faço, não estar firme para caminhar ou raciocinar. Por isso nunca me dei bem com as drogas e detesto tomar calmante. Pra mim é um "prazer-terror", igual às montanhas russas e etc. Não entendo essa sensação de "liberdade" incompreensível. Sou super livre com meus pés no chão. Rio, me divirto, crio e saio da realidade sem precisar de agentes externos. Bem...já mensionei que nasci chapada?

. Não gosto de ingratidão.

. Não gosto de um monte de outras coisas pequenas que na verdade não fazem muita diferença na minha vida. Sou tolerante o bastante pra aguentar até cheiro de abobrinha refogada. Mas só de vez em quando!

. Ah...não gosto de falta de assunto. ;)

Bom dia.

terça-feira, julho 01, 2008

Multitalentos Sazonais.



"- Então, Mercedes, o que você sabe fazer?
- Depende...quando?
- Como assim quando?
- É que um dia eu sei coisas que nunca mais vou saber. Amanhã já sei outras..."

Não, não é que eu seja exatamente louca, é que as coisas mudam na minha vida de uma forma estranha. Sério! Eu sei fazer tudo e nada ao mesmo tempo, a não ser que eu precise aprender em tempo récorde alguma coisa que eu resolvi que é importante saber.
Complicado ainda? Ah...me deus...então eu vou ter que contar história.
Tudo começou quando eu nasci. Naquela época eu não sabia fazer nada e talvez isso tenha sido um pouco irritante. Eu cresci meio tonga, completamente sem agilidade para coisas de criança: eu corria mal, eu era péssima piloto de bicicleta, era atrapalhada, não andava em muro, não pulava corda decentemente, não entendia a maioria da brincadeiras, não tinha elasticidade... Então precisei me virar para saber muito muito bem as coisas que eram urgentes, como pular elástico. Campeã absoluta de pular elástico no recreio, hoje não lembro nem a sequência da coisa toda. Depois fiquei craque em subir em árvore, mas só em árvore, até que fiquei incapaz de subir num banquinho, quanto mais numa árvore.
Bom...as aulas de educação física eram uma tragédia, a não ser que fosse ginástica ritmica ou coisas relacionadas a dança e teatro. Então grudei na minha amiga bailarina e ninguém dizia que eu não fazia balet com ela. Aprendi coreografias que ela passava o ano ensaiando e...Bingo! Aprendi a dançar. A partir dali, sempre que tinha uma apresentação na escola, eu fazia parte da equipe que coreografava e estava sempre na primeira fila. Isto me rendeu alguns dos maiores micos da minha vida, como aprensentar uma dança sobre a Gralha Azul num congresso de educação em Fortaleza, onde eu e mais duas meninas éramos pinhões. Foi assim que desisti da dança...E continuava estabanada e desengonçada para a maioria das coisas.
Na 5a. série, eu já estava exausta de não saber matemática - a verdade é que não sei até hoje - e eu odiava aquele professor coreano que tinha um bafo terrível que eu só vim a sentir de novo quando fui a primeira vez na Rua 25 de Março. Sim, na hora do almoço aquele lugar fede a sopa de pum, que era exatamente o bafo do meu professor. Para me livrar dele, eu aprendi logarítimo. Acho que eu sabia mais do que ele. Tirei 10 em todas as provas daquele ano. Eu - a rainha do logarítimo! Pois é...mas nas férias eu já tinha esquecido tudo. O meu outro truque, já que eu não tinha capacidade de decorar as fórmulas malditas de física e matemática era calcular as coisas usando o método "MY WAY", ou seja, eu olhava para o exercício e resolvia que ia dar um jeito nele...e ia calculando ao deus dará até chegar a algum resultado. E pasme! Nem sempre estava errado, embora estivesse. O tempo que eu levava explicando o meu raciocínio para o professor era suficiente para ele resolver que eu me esforcei. Bingo outra vez!
Para compensar todas as notas horríveis de todo o meu "ginásio" e segundo grau, eu escrevia. Minhas redações eram geniais assim como os trabalhos de história, onde eu dava um banho, não da história em si, mas da minha visão dela. Pronto! Achei o jeito de passar de ano: escrever muito sempre. Como isso nunca bastava, eu aprendi a falar. Falar passou a ser o meu principal talento: "deixa que eu apresento!" Na faculdade eu trabalhava e não tinha tempo para nada, então minha equipe fazia sempre um lazarento trabalho mal escrito, com conteúdo tosco...eu chegava na faculdade, matava a primeira aula, pegava os livros que serviram de fonte para o trabalho tosco e dava uma lida. Isso já dava para eu chegar la na frente e garantir um 10. Como? Falando, elocubrando, enrolando! Neste mesmo raciocínio fiz uma prova de biologia que tinha uma pergunta só, num papel almaço. Aff... justamente a pergunta que eu não sabia responder. Básico, comecei assim: "Isso eu não sei, mas se você me perguntasse como funciona o...." e quatro páginas de blablablas a respeito....pronto; outro 10.
