sexta-feira, novembro 14, 2008

Eu mereço!


Foi feita uma pesquisa na Inglaterra ano passado que constatou que entre as coisas mais chatas do mundo estão: 1. Telemarketing 2. James Blunt, nessa ordem. Eu estou pensando seriamente em ligar pra quem fez essa pesquisa pra dizer que eu concordo, mas até jogaria o James (You're Beautiful, Same Mistake, clipe chato, voz insuportável, música enlouquecedoramente repetitiva) para terceiro lugar só pra poder incluir corretor de imóveis. Como diria Cersibon: "Meldels!!", que saco!
Funciona assim: um dia você e seu marido se olham e dizem um para o outro.
- Será que não era bom a gente dar uma olhada numas casas ou nuns terrenos pra comprar?
- É...talvez...

Eles escutam! Juro! Eles escutam pensamento. Escutam o mais remoto desejo que possa passar pela sua cabeça quando você vê uma casa bonitinha..."assim é legal". Ferrou! Não estamos sozinhos!! Em no máximo um dia o seu telefone começa a tocar. Aquele primeiro corretor que te mostrou uma casa para alugar há seis anos, lembra da sua existência. Aquela outra que jura que é tua amiga...mas amiga AMIGA, de ir junto no banheiro e segurar a sua bolsa...de pedir O.B. emprestado no meio da festa...essa também surge das cinzas e não para de ligar.

Mas até aí tudo bem, já que você queria mesmo ver uma casa. O problema não é nem esse. O problema é que você diz que tem, por exemplo, 100 reais para comprar uma casa. Ótimo...eles ouviram, eles anotaram, eles entenderam, mas misteriosamente eles só te levam para ver casa de 200. Deve ser um truque de psicologia alá Lair Ribeiro, para você ir para casa arrasado se achando a criatura mais pobre do mundo, pedir pelo amor de deus pro corretor te ajudar a encontrar algo que você possa pagar, e a partir daí aceitar qualquer coisa. Tipo hospital sabe? Um velho amigo dizia que quando você entra no hospital, a primeira coisa que fazem é uma lavagem intestinal, assim você perde completamente o amor próprio e depois disso permite tudo.
Fora o truque da casa que não é para o seu bico -- que na verdade na verdade é porque eles acham que você tem mais, mas não quer contar -- eles nunca levam você para ver uma ou duas casas. São cinco, seis, e a maioria está ocupada, o que faz com que a visita seja mais longa, uma conversinha aqui...uma explicação ali... "Esse dormitório pode virar suíte se você quebrar essa parede, mas meu marido não quis, porque a mãe dele blablabalbla..." "Só um cafezinho..." No fim do dia você está podre, não sabe mais que casa era qual, qual custava quanto, e se ouvir o telefone tocar vai defenestrar o coitadinho com medo que seja outro corretor. Sabe aquela sensação esquisita de estar numa excursão com 35 secretárias executivas que usam perfume doce de manhã? Você se vê ali no ônibus, escuta o assunto delas, vê a tralharada que elas compraram e pensa "Jesus, eu quero morrer!"? É bem assim.
Mais ainda tem o Blablabla: a casa é bonitinha...mas é cheia de mármore bem brega, você chega na sala e a primeira coisa que vê é um muro de 20 metros no fundo do quintal, o andar de cima parece um apartamento, os banheiros são ridículos de tão pretenciosos, e ela custa aquele seu dinheiro vezes três.
- WHAAAT? Por que?
- É no condomínio X...!
- Espera...é no condomínio X! Isso quer dizer terrenos pequenos, não tem como abrir uma janela sem dar de cara com alguém que não mora com você. Hello?
E se a casa é no condomíno Y, a desculpa para o preço varia: "Mas esse condomínio está na moda! Até o (espaço reservado para nome de celebridade brega) mora aqui!!" Mas quando você fala que viu uma casa boa no condomínio Y e estão te empurrando aquela do X, a história vira:
-"Você não quer morar no condomínio Y! Aquilo tá super desvalorizado..."


Blablablabla.
E o incrível é o mal gosto latejante! Eu avisei! Há 15 anos, quando eu disse que essa história de espalhar o axé por aí, achar que a brasilidade está "na boquinha da garrafa", e que Funk carioca é uma manifestação musical válida...eu avisei! Eu disse que assim que a Viviane Araújo e a Carla Peres ganhassem um Jaguar, a classe média ia usar calça branca. Eu avisei! Pois tá aí...usa. Usa calça branca e mármore na sala, no banheiro, na cozinha, na churrasqueira (oops! espaço gourmet)! Muito mármore, colunas na fachada, muito corrimão dourado pra "orná" com o mármore...Aí o corretor diz "olha o acabamento dessa casa!" e eu penso "a pessoa gastou uma fortuna pra encher isso aqui de coisas que eu vou tirar. Se não fosse isso, dava pra comprar a casa por "dez real", parcelado em 48 meses e tava tudo lindo".

Moral da história: se um dia eu quis matar todos os atendentes de suporte técnico, hoje eu viro a minha mira para os corretores de imóveis. De todos os que falaram comigo, só um foi honesto, competente, direto, claro e não me fez olhar em volta para ver se eu não tava numa concessionária picareta de carro usado. Para minha surpresa, não usava gravata nem perfume doce. Era uma pessoa com cara de quem trabalha, roupa de quem dá duro, e o carro todo ferrado. Morte a todos os outros!

Bom fim de semana.

quinta-feira, outubro 30, 2008

Mudanças

"you're everything I'm not
but I'm anything, I'm anyone you want."

Foo fighters



Poucas pessoas têm o poder de decidir que “a partir de agora, eu sou o que e quem você quiser que eu seja”. É preciso ser camaleão, é preciso ser moldável, maleável, adaptável, e eu não vejo muita gente ter essa capacidade hoje em dia. Ao contrário, vejo cada vez mais pessoas feitas de aço por fora, com uma couraça cobrindo qualquer músculo que sente, e feitas de coisa nenhuma por dentro. Tão rígidas, tão certas de si. Tão cheias de regras sobre quase tudo.
Essas pessoas diriam: "eu sou quem eu sou e quem quiser que me aceite".
Uh-huh…ótimo, se você souber mesmo quem você é, antes dos 40, o que eu duvido muito; ótimo se o tempo não passar e você começar a ter surpresas. Vamos a uma pequena lista de possibilidades.

1. Você casou com aquele pobre coitado que tem que aceitar todas as suas “house rules” e vice-versa. Teve só a quantidade de filhos aceitável dentro das suas regras. Esses filhos cresceram. Lá pelas tantas, um deles aparece grávido. MUDANÇA DE CURSO ALERT! Tudo bem…o problema é meio que dele/a, você não estava lá na hora que ele/a virou os olhinhos, porque teria de estar agora? Sei, claro…se você não considerar que eles ainda não têm idade suficiente pra ter um trabalho bem remunerado e talvez você precise dar uma força com o enxoval dos SEU NETO. Ah…você esqueceu que essa criança seria sua neta? Desculpe lembrar…
Então, sua filha tinha esse namorado da idade dela, fazendo faculdade, estágio mal remunerado, e agora ela vai ter um filho, vai ter que trabalhar também, a familia dele tem um apartamento que dá pra eles ficarem, mas não existe grana para uma babá, uma creche, uma enfermeira, whatever. Puxa….parece que aquela pessoa cheia de regras vai ter que mudar um pouco, não? O seu dia todo planejadinho vai ter que mudar um pouco, a sua realização pessoal finalmente atingida, vai ter que ficar pra outra hora, porque das oito ao meio dia e das duas às sete, o nenem vai precisar ficar com você. Ele não vai mudar a sua vida, afinal, ele conhece as regras da casa! Só vai fazer cocô, chorar, querer brincar, comer, engatinhar metendo o dedo nas tomadas quando você mandar.
Justo agora que você já tem 45, os filhos cresceram e você pode fazer só o que quer…justo agora…

2. Você é linda e se casou - sim, essa possibilidade varia muito pouco – com um cara atlético, bonito, bem de vida, tudo o que mamãe sonhou para você, e você não ficaria jamais com um homem relaxado. Impôs todas as suas regras, alimentares inclusive, proibiu o coitado de deixar as meias no chão, ensinou a baixar o acento do vaso sanitário depois de fazer xixi. Ele cozinha para você aos sábados, joga futebol com os amigos nas quartas, (sim, ele também tem as regras dele), você não quer cachorro, ele não quer calcinha no box. Tudo lindo…uma perfeição só. Um dia, durante o jogo de quarta-feira, ele passa mal e vai para o hospital. Putz! Um derrame…Ele demorou um pouco para ser atendido, vai precisar de muita fisioterapia, T.O., RPG, fonoaudiólogo, comida pastosa, cama especial, cadeira de rodas…e não se sabe ainda que tipo de sequelas ficarão. Puxa…de uma hora para a outra, as meias pelo chão fazem falta. Tudo o que ele quer é poder ANDAR até o box e encontrar uma calcinha; e por que não comer uma picanha lá fora, FALANDO alto e jogando um pedaço para o cachorro? Quanto tempo se perdeu com picuínhas? Quem podia imaginar que, agora, não importa mais o quão linda você é, mas o quão adaptável você pode ser às necessidades do homem que você escolheu para amar? Basta saber se o amor pelo homem atlético perfeitinho era suficiente para amar o outro, na cadeira de rodas, precisando de você para ir ao banheiro.

3. Você é um executivo super ocupado que não tem tempo para besteiras e ensinou a sua família que o seu trabalho é prioridade máxima, já que sem ele você não pode dar o conforto que eles têm. Seus planos são ter dois milhões de dólares guardados até os 35 anos, plano esse que você encasquetou aos 16 e não há NADA que tire você deste curso. Você é um trator para o trabalho, em todos os sentidos, inclusive na remoção de obstáculos. Seus filhos são inteligentes, sua mulher é compreensiva e trabalhadora, consegue dar conta das crianças, do trabalho, da casa, e nunca faltou uma camisa passada para você vestir de manhã. Mas numa dessas manhãs, voltando do supermercado, um caminhão desgovernado… sorry, ela não resistiu aos ferimentos, se foi.
De uma hora para outra, sua vida virou de pernas para o ar, seus filhos ficaram desamparados, as camisas não estavam lá de manhã, e o trabalho não pode mais ser a sua prioridade, porque aquelas crianças precisam desesperadamente de apoio, e você ídem! Seus dois milhões de dólares não deixaram você dar a atenção que queria para a mulher que fez tanto por vocês. Seus dois milhões de dólares não deixaram você ver que seu filho mais novo é inseguro e sofre bullying na escola. Você tem 35 anos e algum dinheiro no banco, mas aqueles dois milhões de dólares não tinham a importância que você pensou.

4.Você é fodona. Tá ótima sozinha e “deus me livre casar, pra que?” Quer viajar, ser livre, conhecer o mundo inteiro, fazer amigos de todas as cores, raças e religiões, ir para onde quiser na hora que quiser, e não nasceu ainda o homem que vai conseguir te segurar. Ai que delícia! Só que numa das suas viagens, você conheceu um cara super legal, bom amigo, bonitinho até, uma graça, mas…nossa…muito diferente de você! Ele é fazendeiro na Austrália, não sai de lá de jeito nenhum. Tem que cuidar do gado, da plantação, dos cangurus, sabe lá do que mais, mas a última coisa que ele pensa é em deixar a calma do campo pra viver feito cigano por aí. No way! O máximo da agitação pra ele é um rodeo que acontece na cidade uma vez por ano. É uma boa agitação, porque junto com o rodeo tem leilão de gado e ele faz um bom dinheiro com isso. Imagina…até que seria legal ficar com ele, mas você não se vê de chapéu e bota, dirigindo uma pick up pra levar seus quatro filhos loirinhos de olhos azuis para a escola. Deus me livre! Tá! Você imagina o resto... Inclusive o rodeo.


