sexta-feira, junho 06, 2008

Questionário de Proust

Então Alice Salles começou com isso de publicar o Questionário de Proust respondido por celebridades. Depois ela mesma - não menos célebre - respondeu. Depois ela resolveu que eu tinha que responder e aí está. Alice venceu!

Com qual figura histórica você mais se identifica?
Maria Antonieta...na coisa de perder a cabeça...

Quem é a pessoa (viva) que você mais admira?
Muita gente…Nelson Mandela, Alejandro González Iñárritu, Martin Scorcese, Claudio Borrelli. Os Rolling Stones, o David Gilmour e mais alguns rock stars que não deixaram o tempo envelhecer suas cabeças…xiii…lista infinita!

Qual é o seu maior medo?
Guerra. Violência. Alzheimer. Mas medo imediato mesmo, eu tenho de altura. Muito. Quase uma doença.

Qual é a característica que você acha mais deplorável em você?
Procrastinar. Eu empurro o mundo com a barriga.

Qual característica que você mais deplora nos outros?
Prepotência, egoísmo, preconceito. Não consigo ver onde alguém é superior o bastante para ser esnobe. “Faz cocô? Acorda com ramela? Então baixa a bola…”

Se você pudesse mudar uma coisa em você, o que seria?
Eu seria menos preguiçosa com os meus próprios projetos.

Qual é a sua grande extravagância?
Delivery. Disk-tudo. Taxa de entrega nunca é cara demais se eu não tiver que ir buscar!

Em que ocasião você mente?
Viajando sozinha. Muito. E outras vezes. E aquelas também. É. Pois é.

O que você considera ser uma virtude fora de moda?
Religiosidade. Encobre a realidade.
Eu vejo as pessoas crendo numa vida irreal demais, fechando os olhos para a verdade, principalmente sobre elas mesmas e isso não é virtude.

O que você menos gosta na sua aparência?
A opulência. Eu queria ter quadril estreito e ossos aparentes!

Que palavras ou frases você usa demais?
Bosta. Life is made of options. Pelo amor da vaca jersey. Vai catar coquinho.

O que ou quem é o grande amor da sua vida?
Minha familia, meus gatos, euzinha, e meu pensamento.

Qual a sua idéia de felicidade?
Ser simples. As pessoas complicam demais, exageram tudo. Ser feliz é bem barato. É uma questão de viver em harmonia com o que você pensa e se cercar de gente que te faz bem. Sublimar o que é chato, valorizar o que é bom. Ou seja…é só uma questão de “onde fixar a câmera”.

Qual é a sua profissão favorita?
Historiador, arqueólogo, arquivista de documentos do Vaticano (ha!).

Que talento você mais queria ter?
Queria cantar. Muito. Com uma voz que hipnotizasse as pessoas e desse a elas a sensação do Nirvana.

Qual é o seu estado de espírito nesse momento?
Elocubrante, especulante, delirante, como sempre.

Se você pudesse mudar uma coisa na sua família, o que seria?
Um pouco mais de paz de espírito para alguns, um pouco menos de normalidade para outros, e um pouco mais de dinheiro para todos.

O que você considera a sua maior conquista?
Quatro coisas…uma muito boba, mas cada um sabe onde aperta seu calinho…lá vai:
1. Ter conseguido mostrar que entre minhas orelhas existia mais do que cabelos loiros; e que eu não era só aquele corpão ambulante e rebolante que desfilava pelas produtoras e agências de propaganda desde os 17 anos.
2. Ter escrito roteiros e histórias com começo, meio e fim, que eu sempre tive muito medo de nunca conseguir.
3. Ter criado profissionais incríveis, e filhos nobres.
4. Ter vencido o "provisório", aprendido a viver o "pra sempre".

Se você morresse e voltasse como uma pessoa ou coisa, o que você gostaria de ser?
Um superstar em qualquer coisa, ou um cientista imortal.

O que você tem de mais precioso (material)?
Um dólar de ouro que eu ganhei dos meus ex-sogros e vivo pensando que eu deveria devolver. Precioso por isso…por que era muito importante para eles e eu acho que eles deram para a pessoa errada. No mais…minha história de vida em forma de textos, fotos, cartas, escritos em caixas velhas, etc.

Quais são os seus nomes favoritos?
Cloe, Amélia, Christopher, Nina…e todos aqueles que eu sempre achei lindos mas agora resolveram fugir.

O que você considera o fundo do poço da miséria humana?
A prisão e as drogas – que são sinônimos.

Onde você gostaria de viver?
Numa casa que eu abrisse a porta e pisasse na areia da praia, de preferência em Venice Beach ou Malibu.

Qual é a sua característica mais marcante?
Rir de mim mesma.

Qual é a qualidade que você mais aprecia num homem?
Inteligência. E isso não tem nada a ver com Q.I.

O que você acha mais importante num amigo?
Os ouvidos.

Quem são os seus escritores favoritos?
Kurt Vonnegut e Charlie Kalfman.

Qual é o seu super-herói preferido?
O único que me fez ver uma série inteira: Jack Bauer

Quem são seus heróis na vida real?
Meu pai e outras pessoas como ele, capazes de viver de forma generosa. E isso não quer dizer dar dinheiro: isso quer dizer dividir a sua própria luz e saber se doar. Num mundo cada vez mais egoísta, isso é heroísmo.

O que você menos gosta?
Saber as consequências de quase tudo, poder ver a cegueira dos humanos, conhecer as pessoas no primeiro olhar. Nada me surpreende. Acho isso um saco.

Qual é o seu maior arrependimento?
Ter me deixado cegar, num determinado momento da vida, mesmo conhecendo profundamente as consequências de uma escolha completamente errada e estúpida. Mas passou. Hoje está tudo bem no reino de Mercedes.

Como você quer morrer?
Realizada e lúcida.

Qual é o seu lema?
Um problema pode me tirar a paz, uma tragédia pode me tirar o chão, mas SÓ EU posso me fazer infeliz.



Vai se arriscar? Responde! Responde!

terça-feira, junho 03, 2008

E o mundo muda!

que eu não esteja enganada...

Amém!




segunda-feira, junho 02, 2008

Ai, meu saquinho!

Então hoje é dia não!
Desde antes de eu acordar uma nuvenzinha preta resolveu estacionar acima da minha cabeça. Já a cama estava estranha...coberta embolada, meio frio meio calor, roupa que incomoda, barulhos não sei de onde...levantei!
Sentei para tomar café com a boa vontade de quem vai ao banco. Já olhei para o meu prato de saco cheio do regime...ahmeudeus! Sete meses comendo ovo no café da manhã? Uma gema e duas claras. Hoje frito, amanhã mexido, depois omelete e eu não aguento mais olhar pra cara do ovo! Aguenta Me, que 12 kilos são 12 kilos e se você se livrar de mais 5, volta a ser a velha e boa Mercedes, que era mais boa do que velha. Ai meu saquinho! Peguei o celular e pensei duas vezes se devia apertar aquele envelopinho que me leva aos e-mails. Apostei com o meu mau humor que se apertasse encontraria os seguintes e-mails:
.Promoção de inverno da Zelo
.Sitemeter pra contar quem entrou nesse blog
.Uns três "replica watches" vendendo relógio falso
.Pelo menos um anúncio de pinto grande. Oops...não...de aumentar pinto pra quem tem pinto pequeno.
.Talvez um Smiles, talvez um Tam, talvez um Apple Store, Amazon, Submarino, essas coisas.
Apertei. Bingo! Não havia nada que viesse de um ser humano de verdade.

Olhei para o jornal com a mesma atenção que se da à conversa com um vizinho...uma página "ah...", vira a página "um-hum", ilustrada "sei...", fechei o jornal como abri e olhei pra lugar nenhum. Assim também olhei para a minha empregada. Assim também para a minha cara no espelho do banheiro. "Oi, eu sou Mercedes e estou sentindo que meus pés estão tocando um buraco negro. Serei sugada?" Eis a questão!
Depois sentei aqui, ainda de pijama, abri o Word e deixei meus dedos se divertirem às minhas custas. E não há de ver que eles escreveram sobre mim? Não há de ver que o que eles escreveram era tão pesado que eu tive que salvar naquela pasta escondida, sabe aquela? Ah....vocês não sabem isso! Eu tenho uma pasta secreta. Ela está no lugar mais imbecil possível com um nome imbecil. Dentro dela tem outra pasta com outro nome imbecil, que tem outra com outro nome imbecil. São muitas e muitas pastas em número suficiente para fazer curioso desistir, até chegar "NA" pasta. E se você conseguir chegar nela, cuidado! Está muito longe de encontrar um tesouro...muito muito longe. Abrir documentos ali pode causar danos irreversíveis. Para você ter uma idéia, o nome da pasta é Lixo Atômico! Sério...altíssimo risco de contaminação.

Well, passado isso, percebi que estou questionando tudo, lembrando fatos terríveis, lembrando frases que eu gostaria de não ter ouvido, cenas que eu gostaria de não ter vivido, analisando as consequências delas todas e... ai meu saquinho! Odeio! Aí eu me olho de novo e pergunto para aquela mocréia despenteada no espelho: "Amiga....fofa...sabe por que eu não faço terapia de regressão? Porque eu não fucking quero lembrar essas fucking coisas!"
E fora isso tem as perguntas existenciais aquelas: o que faz a minha empregada guardar livro na estante de cabeça para baixo? E por que o meu hidratante migra para outro armário todo dia? E por que o queijo está na mesa dentro de um tapeware? eu vou levar pra algum lugar? E por que ao meio dia a sala ainda não está arrumada? E por que os papéis que eu separei estão todos empilhados? E por que o armário do Claudio é mais arrumado que o meu? E por que eu não gosto mais tanto de café? E por que eu estou ficando míope? E por que o meu dicionário ta insistindo que úmido é com H? ...

Aí chega. O jeito é rezar para que o sol apareça e tire a umidade do meu cérebro. Acho que vem do frio essa nuvenzinha irritante...


domingo, maio 25, 2008

Blindness

Quem acompanhou a trajetória de "Ensaio Sobre a Cegueira" no blog do filme, onde Fernando Meirelles manteve um diário honesto e incrível durante os últimos meses, sabe que antes da crítica, do público ou dos produtores, a grande preocupação dele era com José Saramago.
Adaptar uma obra prima é uma responsabilidade gigantesca, e no caso específico de Blindness, um desafio assustador.
Por que? Para quem não sabe, assim que o Fernando leu o livro "Ensaio sobre a Cegueira" há alguns anos, ele quis transformá-lo em filme e tentou comprar os direitos da história, sem sucesso, porque o Saramago não concordou. Os anos passaram, muitos deles...Fernando fez Cidade de Deus, Jardineiro Fiel, ede pois de ter esquecido o assunto, foi procurado por um estúdio para dirigir o que? Ensaio Sobre a Cegueira! É como uma conspiração do destino. Mas conspirações do destino trazem um prazer imenso e junto com ele um peso de toneladas.