A conclusão é que durante a minha vida escolar descobri meus dois únicos talentos duradouros: escrever e pensar.
Mas um dia vi um desenho feito pelo meu tio Marcilio e perguntei como ele conseguia desenhar. Ele respondeu: "segura o lápis bem lá em cima e desenha." Isso já era informação suficiente para mim. Peguei papel, segurei o lápis bem lá em cima e copiei uma foto da minha mãe. Deu certo. Aprendi a desenhar e a partir daquele dia passei a desenhar bem. Durante muito tempo desenhei, pintei quadros, retratei pessoas. Tive um namorado lindo, e um dia resolvi fazer um presente para ele; fiz um quadro que misturava colagem e desenho, com o rosto dele. Não me lembro bem como era, mas lembro que a colagem era com papel vermelho, o rosto dele com crayon e ficou genial. Nunca mais desenhei. Sei la porque.
Aos 14 anos me vi sozinha de castigo dentro de um quarto onde eu teria que estudar três horas por dia durante as férias inteiras. Dammit! Fora eu e os livros, o quarto guardava um violão. Pronto...peguei o violão e resolvi que ia tocar. Foi difícil, fiz bolha dos dedos, não estudei nada mas consegui. Depois ficou muito difícil tirar as músicas que eu gostava, sem o menor conhecimento de nada, então eu, que já escrevia, comecei a compor. Ha! Que fácil! Não sei se as músicas eram boas, porque esqueci todas elas, mas sei que ganhei um festival no colégio, e que me divertia tocando para as minhas amigas que sabiam todas as músicas de cor. Quer saber se eu ainda toco violão? Impossível! Nem quadradinho de dó! Nada! Nem Stairway to Heaven, que o universo inteiro sabe! Ensinei meu irmão, algumas amigas, meu primo, fiquei sem violão e desaprendi completamente. Hoje aqui em casa tem dois violões e uma viola...e nada!
Eu também fiz quadros em aquarela com desenhos infantis que contavam histórias em espiral. Lindos! Lindos! Se eu encontrasse pra comprar compraria todos. E o que eu fiz? Dei um para minha filha, um para minha sobrinha, outro pra filha de uma amiga, e nunca mais fiz nenhum. Muita gente perguntou por que eu não escrevia um livro infantil assim, eu achei uma idéia bonitinha, e desaprendi a pintar com aquarela...
Quis saber sobre kabalah, sobre anjos, sobre energia, sobre fengshui, sobre o poder do pensamento...fui atrás, aprendi tudo, usei tudo o que podia, fiz terapia de regressão, hipnose, aprendi a ler Tarot, me aproveitei de cada informação, resolvendo coisas ha muito abandonadas na minha vida. Um dia, minha irmã mais velha tornou-se uma mística... mais tarde um pouco, me ligou perguntando alguma coisa e eu disse a ela que não fazia a menor idéia. "Como assim? Foi você quem me ensinou tudo o que eu sei!" Foi? Nossa...eu não sei mais nada disso.
Nesse mesmo clima de "preciso saber" aprendi inglês sozinha...só porque eu quis. O Francês que eu aprendi na escola, esqueci. Mas costurei. Muito ajustei meus próprios jeans. Já fiz enfeites de natal de matelassê com moldes próprios: papai noel, anjinho, botas, estrelas, pinheirinhos...além de fofos e recheados, eles tinham bordados e apliques. Duraram milênios. Foram feitos há 25 anos e minha mãe ainda tem alguns. Se hoje eu sentar na máquina de costura, embolo toda a linha e sequer consigo traçar uma linha reta. Esqueci!
Já pintei cerâmica, fiz vasos, pintei madeira, fiz suplats de natal, coisinhas country, já fiz pátina em móveis, já fiz blusas de tricot trabalhadézimas, já fiz cartões com colagens incríveis, já fui a melhor em cabalhota sem as mãos...já fui fotógrafa - vocês lembram!

E todas as coisas que eu sei, todas as que já fiz, todas elas vêm e vão, como se não passassem de uma necessidade momentânea. Eu aprendo rápido. Eu esqueço rápido. A única coisa que veio e nunca mais se foi, parece ser essa necessidade de escrever e pensar e especular e viver sonhando. Todo o resto é passageiro e vem preencher um espaço, quando o espaço existe.


Tocando Violão - By Zanicotti, 1974?
Fada - foto 2005

Vela - falta do que fazer 2003
Natal - idem, 2004

sábado, junho 28, 2008

Em algum lugar da galáxia...