Então crianças, sinto informar que não há na vida o que nunca mude! Nem mesmo as regras da casa. E aqui do alto da minha idade avançada, deixa eu contar que tudo, absolutamente tudo, muda! Se não for a pessoa que você ama a sair bagunçando tudo o que você um dia pensou, serão seus filhos. Se não forem eles, seus pais quando estiverem velhos, se não eles, um irmão, um sobrinho, um acidente, um prêmio de loteria, uma pessoa que você cruzou no avião bem quando tava tudo calmo…aff! Desculpa dar uma notícia dessas, mas a verdade é que o universo está SIM em movimento e a sua vida faz parte dele.

Bom dia!




quinta-feira, outubro 23, 2008

Jack & Mônica - outra hipótese I

"And when I touch you
I feel happy inside,
It's such a feeling
That, my love, I can't hide."
Lennon & McCartney

Eu fui jantar com a Wanda e as filhas -- Katlin e Heidy -- e os respectivos namorados. Três casais e eu, sozinha. O garçom serviu as bebidas, um dos meninos pediu um vinho, o que deixou a Wanda tensa, porque ela anda muito sem grana e não é bem assim tomar vinho francês em Los Angeles.
A gente estava lá conversando quando o telefone da Katlin tocou. Desde que o pai dela teve um problema com a polícia, telefone tocando à noite a desagrada visivelmente; sempre esperando o pior. A cara que ela fez quando perguntou: “QUEM??” foi quase assustadora. Depois, de uma hora para outra, começou a falar baixo, levantou e saiu da mesa. Todo mundo estranhou, mas eu me encarreguei de tentar levantar a conversa para acabar com o mal-estar.
Quando a Katlin voltou, estava de testa franzida, cara de pouquíssimo entendimento, sentou e foi bombardeada de perguntas: “Quem era?” “ O que houve?” “Aconteceu alguma coisa?” “Tá tudo bem?”
Ela ergueu os ombros com a cara esquisita e disse. “Tá. Meio surreal…mas ta tudo bem.” O namorado olhou feio pra ela, ela falou alguma coisa no ouvido dele ao que ele respondeu: “Coisa estranha…” E acabou o assunto quando o garçom chegou com os pratos.

Eu tinha dado uma única garfada no meu peixe, quando a Katlin cutucou o namorado e olhou para alguém que se aproximava. Claro que eu percebi, e olhei também.
Ai meu Deus! Eu paralisei.
Não conseguia mexer um músculo, embora quisesse gritar.
Lembra o homem no fundo do mar? Aquele do sonho? Aquele que tentava me dizer alguma coisa e eu não entendia? Ele. De verdade. De carne e osso. De camisa branca pra fora do jeans. De cabelo despenteado. De garrafa de vinho na mão. E nervoso.
Ele parou perto da mesa olhando pra mim, tão paralisado quanto eu. Juro que eu não tinha certeza se eu estava acordada. Fiquei confusa…o que ele estava fazendo ali? Por que estava me olhando daquele jeito? Quem disse que ele podia existir e ainda aparecer assim? Quem é essa criatura, pelo amor de deus?
Ele se curvou um pouco, meio com medo de cair, colocou a garrafa na nossa mesa, me deu um sorriso nervoso, daqueles que abrem e fecham várias vezes sem saber se podem acontecer, falou com a Katlin, sem tirar os olhos de mim nas primeiras três palavras.
- Katlin! Que bom ver você….
- Oi Jack… você veio!
Nessa frase todo mundo olhou pra ela com cara de espanto.
- Gente, eu convidei o Jack pra jantar com a gente. Tudo bem?
E ele:
- Me atrasei demais?

Foi o diálogo mais fake que eu já ouvi.

Mais do que rápido, como se fosse um concurso, a Wanda e o namorado da Katlin começaram a dizer, sem parar, frases variadas para consertar a situação e tentar fazer tudo parecer normal. O namorado da Heidy providenciou uma cadeira para ele, mas ele não conseguiu sentar. Cumprimentou um por um, até chegar em mim.

- Oi, eu sou Jack.

Ele balançava a cabeça num “sim” que parecia querer que eu concordasse, que eu dissesse: “sim, sim, você é o Jack”.
Eu disse o meu nome, e ele repetiu como uma grande descoberta:
- Môooonica…Muito prazer, Mônica…

Não, eu ainda não estava pronta para me mexer. Quando ele esticou o braço para apertar a minha mão, eu precisei fazer alguma coisa para os músculos ouvirem o meu cérebro porque eles ficaram irreversivelmente surdos. (Trombetas: ATENÇÃO NEURÔNIOS, COMANDAR BRAÇO DIREITO! MOVIMENTAR MÃO DIREITA! FORÇAR SORRISO ESPONTÂNEO!”. Ah…quanta energia gasta em três simples gestos: Estica braço, abre mão, sorri. Fiquei exausta só de contar.)
Por alguns segundos fiquei olhando para a mão dele ali estendida. A mão! Aquela mão! Lembra que eu falei que vi a mão dele no sonho e era demais? Pois era demais! Naqueles segundos eternos eu vi todos os dedos longos, a palma grande, o formato honesto das unhas, a linha da vida, a da cabeça, a do coração. Mãos eloquentes…mãos eloquentes…Ele me olhando, a mão esticada para mim, eu paralisada, ai que aflição, se mexe de uma vez!Foi!
Consegui me movimentar e sorrir um sorriso provavelmente idiota, mas pelo menos foi; e aconteceu o mais bizarro: quando meu dedo tocou a base da palma da mão dele, a proximidade produziu um mini raio de energia estática, que a mesa toda viu. O lugar era meio escuro, iluminado por velas, e a faísca pareceu um relâmpago tão forte, que a Heidy deu um grito. Ele soltou uma risada nervosa, e eu não consegui não abrir um sorriso gigante. Ele segurou a minha mão com força e não largou mais.

Isso durou muito tempo. A Wanda tentou mudar o clima da coisa fazendo perguntas sobre a família, “Jack, como vai sua mãe?” coisas do gênero, mas ele respondeu a todas sem largar a minha mão ou sentar. Entre eu e ele estavam Heidy e o namorado, com dois braços atravessados na frente deles. A Katlin perguntou se o Jack não preferia sentar, ele me olhou novamente, de uma forma um pouco mais urgente e respondeu alto demais.

- NÃO! – e continuou mais baixo - Quer dizer…não obrigado. Na verdade eu já jantei, eu só queria mesmo entregar essa garrafa de vinho para vocês comemorarem.
- Comemorar o quê? – a Wanda perguntou
Nessa hora, ele juntou a mão esquerda às nossas mãos direitas, segurando a minha com as duas dele.
- Comemorar....o encontro.

Aquilo tudo era muito surreal para eles. A verdade é que só eu e ele entendíamos o que estava acontecendo ali. Mas agora parecia que o resto da mesa meio que tinha desistido e resolveu ficar assistindo de camarote pra ver onde aquilo ia dar. Foi quando, ainda sem largar a minha mão, o Jack disse:

- Vocês vão me perdoar se eu roubar a Mônica de vocês, né?

A Wanda, como sempre curiosa e indiscreta, perguntou onde nós íamos "sem ela", e ele disse que não sabia, mas que nós íamos, e sem ela. Eu comecei a rir, porque ela merece demais uma resposta dessas, e foi só nessa hora que eu consegui relaxar, deixar meus ombros caírem, e soltar a mão do Jack. Meu Deus, ele olhava pra mim como uma criança, sorrindo com o rosto inteiro, sem nem tentar disfarçar uma euforia imensa que mal cabia no lugar. E eu, ai! Eu nem falava…estava tendo a visão mais incrível. Quantas mesmo são as maravilhas do mundo? Põe mais uma na sua lista.
Jack veio para perto de mim, olhou para a Katlin e disse:

- Katlin, você salvou a minha vida.
Ela olhou pra ele com estranheza, que conversa de salvar vida é essa?
- Sério…eu vou agradecer pra sempre.
E aí ele passou o braço pelas minhas costas, me puxou bem pra perto num semi-abraço e não se aguentou:
- Ahhh! Olha isso! – me apertando várias vezes – você existe! Eu consigo apertar você!
E me abraçou muito muito muito forte. Doeu! Aquele abraço doeu no peito, por dentro, como se estivesse torcendo todos os músculos, como se fosse um espasmo. Eu precisei puxar o ar com força para tentar conter a dor, e ele se curvou um pouco, demonstrando sentir a mesma coisa. Eu olhei nos olhos dele e estavam molhados. Não deu pra segurar nada, e eu também comecei a chorar, tentando não fazer uma cena, -- não chorar chorar, mas as lágrimas saíam sem eu poder controlar, não tinha como, não tinha mesmo. Ele me puxou de novo para abraçá-lo e falou no meu ouvido, bem baixo: “Por que eu tenho essa saudade de você?” Eu enxuguei os olhos dele o mais discretamente que pude, puxei o rosto dele para falar, no ouvido, que eu também não entendia, mas eu sentia o que ele estava sentindo.
A gente pediu desculpas, deu um tchau geral, eu peguei a minha bolsa e disse para a Wanda não se preocupar comigo. Quando ela perguntou se eu tinha a chave, ele respondeu antes que eu pudesse pensar:

- Ela não vai voltar hoje.
Eu franzi a testa pra ele, como se tivéssemos um segredo, mas ele me olhou meio bravo, meio me repreendendo e disse num tom mais grave:
- Você não vai voltar.
Tá, eu que não ia discutir, e nem queria mesmo voltar pra casa da Wanda onde eu estava hospedada há três semanas. A Wanda pediu pra gente contar o que estava acontecendo, e ele não me deixou responder. Disse que a história era muito longa, e que ele prometia contar depois, se tivesse um final feliz.

O Jack pediu o carro para o valet, e foi até o caixa pagar o jantar da nossa mesa. Disse que era o mínimo que ele podia fazer para agradecer o fato de ter conhecido a Katlin na infância e eu ter conhecido a Wanda um dia; de outra forma, nós nunca nos encontraríamos (imagina…a vida daria outro jeito, mas se ele podia dispor daqueles cento e poucos dólares, por que não?).
Eu fiquei na porta, esperando. Minutos depois, ele chegou por trás de mim, me abraçou, enfiou o rosto pelo meu cabelo e falou no meu ouvido:

- Quando a gente sair desse lugar eu vou te beijar tanto, mas tanto, que você vai morrer de beijo. Pode?
Eu ri, mas queria morrer! Você não sabe o que é ter aquele homem com todo aquele corpo que eu duvido que seja criação de Deus -- Deus não faria nada tão absolutamente irresistível – encostado atrás de mim falando no meu ouvido. Eu só consegui responder o óbvio: “Tenta.”
Era como se a gente estivesse junto há muito tempo. E estava, porque já fazia mais de um ano que eu sonhava com ele quase todas as noites. Ele não era novidade para mim, mas eu não sabia ainda a versão dele; ainda não tínhamos começado uma conversa que esclarecesse toda essa energia maluca que tomou conta de tudo, e que talvez fundisse de uma vez a cabeça dos dois.
O carro chegou, o valet abriu a porta para mim, eu entrei e já conhecia aquele cheiro de café, cigarro e perfume, misturado com banco de couro e cachorro. Parece horrível, mas eu juro que não é. É cheiro de carro de Jack, e eu já tinha aprendido a adorar aquilo em sonho, por isso não conseguia parar de sorrir. Ele entrou no carro e arrancou. Acho que dirigiu 300 metros sem falar, virou a esquina de uma rua tranquila, cheia de árvores e cercas baixas, em Beverly Hills, parou o carro, desligou, sentou virado pra mim, acendeu dois cigarros, me entregou um e começou a falar.