Well...o filme ficou pronto, houve um tititi de críticas negativas, outras boas, abriu o Festival de Cannes, tapete vermelho, fotógrafos, coletiva, etc etc, mas ainda não havia cumprido seu objetivo mais pesado: agradar ao autor -- José Saramago.
Céus! o livro ganhou um Nobel! Eu estaria sem dormir há meses! "Olha, seu Zé...ta aqui o que eu fiz com o seu Nobel" e lá fui eu para debaixo da poltrona do cinema, morrendo de medo.
Bem, assim que o Fernando saiu de Cannes, voou para Portugal para finalmente mostrar o filme para o Saramago. E aí saiu na Folha um texto do Fernando contando como foi este encontro, e eu morri de chorar.
Agora, olha só...alguém filmou a reação do velhinho quando acabou de assistir o filme...e adivinha? Morri de chorar outra vez!
Se é permitido sentir muito orgulho de um Brasileiro (eu já disse isso aqui), repito : Tenho o maior orgulho do Fernando Meirelles. Não só pela obra dele, ou pelas portas que ele abriu e deixou abertas para nós, mas pela pessoa que ele é - simples, linda, e exatamente como era muito antes da fama.

Veja a reação do Saramago ao terminar de assistir Blindness.



Não é demais?

Bom dia.


Diário de Blindness
Encontro com Saramago

sexta-feira, maio 23, 2008

Antigamente era mais fácil?


Então o que é envelhecer?
Na minha cabeça, envelhecer é "não saber". Envelhecer é pensar que "é muita informação", que "o mundo mudou", que "no meu tempo era mais fácil."
Não...no seu tempo não era mais fácil. Era tudo muito mais difícil. Tudo o que você precisava, você tinha que sair para comprar. Seu carro andava menos, com mais barulho, gastando mais combustível -- e combustível caro --, seu dinheiro era mais difícil de ganhar e valia menos, e se você batesse o carro no caminho, precisava de uma ficha telefônica para avisar a alguém. Ah...claro...se a apólice de seguro não estivesse com você, não tinha como localizar as suas informações para saber se era possível mandar o guincho. Era tudo mais difícil e a gente sobreviveu. Se você ficasse doente não pagava contas; hoje você faz tudo na internet e só vai ao banco se quiser. Sem celular, sem computador, sem internet, sem delivery, sem cartões magnéticos, sem comunicação. A gente se falava por tambor, lembra?
- Telefonista, eu queria uma ligação para o Rio de Janeiro, o número é xx-xxxx.
- Pois não. Assim que eu completar a ligação eu retorno para a senhora.
Ha! E a gente sobreviveu.
As fitas k-7 enrolavam no toca-fitas, os vídeos k-7 tinham só uma cabeça, o cinema era caro pra burro, a locadora só faltava pedir avalista, telefone era um bem caríssimo que alguns até alugavam, tudo demorava muito, tudo tinha muito papel para preencher e muitos lugares diferentes para entregar. Os alimentos não tinham prazo de validade, não existia nada longa- vida, nada congelado, nada que facilitasse alguma coisa, os carros não tinham cinto de segurança, air bag, CD player, computador de bordo, e GPS era coisa de filme futurista.
E a gente sobreviveu.
Antigamente era mais fácil? A minha irmã Pat conclui: "Mais fácil porque se a mulher não quisesse pensar não precisava. Hoje ela não tem desculpa." E eu nem tinha pensado por esse ângulo. Sábia conclusão!
Era difícil demais. A gente morria de saudade de quem estava longe; hoje a gente fala com todo mundo em tempo real. A gente morria de preocupação com os filhos e com os pais, hoje a gente manda uma mensagem pelo celular e eles respondem na hora. A gente compra uma passagem barata para alguém que está há 500 km sem precisar ir até a agência de turismo, mandar um PTA que não chega e ainda correr o risco de ter alguém na mesma poltrona. Antigamente era mais fácil? E a "ordem de pagamento"? Jesuzinho...que trabalheira!

A vida está mais fácil e todo mundo tem mais tempo para outras coisas, mas existe a mania chata de reclamar da correria da vida. Sempre foi uma correria! Eu não lembro de ver meus pais não correrem. Não lembro de não correr. Viver sempre foi uma correria, só que antes com serviços lamentáveis. Hoje você corre, mas a locadora já entregou seus filmes em casa, você corre mas consegue falar com as pessoas no caminho, você corre mas o jantar está encaminhado, você corre mas lê seus e-mails no telefone e tem sempre alguém pra te entregar uma pizza.

Por isso tudo, cada vez que eu escuto alguém dizer que não se dá bem com computador porque é coisa de gente maluca; que internet "é demais para a minha cabeça", que "meu celular só precisa falar porque eu não entendo tanto botãozinho", "eu não tenho TV a cabo porque só passa porcaria", eu tenho muita pena. Tenho pena de cérebros estagnados. Tenho pena de quem vê o trem passando e acha que na estação está melhor.
E eu falei tudo isso só para contar o quanto eu estou orgulhosa da minha mãe. Há um mês ela iniciou uma batalha incrível contra um computador e está fazendo progressos. Aos 78 anos, sendo que seu último contato com a tecnologia foi um telégrafo e uma máquina elétrica de datilografia, ela resolveu que vai dominar aquela máquina dos infernos, e está quase lá. Já entra na internet, fala no msn, lê seus e-mails e descobriu as pastas de foto que eu deixei no computador sem avisar.
Eu acho que isso é se recusar a envelhecer. Não estou falando de rugas, de marcas, de aparência. Estou falando em participar do mundo onde se vive. Com tanta gente da minha idade admitindo que "é muito para a minha cabeça", eu só posso me orgulhar de Dona Marília.

Tenho dito.


Agradecimento especial a Pat Zanicotti que colaborou com o texto sem saber. :)

terça-feira, maio 20, 2008

O Bem de Todos

Então alguém inventou o bem e o mau.
Tudo aquilo que causa dor, faz sofrer, interfere nos planos alheios, traz revolta, é o mau. Tudo aquilo que faz bem, une os homens, traz tranquilidade ou alívio, é o bem.
Hm…espera…não é bem assim. Quem inventou o bem e o mau inventou também a punição. Mas a punição causa dor, interfere nos planos alheios, muitas vezes traz revolta e sempre faz sofrer. Mas não é o mau? Não entendi.
Outras coisas trazem prazer, alívio das aflições, uma sensação infinita de alegria e realização mas não são o bem. Sei...Não entendi.

Então, para ser entendido, quem inventou o bem e o mau inventou a expressão “para o bem de todos”, o famoso “greater good”, o bem maior. Aí colocou a punição, a privação e o sacrifício nesta lista. Ah…agora entendi. É assim: eu faço alguma coisa que alguém não gosta, aí eu sou punida para o bem de todos. Ah…sei. Ou o Bush sai por aí “libertando” países da ditadura, e matando civis e inocentes -- inclusive seus próprios soldados que não passam de crianças --, fazendo o mau “for the greated good”. Nossa! Incrível…muita coisa é chamada de “o bem de todos” hoje em dia...só queria saber TODOS QUEM, CARA PÁLIDA?

Então, eu sou deus e vou contar pra todo mundo o que é o bem e o que é o mau.
Well…o mau é fazer o mau com a desculpa do “greater good”. Leia-se invadir o países falidos, querer o petróleo alheio, matar em nome de deus, julgar em nome de Jesus, matar legítima defesa da honra, segregar em nome de qualquer coisa que seja, jogar lixo nos rios para limpar sua própria casinha e danem-se os próximos que precisarem de água limpa, matar por dinheiro e não por sobrevivência (seja gente, árvore, animal, ou bandido – que não é nenhuma dessas coisas), invadir a privacidade das pessoas com a desculpa da segurança, inventar terroristas para vender armas, roubar dinheiro de quem precisa ou não, torturar física ou psicologicamente, levar uma vida idiota, se aproveitar da ignorância alheia…blablablabla e muitas outras coisas que não tem como enumerar a não ser que eu reescreva os mandamentos.

Querer não é mau. Mau é tirar. Egoísmo não é mau. Mau é egocentrismo e egotrip. Desejar não é mau. Mau é invejar e desdenhar. Sexo não é mau. Mau é sexo à força, sexo para degradação, sexo para exercer poder (ver egotrip, inveja, desdém). Prazer não é mau. Mau é ter prazer com as coisas acima.

E o bem…ah o bem é tudo o que você faz de bom pra você e pra quem o cerca, sem esquecer que doar é um ato de generosidade e não de mutilação. Tirar de você para doar ao outro não é bondade; é burrice. Dividir é fazer o bem, e só se divide o que é divisível. Roubar, invadir, tirar, extorquir, mesmo que para o bem dos seus, não é o bem. O bem é realizar e conquistar. Almejar, desejar, sonhar, lutar pelo que almeja, não quer dizer que você seja um ambicioso louco ou egoísta, quer dizer que você está vivo. Viver recluso, afastado dos seus, em penitência e oração ou seja lá o que for, não é bondade, é egotrip. A quem afinal este “santo homem” está trazendo algum bem? Está produzindo? Está ajudando? Está ao menos prezando a vida e a família que recebeu de graça? Nada! Está achando que seu isolamento pode salvar o mundo. Egotrip!

E assim eu, que não sou nenhum deus, e assim como ele não inventei os conceitos que tentamos obedecer, cresci e vi meus mitos despencando. Cresci e vi que coisas que aprendi que foram feitas para o bem de todos tinham fundo político e/ou financeiro e eram, na verdade, para o bem de poucos. Descobri que os santos de plantão tinham uma história escusa. Descobri que a História do mundo é a deturpação do conceito de bem e mau. Que verdadeiros heróis não venceram, que heróis oficiais eram maus…e ai ai ai senhoras e senhores, esse nosso mundo é uma zona!
Aí volto àquela minha primeira idéia de que revolução se faz em casa, assim como o bem. É aqui que se planta o bem. Aqui bem pertinho. E se todo mundo fizer a coisa certa ali dentro dos seus 10 metros quadrados de existência, talvez a gente venha a conhecer um dia o que é realmente o “bem de todos”.