Por SMS, mãe e filho conversam:

Me: Vem almoçar!
Diogo: Vou.
Me: To indo pro banho.
Diogo: Ok...logo mais
Me: O q?
Diogo: Eu
Me: Ta vindo?
Diogo: Ta
Me: Que língua é essa????
Diogo: Simpolês
Me: Shhhhh...Os terráqueos podem ouvir...



(família normal é tudo de bom...)

terça-feira, junho 24, 2008

Dias atrás, no reino de Mercedes...


Ai ai...isso foi um suspiro sim.
- Quantas vezes você chorou hoje, Mercedes?
- XIII...

Ah, claro, aquilo ali pode ser algarismo romano e não seria exagero porque hoje foi dia de manteiga derretida, de lacrimeiro solto, e de emoção transbordante - literalmente.
Começou ouvindo pela enézima vez no mesmo dia "Thank You", do Led Zeppelin, num cover do Chris Cornell. O que é aquilo? Uma música feita pra mim? Sim, porque eu sou aquela mulher (pode me chamar de convencida). Eu sou tudo o que um homem pode querer para ter ao seu lado até o fim dos seus dias, sem tirar nem por, porque eu sei o quanto está em falta por aí alguém que não seja cheia de regras, de direitos iguais, de chatices, sandices, e uma cartilha chatérrima de queros e não queros, podes e não podes, quandos, porquês, não-ouse's, ciuminho besta, etc. Eu sei que a fôrma que fazia mulheres que respeitavam seus homens como indivíduos e chefes (mesmo que pseudos) de suas famílias já foi jogada fora faz tempo. Ta...sei também, porque já faz tempo que meu próprio marido tocou essa música pra mim. Ha! Melhorou?
"Your hand in mine, we walk the miles", não é a melhor coisa do mundo pra se dizer ou se ouvir? E lá pela quinquagésima vez no repeat, eu desabei em lágrimas.
O dia passou e eu esqueci de ler o blog do Felipe Iubel, já era noite, eu corri pra lá porque ele é carente e ia ficar triste se eu não comentasse. Sim, claro, acabei de dizer que eu sou a mulher ideal, e a mulher ideal realiza todos os desejos de seu amo e senhor, mesmo que ele seja só um amigo. O que aconteceu lá me deixou no chão. O Felipe escreveu um texto que descrevia a ele metade do tempo, e a mim a outra metade. Claro que não de propósito. Ele estava falando dele mesmo mas parecia eu pensando. Parecia eu escrevendo quando estou exausta de dar murro em ponta de faca e ser sincera demais, verdadeira demais, dar a cara a tapa, me despir de orgulho próprio, ser muito mais burra do que nasci pra ser, e me expôr a sentimentos despresíveis como rejeição, sensação de não bastar, de ser menor, de simplesmente não ser capaz. Toda aquela verdade escancarada, como se ele tivesse rasgado o coração e procurado com os dedos sujos de sangue cada palavra para escrever, me fez chorar de novo.
Aí pensei como as relações andam difíceis hoje em dia. Meu deus! Em que cartilha está escrito que ser intenso é crime? Quem estipulou os prazos para telefonemas, mensagens de texto, presentes, visitas relâmpago? Onde compra o novo código penal para ficar sabendo quantos anos de solidão acompanhada alguém precisa viver para ser livre para se apaixonar de verdade? Sim, porque paixão virou crime! Não ouse mostrar para a pessoa aquela que você está se apaixonando...isso pode afastá-la para sempre. Uh? O que aconteceu com as pessoas? Lembra da moça na janela corando ao ver o moço que passa em frente à sua casa? Lembra das cartas de amor? Lembra quando a gente recebia flores? Lembra quando um beijo na boca na porta de casa determinava que um casal ia, com certeza, se ver de novo? Era tão melhor, tão mais fácil, tão mais bonito...
Então, no meio de todo o meu lacrimeiro solto eu tive algum lampejo de raciocínio e percebi que eu não preciso mais de nada disso. Ufa! Gente, como eu já sofri por amor...meu pai! Ninguém merece.
Eu tenho pena...tenho muita pena de adolescentes e solteiros, porque eles se julgam livres, acham que se divertem horrores, pensam que enganam alguém...Mas eu sei, eu sei muito bem o que acontece quando eles deitam a cabeça no travesseiro e têm seus últimos minutos de lucidez antes de se deixar abater por um sono profundo...Eles sonham como a moça da janela. E é solitário demais. Já era antigamente. Agora, com todas essas normas, deve ser quase suicida!

Deus me conserve casada!