- Eu não tenho a menor idéia de quem você é. Eu sei que eu agi feito louco lá, mas não deu pra controlar nada. Era forte demais ver você ali e eu tinha que pegar em você, tinha que te olhar, e ah…você não deve tá entendendo nada!…mas você tá aqui!
Ele pegou a minha mão esquerda, começou a fazer carinho no meu braço, viu a minha tattoo e sorriu.
- Até isso é de verdade…
- Jack…
- Espera, não fala. Deixa eu te contar o que aconteceu, que acontece faz tempo. Você precisa ouvir pra não me achar um doido, até porque a essa altura não tem mais como eu fazer as coisas devagar, tentar não assustar você…e se eu assustei, me desculpa, mas não foge de mim, tá?…quer dizer, se você quiser fugir, eu não vou poder impedir, mas deixa antes eu te contar…
- Jack. Eu não vou fugir, você não me assustou, e acho que eu sei o que acontece…

Ora segurando as minhas duas mãos, ora fazendo uma verdadeira excursão pelos meus braços, sem parar, ele contou.

- A primeira vez faz um ano eu acho. Eu não sei direito quando começou. Eu sonhei com você, e você me pedia pra não esquecer o seu rosto. Só isso, muitas vezes, e o seu cabelo não tinha como esquecer, – mexendo no meu cabelo – era bem assim…

Enquanto ele mexia no meu cabelo, eu mexia no dele, e não tem como explicar a sensação de ter os cabelos dele passando por entre os meus dedos. É muito maior do que simplesmente ter cabelos passando entre os dedos: são os cabelos dele que muitas e muitas noites passaram pelo meu rosto, pelo meu pescoço, pelo meu peito, pelas minhas mãos, mas não eram reais. Agora são.
Ele continuou:
- Depois eu sonhei de novo, outra coisa, e depois de novo, e você foi chegando mais perto, já tinha me convencido a não esquecer a sua cara, e já tinha me dito outras coisas, e eu tinha medo. Me incomodava sonhar todo dia com a mesma pessoa, parecia coisa de gente maluca. Eu comecei a dormir mais tarde, não dormir, beber pra dormir mais pesado, e só baixei a guarda muito depois, na noite que eu toquei em você, e foi real. Então eu quero que você entenda o meu estado quando eu te vi. É você, entendeu? A minha loira do sonho. A mulher que dormiu comigo esse tempo todo, que eu vi todo dia, que eu não sabia se existia em algum lugar do mundo, se tava morta e era um fantasma, se era de verdade, se era imaginação, sei lá. Nem sempre a gente só falou. Nem sempre você só tava lá. Muitas vezes, muitas, inúmeras, incontáveis vezes a gente fez amor. E é mágico...

Eu fiquei sem jeito, mas eu sabia. Sabia de tudo e sabia do sexo, claro, porque ele também não ficava passeando nos meus sonhos, brincando de sereia no fundo do mar para sempre. Ele saiu do mar logo…e logo estava na minha cama.

- Eu sei.
- Sabe?
- Sei tudo, Jack…
- Você também?
- Também. Eu sonhei com você todo dia também, morri de aflição também, desisti de dormir também, baixei a guarda e entreguei a chave do castelo...também.
- Então você sabe…
- O que?

O Jack real tinha uma coisa melhor do que o Jack do sonho: ele era milhões de vezes mais carinhoso. Eu não vou dizer que ele é fofo, porque fofo é ridículo e não combina com um homem daquele tamanho. Se aparecer uma palavra que signifique a mesma coisa sem ser ridícula, eu vou ter prazer em dizer que ele não é fofo. Mas é. Ele é todo olhares e mãos…ele fala com palavras e com os olhos, com as mãos e com os ombros, ele diz o que quer e confirma com o resto do corpo. Ele é todo verdade, todo transparência e tudo o que essa verdade e essa transparência tinham para dizer, é que ele era o homem mais feliz do mundo por estar perto de mim, e não queria deixar isso acabar por nada nesse mundo.

- Que eu não vou desgrudar de você.
- Pergunta se eu quero.
- Eu não….

E ele me beijou. Lembra aquela hora que a gente se abraçou no restaurante e sentiu uma dor estranha, no peito? Dobra aquilo. Era uma coisa aguda, o coração sendo torcido feito uma toalha molhada, quase insuportável e ao mesmo tempo, pasme, trazia um alívio gigantesco. E o beijo? Foi como fechar um círculo que não devia estar aberto. Foi como beber água fresca depois de quarenta dias no mar; como um jato de sangue no cérebro depois de um desmaio. Alívio, volta para casa, terra firme finalmente. Depois, o beijo tornou-se hipnótico, tirando a nós dois do chão, fazendo com que o resto do planeta deixasse de existir e fôssemos só lábios, línguas, e um ballet de nós dois flutuando no espaço... uma droga que faz a pele tornar-se elástica e infinita, cada toque ser multiplicado por mil, fazendo a pele ser a única vida possível.
O Jack afastou os lábios um pouco, segurou minha nuca, olhou nos meus olhos e me disse o que eu sentia:
- Saudade…
- Muita.
- Não vai mais embora…nunca mais fica longe…
E me abraçou como se soubesse o que estava dizendo.

Nós saímos dali e fomos para a casa dele. Assim que entramos, o celular tocou e ele atendeu.
- Oi… desculpa desculpa desculpa! Eu esqueci. Desculpa.
Era uma mulher no telefone, dava pra saber pelo timbre da voz.
- Eu fui comprar o vinho. Comprei e tudo, mas encontrei uma pessoa, nem peguei o vinho…e saí com ela…eu tô com ela aqui.

Ele me olhou sorrindo todo feliz, me pegou pela mão e me levou para a cozinha, abriu a geladeira e pegou uma coca-cola, me mostrou, meio perguntando se eu queria, eu aceitei, ele colocou no balcão, pegou dois copos, encheu de gelo na porta da geladeira, abriu o refrigerante e dividiu nos dois copos.

- Não, você não vai acreditar, então nem vou contar.

Jack me entregou um dos copos, encostou no balcão ao meu lado com as pernas abertas, me puxou para a frente dele me encaixando entre elas e me abraçou, ainda falando no celular.

- Tá. Eu te conto e desligo: é a minha loira.

Eu escutei o grito dela do outro lado.

- DO SONHO?
- Do sonho…
- Como assim? Ela existe?
- Yep. E tá aqui comigo. Beijo tchau.
- Não! Me conta direito!
- Beijo tchau!!!
E desligou o telefone com o maior sorriso do mundo. Eu perguntei quem era e ele disse que era a irmã, que muitas vezes disse pra ele fazer terapia, porque estava obcecado por um fantasma.
Daquele sorriso lindo veio outro beijo, agora mais grave, quase que mais sofrido, prensado, engolido. Ele segurava as minhas costas me puxando para junto dele como se eu fosse fugir, usou as pernas para me prender, grudou em mim. Se afastou do balcão sem dizer nada e, ainda grudado me beijando, foi andando e me conduzindo. Quando eu quis me virar para ver onde pisava, ele me levantou no colo, colocou minhas pernas em volta do quadril dele e me levou para o quarto, nos jogou na cama, me olhou ofegante, tirando a camisa pela cabeça, me beijou outra vez falando dentro da minha boca:

- Deixa eu fazer de verdade o que eu fiz sonhando?

Claro que sim, lógico que sim, se ele prometesse que seria igual, mas eu não pediria uma coisa dessas, porque era difícil prever…De qualquer forma, nada que viesse do dono daquele beijo poderia ser diferente do que eu vi nos sonhos.
Eu fiz um "sim" com a cabeça, e senti o longo e aliviado suspiro que veio de dentro dele. Ele era meu. Não tinha como ser diferente. Assim que eu senti a mão dele levantando o meu vestido, subindo pela minha perna, tive mais certeza. O calor da palma, a pressão dos dedos, os movimentos perfeitos, delicados… As mãos eloquentes do Jack iam começar o seu mais belo discurso.
Se foi um raio que surgiu nas nossas mãos a primeira vez que se tocaram, uma tempestade magnética tomou conta de tudo quando ele entrou em mim. Foi lento, foi constante, foi mágico…Não sei se sei definir aquilo. Foi um respirar mais profundo do que o primeiro de todos, um nascimento, um dar à luz, foi romper a membrana invisível que separa as almas.

Depois de tudo, ficamos assim por um tempo que eu não sei contar…deitados de frente um para o outro, pernas trançadas, meu rosto colado no peito dele, os braços dele em volta de mim. Só o que se ouvia no silêncio mágico, eram as ondas quebrando na praia lá embaixo, e o entrar e sair lento, pausado, do ar dentro de nós.
- Mônica…
- Jack…
- Se eu disser uma coisa que tá engasgada aqui, você vai me achar maluco e fugir de mim?
- Se você continuar dizendo que eu posso fugir, vou.

Ele me abraçou mais forte.

- É que eu acho que eu...
- Fala.
- Não…não precisa.
- Eu sei...
- E você?
Eu me arrastei mais para cima, para olhar no olho dele.
- Mais do que eu sabia que podia.
Ele sorriu, me beijou e repetiu a minha frase:
- Muito mais do que eu sabia que podia…

Ali, na cama listrada pela luz que passava pela persiana de madeira, ficamos contemplando a imagem que por tanto tempo achamos que fosse só um delírio. Eu olhando pra ele, ele olhando para mim. Aos poucos, nossos olhos se renderam ao sono, foram ficando pesados, pesados, até se fecharem.
Pela primeira vez, em trezentos e noventa e nove dias, nenhum de nós precisou sonhar.


end of story

sexta-feira, outubro 10, 2008

Jack & Mônica

"the long and winding road that leads to your door,
will never disappear, I've seen that road before
it always leads me here, lead me to your door."


Lennon & McCartney

Então me diz como é possível? Como essas coisas acontecem com ela, assim do nada, e acabam dessa forma? Se eu contar, parece mentira. Se fosse comigo dariam risada e me internariam num hospício (não que ela não tenha tido vontade de se internar por conta própria). O fato é que coisas assim não acontecem fora dos filmes! A não ser que ela esteja no meio...

Foi um ano inteiro daquela loucura: ela tentando se fazer de normal, mas sofrendo em silêncio para lidar com a obsessão. Não contou para ninguém além de sua terapeuta, que nunca teve um resposta convincente, um diagnóstico, nada. Seria bem fácil dizer que ela era louca, se a coisa não tivesse começado sem querer, de um sonho que ela não pediu para sonhar. Era este o fato que despertava a curiosidade da psicanalista que, ao invés de tratá-la, resolveu ver onde aquilo ia dar. Bem por isso era uma aflição solitária. Todos os dias ela acordava e dormia com o mesmo pensamento, a mesma imagem cravada no cérebro, mas enfrentava o dia-a-dia como se aquilo fosse um preguinho no sapato ou um jeans meio apertado: "é ruim, mas dá pra aguentar".

De todas as pessoas com quem ela conversava, só uma trazia alguma paz. Era Naele - uma amiga que ela conheceu no Facebook, mais velha, escritora, do outro lado do mundo, com quem tinha longas conversas diárias que a aliviavam do peso da obsessão. Naele nem sonhava com a angústia da amiga, conversava com ela sobre política, livros, filmes, roteiros até altas horas da madrugada, até o cansaço ser grande o bastante para garantir uma noite sem sonhos.