(hoje é dia sim)

sexta-feira, maio 16, 2008

Três - aperitivo

Três são:
.1. Nani Gaya, uma brasileira em dúvida.
.2. Mitch Adams, um americano apaixonado
.3. John McAlister, um escocês cafajeste

...


Ai ai ai! Não dava pra ficar quieta num canto e não ficar zanzando por aí pra beijar o primeiro escocês meio baixo que aparece? Meu deus!

A Nani já não tinha idade para se colocar nesse tipo de situação. Já era hora dela saber se virar para escapar de cantadas fáceis e super-mac-olhares. Mas ao contrário do que se esperava de uma mulher vivida, madura, resolvida, ela estava agindo como uma adolescente boba num baile de debutante; encantada com o menino do outro clube. Isso não combina em nada com todo aquele bla bla bla do primeiro capítulo que descrevia essa criatura.

Só tinha um jeito de saber o que passava por aquela cabeça. Lá vai:


Cérebro de Nani, fundo escuro, duas cadeiras. Na cadeira da esquerda, nós. Sim, nós...que queremos saber o que se passa aqui dentro. Na cadeira da direita, Nani.

- Oi, nós somos os espectadores da sua história, e precisamos entender o que acontece.

- Oi... O que vocês estão fazendo aqui?

- Já disse. A gente quer entender.

- Mas eu estou no meio de uma festa...

- A gente sabe. Vai ser rapidinho. Só responde umas perguntas pra nós.

- Ta. Vai rápido.

- Seu nome, por favor?

- Eliane Ferreira Gaya, vocês sabem!

- Por que você, tendo encontrado o homem mais deliciosamente encantador do mundo, desejado por milhares de mulheres e homens de várias idades, com todo aquele discurso de vida tranqüila, nada que interfira nos negócios, namorar eternamente, etc, etc, resolveu olhar pro McAlister?

- Como assim? Eu não RESOLVI olhar pro McAlister. Ele apareceu!

- Calma...a gente não está aqui pra te julgar, muito pelo contrário.

- Tá, eu sei que foi errado. Eu podia ter cortado ele antes, era só não dar aquele primeiro sorriso na hora do quase-tombo.

- É. Você tinha essa opção.

- Tinha. Mas você viu? Você olhou dentro do olho daquela coisa? E a mão...? Quer a minha cintura emprestado pra sentir "a mão" ?

- Não não...Mas qualquer pessoa perguntaria se você sente ou não alguma coisa pelo Mitch.

- Claro que eu sinto. Eu estou completamente envolvida e...

- Envolvida é mais raso do que apaixonada.

- Não.

- É sim. Você se envolve num projeto. Mas você se apaixona por uma idéia e não desiste dela. Envolvimento é bem menos do que paixão.

- Onde vocês querem chegar?

- Em lugar nenhum. Só especulando. O que você quer de verdade?

- Eu quero o Mitch, claro...mas...

- Mas?

- Eu sempre tive esse defeito.

- Qual?

- Eu sempre estou feliz. Sempre e nunca. Eu tenho sempre a cabeça em outro lugar. Tudo. Sempre. Tudo o que eu faço é assim...tenho sempre um sonho guardado, um outro plano, mas não um plano B. Não é pra realizar...é só pra sonhar. E eu achei que estava curada disso...desde pequena, sempre assim. Fazia balet mas queria ser cantora, fazia canto mas queria ser atriz. Namorava o fulano, mas sonhava com o outro...e assim vai.

- entendo...

- Entende? Então me explica! E se você cavocar essas paredes aqui, vai descobrir que eu nunca fui totalmente feliz, embora fosse, nunca fiquei totalmente satisfeita, nunca estive onde queria, e se estivesse ia querer estar em algum outro lugar. Entende ainda?

- Não.

- Bem vindo ao clube.

- E agora?

- Ué...sei lá! Você não disse que vocês são espectadores da minha história?

- Sim.

- Então...assiste.

- Esse é o sinal pra gente ir embora?

- É. Por favor sai da minha cabeça que eu preciso voltar pra festa.

- Só mais uma pergunta.

- Ai...o que?

- Por que nunca tem alguém com nome brasileiro: Pedro, Paulo, Mario, coisas normais assim, nas suas histórias?

- Ah...isso faz parte do mesmo problema. Tipo eu nunca estou no lugar certo, então tudo o que eu quero está sempre bem longe, em outro país, conseqüentemente em outra língua.

- Agora você está no lugar certo?

- Quem sabe...?


...


(só um gostinho, por pura falta do que publicar hoje)

segunda-feira, maio 12, 2008

Auto-retrato-cego



Era lindo o que eu via quando não enxergava…
Clara a cegueira:
Teus olhos, sinceros?
Teu amor, profundo?
Tua luta, limpa?

Não vi o perigo,
O monstro embaixo da cama,
O corvo a comer meus olhos.

Tão linda a escuridão,
Tão bela a ignorância...


Quem me dera não ver o que vi.




Mg

domingo, maio 11, 2008

Dia das Mães ausentes

"Eu me amo porque você me amou antes.
Feliz Dia das Mães!"

Eu me arrisquei a entrar mais cedo no Post Secret, e por algum milagre ele já estava no ar.
Pra quem não sabe, Postsecret.com é o site de um homem - Frank Warren - que ensinou o mundo a compartilhar seus segredos. O site dele vem ajudando muita gente a tirar um grande fardo das costas, e até a evitar o suicídio. É incrível como o simples fato de colocar o segredo para fora, mesmo sendo anonimamente, exorcisa um monstro que pode até matar.
A edição deste domingo, como não poderia deixar de ser é "Mother's Day Secrets". Aguns são tristes, outros não. Mas estes três me bateram fundo.

"Eu queria poder me matar e ninguém ficar triste.
Minha mãe encontrou este segredo e me confrontou. Um ano depois, eu posso dizer:
NÃO MAIS. (obrigada Mãe, por salvar a minha vida)"



"Querida depressão... por favor devolva minha mãe para o dia das mães."

Lendo esse pedido de alguém que parece ter letrinha de criança, eu fiquei passada. De alguns anos para cá, eu tenho conhecido cada vez mais mulheres depressivas. Cada vez mais eu vejo pessoas que eram felizes e ativas, deitadas numa cama, ou sentadas chorando. Hoje eu pensei nos filhos delas.
Eu sei que depressão é uma doença que ninguém escolhe. Mas ai...será que é só isso? Será que a gente não permite que esta doença se aproxime, tanto permitindo a permanência da tristeza que vem antes dela, quanto protelando um tratamento, achando que sai sozinha do buraco, achando que que é inatingível e super-poderosa, ou que até seria bom um pouquinho de atenção da família....Será?
Então hoje, que é dia das mães, eu quero pedir pra estas mulheres que estão deixando que a depressão seja mais forte do que a vida, para que olhem para seus filhos. Pensa no que passa pela cabeça de uma criança que cresce vendo a própria mãe triste, chorosa, infeliz, caída. Tenta entrar na cabeça dos seus filhos e imaginar o que eles pensam que a vida adulta vai trazer para eles. E hoje...só hoje, da um jeito de vencer essa dor. Pensa que essas pessoas que você colocou no mundo, dependem de você. Ah...não são mais crianças? Mas ainda dependem emocionalmente de você, como todos nós de certa forma ainda dependemos das nossas mães. Pensa no que você está perdendo enquanto chora.

Lendo os outros cartões, quem sabe você se dá conta de que só você pode salvar seus filhos, que eles são o que são porque você fez por eles, que o amor que eles receberam e recebem de você, dá forças para que eles permaneçam vivos.
É pela ordem natural das coisas que eles precisam mais de você do que você deles; por isso você, como o centro da vida do mundo, precisa ser forte. Não é fácil não...eu sei...eu já estive lá.
Por eles, pelos seus filhos, ou pelos seus pais, ou pelo homem que te ama, levanta. Se arruma. Faz o dia valer a pena. E amanhã começa a mudar a vida.

Você não quer que as pessoas que te amam desistam de você; então, não desista também.

Feliz Dia das Mães



sexta-feira, maio 09, 2008

Pérolas no meu MSN


- mercedes© diz:
descobri que o quicktime exporta pra web...o filme. Então o que tinha 30 mega passa a ter 4k.
incrível!
carrega no youtube antes de eu conseguir acender um cigarro

- rafaela! diz:
essa internet facilitando e criando soluções para os problemas que não tínhamos!

quarta-feira, maio 07, 2008

Dá-me uma seringa!

Ou duas! Uma de cicuta pra injetar por aí nos sem noção, outra de botox pra deixar a minha testa tão paralizada que ninguém perceba que eu to o cão chupando manga!

sexta-feira, maio 02, 2008

Geração Hommer Simpson

Então deus fez a mulher e disse a ela:
O mundo é seu, Adão é seu, a maçã é sua, o paraíso é seu, o cartão de crédito é seu, mas fique longe dos dermatoligistas!

Ela jamais deu ouvidos a ele.


Nicolle Kidman se transformou aos poucos até cair nas garras do dermatologista com uma seringa cheia de restylane na mão. Se bem que a testa ela já não mexe há anos.

Calista Flockhart se casou com Harrison Ford que é infinitamente mais velho do que ela, mas ainda acha que tem que ficar rejuvenescendo, tadinha. Chegou a ficar com a boca defeituosa. Pior é que ele vai no mesmo médico!

Se isso não foi um assassinato, foi o que?

Medo, muito medo! A minha geração vai ficar conhecida como "a era Hommer Simpson" se continuar acreditando que "é só uma ampolazinha".
É criminoso o que estão fazendo com os rostos mais bonitos do mundo...Be afraid!!
(só por curiosidade científica, dá uma olhada na Gretchen, Rita Lee, Edwin Louise, Edson Celulari, Marta Suplicy, etc, etc, etc)


Michelle Pfiffer. Juro que eu peguei a foto mais horrível dela, de 2008. Mas não tem como. Ela não estraga, mesmo com a boca cheia de restylane!



sexta-feira, abril 25, 2008

Se Fosse Hoje... (ídolo)

Bob Dylan 1966

- O que você acha Paula?

- Ai não sei...eu gosto de você...mas você tem que se mexer mais, ficar mais presente, mostrar que tem carisma, não sei...você passa uma coisa frágil. O público quer um astro!

- Randy?

- Cara, você não canta! A música é chata... dá pra ver que você até tem alguma coisa, mas cara, você tem que encarar a platéia, mudar o corte de cabelo, se vestir melhor, e tentar não miar, cara. Soltar essa voz! Você tá mais pra músico de boteco. Nunca vai ser um ídolo! Simon, o que você acha, dude?