Felipe Iubel é aqui
e o texto aquele é aqui

quarta-feira, junho 11, 2008

Coisas da Vida #6


Era muito óbvio que ela não era normal. Tinha um par de olhos brilhantes que, na verdade, brilhavam muito mais do deviam e isso, logicamente, não podia ser normal. Pessoas são felizes, mas são felizes dentro de um limite concebível e não tão descontroladamente que possam andar por aí com os olhos brilhando em todas as ocasiões, como se fosse uma roupa, um brinco, um par de sapatos. Até mesmo um par de sapatos tem a ocasião certa para ser usado.

E de onde então poderia vir aquele brilho? Pois pasmem...dos olhos. Sim, dos próprios olhos e de sua habilidade de enxergar o mundo de uma forma que só ela enxergava. O mundo? Vamos falar a verdade: os habitantes do mundo! Nunca, um só dia da longa existência que lhe foi dada, ela manteve os olhos fixos em uma pessoa só. Nem mesmo no maior amor de sua vida. Seus olhos sempre buscaram outras paisagens, outros olhos, outros corpos para desejar, outras bocas para sonhar. E era esse o brilho aviltante, ultrajante, revoltante, que ela tinha no olhar.

Seus alvos não eram escolhidos com um critério. "Éramos olharmo-nos intacta retina" ... e pronto. Era juntar olhar com olhar, e dependendo de como aqueles olhos brilhavam, a escolha estava feita. O estranho é que nenhuma palavra era dita; nenhum gesto mais óbvio; era aquele olhar e fim, como se impressões digitais se encaixassem, num episódio de CSI. "Você é meu alvo", "Eu quero ser". E dali começava um jogo de sedução nem sempre bem sucedido, mas que sempre alimentou o brilho ousado daqueles olhos incríveis.

Foi assim que ele foi escolhido. Ah, mas como ela quis que tivesse sido ao contrário... Pela primeira vez, ela quis ser a presa hipnotizada, fascinada pelo olhar do predador. Predador menino aquele, que aparentemente não oferecia risco, mas exalava perigo pelos poros da pele morena que cobria o corpo perfeito.
Ali estava ele, exposto sem saber, como a promessa de sonho longo e de castigo cruel. Desejo que não brilha, mas lateja. Uma história sem fim e sem meio, mas cheia de palavras de intenção duvidosa. The ultimate conquer! O mais flamejante dos troféus. Mas não aconteceu. Ela perdeu a batalha, acabou desistindo, seus olhos encontraram outro alvo e fim.

Passaram-se os anos, nem mais uma palavra sobre o troféu flamejante, mas alguns alvos são eternos, ou se invertem, ou a vida gosta mesmo de brincar com as pessoas.
E lá vem ele de novo, com seus poros todos, exibindo no olhar um brilho maior do que o dela.
Já não era mais menino...já tinha outro modo de olhar. E foi assim que ela foi a presa. e ele, o predador. Ela o troféu. Ele o vencedor.
Alguns desejos nunca se vão. Eles só ficam guardados para o dia certo, para a hora exata que chegou.
Ela tinha um par de olhos brilhantes que, na verdade, brilhavam muito mais do deviam. Agora mais.



terça-feira, junho 10, 2008

Precisa-se de Borboletas

Oi, Me!
Estou tão triste, e você sabe, sempre que isso acontece eu corro pra você.
Ninguém mandou ter tanto tempo e ombros largos. Eu preciso deitar a cabeça no ombro de alguém, e you are the one.

Então...minha vida está calma. Meu coração está calmo. Meu trabalho está calmo. Até o CD no meu carro é calmo. Tudo estável. Tudo controlável. Amiga, você tem noção? Isso é um inferno!
Eu não aguento mais tanto equilíbrio! Eu quero minhas borboletas de volta, fazendo arruaça dentro do meu estômago. Eu quero, eu preciso, eu tenho que me apaixonar.
Aff, como eu sou débil mental, eu sei. Você deve estar se matando de rir da minha cara. Enquanto o mundo inteiro toma anti-depressivos, calmantes, faz Yoga, meditação, Heik, terapia de chácras, eu sinto falta da minha montanha russa. Me explica como esse povo consegue viver nessa paz? Quem precisa de paz? Eu preciso de paixão!
Paz não é uma coisa divina...paz é o inferno disfarçado...é morna, é fria, é silenciosa, é acomodada. Divina é a paixão que modifica tudo, que bagunça o chão, que faz a gente andar mais longe, dar mais um passo, sentir-se viva. Ai Me...que saco! eu queria ser normal (ou nem).