Ela apertou o botão verde do Skype e esperou, mas ninguém atendeu. Talvez Naele estivesse dormindo...tentou de novo. Depois de três ou quatro toques de chamar, alguém atendeu o Skype. Não era Naele.
- Oi.
- Oi, quem é?
- Jack. Acabei de chegar e ouvi o skype no escritório...me meti.
- Ah...oi...tudo bem? Cadê sua mãe?
- Boa pergunta...fica aí.
Depois de algum tempo, Jack voltou ao computador.
- Acho que ela foi abdusida!
- hahaha!
- Não tem ninguém em casa. Só eu e você.
- Tudo bem. Eu falo com ela amanhã...obrigada Jack.
- Vai dormir?
- Não, mas vou desligar.
- E eu?
- Que que tem?
- Tão ruim assim falar comigo?

Aquela noite, Jack se encarregou de ajudá-la a dormir de cansada como se tivesse sido encumbido desta missão. Ele ouvia a mãe contar várias histórias da amiga, e já compartilhava de alguma forma da mesma admiração. Foi assim que nasceu o primeiro fruto da amizade com a Naele: as conversas com Jack passaram a ser constantes. Muitas vezes Naele estava no escritório e Jack no quarto, ambos falando com ela, e quando Naele viajava, era Jack quem enchia as noites de carinho e gargalhadas.
De qualquer forma, Jack e Naele eram um paleativo...um pain killer...um tylenolzinho. Os dias ainda tinham 24 horas, e as 3 ou 4 passadas com eles eram nada diante das outras, quando a obsessão voltava com força. A cada pausa no trabalho um search no Google para ler possíveis notícias ou fofocas sobre o alvo de sua obsessão...a cada olhada no espelho uma conversa imaginária; a cada quilômetro no carro uma cena tórrida, um beijo na boca, uma frase matadora, uma vontade de se internar para fazer sonoterapia até o mundo acabar.

Quando ela perdeu uma pessoa querida a dor fez com que a obsessão a deixasse respirar um pouco. Mais uma vez, o alívio da dor morava na voz de Naele e na presença de Jack em seu celular, seus e-mails, suas madrugadas. Jack era perfeito, se não fossem seus três defeitos principais:
1. ser filho de uma amiga
2. ser infinitamente mais novo do que ela
3. não ser aquele que habitava seu espelho todos os dias

De qualquer forma, houve noites em que desligar o computador era a única saída para não cair em tentação. Houve momentos em que Jack se afastou, e ela chegou a sentir ciúmes misturados a saudade e raiva de estar tão longe -- em todos os sentidos. Houve dias em que um novo sofrimento se somava ao habitual, e seu nome era Jack.
E a terapeuta? Nada! A terapeuta deu graças a deus quando Jack entrou em cena. Pelo menos ele era real. "Real? Ele é mais que irreal! Ele é inconcebível! Ele não existe e fim!" Nestes dias, abrir o Google e ocupar a cabeça com a imagem do amor impossível, era o melhor remédio.

O tempo passou e muito pouco mudou. Jack ia e vinha, como se às vezes precisasse se afastar e às vezes não vivesse sem saber da existência dela. A velha obsessão continuava tirando o sono dela e dividindo seus dias entre horas de lucidez e horas de insanidade.

Era Novembro quando Naele convidou-a para passar a semana de Ação de Graças em sua casa na montanha. Fim de ano foi sempre uma época de pouco trabalho e muita tristeza, por isso ela aceitou o convite, pensando até mesmo na hipótese de encontrar trabalho por lá e ir ficando. "Quem sabe os problemas são barrados na imigração e ficam para trás?"

.........................0............................

20 de Novembro.
Ela, seu notebook e sua mala chegaram à porta da casa de Naele, em Mammoth Mountain. O frio era obviamente cortante na estação de esqui, nesta época do ano. Encasacada, enrolada em cachecol, luvas, capuz, ela esticou o braço para fora do carro que dirigia e tocou a campainha do portão.
- Alô?
- Oi, é Mônica*.

O grande portão de ferro se abriu como se fosse a Playboy Mansion, enquanto ela conferia o endereço no e-mail amassado que tirou do fundo da bolsa. Em um ano de conversa com Naele, ela jamais soube que a amiga morava numa casa assim. "Se isso é a casa da montanha, o que será a casa em Los Angeles?" Subiu a longa driveway até a entrada da casa, onde foi recebida por um segurança que abriu a porta do carro e perguntou se ela tinha bagagem.
- No porta malas...
- Eu cuido disso. Seja benvinda.

Surreal...muito surreal. Ela sempre imaginou Naele como uma mulher simples, com o computador ligado num escritório improvisado na copa, a máquina de lavar louça batendo enquanto se falavam...E Jack? Jack para ela era um homem bonito e mal vestido, que bebia cerveja vendo jogo com os amigos num sofá de veludo verde gasto. E por que isso? Nem imagino!
O segurança abriu a porta da frente e disse que ficasse à vontade. Antes que ela pudesse perguntar qualquer coisa, a porta se fechou atrás dela e era só ela e a sala enorme, rústica, com uma lareira quase da sua altura.
- Hello?? Alguém?
Ela foi tirando as luvas e o casaco, começou a desenrolar o enorme cachecol quando uma porta bateu em outro cômodo. Ela largou suas coisas em cima do sofá e seguiu o som, andando pela casa.
- Oie...?
As duas folhas da porta da cozinha se abriram. De dentro delas saiu o que para Mônica era uma assombração. Descalço, de camiseta branca e jeans, cabelo despenteado, veio ele: Mister Obsession em pessoa com seus olhos azuis, sua pele bronzeada, seu sorriso incrível...
- Oi? - ele disse com ar de curiosidade
Ela demorou uma eternidade para poder responder.
- Ta tudo bem?
- Err...oi. Eu...eu acho que entrei na casa errada...eu tenho um endereço, mas acho que...

Mais surreal! Só acontece com ela, eu falei! Ela viajou dezoito horas, pegou um carro alugado e dirigiu um monte, o jet leg fazia com que ela se entendesse cada vez menos. O que aquela criatura estava fazendo naquele endereço? Era amigo do Jack? Era um fantasma? Ela estava sonhando de novo e ia acordar no avião?

- Calma, deixa eu ver o endereço.
Ela não conseguia sequer se mexer.
- Ta tudo bem?
- Não. Quer dizer...não sei.
Ela andou até a sala onde tinha largado as coisas, pegou o papel na bolsa e ele se aproximou para ler.
- Ta certo. É aqui. -- Mas ele franziu as sobrancelhas quando viu o nome no papel. Tirou o papel da mão dela, desdobrou nervosamente, leu o e-mail inteiro. -- Mônica? Você não é a Mônica!
Mais confusa ainda ela respondeu que sim, ao que ele não reagiu bem.
- Como assim? Você ta brincando, ne?
- Não...brincando por que? Eu sou a Mônica. E você ta aqui por que?
- Eu moro aqui. Jack. Eu.

Hello? O mundo caiu!
Jack e Mr. Obsession eram a mesma pessoa? Durante um ano ela esteve dividindo sua atenção entre Jack e Jack, sem saber? Durante um ano ela fazia Jack e Jack trocarem de lugar para aliviar o coração da paixão por um e da obssessão por...ele mesmo?
Mas o nome da mãe do Mr. Obsession não é Naele! Não...é Meredith N. Stephen -- Meredith Naele Stephen -- mãe de Jack Lindermann -- nascido Jacob Stephen-Lindermann -- Hollywood hunk, superstar, parte do top ten list de atores mais bem pagos, um dos solteiros mais cobiçados do showbis. E a terapeuta? Fuck a terapeuta! Agora tudo estava mais do que confuso...ou não.

- Jack? Não pode ser...
Ela riu e se aproximou dele mas ele deu um passo atras.
- Você não é a Mônica. A Mônica é velha.
- Eu sou velha.
- Não é. A Mônica tem a idade da minha mãe.
- Não. A sua mãe tem 62, eu tenho 45.
- Você não pode ta falando sério.
- Que que ta acontecendo?
- Olha pra você. Eu passei um século achando que você era igual à minha mãe e você aparece desse jeito...?
- Que jeito?
- Assim! -- ele apontou pra ela, olhando de cima abaixo -- olha a tua cara! olha o teu corpo! olha tudo...por que que você não...
Bufando furioso, ele comprimiu os lábios com raiva, deu um soco no aparador perto do sofá.
- Jack...calma...por que você ta com raiva?
- To. Eu to odiando você Mônica. Você não faz idéia. Não faz idéia...

Ela nem pode se recuperar do primeiro golpe e já estava tentando entender mais uma parte dessa história maluca. Ele se alterou, falava muito alto, com gestos grandes:

- Você sabe quantas noites eu quis bater a cabeça na parede até parar de pensar em você? sabe quantas vezes eu quase entrei num avião pra ir te falar que "foda-se se você tem cento e dez anos e tá apoderecendo, porque é com você que eu quero ficar"? Você tem noção das coisas que eu passei? Do quanto eu enchi a cara? Eu fui no psiquiatra!
- Jack...
Ele chegou bem perto do rosto dela, com muita cara de ódio:
- Sabe com quantas mulheres idiotas eu saí, de saco cheio porque ia levar 40 anos pra elas chegarem aos seus pés? Sabe quantas mulheres eu comi pra tentar gostar de alguém? E agora você aparece, 20 anos mais nova...
- Vinte anos mais velha que você.
- São 17. E foda-se!
- E amiga da sua mãe.
- Foda-se também...puta que pariu, Mônica, eu virei um lixo! Por que você acha que eu passava tempos sem entrar online? Porque eu tinha que largar você, entendeu? Eu tinha que tentar achar outra coisa pra fazer, que fosse melhor do que ficar me torturando. Mas quer saber? Não tem!
Ela riu e balançou a cabeça...
- Por que você nunca me disse que era o Jack Lindermann?
- E agora, olhando pra você aí, toda bonitona, me dá mais raiva ainda de pensar que você tem aquela paixão idiota pelo cara la que você não diz quem é! Antes okay...você tem a idade da minha mãe e ele deve ser um velho, azar! Mas não é ne? quem é ele, Mônica?
- Jack, eu acabei de chegar....eu to cansada, com jetleg, acabei de ver a sua cara pela primeira vez, ainda nem me recuperei, e você ta tendo o ataque de ciúme mais absurdo que eu já vi!
- Absurdo o caralho, Mônica! Eu to puto! To me sentindo idiota, trouxa, traído pra caralho!
- Jack...
- Por você e pela Dona Meredith que merece morrer! Que ódio!
- Jack...vem cá.-- ela se aproximou dele, tentou abraçá-lo.
Ele se afastou bruscamente, empurrando os braços dela para longe.
- Abraço nada! Sai!

Sem dizer nada, ela virou e foi buscar a bolsa e o casaco.
- Onde você vai?
- Cadê a sua mãe, Jack?
- Só chega de noite.
- Então diz pra ela que eu volto quando ela tiver em casa.
- Onde você vai?
Ela pegou as coisas e foi para a porta.
- Eu volto à noite! - respondeu sem olhar para tras.

.........................0............................

21 de Novembro

- Mãe, cadê a Mônica.
Sem tirar os olhos do computador, uma Naele meio calma demais responde:
- Não sei...você me diz.
- Ela não voltou?
- Você viu ela aqui?
- Mãe eu não acredito que ela não ligou pra você. Fala!