- Eu acho um lixo! Não tem presença, não tem carisma, canta pelo nariz, e o seu cabelo é ridículo! É não!

Se Fosse Hoje... (pra sempre)


Cliente: Não sei...eu acho que ela tem que ser bonita.

Dir. de Marketing: O cabelo não pode ser mais alto? Mais solto?

Estagiária: Posso falar? Ai gente, ela é gorda, não tem sobrancelha, não tem peito...

Cliente: Quem aprovou esse casting?

Atendimento: A gente pode mudar.

Cliente: Muda. Essa mulher é horrível. Aproveita e muda o fundo, põe uma coisa mais vibrante, que agregue mais valor à marca.

Assit. de Marketing: Ela pode sorrir?

Atendimento: Mas esse era o conceito. Um ar misterioso, um olhar enigmático.

Cliente: Vamos rever o conceito então. Não funcionou. Isso parece comercial de Activia: "Antes eu era assim..."

Diretor de Marketing: Eu acho que com esta linha de campanha, nosso produto cai no esquecimento em tempo récorde. A gente precisa de algo forte, contundente, que nos eternize!

quinta-feira, abril 24, 2008

Diálogo

- E aí?
- Tudo bem?
- Tudo e você?
- Not bad.
- E o livro, sai quando?
- Que livro?
- Você está escrevendo um livro.
- To?
- Me falaram.
- Ah.
- Sai quando?
- Não sei.
- E o que é? É bom?
- Eu gosto.
- Ta acabando?
- Mais ou menos...to reescrevendo umas partes que não ficaram boas.
- Não ficaram boas por que?
- Ah...o editor não gostou. Achou muito longo e confuso. To tendo que mudar.
- Que chato.
- Não. Tudo bem. Ele tem razão, tinha uns delírios... e o herói morria e voltava, essas coisas.
- Como é o título?
- Bíblia Sagrada.


;)

terça-feira, abril 15, 2008

Vidas


Numa conversa sem pé nem cabeça, C.J. me disse que nas noites que não consegue dormir, gosta de pensar na próxima vida. Este é um dos meus pensamentos favoritos. Não que eu tenha alguma coisa para resgatar -- uma amizade, um amor perdido, um sonho não realizado -- algo que eu não tenha podido ter desta vez. Mas eu gosto de adivinhar o que eu vou ser quando a próxima vida chegar, e quando, e o que eu vou estar fazendo quando fizer 46 anos outra vez.

Não tem muita coisa que eu gostaria de mudar. Na minha outra vida eu quero cantar - talvez eu consiga uma voz! - , quero nascer no lugar certo para nunca mais me sentir um ET entre as minhas pessoas. A minha sorte nesta vida foi encontrar pessoas que estavam muito distantes do meu mundo - meu marido inclusive - e formar com elas um círculo que me protege todos os dias de ser uma outsider. Talvez da próxima vez eu jogue alguns neurônios fora, assim eu nasça outra vez compreendendo tão pouco as coisas que possa aceitar Deuse a história da humanidade de outra maneira.

Eu não tenho algum amor que eu precise viver outra vez. Talvez porque nesta vida eu fui resgatada muitas vezes...e fiz a mesma coisa. A vida me devia essa, e eu fui sortuda assim: nunca perdi alguém que eu amo.

Eu sei mais ou menos como foi a minha última vida, ou como ela acabou, ou tudo não passa de um delírio, mas quem se importa? Eu vejo cenas muito claras...uma terra preta demais com cascalhos de árvore, uma criança tirada de mim, roupas sujas e desespero...um lugar arrasado e fogo. Vejo um homem que me abandona sob um tronco velho de árvore prometendo voltar que nunca volta. Ele é mau, mas minha única suposta proteção...e não me protege...e me rouba. A dor é tão profunda que chega a matar a sede e a fome. Tudo é úmido. Tudo é escuro. Não sei se uma floresta ou o que. Eu fico escondida num buraco sob o tronco de árvore e vejo pessoas que passam e gritam. Eu vejo fogo.
De todos os meus "resgates" este talvez tenha sido o mais doloroso. A tentação de repetir a história e permitir o roubo da vida, estava clara a cada dia, e a superação foi dolorida como uma quase-morte. Todos os dias eu me certifico de que há luz a minha volta para que o chão de terra escura e úmida não venha me assombrar.
A vida me devia também esta redenção. Talvez por isso eu seja afortunada. Talvez por isso eu caminhe forte e feliz e protegida pela luz que me cerca. Nesta vida eu nasci capaz de sonhar e com alegria incondicional. Por isso arrasto tudo o que me cerca para este mesmo "lugar" confortável, iluminado e seguro onde me sinto tão bem. Pode ser que isso não passe de um sonho, pode ser que seja um prêmio.

Agora eu tenho mais 35 ou 40 anos pela frente...eu sei disso (posso dizer pela palma da minha mão: minha linha da vida quase dá a volta no pulso, e se alguém disser que é no pulso que ela começa, deixa eu contar que do outro lado ela vai quase até as costas da mão). Com todo esse tempo pela frente, eu posso imaginar o que me espera - algumas coisas eu até sei com certeza - mas mesmo assim eu não consigo evitar: eu imagino e faço planos para a próxima vida! Quem disse que há um limite nos sonhos de alguém?


Bom dia.


terça-feira, abril 08, 2008

Confissões rápidas de um cérebro em pane.


. Até hoje não entendo para que serve saber análise sintática. Minha filha veio me pedir para explicar adjunto adverbial, eu olhei para ela com cara de proteção de tela, peguei o livro de Português, li, entendi e expliquei. Mas o que eu queria mesmo dizer era: "Esquece. Diz pra sua professora que eu vivo para escrever e nunca usei nada disso."

. Tem envelopes que chegam pelo correio e eu não abro.

. Às vezes eu atendo o telefone e digo que não sou eu.

. Estou escrevendo sobre um triângulo amoroso. Ontem reli todos os capítulos e entrei em crise. Minha personagem deve ficar com o maravilhosamente devastador, genial, equilibrado, bom-de-mostrar, inteligente e incrivelmente amável rockstar que ela conhece há anos e quer casar com ela? Ou ela fica com o doido varrido, impulsivo, ousado, maluco, deliciosamente atrevido escocês que ela conhece há pouco mais de três dias e faz ela tremer só de apontar aqueles olhos azuis em sua direção?
To sofrendo. Vou parar de escrever essa história.

. Eu finjo que falo no celular quando não to a fim de ser simpática.

. Eu não sei usar... ; ...ponto e vírgula.

. Quando eu era novinha, dividia tudo com duas irmãs, um irmão, pai, mãe, uma avó e quem mais chegasse (sempre chegava alguém). Hoje sou neurótica com as coisas que acabavam na hora errada, por isso tenho, em todos os banheiros da família, absorvente, pasta de dente, sabonete, papel higiênico, cotonete, toca de banho e escova de dente para abastecer um hotel em Las Vegas.

. Eu me tenho no MSN. (ok...isso não é novidade)

. Eu tenho comido escondido de mim.

. Já faz muito tempo que eu não rezo antes de dormir. Às vezes deito na cama e me pergunto se não devia. Mas depois penso em tudo o que eu desejo de bom para as pessoas que me cercam, para as que estão aflitas, para as que moram nas ruas, e lembro que isso já é rezar.

. Há muitos anos, fiz um filme com um ator que exigiu toalhas brancas, uma bandeja de frutas e uma tábua de queijos no camarim porque não comia comida de produção nem morto. Acatei os desejos dele, e pedi pra Dirce - a velha e boa cozinheira da família - ir pra cozinha e fazer tudo de mais cheiroso e tentador que ela conseguisse durante as horas da filmagem. Ha! Pobre tábua de queijos... Ele não só comeu a comida da produção, como ficou horas na cozinha com a Dirce anotando receitas.
( Mas eu aderi às toalhas brancas que ele pediu. Até hoje, eu não tenho toalhas de outra cor)

. Toda vez que eu discuto com o meu marido ele tropeça em alguma coisa e machuca o pé. Eu me pego encafifada com isso de tempos em tempos. Tomara que a gente nunca discuta muito sério.

. Neste momento, meu hotmail tem 435 mensagens não lidas, que não serão lidas tão cedo por pura curiosidade científica: quantos e-mails desinteressantes alguém pode receber de uma mesma pessoa durante uma vida?

. Eu gostava do Orkut quando podia xeretar os scraps alheios e dar risada. Agora ficou sem graça com essas ferramentas de privacidade.
Sim! Eu sou ética e boazinha...mas tenho uma gêmea malvadona.

. Quando vejo minha filha sofrendo em cima de uma apostila de química tenho vontade de dizer pra ela deixar isso tudo de lado, parar de sofrer, ir estudar arte, dança, línguas! Ensinar pra ela que o corpo não é só o meio de transporte da cabeça, e a universidade não é uma necessidade real, já que o mundo não precisa só de doutores. Alguém precisa dançar, pintar, cantar, tocar instrumentos, mudar o mundo, e nada disso se faz de dentro de uma faculdade, e a maioria das pessoas se forma e jamais atua na área em que se formou.
Aí eu me recolho e não digo nada, mas fico questionando se é justo que a educação no mundo seja toda voltada só para a universidade. Dá pra se dar conta que a vida real só começa DEPOIS da faculdade e ninguém te prepara pra isso?
Será que só poucas pessoas pensam que a escola leva 14 anos para transformar um ser expontâneo e único numa múmia igual a milhares de outras múmias? E que depois que esses seres inexpressivos deixam de ser únicos, passam mais alguns anos na faculdade aprendendo uma coisa e esquecendo todas as outras? Eu vejo as escolas ensinando o pensamento alheio, mas não as vejo criar pensadores. É preciso lembrar que enquanto os doutores trabalham, alguém precisa empurrar o mundo pra frente.