Bom, sejamos práticas! Você vai perguntar COMO eu não estou apaixonada...cadê aquela homarada que sempre esteve à minha volta? Cadê? Cadê?
Estão todos aí, Me, no mesmo lugar. Mas ai! Cansei!
Tem aquele diretor de arte gatinho, ta logo ali no meus MSN me olhando as we speak, mas ai que preguiça...quanto tempo faz que a gente fica nessa galinhagem de se provocar pela internet? Já não dava para eu ter morrido de paixão por ele? Se não aconteceu até agora, só por um milagre, amiga. Só se a gente saísse da zona de conforto de olhasse um na cara do outro. Aí sim, talvez, não sei.
E tem aquele bem novinho, lembra? Aquele que era lindo de dar dor de estômago? Aquele de faz tempo? Então...ressurgiu das cinzas, agora super decidido a fazer o que não fez quando devia. Hmm...preguiça. Preguiça porque isso exige um tempo de distância segura, mandando fotinho, recadinho, carinhozinho...Papo furadézimo, falta de assunto, porque a inteligência dele só aparece ao vivo sabe? É inteligência visual (hahahha!). Bom...e assim como o outro ali em cima, se não bateu ainda não vai bater. Não, a não ser que ele deixe de ser mané e me sequestre pra ver no que dá. É, porque dessa vez eu não vou mexer um dedo mindinho para ir ao encontro dele. Ele que venha. Ele que mostre que é homem. Ele que tenha coragem, mas ai...preguiça também. Vai ficar nessa lenga lenga até quando?
E tem o outro. O único que pode vir a ser alguma coisa séria. Tá la, em stand by, cuidando da vida dele com um olho no gato e outro em mim, mas não toma uma atitude. Será que o que os três têm em comum é medo de mim? Ou eu to fedendo?
Será que nenhum dos três consegue ler a placa em letras garrafais na minha testa, piscando em vermelho 24 horas por dia: SURPREENDA-ME! ARREBATE-ME! FAÇA ALGO APAIXONANTE!
Ai que preguiça...ai que tédio...ai que ódio! Meee!! Diz pra eles que eu preciso me apaixonar? Diz pra eles que eu não aguento mais homem sem atitude? Diz pra eles? Eu estou tão cansada de ensinar todos os homens que chegam perto de mim como eles deveríam agir..."Vem cá meu filho que eu vou te contar o que uma mulher espera de um homem." Ah...o que aconteceu com eles? Quem estragou os homens? Eu quero as minhas borboletas de volta.

Help!!

Beijos

Ella

sexta-feira, junho 06, 2008

Questionário de Proust

Então Alice Salles começou com isso de publicar o Questionário de Proust respondido por celebridades. Depois ela mesma - não menos célebre - respondeu. Depois ela resolveu que eu tinha que responder e aí está. Alice venceu!

Com qual figura histórica você mais se identifica?
Maria Antonieta...na coisa de perder a cabeça...

Quem é a pessoa (viva) que você mais admira?
Muita gente…Nelson Mandela, Alejandro González Iñárritu, Martin Scorcese, Claudio Borrelli. Os Rolling Stones, o David Gilmour e mais alguns rock stars que não deixaram o tempo envelhecer suas cabeças…xiii…lista infinita!

Qual é o seu maior medo?
Guerra. Violência. Alzheimer. Mas medo imediato mesmo, eu tenho de altura. Muito. Quase uma doença.

Qual é a característica que você acha mais deplorável em você?
Procrastinar. Eu empurro o mundo com a barriga.

Qual característica que você mais deplora nos outros?
Prepotência, egoísmo, preconceito. Não consigo ver onde alguém é superior o bastante para ser esnobe. “Faz cocô? Acorda com ramela? Então baixa a bola…”

Se você pudesse mudar uma coisa em você, o que seria?
Eu seria menos preguiçosa com os meus próprios projetos.

Qual é a sua grande extravagância?
Delivery. Disk-tudo. Taxa de entrega nunca é cara demais se eu não tiver que ir buscar!

Em que ocasião você mente?
Viajando sozinha. Muito. E outras vezes. E aquelas também. É. Pois é.

O que você considera ser uma virtude fora de moda?
Religiosidade. Encobre a realidade.
Eu vejo as pessoas crendo numa vida irreal demais, fechando os olhos para a verdade, principalmente sobre elas mesmas e isso não é virtude.

O que você menos gosta na sua aparência?
A opulência. Eu queria ter quadril estreito e ossos aparentes!

Que palavras ou frases você usa demais?
Bosta. Life is made of options. Pelo amor da vaca jersey. Vai catar coquinho.

O que ou quem é o grande amor da sua vida?
Minha familia, meus gatos, euzinha, e meu pensamento.

Qual a sua idéia de felicidade?
Ser simples. As pessoas complicam demais, exageram tudo. Ser feliz é bem barato. É uma questão de viver em harmonia com o que você pensa e se cercar de gente que te faz bem. Sublimar o que é chato, valorizar o que é bom. Ou seja…é só uma questão de “onde fixar a câmera”.

Qual é a sua profissão favorita?
Historiador, arqueólogo, arquivista de documentos do Vaticano (ha!).