Naele girou a cadeira lentamente na direção dele, pegou a carteira de cigarro, ofereceu a ele.
- Quer?
- Não mãe. eu quero saber cadê a Mônica, só isso.
- Tentou o celular?
- Ela não atende. Você falou com ela?
Ela acendeu o cigarro, tragou, soltou a fumaça muito calma
- Você atenderia, Jack?
- Mãe, ela ta sozinha em algum lugar. Ela DORMIU sozinha em algum lugar. Me diz que você sabe onde ela tá.
- Eu sei onde ela tá, Jack, mas não vou te falar e você também não vai atrás dela.
- Eu preciso.
- Não. ELA precisa de um tempo. Você fez todo o seu comício e não deixou ela falar. Você gritou e esbravejou porque acha que sofreu, meu filho.... mas ela passou por coisas muito piores que você. Ela não tinha comício pra fazer, mas podia ter tido um enfarte a hora que te viu.
- Como assim? Por que?

Medindo as palavras, Meredith contou a Jack o que a amiga disse a ela, chorando, num Café no centro da cidadezinha. Toda a história da obsessão, desde o sonho, até o momento em que Mônica percebeu que estava se apaixonando por Jack e tentou evitar. Todos os conflitos que ela viveu no decorrer do ano por se achar louca, antes apaixonada por uma foto, depois pelo filho da amiga, vinte anos mais novo...

- E o que que você acha disso tudo, mãe?
- Eu acho que vocês dois perderam tempo demais. Você podia ter me pedido pra ver uma foto da Mônica; eu tenho acesso a milhares delas. Você podia ter me dito o que tava acontecendo, eu daria um jeito de vocês se encontrarem antes. Ela podia ter me contado sobre qualquer uma das paixões dela e eu teria ajudado - com qualquer um dos dois...
- Você podia achar ruim ela ser sua amiga, e a diferença de idade, brigar comigo, sei lá.
- Jack...você é o meu filho querido. Ela é a minha amiga querida, e se não fosse, eu não chamava ela pra vir pra cá. São as duas pessoas que eu mais quero ver felizes.

Jack deu um beijo na mãe que o abraçou por um bom tempo.

- Como você é burro, Jack Lindermann...
- Que que eu faço?
- Vai tomar um banho e ficar lindo.
- Mas mãe...
- To falando...vai logo!

Assim que ele deixou o escritório, Naele saiu. Ao entrar no carro, falou com o segurança:
- Minha amiga Mônica vai chegar. Ponha as malas dela na ante-sala do quarto do Jack, sem que ela veja, e avisa os dois que eu volto dia 24 pra receber os convidados.
- Sim senhora. Boa viagem.

Quando a Mônica chegou, a casa estava vazia e silenciosa. Ela andou pelos cômodos sem encontrar ninguém...entrou na cozinha, passou pelas várias salas, entrou no corredor. Havia música vindo de um dos quartos. Foi até a porta, virou a maçaneta devagar, a música aumentou um pouco. Era uma sala de estar com um sofá, TV, fotos de Jack na estante...e outra porta que ela tentou abrir, mas estava trancada. Bateu.
- Jack?
Sem resposta.
- Jack? Abre? Sou eu...
Bateu novamente.
Cléck. A porta foi destrancada.
A maçaneta girou lentamente.
A porta se entre-abriu.
De cabelo molhado, sem camisa, um "meio Jack" apareceu.
- Oi.
- Oi... preciso contar uma coisa que você não sabe.
- Hm...medo das coisas que eu não sei.
Encostados na porta, meia Mônica para dentro, meio Jack para fora, palavras pausadas, frases curtas, os dois falando baixo, quase sussurrando, muito perto um do outro. Jack fingindo fazer pouco de cada frase dela.
- Aquele cara que eu falei...
- hum.
- ...que eu me apaixonei assim...sem volta...?
- Sei...
- Ele tem olhos incríveis...
- É?
- É...e um sorriso.
- hum.
- ... quase a prova de que deus existe...
Jack sorriu, com os olhos brilhando, e provocou:
- Que mais...?
- O corpo dele...
- Que que tem?
Ela encostou a testa no peito dele:
- É muito pra mim...Jack.
- É nada... -- abraçando -- ...conta mais.
- As mãos?
- Que que tem?
- Parece que se eu der a mão pra ele... se a minha mão couber na dele...e cabe, eu posso andar pra sempre, sem medo de nada.
Jack pegou a mão dela, fechou a sua até cobrir a dela, entrelaçou seus dedos. Ela sorriu, com a outra mão engatou um dedo no cós do jeans dele, puxou para perto.
- Mas mesmo que ele não fosse assim, eu...
- Você...
- ...ia ser louca por ele...

Ele puxou Mônica para dentro do quarto
- Vem aqui, velhinha...


Ai ai...
Tem coisas que não acontecem fora dos filmes, mas eu juro: acontecem com ela!
Livre de um hospício, ela agora vivia outra agonia: suportar ser Mrs. Jack Lindermann - a bruxa malvada estrangeira e velha que fisgou o peixe que todas queriam -- revista de fofoca...tablóides...fans enlouquecidas...falta de privacidade... cenas de amor com atrizes lindas e jovens...viagens intermináveis. Mas no fim do dia, todos os dias, ainda era a presença de Jack que curava tudo, e fazia a vida valer a pena.

É a vida que imita a arte, ou a arte que ouve os sonhos dos vivos?


Bom fim de semana.


*Acho que vai ser pra sempre Mônica

segunda-feira, outubro 06, 2008

Escuro

"golden slumbers fill your eyes,
smiles awake you when you rise.
sleep pretty darling do not cry,
and I will sing a lullaby."

Lennon & McCartney


E se ele acordou do sonho com aquela mulher, sem entender onde estava ou o que ela quis dizer?
- É só um sonho.
- É? E por que me acordou, como se eu tivesse que prestar atenção?

- "Não esquece o meu rosto...olha bem...não esquece o meu rosto." Como se fosse possível esquecer.

E se ele acordou e não se lembra, e vestiu uma bermuda, uma camiseta, um tênis e foi correr? E se o telefone tocou dez vezes durante a corrida, e em todas elas ele achou que fosse uma notícia importante que ele não sabia de quem? E se o suco que ele sentou para tomar tinha gosto de coisa nova que ele não sabe o que é? E se toda vez que ele olhou para a cadeira à sua frente, parecia que alguém ia sentar e falar com ele?
- Oi, não esquece o meu rosto.
- Ein?
- Não esquece...

E se ele só acordou depois das dez e não foi correr? E se o omelete estava ruim e o dia parecia começar horrível? E se ele olhou para o quadro da sala e estranhou o rosto da mulher pintado com cores fortes, o cabelo parecia não poder ser tão armado; e ele chamou a empregada pra ajudá-lo a tirar o quadro da parede porque queria outro no lugar, com outro cabelo, com outra cor...como se ele soubesse o rosto que devia ser pintado mas não soubesse onde encontrá-lo?

E se a essa hora ele achar que o dia foi estranho? E se ele achar que falta alguma coisa? E se ele sentir que tem um vazio estragando tudo, que não estava lá ontem? E se todo lugar que ele olhar tiver uma lacuna que ele não sabe preencher?

E se ela deitar outra vez, assim que a noite esfriar, e se ela fechar os olhos de leve sentindo o peito apertar? Se uma lágrima escapar junto com um meio sorriso, como se ela soubesse por que chora e tivesse motivo novo para sorrir? E se o sono pesar em sua cabeça levando a consciência para onde ela não alcança? E se nesse imenso nada negro o rosto dele se formar e a voz que ela conhece entrar em seu cérebro dizendo: "Não esquece o meu rosto..." ?

E se encontros fossem possíveis fora da escuridão?


sexta-feira, outubro 03, 2008

Perguntas que me intrigam

Existem perguntas sem respostas decentes. Perguntas para as quais, mesmo que eu repita todos os dias, encontro semi-respostas, que não me convencem.

. O que faz a minha empregada guardar livro na estante de cabeça para baixo?
. Por que o dicionário da Apple é de português de Portugal?
. O símbolo da medicina - o caduceu - são duas cobras em espiral ascendente em torno de um bastão, vem da mitologia grega (Hermes) e se assemelha à forma do DNA. Quem sabia da existência do DNA na Grécia antiga?
. Onde vão parar os elásticos de cabelo? E os pregadores de roupa?
. Quem disse que o José Mayer é bonito?
. Por que sempre tem Tylenol quando você procura buscopan e o Tylenol some quando você tem dor de cabeça?
. Como encontraram tabaco no corpo dos Faraós, se o tabaco só existia nas Américas?
. Você conhece alguém que ferva algo na chaleira além de água?
. Quem disse pro Edson Celulari que ele fica bonito de sobrancelha tirada?
. Você já vestiu uma bota que não tivesse uma meia esquecida dentro?
. Quem deu o mapa de Orion para os egípcios reproduzirem com pirâmides?
. Por que as pessoas falam sozinhas em novela?
. Eva foi feita de um pedaço do corpo do Adão. Como você explicaria "clone" para índios de uma tribo isolada?
. Alguém acha mesmo que o Q da Globo é de Qualidade? Já viu que, na novela, tudo treme quando bate uma porta?
. Quantos anos o Agnaldo Rayol tinha quando nasceu? Ele já era todo esticado?
. As células-tronco podem ser tiradas do cordão umbilical. Quem avisou para os antigos que eles deviam guardar o cordão umbilical das crianças?
. Por que todos os santos e deuses descem do céu fazendo barulho e cercados de luz?

I carry your heart in mine

e.e.cummings by heath ledger


ou aqui.

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

domingo, setembro 28, 2008

Fragmento (pensando no banho)

Ela estava no balcão, entediada, esperando o tempo passar. Quanto mais tarde saisse dali, menos tempo passaria se dando conta do quanto estava sozinha. Um olhar brilhou do outro lado do bar, por entre todas as mesas, todas as pessoas que conversavam alto, bebiam e riam, e faziam com que ela fosse o único ser solitário de um universo inteiro. Sem saber muito o que ou quem era, ela não pode evitar de virar-se. Do outro lado, ele sorriu discretamente e moveu a cabeça num cumprimento sutil. Ela sorriu de volta, sem mostrar os dentes, e tornou a encarar seu copo de água mineral com gas e suco de limão.
A garçonete passou por detrás dela, puxou uma pequena mexa de seus cabelos crespos, aproximou o rosto de seu ouvido.

- Vai ficar bêbada, Monica.
- Ah vou... - respondeu sorrindo
- Devia. Não aguento mais te ver assim.

Mônica balançou a cabeça sem olhar para trás, num sinal claro de que a conversa não a interessava, e tomou mais um gole de água com gas.
Ao ouvir um pedido de licença, ela afastou um pouco seu banco para a direita, abrindo espaço para uma jaqueta marrom, cujo dono parecia ocupar mais espaço do que lhe era de direito. Incomodada, virou-se para a esquerda pronta para reclamar ou no mínimo fazer cara feia, mas seu mal humor foi interceptado por um sorriso.
- Posso te pagar um drink?
- Não, obrigada. - disse com um meio sorriso querendo escapar, e deu mais um gole na água com gás.
Ele baixou a cabeça, rindo
- Droga...um cheese cake?
Ela abriu um pouco mais o sorriso, sem poder evitar.
- Não...
- Um salgado, um jantar, um café?
- Não, obrigada.
- Flores?
Ela apenas sorriu.
- Carona?
Ela balançou a cabeça negativamente.
- To de carro.
- Uma casa, um castelo na Suíça, um anel de diamante?
- Nada.
- Não é possível...você tem que querer alguma coisa. Não tem nada que eu possa te dar?
Ela virou-se inteira, olhou para ele cuidadosamente observando cada detalhe do rosto, do cabelo, da roupa...
- Não, nada.
- Pena...
Ele se preparava para sair quando ela o segurou pelo braço.
- Mas não precisa ir embora.
- Posso ficar?
- Pode.
- Eu tava me achando um completo loser.
- Losers não usam esse perfume. - e olhando para o barman - dá uma vodka pra ele.
- Como você sabe que eu bebo vodka?
- Eu não sei.
Pegando a bebida, ele disse:
- Você não precisa de nada...mas eu preciso: seu nome.
- Mônica.
- Edu.
Os dois apertaram as mãos, mas quando Monica tentou se desvencilhar, ele segurou sua mão com mais força.
- E se você pudesse pedir qualquer coisa essa noite, e eu pudesse realizar o seu desejo, o que seria?
Ela sorriu.
- Se eu pudesse...hum...um namorado de mentira. Só hoje. Alguém pra fingir que é meu namorado.
Edu soltou a mão dela olhando em seus olhos com estranheza.
- Você não precisa disso...
- Você perguntou, eu respondi.
- Você é linda! Eu não acredito que ninguém...
- Não. Ninguém...
- Não dá pra acreditar.
- Bom, você perguntou. E é isso. Só hoje eu queria que alguém me amasse como eu sempre quis. Me quisesse como eu sempre sonhei. Fosse apaixonado, me surpreendesse...mas...