segunda-feira, abril 07, 2008

Sobre Bichos-Grilos e Bruxas Malvadas

Gente boa da melhor qualidade: Elder, Izabel, Sirley


Socorro!
Fui literalmente invadida...quer dizer...minha caixa postal foi invadida por um grupo enorme de pessoas que me conheceram quando eu era bicho grilo. -- Cabelos o vento, calça jeans, bata indiana, alpargata. Quando não, pelo menos uma bandana no pescoço era de lei. Camiseta do Solidarnosk, bota de camurça amarrada, quadro do Che na sala de casa, muito show ruim...muito evento chato...muito amigo artista...total poncho e conga. Ai! Agora eles vão contar o meu segredo por aí.
Não! Não acreditem na bichogrilice (isso é uma palavra?), mas podem confiar nas pessoas, porque eu só tenho lembranças boas daquele tempo.
Pera aí...só? Será?
E aquela bruxa malvada que chegava de cara amassada e se maquilava com o espelhinho encostado na máquina de escrever, limpando as pontas dos dedos na barra da calça a cada troca: do pó pro blush, do blush pra sombra, da sombra pro batom, da-lhe colorir a barra da calça por dentro! Deixa eu lembrar se eu tenho boas coisas pra contar sobre ela... é.... err.... hum....Não!
Mas há frases célebres:
"Dê graças a deus de ganhar pouco, Mercedes. Você nem imagina a quantidade de descontos na fonte que eu tenho...a soma dá muito mais que o dobro do seu salário."
Obrigada! Essa informação me fez realmente feliz! Quero ganhar pouco pra sempre...
"Agora você é magrinha, bonitinha, quando você tiver os meus trinta anos, vai ver o que é bom."
Hello? Isso é uma praga? Fiquei tão apavorada, que aos trinta eu estava muito melhor do que aos dezoito.
Ela era tão bacana tão bacana, que um dia foi dizer pro nosso chefe que não era eu quem fazia os meus textos. Coitada...Disse que eu passava a manhã empacada, ia almoçar com o meu namorado (que era um criador premiado da época) e voltava com o texto resolvido. Gente!!! Vai ser boa no inferno pra escravizar um redator e fazer ele trabalhar "de grátis" só pra você. Wow! Poderosa...
Passado isso, a bruxa malvada resolveu dizer que pra cada três jobs que ela entregava eu não fazia nenhum. Sim sim...certo, se você desconsiderar o fato de que ela era a pessoa que me passava os jobs, e eu passava dias e dias implorando por unzinho e recebendo sempre um "já vai" como resposta.

Deixemos a bruxa, mudemos de assunto.
No momento em que a minha caixa postal foi invadida eu fiz uma viagem no tempo e fiquei tentando descobrir quando exatamente eu deixei de ser aquela menininha boba porém gostosinha, para me tornar essa mulher esperta porém gorducha! E lembrei de muita gente boa da melhor qualidade, que fazia a bruxa malvada ser quase um pum em meio a um universo de gases nobres. Foi ruim isso? Uma nota destoante em meio a uma orquestra sinfônica. Melhor? Uma pequena deformação na natureza perfeita da... da... diversão no trabalho. Foram dias divertidos, sem dúvida. Eu não sabia nada! Caí ali como o último patinho a chegar na lagoa e aprendi demais.
. O que me fez conseguir tão cobiçado emprego?
- Ser protegida dos dois únicos colunistas de propaganda da época - Ney Alvez e Silvia Dias - e indicada por eles.
. Como me tornei protegida deles?
- Não faz pergunta difícil...eu não faço a menor idéia! Deve ser o meu jeitinho...
. O que me fez ter problemas com a Bruxa Malvada?
- Provavelmente o namorado pintoso que eu arranjei super sem querer numa outra agência, ou um quadril de tamanho aceitável (relaxa, isso mudou!).
. Qual era o meu talento mal aproveitado?
- Escrever...
E foi ali que eu tive que aprender na marra que não posso escrever só o que eu quero. Foi ali que eu tive que transformar toda a poesia do mundo em folheto de produto bancário: você sabe escrever? Então escreva sobre seguro de vida! Escreva sobre CDB! Escreva sobre inauguração de agência bancária em Coxipó da Ponte! Muito bem! Muito bem! Ah, que vida engraçada! Tudo isso sob o olhar fulminante da Bruxa Malvada do Leste e a proteção da linda e carinhosa Rosicler, que sentava logo atrás de mim e era doce como um anjo. E eu, Dorothy, crente que o mundo era cor-de-rosinha, tadinha, me divertia horrores com o resto da agência.
Ali eu usava um papel de rascunho amarelinho inesquecível. Era um papel de seda, quase transparente, onde eu escrevia à máquina textos de trabalho, mas também escrevia poemas, cartas e letras de música. Hoje, quando abro a pasta onde eles estão guardados, morro de rir, porque faltam muitas partes das folhas de papel. Milhares de pedaços foram recortados por amigos que fumaram tudo o que havia em volta dos meus poemas e deixaram só as letrinhas. E eu, que nem fumava, guardo até hoje o resultado de milhares de baseados enrolados em partes de poemas de qualidade questionável! Neurônios queimados? Eu duvido. Neurônios adubados. Ah! A vida é sim engraçada!

Época fecunda aquela, por falar em adubo. Época em que ainda havia romantismo e alguma arte na propaganda. Época em que havia espaço nas agências para meninas de dezoito anos curiosas e com a cabeça na lua. Época da máquina de escrever, de nankin, ecoline, letraset, arte final, revisão no overlay. Época da invenção do Marketing, pode-se dizer, quando ainda eram poucas as gravatas e quase não se ouvia falar em MBA. Ainda se usava o instinto. Ainda valia ser artista. Aquelas pessoas com sotaques diversos inventaram uma agência que inventou a imagem de um banco incrível, que começou com um fazendeiro visionário e terminou com outro fazendeiro visonário. Tudo aquilo era, na verdade, uma comunhão de loucos visionários.
Eu não passei muito tempo ali, talvez um ano ou um pouco mais, o suficiente pra eu poder me gabar.
Agora, minha caixa postal vem trazendo todos os dias um pedaço daquele tempo. Com isso eu descubro que alguns algozes hoje me parecem doces*. A menina bicho-grilo me parece engraçada e muito mais bem intensionada do que eu achava que era. A vida me parece rica de histórias boas. E vendo as fotos, os anos 80 me parecem cheios de bigodes.
Olhar para aqueles dias me traz lembranças incríveis. Até a barra da calça maquiada da malvadona me faz sorrir.
Bom demais.

Um beijo amigo no seu umbigo.

*(menos a bruxa malvada que eu ainda acho malvada)



quinta-feira, março 20, 2008

O que trazes pra mim?


Coelhinho da Páscoa? Você está aí?
É que as Páscoas não parecem mais as mesmas. O que aconteceu?
O que aconteceu que o gosto do chocolate não é mais tão doce? Quando foi que passou a ser enjoativo comer um ovo inteiro e correr para roubar o chocolate alheio?
Eu lembro ainda de acordar ansiosa. Lembro de levantar a minha xícara emborcada no café da manhã, e ficar feliz ao encontrar um ovinho escondido ali. Todos os anos...sempre igual...e a mesma alegria. Depois eu cresci e a Páscoa tinha mais gosto de família grande do que propriamente o doce dos ovos.
Eu cresci mais e os papéis se inverteram e o gosto ficou ainda mais doce. Era eu escondendo ovinhos, doces, balas por toda a casa, fazendo pegadas de farinha, enfeitando ninhos. Depois, na beira do fogão fazendo os ovos, embrulhando com laços enormes e papéis coloridos, ensinando às crianças a mágica do Coelhinho. E domingo era dia de criança feliz, pezinhos correndo desde cedo, gritos de euforia ao encontrar pegadas, descobrir caminhos, chegar ao tesouro. Alegria! E foram muitos anos assim.

Agora parece que o coelho se foi. Os passos são mais fortes, os doces em menos quantidade, sem ninhos, sem pegadas. Só o ovo embaixo da xícara continua lá. Eu ainda presenteio minhas crianças, mas a casa é menos enfeitada.
Talvez esta seja a primeira vez que a "nostalgia de crianças" tenha batido no meu coração. Onde estão as crianças? Elas meio que se foram e no lugar delas há homens e mulheres. No lugar dos olhos brilhantes de ansiedade, há olhos brilhantes de futuro - um futuro presente. No lugar de seus gritos de euforia, há vozes firmes com opiniões idem, vontades certas de personalidades já totalmente esculpidas. Não há mais seres em construção, embora estejamos todos sempre. Agora os habitantes da minha vida são quase todos adultos com seus olhares de criança. Ou são os meus olhos? Nenhum deles - filhos e sobrinhos - tem que olhar para cima quando fala comigo, ao contrário, sou eu quem tem que ficar nas pontas dos pés para beijá-los.

Pela primeira vez, a Páscoa parece mesmo ser "travessia". Lá vou eu atravessar esta ponte, este mar, este mundo inteiro, para passar de formadora a espectadora. Agora eu preciso saber sentar e assistir. É estranho, porque a travessia deles é a minha travessia. Lembra quando eles subiram pela primeira vez a escada do escorregador? Lembra como eu fiquei sentada, prendi a respiração e os segurei com os olhos para que não caíssem? Lembra o uniforme novo, primeiro dia, lancheira a tiracolo, chupeta no bolso? E eu parada no portão segurando com o coracão um delicado fio invisível, com uma vontade imensa de puxá-lo de volta. Lembra da primeira viagem sem mim? Eu arrumando a mala, fazendo trinta recomendações e segurando com a alma todas as orações que conhecia, para que eles voltassem?
Travessias. Pequenas, diárias, eternas travessias. Pequenos "mares vermelhos" que precisam ser transpostos todos os dias de todos os anos, nem sempre encontrando um ovo embaixo da xícara. Isso é Páscoa. É transformar a vida - a minha e a dos outros. É transpor mais um obstáculo, é arriscar mais uma vez, é enfrentar o mar para pisar em terra firme. É libertar.
Depois de libertar tantas vêzes, talvez eu veja o mar de outra forma. Da cabeceira da mesa, eu entendo que todos estes adultos já não precisam de mim porque já foram libertados, mas estão comigo. Foram pequenas dores seguidas de pequenos orgulhos, umas mais tênues, outras mais agudas, uma atrás da outra, até que todos entendêssemos que é assim que a vida vale a pena: transpondo para crescer; e que as finíssimas linhas que eu cortei a cada vez que os vi cruzar a porta de casa ou atravessar mais um portão, tornaram-se os laços fortes e eternos que nos unem.
E eu atravesso feliz a ponte que me leva a esta nova fase da vida, mais doce, bem mais doce do que chocolate.