Que talento você mais queria ter?
Queria cantar. Muito. Com uma voz que hipnotizasse as pessoas e desse a elas a sensação do Nirvana.

Qual é o seu estado de espírito nesse momento?
Elocubrante, especulante, delirante, como sempre.

Se você pudesse mudar uma coisa na sua família, o que seria?
Um pouco mais de paz de espírito para alguns, um pouco menos de normalidade para outros, e um pouco mais de dinheiro para todos.

O que você considera a sua maior conquista?
Quatro coisas…uma muito boba, mas cada um sabe onde aperta seu calinho…lá vai:
1. Ter conseguido mostrar que entre minhas orelhas existia mais do que cabelos loiros; e que eu não era só aquele corpão ambulante e rebolante que desfilava pelas produtoras e agências de propaganda desde os 17 anos.
2. Ter escrito roteiros e histórias com começo, meio e fim, que eu sempre tive muito medo de nunca conseguir.
3. Ter criado profissionais incríveis, e filhos nobres.
4. Ter vencido o "provisório", aprendido a viver o "pra sempre".

Se você morresse e voltasse como uma pessoa ou coisa, o que você gostaria de ser?
Um superstar em qualquer coisa, ou um cientista imortal.

O que você tem de mais precioso (material)?
Um dólar de ouro que eu ganhei dos meus ex-sogros e vivo pensando que eu deveria devolver. Precioso por isso…por que era muito importante para eles e eu acho que eles deram para a pessoa errada. No mais…minha história de vida em forma de textos, fotos, cartas, escritos em caixas velhas, etc.

Quais são os seus nomes favoritos?
Cloe, Amélia, Christopher, Nina…e todos aqueles que eu sempre achei lindos mas agora resolveram fugir.

O que você considera o fundo do poço da miséria humana?
A prisão e as drogas – que são sinônimos.

Onde você gostaria de viver?
Numa casa que eu abrisse a porta e pisasse na areia da praia, de preferência em Venice Beach ou Malibu.

Qual é a sua característica mais marcante?
Rir de mim mesma.

Qual é a qualidade que você mais aprecia num homem?
Inteligência. E isso não tem nada a ver com Q.I.

O que você acha mais importante num amigo?
Os ouvidos.

Quem são os seus escritores favoritos?
Kurt Vonnegut e Charlie Kalfman.

Qual é o seu super-herói preferido?
O único que me fez ver uma série inteira: Jack Bauer

Quem são seus heróis na vida real?
Meu pai e outras pessoas como ele, capazes de viver de forma generosa. E isso não quer dizer dar dinheiro: isso quer dizer dividir a sua própria luz e saber se doar. Num mundo cada vez mais egoísta, isso é heroísmo.

O que você menos gosta?
Saber as consequências de quase tudo, poder ver a cegueira dos humanos, conhecer as pessoas no primeiro olhar. Nada me surpreende. Acho isso um saco.

Qual é o seu maior arrependimento?
Ter me deixado cegar, num determinado momento da vida, mesmo conhecendo profundamente as consequências de uma escolha completamente errada e estúpida. Mas passou. Hoje está tudo bem no reino de Mercedes.

Como você quer morrer?
Realizada e lúcida.

Qual é o seu lema?
Um problema pode me tirar a paz, uma tragédia pode me tirar o chão, mas SÓ EU posso me fazer infeliz.



Vai se arriscar? Responde! Responde!

terça-feira, junho 03, 2008

E o mundo muda!

que eu não esteja enganada...

Amém!




segunda-feira, junho 02, 2008

Ai, meu saquinho!

Então hoje é dia não!
Desde antes de eu acordar uma nuvenzinha preta resolveu estacionar acima da minha cabeça. Já a cama estava estranha...coberta embolada, meio frio meio calor, roupa que incomoda, barulhos não sei de onde...levantei!
Sentei para tomar café com a boa vontade de quem vai ao banco. Já olhei para o meu prato de saco cheio do regime...ahmeudeus! Sete meses comendo ovo no café da manhã? Uma gema e duas claras. Hoje frito, amanhã mexido, depois omelete e eu não aguento mais olhar pra cara do ovo! Aguenta Me, que 12 kilos são 12 kilos e se você se livrar de mais 5, volta a ser a velha e boa Mercedes, que era mais boa do que velha. Ai meu saquinho! Peguei o celular e pensei duas vezes se devia apertar aquele envelopinho que me leva aos e-mails. Apostei com o meu mau humor que se apertasse encontraria os seguintes e-mails:
.Promoção de inverno da Zelo
.Sitemeter pra contar quem entrou nesse blog
.Uns três "replica watches" vendendo relógio falso
.Pelo menos um anúncio de pinto grande. Oops...não...de aumentar pinto pra quem tem pinto pequeno.
.Talvez um Smiles, talvez um Tam, talvez um Apple Store, Amazon, Submarino, essas coisas.
Apertei. Bingo! Não havia nada que viesse de um ser humano de verdade.