Ele tirou uma cacho de cabelo do rosto dela
- Por que?
- Porque já passou, eu já tive, acabou, não tem mais.
- Por que?
- Por que o que?
- Ele te deixou.
- Ele estava lá...presente...totalmente presente, e bum. Foi instantâneo, ninguém pôde fazer nada. Se foi. De lá para cá eu não quero. Ninguém vai conseguir que eu....impossível. Mas tem dias...
Com um suspiro longo, Edu afastou o banco alto do bar, pegou a mão de Mônica e a induziu a levantar também.
- Vem cá.
Ela levantou sem entender.
- Onde?
- Vou começar como se começa.
Ele puxou Mônica.
- Dança comigo. Eu sou o seu namorado hoje.

Sem saber reagir, Mônica foi com ele até a pista de dança.
- Que maluca...desculpa Edu. Eu nem te conheço e...você não precisa fazer isso.
- Como não me conhece? Eu sou seu namorado há séculos.
Ela sorriu
- Não sei qual de nós é mais louco.
- Você, claro...ainda bem, senão eu ainda estaria te olhando de longe. Ia ser péssimo. "Quer um drink? um castelo...?" hahaha eu sou patético.

Pela primeira vez Mônica sorriu de verdade, com todos os dentes, vendo nos olhos dele o mesmo brilho que veio do outro lado do bar, minutos atrás.
- O que você quer? - ela perguntou
- De você?
- De mim. Um castelo, um anel de brilhante...?
- Um beijo.

Edu segurou o rosto de Mônica com uma das mãos, puxou-a para perto e beijou sua boca. De olhos fechados, Mônica sentiu nos lábios dele o que já havia esquecido. Entre beijos ela sussurrou:
- Não pode...
- Shhhhh...eu sou seu namorado.
- Só hoje...
e voltando a beijá-la Edu respondeu:
- Impossível...



Fade to black
Sobe música
bye bye.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Fortaleza


Eu reparei que aos 42 anos comecei a construir uma gaiola. Aos poucos fui pintando as grades da cor do céu que me cerca, fui acrescentando um pouco de conforto, boa comida, água fresca, tentando fingir que eu nada construía, e de pedra em pedra, de barra em barra, construí uma fortaleza ao meu redor. Uma fortaleza de paredes sólidas para me proteger.

Nos últimos cinco anos, acho que vivi sim trancada dentro deste forte, tentando me poupar - não me privar - de ver que ali fora alguns maus espíritos transitam para lá e para cá, algumas coisas são feias, algumas pessoas são más. Acho que é isso que meu marido quer dizer quando repete que eu vivo num mundinho cor-de-rosa (deus conserve!). Claro que é.
Pois meu mundinho cor-de-rosa existe sim. Só que deixei janelas abertas nas paredes para que minha voz fosse ouvida.
E foi assim, escrevendo o que eu penso e jogando pelas minhas janelas, que vivi esses anos últimos...como a bruxa do castelo, a fada da gruta, ou a princesa da torre; depende do dia. Foi só quando cheguei aqui, quando terminei de levantar as paredes, que eu consegui gritar mais alto e ser ouvida. Foi só aqui que eu descobri quem eu sou e para quê eu sirvo. Daqui de dentro fiz amigos. "Hello stranger..." isso mesmo, estranhos vindos de lugar nenhum, vindos de todo lugar, vindos do céu que me cerca, e eu posso chamá-los de amigos. Foi daqui que eu pude buscar os amigos deixados para trás, resgatar pessoas que eu sempre adorei, me aproximar delas como a vida lá fora jamais permitiu.
Aí estes amigos estranhos, essas pessoas distantes e ainda tão próximas, falam de luz, de ser imprescindível, de ser única, vêm buscar nas minhas palavras o que às vezes falta às delas...e eu vejo que só depois de aprisionada eu fui realmente livre.

Hoje fazem 47 anos que eu comecei uma busca até então sem fim. Achei.

quinta-feira, setembro 18, 2008

Quem perguntou?

Ninguém perguntou, mas eu vou contar como andam as coisas aqui no reino de Mercedes.

. Toda blusa é uma bata.
. Tem poeira em todos os cômodos.
. Estou dormindo no quarto de hóspedes, porque chegou a hora de pintar o meu quarto.
. Toda calça cai se eu andar rápido.
. Meu closet segue trancado porque agora eu estou com medo que roubem mais alguma coisa.
. Toda vez que eu preciso pegar uma roupa, esqueço de pegar a chave.
. A cozinha tem cheiro de tinta esmalte.
. A escada ainda está forrada com papel craft.
. O banheiro do quarto de hóspedes não comporta este casal espaçoso.
. Meu carro vai demorar quase 20 dias para ficar pronto.
. Meu carro-reserva é uma pulga cujo único feature interessante sou eu.
. Eu ainda fico meio aflita se o Diogo demora pra chegar.
. O lugar preferido do meu marido virou depósito de tinta e roupa fedida de pintor.
. Hoje fiquei sem luz mais de 3 horas.
. Eu não saio de casa antes das 4:30, porque (de novo) tenho medo que roubem mais alguma coisa.
. Meu banheiro está inteiro coberto com plástico preto empoeirado.
. Não treino há quase um mês.
. Sigo comendo mil calorias por dia, mas ontem descontrolei geral e comi pizza. Com certeza, o nome do descontrole era "pintor".
. Desde que roubaram a câmera eu só consegui ir ao médico uma vez.
. Todos os CDs da casa estão dentro de uma caixa plástica gigante e eu nem penso em guardar.
. Estou com a mesma blusa há dois dias, porque esqueci a chave e resolvi vestir a de ontem.
. Não importa para onde se olhe, haverá um rastro dos pintores.

Quer trocar?

sábado, setembro 13, 2008

Contando os dedos

O rostinho dele ainda sujo na sala de parto ainda não saiu da minha cabeça. Eu lá, na minha cesária, esperando que algo acontecesse enquanto o Sena ganhava mais uma corrida e o Galvão - que já era chato naquela época - gritava feito uma gralha na TV...e ele chorou! Aquele chorinho já era ele, e o rosto encostado no meu, tinha olhos que durante muito tempo estaríam enfeitando a minha existência.
Depois de algumas horas, ele veio para o quarto e a primeira coisa que eu fiz foi olhar bem para cada detalhe dele. Abri a manta, tirei o tip-top, quis saber se tudo estava no lugar. De brincadeira, contei os dedinhos. "Ufa...dez nas mãos e 10 nos pés. Tudo sob controle!"

Quinta-feira, 11 de setembro, (já sexta) meia noite e quinze:

- Mãe, eu bati numa pedra na Marginal, não sei de onde ela veio, mas o carro não liga. Arrancou a tampa do carter, não anda de jeito nenhum.

Droga...a gente ia viajar de carro amanhã, mas ainda bem que ele não se machucou...liguei para o seguro, acionei o guincho e o telefone tocou de novo.

- Mãe, ta meio perigoso aqui. Mais quatro carros bateram na pedra...pede pra eles virem logo.

Desliguei a ligação para continuar falando com o seguro, passei o telefone dele para que a moça entrasse em contato, liguei pra ele outra vez...não atendeu. Liguei pro CET pra eles irem pra lá, Liguei de novo pro Di:

- (gritaria..) caralho!!!

Meu coração gelou. Meu cérebro tentou, por alguns poucos segundos, me convencer de que era só uma confusão porque algum outro carro bateu na pedra, mas meu coração não se engana: alguém estava com o celular do meu filho naquela hora, e todas as cenas que eu vi e pensei quase me fizeram morrer.
Impotência! Impotência! Não tem como explicar um filho em perigo. Não tem como explicar que ele esteja em algum lugar que você desconhece, sofrendo, e você não esteja lá para colocar um band-aid, dar um beijo e dizer que vai passar. Não tem como explicar o ódio súbito de quem pode ter colocado as mãos nele, por um segundo que seja. Cada minuto é uma eternidade, cada passo de um lado para o outro é um caminho gigantesco, cada frase da oração que você não sabe parar de repetir é um terço inteiro, uma novena inteira, uma vida inteira, uma promessa, um compromisso eterno com deus ou quem quiser por favor trazer meu filho de volta pra mim. Foi horrível...a maior violência que eu jamais senti. Violência contra a minha alma!

Liguei para a polícia. Não queria ouvir que levaram meu filho. Tive medo de ser tratada com descaso. Tive medo de tudo. O policial me acalmou dizendo que o meu chamado já havia sido atendido porque outras pessoas tinham ligado, e várias viaturas estavam no local. Sim, a pedra foi plantada lá. Sim, era coisa de assaltante.
Perguntei pelo meu filho, o policial perguntou se meu carro era um picasso azul e deu a placa certa. Eu disse que era preto, mas era esse, e ele me informou que já estavam rastreando o meu carro. Mas calma! O carro não liga! "Ah...Então fique tranquila que não levaram seu filho. Ele vai entrar em contato logo." Tranquila? Não existe essa hipótese. Tranquila e filho na mesma frase, num caso desses é, no mínimo, erro de concordância.

O tempo passou arrastado e torturante enquanto o Cláudio foi tentar encontrá-lo, o Marcelo saiu de casa e foi também, o motorista do Cláudio bateu record ao fazer Carapicuíba - Alphaville em doze minutos, e eu não sei quantos recordes de pensamento e esperança eu quebrei. Fiquei em casa esperando alguma notícia, até que o telefone tocou de um número estranho e era ele! Ah! música nos meus ouvidos:

- Oi mãe...ta tudo bem, viu? eu estou com a polícia.

Ai...que dor! Que vontade de me transformar num para-quedas gigante e cobrir o mundo inteiro num campo de força tão poderoso que pudesse deixar todo o mal do universo longe dos meus filhos! Fiquei mais tranquila. Mas horas mais tarde, quando ele entrou em casa, eu queria abraçar e beijar, e conferir. Levaram o que ele tinha: dois celulares, a carteira com cinco reais, todos os documentos e um chiclete. Enquanto um assaltante revistou o carro, o outro fez com que ele se ajoelhasse de costas e manteve a arma na cabeça dele. Depois de pegar o que queriam, mandaram o Diogo correr...ele correu até o carro da polícia que estava chegando na outra pista. End of story.

Tudo acabou bem, pelo menos por enquanto, que eu ainda não sei se ele está bem psicologicamente (eu não estou). Mas o que eu quero mesmo dizer, é que certas coisas não mudam com o tempo. Se eu pudesse, teria tirado a manta e o tip-top, conferido parte por parte para ver se tudo estava lá, depois eu o enrolava bem apertadinho e ficava pra sempre com ele no colo.
Quando ele chegou, eu só queria contar os dedos.