Feliz Páscoa.

segunda-feira, março 10, 2008

O oco

foto bem velha

Oh my...oh my...estou me tornando repetitiva! Já até publiquei post antigo que todo mundo já leu. Crise criativa. Writer's block. Branco total radiante. Chame como quiser.
Eu chamo de "o grande oco das palavras". É quando elas crescem e tornam-se assustadoramente monstruosas e eu fico minúscula diante delas. Se eu ouso encará-las descubro que elas se organizam de forma a criar um vácuo de proporções imensuráveis: o grande oco. Um mistério.
Elas nunca me faltaram mas hoje eu confesso, não sei como encontrá-las. Paro em frente ao espelho, dou aquele sorrisinho de começo de conversa...olho de novo...espero ouvir o som da minha voz, mas...nada. Silêncio. Não há palavra a ser dita.
Já não posso dizer o mesmo sobre o meu carro. Ah, não! No carro elas vêm fácil! Acho que vou começar a gravar o que elas dizem na marginal, porque parece ser seu lugar preferido. Hoje elas disseram coisas incríveis e me ensinaram o que eu meio que sabia, mas não era capaz de verbalizar:
"A crise criativa não é causada pela falta de uma paixão. Se apaixonar é inventar um ser perfeito onde havia apenas uma pessoa. Logo, a falta da paixão é que é causada pela ausência da criatividade."

E eu entendi tudo...

Foi dirigindo na marginal também que eu a vi terminando de fechar o ziper lateral do vestido preto decotado nas costas que tornava sua pele ainda mais branca e perfeita; tirou o excesso de batom, soltou alguns fios do cabelo, pegou a pequena bolsa e foi para o corredor. Parou no alto da escada, desceu lentamente os dois primeiros degraus, olhou para ele ali parado, olhos brilhando...perguntou:
- How do I look?
Sem desviar o olhar ele esticou o braço para recebê-la e respondeu:
- Mine.

Foi no carro também que ele riu do CD que estava tocando e disse que ela era muito mais retardada do que ele imaginava; e ela provou por A mais B que ele era preconceituoso.
" Quando sua mãe cantava para você dormir, ela não pensava em cantarolar músicas elaboradas. Ela cantava uma melodia óbvia e simples que você foi capaz de repetir com um ano de idade e nunca mais esqueceu. Melodias óbvias e simples com letras fáceis acalmaram seu coração em momentos de medo ou de perda, e você aprendeu a gostar de música graças a elas. Existem milhares de formas de se dizer a mesma coisa. Eu posso elaborar e complicar a maneira de dizer "eu te amo", mas ainda vou estar dizendo "eu te amo". E se eu quiser que todo o universo entenda que eu te amo, é melhor dizer assim, da maneira mais popular. E popular é o que esta música é. Popular porque é capaz de ficar na cabeça de um grande número de pessoas. E só consegue essa mágica por ser óbvia, simples, e dizer o que quer com pequenos rodeios óbvios e simples. Olha só...vou te mostrar. Você ouviu esta música alguma vez? Não? Ótimo...feche os olhos e tente cantá-la junto com o CD..."
Surpreendentemente ele obedeceu e descobriu que era capaz de adivinhar a próxima nota, e a outra e a outra.
" Viu? É simples...o que não quer dizer que seja ruim. É como a música que a sua mãe cantava... você ouve a primeira nota e adivinha o final de cada frase...ISSO é MÚSICA capaz de mover a mim e a um intelectual, a você e ao homem mais simples. Ela existe pra mover pessoas. É puro instinto. O homem fez música antes de saber se comunicar. A capacidade de fazer música é inerente ao ser humano e vem de algum lugar que não passa pelo raciocínio lógico. Se você ouvir com a alma e não com o preconceito, toda música é pura...como os seus instintos."
E ele entendeu Akon e Justin Timberlake.
(posso rir? hahahahha)

Não sei quantos diálogos eu já travei nos sei la quantos kilômetros que separam minha casa dos Jardins, do Butantã ou de Moema. Quantos amores eu inventei, quantas cartas de despedida, quantos encontros improváveis, quantas mulheres diferentes...quanta coisa eu disse e pensei, mas deixei que o vento levasse embora junto com a fumaça do cigarro.
Talvez eu precise dirigir mais...talvez eu precise gravar esses momentos.

Tá complicado.

Bom dia.

domingo, março 09, 2008

Cartas #1

(este é um post antigo, que eu escrevi após ver um filme na TV em que um homem recebia uma carta xôxa de despedida e eu resolvi que tinha que reescrevê-la. É...eu sei que eu sou louca!)


Adeus.
Acho que já dissemos isso antes.
Quantas vezes será que nos olhamos pela última vez? Quantas vezes meus olhos saíram molhados da sua frente e o gosto de “nunca mais” permaneceu na minha boca? Quantas vezes voltei atrás mesmo sabendo que diria adeus novamente?
Os anos se passaram, e mesmo tendo dito tanto antes de nos afastarmos para sempre, ainda tenho muito a dizer. Não é mais hora para melodramas, ou para culpar um de nós pelo que vivemos. Mas o tempo passou rápido demais e já é hora de partir de verdade. Desta vez sem volta.

Você não deve saber a importância que tem na história da minha vida, por isso decidi escrever:

Depois que nos despedimos na última vez, minha vida tornou-se tranqüila e equilibrada. Eu nunca mais chorei demais. Nunca mais sofri demais. Nunca mais senti ódio. Nunca mais quis matar ninguém. Não me senti traída, não me senti rejeitada, não me senti a última das mulheres, não fui mais pisada. Mas pisei na sua memória. Execrei o seu nome. Destruí cada pedaço de papel que você tenha tocado, cada roupa que me lembrava você, cada foto, cada peça da minha casa que trouxesse você à lembrança. Isso me fez bem. E era esperado.

O que você talvez não saiba, é que pensei em você todos os dias em que estive consciente. Pensei em você todas as vezes que fiquei muito feliz, imaginando como você reagiria ao saber que eu estava esfuziante. Pensei em você todas as vezes que estive triste demais...e então rezei pela sua mão enxugando minhas lágrimas. Rezei pela sua presença na minha doença. Rezei pela sua imagem no meu desespero. Rezei pelo seu cheiro na minha solidão. E estive tão sozinha...Mesmo na vida plena e cheia de amigos e familiares que tive até o último dia, você era o fantasma que rondava meu quarto, a mesa do natal, os ninhos de páscoa, o quarto das crianças, as flores do jardim. Você cantou pra eu dormir, viu minhas lágrimas na chuva, foi cúmplice dos meus sorrisos, me protegeu do perigo.

Sabendo que você era tudo o que eu não queria, eu passei a vida ao seu lado, sem tê-lo. Sorri pra você em frente ao espelho. Falei com você andando na rua. Pedi que o telefone tocasse, que a campainha soasse, que o carteiro me entregasse um sinal da sua existência.

Lembrei de você a cada prato preparado, cada roupa nova, cada feito, todos os dias e todas as noites, e todas as horas em que minha mente se encontrou vazia.
Agora estou indo embora. Sozinha. Não sei como voltar ou como evitar que, no vazio da morte, eu sinta a sua falta. Tenho muito medo que a vida eterna exista, e que nela só haja a lembrança do seu sorriso, do seu cheiro, das suas mãos. Que o purgatório seja poder lembrar o gosto do seu beijo.
A morte me apavora. E eu pensei que estivesse preparada. É lógico que todos pensam que sim. Estou tentando deixar que imaginem que estou indo em paz, mas só para você eu posso dizer que tenho medo, meu amor...tenho medo de ir sem você. Queria que você me desse a mão como fez outras vezes. (Nenhuma outra mão se encaixou na minha como a sua). Queria deitar minha cabeça no seu peito mais vez e ouvir a sua respiração que me acalma. Queria ouvir a sua voz dizendo que eu posso ir, que você vai cuidar de mim.
Preciso ir.
Queria que você soubesse o que sinto. Mesmo tendo acabado tão mal, mesmo tendo sido tão ruim, eu não pude tirar você de mim. Na sua ausência, estive ao seu lado, que é o meu lugar.
Deixo para você a certeza de ter sido amado como ninguém mais.

E é com o seu sussurro em meus ouvidos e a sua mão na minha que eu fecho os meus olhos...

sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Rebimboca da parafuseta

Coisas imprescindíveis que ainda não foram inventadas.
(meu filho disse que eu imitei o McDonalds, mas eu to de regime há 3 meses!!)


. Hormônio da terceira dentição:
Agora que o ser humano está vivendo mais, vai precisar de dentes por mais tempo e não vai querer perder tempo com coisas pre-históricas como dentistas.

. Sleeping-Shapekeeper:
Aparelho que “malha enquanto você dorme”. Você conecta alguns eletrodos e, quando acordar pela manhã, terá corrido 10 km e feito uma hora de pilates ou atividade a escolher. Tudo sem acordar nem para fazer xixi.

. Weird Mood Translator:
Aparelho que traduz aquela cara estranha que seu marido fez quando você contou seus planos para o fim de semana, ou para a nova decoração da casa.
É acionado à menção da frase: “Não…nada…”

. Ouvidor Plus:
Aguça a audição de maridos em geral, forçando-os a escutar o que as esposas falam, mesmo enquanto eles lêm o jornal. Vem com gerador de choque elétrico para o caso de respostas do tipo: "an hãa"

. Calories Evaporator:
Apresentação: Provavelmente um comprimido.
Indicação: ataque de gula.
Posologia: 1 comprimido após a ingestão de um Big Mac, uma coca grande, uma batata grande e um Sunday de chocolate.
Ação do medicamento: Evapora o alimento consumido, permitindo assim que o paciente coma à vontade sem que calorias sejam absorvidas pelo organismo.

. Desintegrador de chatos:
Não preciso explicar isso

. Demaquilante automático:
(encomendado por Carol Garofani).
Parece uma toca de banho, só que maior. Antes de dormir, enquanto você faz o último xixi do dia, coloque a toca cobrindo o rosto e os fones no ouvido. O demaquilante vem com MP3 para você não achar tedioso. Em menos de 2 minutos, a toca demaquilante remove sua maquilagem, tonifica e hidrata sua pele.
A toca demaquilante vem em dois modelos: Before30 e After30. A versão After30 vem com creme anti-age.

. Escovador de dentes Dentist Free:
Ainda não sei como vai ser, mas alguém precisa fazer isso rápido. Não tem nada mais chato do que escovar os dentes. Ah tem! Dentista!

. Mãe Simulator:
Um boneca inflável que fica sentada em alguma parte da casa o dia todo. Preparada para ouvir e reagir em caso de queixas, fome, ataques de pelanca e crises existenciais.
Preparada para ouvir a palavra MÃE mais de 500 vezes num mesmo dia sem perder a paciência.

Doméstica HD Plus:
Extra brain cells for your maid.