Olhei para o jornal com a mesma atenção que se da à conversa com um vizinho...uma página "ah...", vira a página "um-hum", ilustrada "sei...", fechei o jornal como abri e olhei pra lugar nenhum. Assim também olhei para a minha empregada. Assim também para a minha cara no espelho do banheiro. "Oi, eu sou Mercedes e estou sentindo que meus pés estão tocando um buraco negro. Serei sugada?" Eis a questão!
Depois sentei aqui, ainda de pijama, abri o Word e deixei meus dedos se divertirem às minhas custas. E não há de ver que eles escreveram sobre mim? Não há de ver que o que eles escreveram era tão pesado que eu tive que salvar naquela pasta escondida, sabe aquela? Ah....vocês não sabem isso! Eu tenho uma pasta secreta. Ela está no lugar mais imbecil possível com um nome imbecil. Dentro dela tem outra pasta com outro nome imbecil, que tem outra com outro nome imbecil. São muitas e muitas pastas em número suficiente para fazer curioso desistir, até chegar "NA" pasta. E se você conseguir chegar nela, cuidado! Está muito longe de encontrar um tesouro...muito muito longe. Abrir documentos ali pode causar danos irreversíveis. Para você ter uma idéia, o nome da pasta é Lixo Atômico! Sério...altíssimo risco de contaminação.

Well, passado isso, percebi que estou questionando tudo, lembrando fatos terríveis, lembrando frases que eu gostaria de não ter ouvido, cenas que eu gostaria de não ter vivido, analisando as consequências delas todas e... ai meu saquinho! Odeio! Aí eu me olho de novo e pergunto para aquela mocréia despenteada no espelho: "Amiga....fofa...sabe por que eu não faço terapia de regressão? Porque eu não fucking quero lembrar essas fucking coisas!"
E fora isso tem as perguntas existenciais aquelas: o que faz a minha empregada guardar livro na estante de cabeça para baixo? E por que o meu hidratante migra para outro armário todo dia? E por que o queijo está na mesa dentro de um tapeware? eu vou levar pra algum lugar? E por que ao meio dia a sala ainda não está arrumada? E por que os papéis que eu separei estão todos empilhados? E por que o armário do Claudio é mais arrumado que o meu? E por que eu não gosto mais tanto de café? E por que eu estou ficando míope? E por que o meu dicionário ta insistindo que úmido é com H? ...

Aí chega. O jeito é rezar para que o sol apareça e tire a umidade do meu cérebro. Acho que vem do frio essa nuvenzinha irritante...


domingo, maio 25, 2008

Blindness

Quem acompanhou a trajetória de "Ensaio Sobre a Cegueira" no blog do filme, onde Fernando Meirelles manteve um diário honesto e incrível durante os últimos meses, sabe que antes da crítica, do público ou dos produtores, a grande preocupação dele era com José Saramago.
Adaptar uma obra prima é uma responsabilidade gigantesca, e no caso específico de Blindness, um desafio assustador.
Por que? Para quem não sabe, assim que o Fernando leu o livro "Ensaio sobre a Cegueira" há alguns anos, ele quis transformá-lo em filme e tentou comprar os direitos da história, sem sucesso, porque o Saramago não concordou. Os anos passaram, muitos deles...Fernando fez Cidade de Deus, Jardineiro Fiel, ede pois de ter esquecido o assunto, foi procurado por um estúdio para dirigir o que? Ensaio Sobre a Cegueira! É como uma conspiração do destino. Mas conspirações do destino trazem um prazer imenso e junto com ele um peso de toneladas.

Well...o filme ficou pronto, houve um tititi de críticas negativas, outras boas, abriu o Festival de Cannes, tapete vermelho, fotógrafos, coletiva, etc etc, mas ainda não havia cumprido seu objetivo mais pesado: agradar ao autor -- José Saramago.
Céus! o livro ganhou um Nobel! Eu estaria sem dormir há meses! "Olha, seu Zé...ta aqui o que eu fiz com o seu Nobel" e lá fui eu para debaixo da poltrona do cinema, morrendo de medo.
Bem, assim que o Fernando saiu de Cannes, voou para Portugal para finalmente mostrar o filme para o Saramago. E aí saiu na Folha um texto do Fernando contando como foi este encontro, e eu morri de chorar.
Agora, olha só...alguém filmou a reação do velhinho quando acabou de assistir o filme...e adivinha? Morri de chorar outra vez!
Se é permitido sentir muito orgulho de um Brasileiro (eu já disse isso aqui), repito : Tenho o maior orgulho do Fernando Meirelles. Não só pela obra dele, ou pelas portas que ele abriu e deixou abertas para nós, mas pela pessoa que ele é - simples, linda, e exatamente como era muito antes da fama.