Not a little cake...


importante:
1. atéia que sou, na hora do vamovê eu rezo!
2. a polícia militar de São Paulo, ao contrário do que dizem na TV, é educada, eficiente, extremamemte gentil e eu só tenho a agradecer.
3. a polícia civil de São Paulo tem um serviço de informação no telefone 197 que rocks! E a Delegada Malta da polícia civil é fodona e manda em policial metido que não quer fazer B.O.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Sobre Ex-Provolones Gigantes


22/11/2007 - Mercedes Gameiro toma uma atitude quanto ao seu tamanho incrivelmente avantajado, após experimentar 650 vestidos de avó de noiva, na tentativa de parecer ao menos meio decente numa cerimônica de casamento.

22/01/2008 - Mercedes Gameiro, com 5 kilos a menos, tá crente que tá abafando.

22/05/2008 - Mercedes Gameiro quase pede arrego quando seu peso resolve empacar num número impronunciável dizendo que "não baixa! não baixa! não baixa!"

28/08/2008 - Mercedes Gameiro escuta pela primeira vez o que ela já esperava: "agora chega,! Você era um mulherão e está ficando pequenininha!" Ha! chega nada!

08/09/2008 - Mercedes Gameiro mal se reconhece quando passa pelo espelho e morre de rir toda vez que vê o tamanho de sua própria cintura. Se diverte vestindo roupas que sobram e caem, e anda por aí toda se achando.

A saga do provolone ainda está longe de terminar, mas já é incrivelmente prazeiroso dar de cara comigo mesma, tão parecida comigo mesma antes de não ser mais eu mesma. Entendeu? Ha!


** foto meramente ilustrativa pra dizer: saca a finura do braço da pessoa....eeeeeee!

Meus poetas...

gente que parte sem nunca ir embora


Peu Xavier
*
Poesia estampada nos olhos.

ou são os meus?

*passou dois anos sentado atrás de mim numa sala de aula, abrindo a boca esporadicamente, me fazendo rir invariavelmente. Amigo inesquecível. Fotógrafo querido. Pessoa que não passa.


A tempestade que chega é da cor dos seus olhos...

- Oi.
- Nossa...saudade enorme!
- Nem me fala...achei que não fosse mais te achar.
- Eu também, mas isso não acontece assim.
- Não?
- Só se quiser. Quer?
- Nunca!
- Nunca...
- To aflita.
- Aflita como?
- Não sei, frio na barriga, parece que tem alguma coisa importante que eu não sei o que é.
- Sou eu.
- Hahahah!
- Frio na barriga tipo paixão?
- Não...paixão a gente sabe.

- Você se apaixonaria por mim?
- Um milhão de vezes, vezes mil.
- Mentira.
- Juro. Se desse pra escolher...
- Tipo prateleira de apaixonáveis no supermercado?
- Ahaha! Acho que na farmácia. Paixão ta mais pra remédio.
- Remédio amargo... a gente some anos da vida do outro. Ia doer mais do que curar.
- Eu sei, mas toda volta seria linda.
- Tá lindo agora.
- É.

- Faz um favor?
- Faço. O que?
- Se apaixona por mim? Agora?
- Não precisa.
- Precisa sim.
- Não...de um jeito eu sempre fui meio apaixonada por você.
- Foi nada, nunca me ligou e a única vez que disse que ia me encontrar, me deu um mega bolo.
- Ai, verdade...então acho que você nunca reparou.
- No que?
- Na paixão.
- Na sua? Claro que não, nunca existiu.
- Cego.

- Me diz quando.
- Quando o que?
- Quando você mostrou alguma faísca minúscula dessa paixão mocada?
- Eu não mostrei muito...eu só quase morria, só de olhar você.
- Quando?
- Quando não: quanto! Muito! O tempo todo eu te olhava pensando: "Ai ai...not fair..."
- Mentira, eu que olhava.
- Olhava nada.
- Aquele cabelão...
- Que que tem o cabelão?
- Nossa...um dia eu te mostro.
- Mostra?
- Mostro.
- Promete?
- ...
- Ok sorry.
- Não! eu só fiquei pensando...ia ser genial se você soubesse tudo o que eu pensei...e se me pegasse mesmo da prateleira da farmácia.
- Hmm...
- Sempre quis.
- Ai, não mente!!
- To falando, sempre quis.
- ...
- Me passei?
- Não.
- O que que é o silêncio então?
- Sei lá...passou tanto tempo...
- Passou. Passado...eu to aqui agora.

...


quarta-feira, setembro 03, 2008

Vão-se os Anéis...e parte da alma


Essa semana começou punk. Logo na segunda-feira eu descobri que minha máquina fotográfica foi roubada debaixo do meu nariz. Muito muito debaixo do meu nariz: de dentro do armário que fica atrás de mim na sala onde eu passo 15 horas por dia, todos os dias.
A minha câmera! Aquela que foi comigo para a Patagônia, Madrid, Barcelona, Aranjuez, Los Angeles, New York, Miami, Disney, Roma, Paris, Curitiba, fotografou natais, amigos, mãos, sorrisos, histórias...e esteve comigo aqui em casa, fotografando detalhes da minha vida que ninguém vê. Quando meu filho pediu a câmera emprestado, e vi que o case estava vazio, vazio foi o que eu senti. Em segundos eu vasculhei o cérebro perguntando onde ele escondeu a informação que estava faltando ali. "Eu emprestei para alguém? Eu levei para Curitiba e esqueci lá? Eu guardei em outro lugar?" Não tem como sair daqui com uma tele 300 sem ser visto!! Não tem? Tem! Tem se você for minha empregada ha 4 anos, tiver toda a minha confiança, for uma amiga sem tempo ruim, for alguém que faz parte do patrimônio da família. Tem!
E foi aí que um vazio maior ainda tomou conta de tudo. Eu perdi uma câmera? Nada...perdi muito mais. Perdi uma pessoa, outra vez. Perdi a esperança, outra vez. Outra vez eu criei uma cobra para me morder, e ela entrou na minha vida na pele de pessoa atenciosa e bem intencionada, pobrezinha e tão boa, dedicada e leal. Outra fucking vez!
Quando é que eu vou aprender?
Por que será que aos quase 47 anos eu ainda não aprendi a reconhecer essas pessoas assim que elas aparecem? Ok...não consigo ver (quando é comigo), mas então por que é que quando eu percebo o primeiro sinal de que a punhalada virá, eu não me livro da criatura? E por que depois da primeira punhalada eu ainda acho que as pessoas mudam e que nunca mais farão aquilo comigo? E por que mesmo falhando em todas as alternativas anteriores, eu ainda fico achando que posso aguentar o baque e resolver tudo sozinha, sem dor, sem incomodar ninguém, sem escândalo? Juro que eu não entendo.
A sensação de ser roubada dessa maneira dói na alma, como doeram todas as outras vezes em que percebi que estava sendo usada, que tanta boa vontade e lealdade não passavam de parte de um plano, que havia um interesse maior capaz de usar meus pontos fracos e o meu coração mole para obter o que a pessoa queria, que ninguém está acima de qualquer suspeita, e se chegar a estar, se colocou lá para poder tirar mais de mim.
Uma, há muitos anos, me tirou o que era meu de direito. Outro me tirou parte da alma, quase leva minha dignidade, meu amor próprio, e minha esperança de viver em paz. Outra levou algum dinheiro e uma máquina fotográfica. Nos três casos, eu permiti.

Cadê a terapeuta aquela para me analisar agora que eu preciso?


...

domingo, agosto 24, 2008

Queimando o Protocolo


Definitivamente eu sou velha, rabugenta, elistista, pentelha, preconceituosa, e o que mais quiserem. Aceito. Aceito...mas não aceito que o protocolo de uma cerimônia importante seja quebrado. Toda vez que isso acontece, enquanto um monte de mané acha o máximo, eu morro de vergonha alheia.

Eu acredito no velho ditado "em Roma como os Romanos" e acho que é assim que é certo. Se eu vou numa casa não-fumante -- e os sinais são claros, falta de cinzeiro na sala, etc -- eu não fumo e fim. Porque não é o dono da casa que tem que mudar por minha causa. E isso serve pra muitas coisas nessa vida de meu deus, mas está cheio de gente mal educada por aí que nem sonha em pensar nisso um dia.

Estou eu sentada em frente à TV vendo a final do Volei feminino, fiquei feliz e emocionada com o ouro delas, lógico, foi sensacional! Aliás, eu chorei trezentas vezes durantes as Olimpíadas...E elas chegam para a cerimônia de premiação. Vamos começar analizando a palavra CERIMÔNIA? Diz aqui no meu dicionário:
Pompa e formalidades para maior brilho de solenidades oficiais; conjunto de formalidades de civilidade, de preceitos de cortesia entre particulares ou entidades;
Veja só que incrível! Toda "cerimônia" involte um "cerimonial" e é "sonele".
Mas alguém lembrou de explicar isso para Brasileiros em geral? Principalmente aqueles cuja profissão sempre acaba, de um jeito ou de outro, numa "cerimônia solene"?

Então as meninas do Volei entraram para a cerimônia pulando. Hm..até aí tudo bem, porque elas estavam felizes, mas a minha ingenuidade ainda dizia que já já elas ficariam quietas e respeitariam o que seria o apogeu de suas carreiras. Santa ingenuidade! Não aconteceu. Para meu desespero, elas receberam as medalhas, e uma delas sacou de um papel todo amassado e abriu um cartaz mal feito e pavoroso que não dava para ler. Para fazer isso ela se desfez do buquê de flores cheio de significados importantes para os chineses e para os atletas sérios.

- Vai acabar aí, né? Perguntava o meu coração já querendo se enfiar debaixo do sofá para não ver mais nada.
- Não! - respondia o Galvão Bueno achando lindo - Elas vão quebrar o protocolo! Elas vão quebrar o protocolo!

Não...elas estavam prestes a queimar o protocolo. O protocolo e a minha cara como Brasileira, em rede mundial, sem a minha autorização! Meu pai! Elas deram as mãos e abriram uma roda...eu aqui já me arrepiei inteira e fiquei de cabeça baixa pensando: "não....oração não! Não reza, não reza...não me envergonha!" Mas sem dar a mínima pra a minha cara chamuscada, elas gritaram "Obrigado Senhor!", morderam a medalha (acho) e se jogaram no chão!
Nãaaaaaaaaaaaaaaaaao! Não faz assim comigo!! Eu não aguento tanta vergonha alheia de uma vez! Eu quis me esconder...eu quis sair correndo...eu olhei bem pra ter certeza de que estava mesmo sozinha...aff...estava, graças a Nossa Senhora do Vexame Mundial.

Não satisfeitas com toda a família de micos, macacos, e afins, elas resolveram rolar no chão e fazer uma pilha humana grotesca de bundas para cima, deixando sem graça o presidente do Comitê Olímpico, o da Feredação de Volei (ou coisa que o valha) e eu!

Gente, que vergonha...por que a gente não pode ser normal? Por que brasileiro tem sempre que dar um show de falta de educação? Por que as pessoas acham bonito não ter postura? Alguém já viu um ator ou diretor ir receber o Oscar de bermuda e fazer o que fazem aqui no Brasil em festival de cinema? É igual aos prêmios de música: o diretor chega la no microfone com uma roupa bem meia boca, que ele deve usar também pra ir na feira, e grita: POOOORRAAAA!! DO CARÁAAAALEEEEO! POOOOOOORRRAAAA!