Mãe Calaboqueitor:
Dispositivo invisível, inodoro e incolor que impede sua mãe de dar palpites na sua vida, seus amigos, seu figurino, na cor do seu cabelo ou na escolha do seu namorado. Toda vez que ela começa a ter um ataque de preocupação com o seu futuro ou suas atitudes, o Mãe Calaboquitor põe a véia pra dormir.

MSN Block Forever:
Você bloqueia a criatura, e mesmo que ele baixe 300 programas para tentar descobrir, você nunca vai receber um e-mail dele dizendo que acha que você o bloqueou por engano.
Este programa também impede seu computador de adicionar ao MSN, Orkut, MySpace, Facebook, AIM ou seja o que for, pessoas com nomes começados por mais de 1 símbolo, ou contendo as palavras Jesus, te, ama, fofinha, gostoso, pegador, ou diminutivos em geral.

NoContas:
Pagador de contas automático. O aparelho recebe, abre, programa e paga sem você precisar sequer olhar o vencimento. Também não é preciso se preocupar com o dinheiro, porque em caso de conta negativa, o aparelho produz o próprio dinheiro, cobre a conta e ainda deixa um extrazinho. (no mac tem esse...droga!)

Cardápio Penseitor:
Aparelho acoplado ao interruptor de luz da cozinha, que pensa o que fazer para o almoço e para o jantar. Nunca mais sua empregada vai perguntar o que fazer quando você já estiver na porta do elevador. No caso de não-empregada, não se estresse, assim que você acende a luz da cozinha, o Penseitor analisa o conteúdo da geladeira e dos armários e elabora o cardápio para você. Vem com as opções Dia-a-dia, Data-Especial e Brincando de Nigela.

DogPileFree:
Não importa a raça ou o tamanho do cachorro, o DogPileFree resolve todos os seus problemas. Chega de sair às 7 da manhã na chuva para passear com o seu cachorro. DogPileFree é uma esteira com várias opções de postes e cenários, com saquinhos plásticos acoplados. É simples e prático. Basta colocar a super cinta higiênica no seu cãozinho, acoplar o saquinho e ligar a esteira. Pronto...
E isso não é tudo: na compra do DogPileFree, você ganha o exclusivo spray desintegrador de cocô NoMoreShit! Basta um esguicho e ninguém vai saber o que o seu cachorro comeu.
E não é só isso: se você ligar agora, vai receber na sua casa a esteira DogPileFree, o spray NoMoreShit e a fucinheira musical BluesDog, que transforma os latidos do seu chiuaua chato em música para os vizinhos.


É claro que não é só isso.
Do jeito que o mundo e o Polishop andam, ainda vem muito por aí.

Até o msn minguar

Shhh....é madrugada.
Alguns dormem, outros não estão em casa. Só eu pareço existir nesse mar de silêncio onde o som mais forte vem das minhas unhas batendo nas letras do teclado.
Por incrível que pareça, o P é mais agudo que o U, mas o M é o campeão; não há nenhum pedaço de carne tocando o M, o C, a vígula e o V. Só minhas unhas vermelhas. Talvez por isso essas sejam sempre as primeiras letras a desaparecer. Daqui há dez mil anos, arqueólogos vão reconhecer os meus teclados por marcas de unha nas letras debaixo, e pela falta de quase todas as letras, fora os números, o Y e o W, que só estão gastas, mais ainda podem ser vistas.
Conforme a manhã se aproxima, eu vejo a lista do msn minguar, até que me vejo sozinha. Sim, eu me tenho no msn. (Você não? Louco!) No fim da madrugada estou acompanhada de no máximo duas pessoas da AOL, e mais nada.
De agora (meia noite e trinta e seis) até o msn minguar, os sons que não existem começam a se intesificar. Começa com o caminhão que varre a rua depois do lago - parece longe, mas quando ele passa, eu acho que vai lavar o meu quintal. Tem o vôo das três em ponto. Alguns pernilongos debaixo da mesa mordendo a minha perna e eu não sinto, só escuto. O motor da geladeira que me assusta às vezes. As capivaras no parque com aquele latido estranho. É, parece um latido, mas é gutural e forte. Às vezes um latido antecede o mergulho de uma delas no lago, e o tibum me faz rir. Tem os gambás (saruês) que fazem um escândalo quando descobrem casais cruzando; tem sempre platéia e uma gritaria. A impressão que dá é que pássaros gigantes, pterodátilos talvez, estão dando razante ali no muro dos fundos. Às vezes tem mesmo um pássaro retardatário, os cães da vizinhança, um gato se engraçando pra outro... Sim, os gatos...eu escuto as coleiras dos meus gatos quando eles andam no jardim, como se fosse a Sininho chegando.

O silêncio chega às vezes ao ponto que eu chamo de Discovery Channel. Uma madrugada dessas, só eu e o som das unhas no teclado, e vejo um vulto subindo a parede. Era uma lagartixa. Olhando melhor, eram duas - uma adulta e uma pequena. As duas tinham o mesmo objetivo: um mosquito distraído. Eu parei para ver qual delas ganharia o jantar... a grande estava bem perto do mosquito quando a pequena se aventurou numa corridinha meio gay. Violentamente, a adulta virou para ela, abriu a boca e, pra minha total surpresa, gritou! Santo lagarto, Batman! Lagartixa grita!! Claro que não é um super grito, mas é como se um jacaré tivesse encolhido e ficado meio sem voz. Eu morri de rir com a fuga a jato da lagartixa pequena, e com a minha cara de idiota ao constatar que animais silenciosos também sabem armar um barraco. É ou não é Discovery Channel?

Fora esses sons "Reino Animal", tem o rádio do segurança que passa com seu carrinho branco, jurando que não é ouvido. Ele passa muitas vezes até o msn minguar, e nunca desliga aquela coisa. Se alguém namora no carro antes de se despedir, duas ruas pra lá, eu escuto o baixo da música que toca no rádio. E tem o mané que faz cavalo de pau no fim da ladeira, -- lá depois do rio -- noite sim, noite não, ele brinca de me fazer desejar que o carro capote de uma vez pra ele parar com essa chatice.

As noites são parecidas. Fora a festa dos gambás, nada muda muito.
Chega sempre a hora que eu escuto o freio a disco do carro do entregador de jornal, o barulho do pacote batendo no chão da garagem, e sei que é o sinal para ir dormir. Apago cada uma das luzes que ficaram acesas, fecho a porta de vidro que faz um ganido dos infernos, entro no meu quarto com o maior cuidado para não acordar o meu marido... e quando coloco meu celular no dock pra carregar, ele faz um apito escandaloso astronômico que poderia acordar todo mundo num raio de vinte kilômetros. Mas não...sou só eu que me incomodo com ele. Todos dormem jurando que o mundo está em silêncio.


Buenas.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

A janela que me reflete

Esta não foi a primeira vez que eu recebi mensagens no msn, e-mail, telefone, sms, perguntando se um texto meu é auto-biográfico. "Quem é o cara do monólogo?", "De quem são aqueles olhos no post?", "Quando foi aquele Coisas da Vida?"
Mesmo quem me conhece há muito tempo tem dúvidas... Mas eu preciso lembrar a todos que faz 16 anos que o único lugar existente para grandes aventuras é dentro de alguma curvinha das muitas que o cérebro faz. Talvez só alguns milhares de neurônios sejam responsáveis pelos amores mais incríveis e a histórias mais deliciosas.

Anyway, fato: até seria divertido ser a heroína de todos os que passam a vida atrás da mesa ou no sofá permitindo-se pequenos prazeres ao ler ou ver uma história de amor. Mas a verdade é que eu sou uma delas. Eu fico de pijama e cara amassada, atrás da minha mesa branca, me permitindo pequenos prazeres ao criar histórias baseadas em coisa nenhuma.
Auto-biográfico? Eu já defini isso uma vez. É lógico que tudo o que se escreve é um pouco auto-biográfico. É a auto-biografia da alma. Se eu escrevo "Um Tango para George". aquele George sou eu, e cada linha de diálogo que ele diz veio de dentro de mim. Em algum lugar aqui dentro existe um George - homem dos sonhos de 8 entre 10 mulheres acima de 30 anos no mundo ocidental. Em algum lugar dentro de mim existe uma Lívia, uma Mélia, uma mulher como aquela que foi arrebatada pelos olhos azuis ali em baixo, que deu mil e vinte seis beijos e um chocolate para alguém mais lá embaixo, que esteve com Daren e Mr. (quem? Não lembro mais) em aventuras incríveis. Até mesmo os personagens masculinos mais estranhos, como Pedro, o cara inseguro que perdeu o celular na noite do ataque do PCC e não sabe mais voltar pra casa; e a mulher dele que é chata e não sai com ele porque está com dor de cabeça.
Eu já disse de outra vez: "eu sou única e sou muitas. E sempre haverá mais de mim."

Ainda seguindo a linha "auto-biografia da alma", muitos dos meus homens são homens que eu conheci. Alguns de seus gestos, bons ou ruins, algumas de suas frases ou seu jeito de vestir. Todos eles, um por um, sou eu e mais alguém. Alguns homens incrivelmente admiráveis outros desprezíveis, mas todos são parte de minha vida um dia ou em outro, e marcam por alguma coisa que, mais cedo ou mais tarde, vai estar num texto meu. Por serem parte de mim, estão na minha alma. Por estarem na minha alma, vão tornar-se palavras.

Isso é só pra dizer que é uma pena...uma pena que eu não seja a super-heroína que vive por aí tendo paixões e amores incríveis em quartos de hotel e lugares distantes. Apenas, como a criança que eu fui, invento histórias na frente do espelho. E esta tela branca grande que eu uso para escrever me reflete tão bem, quando o dia está claro, que eu simplesmente não posso resistir.