Veja a reação do Saramago ao terminar de assistir Blindness.



Não é demais?

Bom dia.


Diário de Blindness
Encontro com Saramago

sexta-feira, maio 23, 2008

Antigamente era mais fácil?


Então o que é envelhecer?
Na minha cabeça, envelhecer é "não saber". Envelhecer é pensar que "é muita informação", que "o mundo mudou", que "no meu tempo era mais fácil."
Não...no seu tempo não era mais fácil. Era tudo muito mais difícil. Tudo o que você precisava, você tinha que sair para comprar. Seu carro andava menos, com mais barulho, gastando mais combustível -- e combustível caro --, seu dinheiro era mais difícil de ganhar e valia menos, e se você batesse o carro no caminho, precisava de uma ficha telefônica para avisar a alguém. Ah...claro...se a apólice de seguro não estivesse com você, não tinha como localizar as suas informações para saber se era possível mandar o guincho. Era tudo mais difícil e a gente sobreviveu. Se você ficasse doente não pagava contas; hoje você faz tudo na internet e só vai ao banco se quiser. Sem celular, sem computador, sem internet, sem delivery, sem cartões magnéticos, sem comunicação. A gente se falava por tambor, lembra?
- Telefonista, eu queria uma ligação para o Rio de Janeiro, o número é xx-xxxx.
- Pois não. Assim que eu completar a ligação eu retorno para a senhora.
Ha! E a gente sobreviveu.
As fitas k-7 enrolavam no toca-fitas, os vídeos k-7 tinham só uma cabeça, o cinema era caro pra burro, a locadora só faltava pedir avalista, telefone era um bem caríssimo que alguns até alugavam, tudo demorava muito, tudo tinha muito papel para preencher e muitos lugares diferentes para entregar. Os alimentos não tinham prazo de validade, não existia nada longa- vida, nada congelado, nada que facilitasse alguma coisa, os carros não tinham cinto de segurança, air bag, CD player, computador de bordo, e GPS era coisa de filme futurista.
E a gente sobreviveu.
Antigamente era mais fácil? A minha irmã Pat conclui: "Mais fácil porque se a mulher não quisesse pensar não precisava. Hoje ela não tem desculpa." E eu nem tinha pensado por esse ângulo. Sábia conclusão!
Era difícil demais. A gente morria de saudade de quem estava longe; hoje a gente fala com todo mundo em tempo real. A gente morria de preocupação com os filhos e com os pais, hoje a gente manda uma mensagem pelo celular e eles respondem na hora. A gente compra uma passagem barata para alguém que está há 500 km sem precisar ir até a agência de turismo, mandar um PTA que não chega e ainda correr o risco de ter alguém na mesma poltrona. Antigamente era mais fácil? E a "ordem de pagamento"? Jesuzinho...que trabalheira!

A vida está mais fácil e todo mundo tem mais tempo para outras coisas, mas existe a mania chata de reclamar da correria da vida. Sempre foi uma correria! Eu não lembro de ver meus pais não correrem. Não lembro de não correr. Viver sempre foi uma correria, só que antes com serviços lamentáveis. Hoje você corre, mas a locadora já entregou seus filmes em casa, você corre mas consegue falar com as pessoas no caminho, você corre mas o jantar está encaminhado, você corre mas lê seus e-mails no telefone e tem sempre alguém pra te entregar uma pizza.

Por isso tudo, cada vez que eu escuto alguém dizer que não se dá bem com computador porque é coisa de gente maluca; que internet "é demais para a minha cabeça", que "meu celular só precisa falar porque eu não entendo tanto botãozinho", "eu não tenho TV a cabo porque só passa porcaria", eu tenho muita pena. Tenho pena de cérebros estagnados. Tenho pena de quem vê o trem passando e acha que na estação está melhor.
E eu falei tudo isso só para contar o quanto eu estou orgulhosa da minha mãe. Há um mês ela iniciou uma batalha incrível contra um computador e está fazendo progressos. Aos 78 anos, sendo que seu último contato com a tecnologia foi um telégrafo e uma máquina elétrica de datilografia, ela resolveu que vai dominar aquela máquina dos infernos, e está quase lá. Já entra na internet, fala no msn, lê seus e-mails e descobriu as pastas de foto que eu deixei no computador sem avisar.
Eu acho que isso é se recusar a envelhecer. Não estou falando de rugas, de marcas, de aparência. Estou falando em participar do mundo onde se vive. Com tanta gente da minha idade admitindo que "é muito para a minha cabeça", eu só posso me orgulhar de Dona Marília.

Tenho dito.


Agradecimento especial a Pat Zanicotti que colaborou com o texto sem saber. :)