Acho chique...acho que um cara desse não respeita o prêmio que está recebendo. Acho que alegria não se manifesta assim. Acho que uma pessoa que lutou para chegar até aí deve ter um vocabulário um pouco mais extenso - espera-se. Acho um vexame!
As meninas do Volei perderam, na minha opinião, uma grande oportunidade de entrar para história pelo seu feito extraordinário. De minha parte, elas serão lembradas por queimar a cara em rede mundial. Uma vergonha, no que me diz respeito.

Mas eu sou chata.

Buenas!

sábado, agosto 09, 2008

Muitas Mulheres - by Ella Spotlessmind

Eu me pergunto sem parar que tipo de pessoa eu sou e todas as vezes que faço isso, encontro alguém diferente.
Uma vez, de brincadeira, eu disse que sou muitas e sou única e sempre haverá mais de mim. Foi a verdade mais profunda que jamais saiu de mim. Eu posso contar um milhão de histórias de mulheres completamente diferentes, que o mundo juraria que nem se conhecem, e a surpresa final seria saber que todas elas sou eu.
Eu sou essa pessoa que imagina histórias e as vive e vice-versa. Algumas são puro besteirol e eu me mato de rir lembrando delas, outras são tristes de arrancar lágrimas de um iceberg, outras tão românticas, emocionantes e empolgantes a ponto das pessoas dizerem “ah…como eu queria viver algo assim.” E eu vivi.
Vivi mais “Coisas da Vida” do que a Me pode escrever. Vi a lua em vários lugares do mundo e fiz dela testemunha das minhas loucuras -- e só ela viu o que eu vi, só ela ouviu o que eu nunca vou esquecer.


Vivi paixões e histórias tórridas que colocariam "9 Semanas e Meia de Amor" no livro da Mamãe Gansa. Acordei ao lado de amores antigos que eu não veria nunca mais, adormeci no peito de quem estaria ali para sempre.
Amei incrivelmente, homens com caráteres, personalidades e histórias diferentes. Amei escondido, amei errado, fui a outra, fui a única, fui mais uma. Desejei pessoas que nem sonham com meus desejos, outras que sabem de cor meus pensamentos mas jamais me tocaram – e não tocarão. Chorei no carro, no meio fio, na escada do prédio, no elevador, na cama, na estrada, no ombro do desconhecido, de amor, de tristeza, de alegria, de emoção, de decepção profunda. Fui santa, fui perversa, fui pervertida. Fui rainha e fui ninguém.

A cada história que conto, lembro-me de outra que não contei. Fiz coisas não-contáveis, incontáveis vezes e de novo. Fui à igreja, ao centro espírita, ao terreiro de umbanda. Rezei para deus, Cristo, Santa Rita, Iansã e Maria Padilha. Sentei na mesa dos nobres, bebi com a burguesia, andei com os pobres. Vivi todas essas mulheres toda a minha vida e elas foram felizes. Elas brincaram com fogo mais vezes do que eu sozinha poderia. Traíram e foram traídas, amaram e foram amadas. Disseram verdades que ninguém acreditou, contaram mentiras que jamais foram descobertas, omitiram fatos, revelaram tudo. E foram loucas!

Umas amaram meninos, outras conquistaram prêmios, umas criaram deuses, outras beijaram demônios. Em algumas me reconheço, em outras mal me vejo…mas todas tinham um traço em comum: a minha alma – essa alma imensa, capaz de abraçar o mundo inteiro sem distinguir certo e errado. Essa alma feita dos milésimos de segundo do pensamento do universo, que insiste em se deitar, se espalhando pelo mundo como um véu transparente, que acha que pode dividir-se em milhares e doar-se, e mesmo assim, estará inteira.
Toda vez que alguém se espanta com algo que vivi, eu me pergunto que tipo de pessoa sou . Eu sou isso: Única e muitas…um véu transparente encharcado de vida, feito dos pedaços diversos de mim.


Colaboração: Ella Spotlessmind

quarta-feira, agosto 06, 2008

Corta pra lareira

Escrevendo o meu livro aquele que parece que eu nunca vou realmente escrever, eu descobri que tenho um bloqueio gravíssimo: eu não sei falar de sexo. Não...calma...eu sei FALAR de sexo, mas não sei escrever cenas de sexo.
Sabe aqueles filmes dos anos 50 que mostravam o casal, o beijo, e cortava para lareira, para o copo, para o cigarro queimando no cinzeiro? Então...é isso que eu faço. Eu levo o casal até a cama...e corto para a lareira! Hello?! Todo mundo sabe o que eles vão fazer depois que ele tirou a roupa dela!

Certo...seria perfeito se isso não estivesse me incomodando brutalmente.
Aí ontem à noite resolvi escrever um conto erótico. Ha! eu sou péssima! Nossa Senhora da Psicoterapia me salve! Fala pinto, penis ou bimbim? Eu suei frio para escrever. Ai gente...comofas? Por que eu vejo a cena e não descrevo assim...direito? No comprendo.

Desisti. Quase. Vou fazer mais uns "exercícios", e se não rolar eu vou cortar pra lareira!


segunda-feira, agosto 04, 2008

Post my Secrets?


Como todos os domingos, acordei, peguei uma mega-caneca de café e vim para o computador entrar no Post Secret - tarefa número 1 de domingo para xeretas em geral que gostam de saber o que passa pela cabeça alheia.
Sou uma fã ardorosa do Frank Warren, - o maluco diabólico que criou o PostSecret.com - e mudou a maneira das pessoas desabafarem sobre coisas que não podem contar para ninguém (a mãe dele diz que o que ele faz é diabólico). Tenho os três livros que ele lançou com os segredos alheios, entro no site todo domingo, e agora que a coisa não para de crescer, confiro o site alemão, o francês, o em espanhol, o Facebook e o blog no Myspace. Toda vez que faço isso, fico pensando se eu teria paciência de fazer um cartão postal manualmente, endereçar ao PostSecret e ir até o correio enviar. Depois disso penso o que eu diria ao Frank Warren e ao mundo se tivesse paciência para tanto. Pensei um segredo..."hmm, esse eu já contei pra um monte de gente!", pensei outro..."Hm...já contei esse também!"
Gente, entrei em crise! Será que eu sou uma pessoa sem segredos? Um livro aberto? Uma porta de banheiro público? Um outdoor ambulante? Deixa eu ver...olhando aqui pra minha lista do MSN, vejo que fulano não sabe o que eu contei pro ciclano, aquela outra nem sonha o que a lá de baixo sabe...mas cada um desses nomezinhos sabe algum segredo meu.
- "Hey! Será que você manda pro postsecret pra mim? É porque eu não lembro mais qual segredo te contei."
Que complicado...Fiz as contas, voltei uns anos, aí...lembrei que eu escrevo. Eu escrevo em meu nome, no nome dela, dele, da outra, em inglês, eu fotografo, eu sonho, eu misturo tudo, eu rio de mim mesma, eu digo tudo o que sinto, eu conto histórias, histórias, histórias...como eu poderia guardar um segredo?
Como eu poderia guardar um segredo se eu tenho todas as ferramentas para exorcisar os meus demônios todo o tempo, e ainda rir da cara deles? Que tipo de pessoa eu teria que ser para cozinhar histórias dentro de mim por tempo suficiente para que se tornassem segredos pesados, que só um terapeuta ou o PostSecret fossem capazes de me fazer cuspir? Eu lá tenho caráter pra isso? É...porque é preciso ser perseverante para guardar amarguras, rancores, tristezas, traumas...eu não sou capaz de colecionar nada, muito menos amarguras. É preciso ser muito mais "gente" do que eu para isso. Eu daria uma péssima suicida inclusive, praticamente um vexame! E para postar segredos eu teria que inventar dramas...ai que chato.
Frustrei. Não tenho nada pra mandar, e se mandasse, com certeza receberia algumas mensagens dizendo: "Nossa...vi um segredo seu no PostSecret."
Que lástima!



Se você é mais gente do que eu, este é o endereço:

quinta-feira, julho 31, 2008

100000

CEM MIL HITS

eu disse: 100.000 vezes!


Pessoas entraram 100.000 vezes neste blog!
É pra ficar feliz, ou não?

Bom dia!

quarta-feira, julho 30, 2008

Coisas da Vida #7

Lembrança

Eu encontrei a carta que ela escreveu e fiquei triste de dor ao me colocar em seu lugar e entender o vazio enorme que vem da presença dele, tão forte e, ainda assim, inexistente.

"Foi lindo imaginar o dia que você entrou no meu carro e fomos para aquele lago, onde pela primeira vez consegui olhar nos seus olhos e manter os meus ali até me enxergar dentro deles. Ainda posso sentir o resto do vinho no gosto da sua boca. Foi lindo dormir com você ao meu lado, sentir suas mãos, saber de manhã que o seu beijo me acordaria e depois de novo, e de novo, para me mostrar que estou viva. Ainda sinto o frio do lago subindo pelas minhas pernas e o toque do cobertor aquecendo os ombros, enquanto olhávamos as estrelas se despedirem da noite. Ainda tenho seus cabelos entre os dedos, o seu cheiro na minha pele, o calor do seu peito no meu rosto.
E depois, depois de anos, ao ver você de novo, seu perfume, seus olhos, seu jeito incrível, seus gestos, tudo...cada movimento seu me fez sorrir por dentro: as pernas dobradas, o pé no banco do carro, a blusa tirada pela cabeça despenteando o cabelo, o sorriso, os braços, a pele, as mãos...Ah! as suas mãos...e os olhos negros que eu amo...
os olhos negros que eu amo...
os olhos negros que eu amo e não sei encarar.
Mas foi lindo imaginar que eu entraria no seu carro e olharia dentro deles outra vez até me enxergar ali, e você me beijaria. O seu perfume colando outra vez nas minhas mãos...o seu sorriso falando baixo, quase dentro da minha boca, e o seu gosto em mim mais uma vez. A conversa deliciosa, a sua voz, o seu sotaque forte, o lençol bem passado com cheiro de ferro quente, sua pele quente, sua saliva quente, seu suor quente, seu calor...e eu. Nossas pernas se confundindo de novo, o ar da sua boca em meus ouvidos, sua boca no meu corpo, o seu corpo em mim... E agora, depois de tantos anos, eu não sei mais o que é verdade e o que sonhei. Eu tenho seu cheiro aqui, eu sei, eu sinto! Eu sinto o seu gosto, sim! Eu vejo seus olhos que eu amo e eles são negros, como é negro o vazio da incerteza. Eu não quero saber. Não quero que me contem. Me dá sua mão...me deixa ouvir a sua voz...posso deitar no seu peito?...canta de novo pra mim?...me diz que é tudo verdade. Não quero saber que cada segundo das minhas lembranças é só um fragmento do meu delírio.
Traz os seus olhos pra mim..."



Bom dia.

terça-feira, julho 29, 2008

Speechless

O solo de algumas guitarras têm o poder de me tirar a voz.
As palavras somem e eu simplesmente inexisto. Sou só ouvidos e alma por algum tempo, como anestesiada, extasiada, sei lá.
Aconteceu algumas vezes...só algumas.
Não adianta você chegar aqui com uma lista de guitarristas, de deuses, de virtuoses...porque só acontece como a música deve acontecer: sem lógica...puro instinto.
Não sei porque, mas só é assim quando é uma guitarra. Nenhum outro instrumento.

Quer a lista dos homens que me tiraram o fôlego? Pega aí:
Eric Clapton. David Gilmour. Slash. B.B.King. Geoff Farina. Prince. Zakk Wylde. E agora John Mayer.

Eu sei eu sei! Frank Zappa, Jimi Hendrix, Eddie Van Halen, Stevie Ray Vaughan não estão na minha lista! Sinto muito...reclama pra minha alma. Isso não é consciente...é uma coisa ouvida no coração e na boca do estômago. Se for para o ouvido não vale.

Enjoy