Um beijo amigo no seu umbigo.

segunda-feira, fevereiro 18, 2008

Monólogo

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Passei com o meu carro por lá e estava uma confusão. Olhei curiosa e você me viu. Eu continuei devagar, você saiu do meio da multidão com o braço para cima gritando meu nome. Não parecia verdade, mas você gritou meu nome outra vez, me pediu para parar. Eu parei em fila dupla, outros carros me xingando e buzinando, mas não tinha o que fazer. Se eu desse a volta na quadra talvez perdesse você… Não! Nem pensei em andar mais dez metros. Quando vi seu braço esticado, seu pescoço tentando crescer para me ver, sua voz gritando meu nome…eu parei. Só parei.
Não olhei para trás. -- nem para os carros, nem para você. Tive medo de me mexer. Olhei pelo retrovisor externo e vi você afastando a multidão com os braços, se esgueirando para passar entre as pessoas. Meu coração bateu forte. Um frio na barriga. Medo. Muito medo. Por que você estava aqui? E você veio chegando, as pessoas tentando entender onde você ia, aqueles homens querendo evitar que elas seguissem você, queriam levar você de volta para dentro…e você chegando. Quando você parou na porta do carro, eu não olhei para fora. Fiquei como estava, olhar fixo no espelho que já não mostrava nada, meu coração pulando, meu estômago virando, fechei os olhos como se esperasse a pedra que vinha bater na testa. Você bateu no vidro. Eu apertei o botão e virei o rosto na sua direção com medo que meu coração pulasse e sujasse a sua roupa. A sua roupa. Uma manga longa por baixo da outra curta. E por dentro você vestia um sorriso que ofuscava toda a rua. O ritmo dos meus batimentos cardíacos mudou quando encontrei seus olhos. Parou. Três segundos de morte e eu precisei sorrir. Você perguntou onde eu estava indo. Eu disse que não sabia. “Não sei mais, não lembro, e você? Onde você estava indo que veio parar aqui?” Você abriu a porta do carro, levantou a mão e fez sinal para alguém que eu não vi, mas que entrou no meu carro assim que eu saí. Você mandou guardar o carro e disse no meu ouvido que eu não ia a lugar nenhum e nem você. Eu estava atordoada com toda aquela gente, e não conseguia entender a sua presença, tão perto, sem eu saber, sem me avisar. Era como um sonho ou uma alucinação, mas sonho não segura o braço da gente, e você me puxava pelo braço me levando sei lá pra onde. Passamos no meio de toda aquela gente e elas perguntavam umas às outras quem eu era sem ninguém responder, nem eu, porque eu não sabia mais. Só sabia que você estava ali, jeans, camiseta e a outra, e um sorriso que ofuscava todo o bairro, e aqueles olhos felizes me olhando. Você me puxou correndo e me levou para o elevador, apertou o botão que fecha a porta três vezes, quatro, cinco e a porta fechou quando a multidão chegava. Você suspirou aliviado fechando os olhos e, sem abrí-los, me abraçou sem dizer nada de um jeito de quem queria muito um abrigo, mas fui eu quem se abrigou no seu peito, as costas escondidas entre os seus braços, e sua boca beijando o meu cabelo. Eu não disse nada. Não podia. Minha voz não sairia e nem saberia o que dizer. Você ficou assim até o elevador parar no décimo andar e só me largou quando a porta abriu. Você me puxou de novo, segurando meu braço e minhas costas, me guiando pelo corredor que eu não sabia onde ia dar. Eu olhei para você, tão alto, que me sorriu outra vez e parou me olhando. Era o meio do corredor do décimo andar e eu não sabia porque estava ali, ou você, sem eu saber, sem me avisar…Você disse que eu sou melhor ao vivo e eu disse que você também não é mal, você sorriu dentro de mim de um jeito que eu não sei explicar e ofuscou toda a cidade. Você me abraçou de novo mas antes que eu pudesse me encaixar no seu peito, me levantou no colo e continuou andando pelo corredor do décimo andar me beijando enquanto andava, enquanto meu coração parava. Eu não disse nada, porque não sabia como tudo isso estava acontecendo se eu estava acordada e não estava sozinha, porque não tive tempo desde que parei o carro para sonhar por um minuto. Você abriu a porta e eu vi as malas fechadas. Deduzi que você acabara de chegar e comecei a entender porque eu não sabia. Eu também não avisaria; chegaria e pegaria o telefone pra dizer “hey! O que você vai fazer daqui há meia hora?” Aí contaria que estou aqui, que vim te ver, que não podia deixar você sonhar comigo acordado para sempre assim, no vácuo dos pensamentos. E quando você me devolveu ao chão, eu vi tudo rodar e você me segurou, perguntou se eu estava bem e me beijou de novo. Me sentou na poltrona, parou na minha frente, sorriu com os olhos bem dentro dos meus, e disse tudo o que eu tinha pensado. Que você ia me ligar, que só veio para me ver, que não podia mais ficar assim, no vácuo dos pensamentos. Disse que não quis me avisar com medo que eu fugisse. “Fugir? De você?” Você estava mesmo no vácuo de alguma coisa,  ou saberia que é impossível fugir. Você segurou as minhas mãos e eu lembrei que queria as suas. Segurei as duas para mim e olhei os seus três anéis. Agora fui eu quem sorriu dentro de você e ofuscou todo o planeta. Eu beijei as suas mãos por existirem... e você entendeu o que eu quis dizer.
Deixa eu mentir para mim? Deixa eu achar que estou acordada e que não estou sozinha e que o seu sorriso está aqui ofuscando todo o universo.


quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Eraser


I can see you from where I am.
I can see the green light.
Strange…

I don’t feel like walking in your direction.
I don’t feel like talking, for you look like fiction.
I don’t feel I’m part of your dysfunction.

I guess your words have erased you.
I guess my sadness has killed you.

I can see you from where I am
So I look for what I once felt
But you’re not there…
You’re not even real.

I think my spirit has erased you.
Yes, sure...my heart has already killed you.


segunda-feira, fevereiro 04, 2008

Ficando exigente?


Então eu sento e escrevo um milhão de histórias.
Então escolho uma ou duas e começo a desenvolver.
Então fico enchendo o saquinho das minhas colaboradoras pra pedir mais e mais histórias.
Então nunca acho nada do que faço bom o bastante.
Mostro para o Cláudio, que tem sempre os "por que não's" guardados na manga, como se ele fosse o mantenedor do senso de realidade de todas as histórias do mundo.
A gente se frustra e acha que nunca, nunca, nunca vai ter uma grande história para filmar.
Que chato!
Aí eu vou ao cinema. Não assim: Oba...vou ao cinema me divertir um pouco. Não! Sento lá por duas horas para ver o que faz um filme chegar aos pés daquela grande e inatingível estátua dourada. Então coloco os óculos (to ceguinha ceguinha!), deixo minha garrafa d'água à mão, me acomodo na poltrona com lugar marcado - sim...filme de Oscar merece certos luxos! - e penso: Pelo amor de deus, surpreenda-me!
Ai gente...que tédio!

1. No Country for Old Men (onde os fracos não têm vez): Tradução mais imbecil que eu vi nos últimos tempos. hahah! Esse cara que cria nome de filme em português merecia encontrar um caminhão na contramão!
Mas vamos a ele. História boa. Boa...fora o fato de uma criatura que encontra uma quadrilha inteira de traficantes mortos no deserto, deixa o único que estava vivo pra morrer lá pedindo água, e rouba uma mala com um milhão e meio de dolares; resolver ter um ataque de culpa de madrugada e levar água pro cara que tava morrendo. Hello??? Ele já mostrou que é uma pedra de frio. Ele nem ficou ofegante quando achou a chacina. Ele nem pensou em chamar a polícia! Culpa de madrugada??? Give me a brake! Pior que se tirar isso não tem filme!
Okay então...vamos engolir essa. O que mais eu tenho a dizer? Que nem a cara feia do Javier Barden me emocionou. Que no meu tempo quem fazia filme lento era sueco, russo ou alemão. Que a gente já viu "A morte pede carona" e depois dele mais 800 road movies com um maníaco perseguindo alguém com ou sem motivo. E que fora o filme acabar praticamente do nada - e com um belo texto - nada mais me surpreendeu. Tédio...

Ok...next!
Juno.
Ano passado eu já fiquei meio assim, achando que eu devo ser muito chata ou estar meio "fora da real" quando vi Little Miss Sunshine. Uma delícia de filme que eu veria na sessão da tarde e daria muita risada, mas que não sei muito bem o que está fazendo ali perto daquela estátua dourada. Pois é. Lá vem eles de novo premiar um filme assim.
Juno é delicioso. A Ellen Page justifica a indicação por um único motivo: se o filme fosse protagonizado pela Lindsay Lohan ou pela Hillary Duff, ou qualquer outra atriz de filminho adolescente, a gente não ia nem acreditar que a Juno tava grávida, nem achar que ela transaria com aquele garoto feio sem pelos nas pernas.
Pois bem. E o resto? O resto é bonitinho. As pessoas trabalham bem. A história é bem conduzida. Você quase acredita que vai dar uma caca muito grande que não rola. Filme bom. Bem bom. Mas podia passar domingo à tarde no Disney Channel. Oscar? Hm...tem alguma coisa errada com a Academia.

O Caçador de Pipas: chorei as entranhas! Mas era previsto. Todo mundo sabia que num determinado momento a gente odiaria o Amir, depois ele iria se redimir da maneira mais complicada possível. Ok ok...Quem não leu o livro, leu a orelha do livro. Quem não fez isso leu algum resumo numa revista semanal, ou escutou de uma senhora da família que passou o almoço contando o livro, num dia qualquer.
Mas o que você imagina quando eu digo "TORNEIO DE PIPAS NO AFGANISTÃO"? O que você vê quando pensa num céu com milhares de pipas voando, duas vezes o número de pipas em crianças nas lages de milhares de casas? Pois eu vejo uma cena linda! Cinematográfica ao extremo, quase mágica e surpreendente. E se eu digo que o filme abre em San Francisco, num parque em frente à San Francisco Bay com a Golden Gate no fundo? Eu vejo uma cena linda...
É... isso eu. Parece que o diretor de fotografia do filme não viu bem assim. Essa criatura perdeu no mínimo 20 oportunidades de fazer um cinema bonito, trocando tudo pela fotografia mais crua e feia que eu vi desde algum documentário sobre favela. Fora o elenco feidimás...mas isso não tem muita saída, já que o Afganistão não é muito dotado de pessoas com a beleza que para nós é bela. Pelo menos só está indicado a melhor música...se estivesse indicado para melhor fotografia, eu ia cortar os pulsos.
Fora isso, tem um Taliban que aparece no fim do filme que eu jurava que era o Jim Morrison. A única pessoa no elenco que não podia, de jeito nenhum, parecer nascido na Califórina, parece até que surfa! Pois bem, era o Jim Morrison disfarçado de Taliban. Péssimo.

Ainda falta Michael Clayton e Sangue Negro. Fora os que chegaram perto do Oscar: A Mighty Heart, Elizabeth - the golden age, American Gangster, La Vie en Rose, Into the Wild, Sweeney Todd.
Tendo visto mais de 50% dos indicados a melhor filme - Desejo e Reparação, Onde os Fracos não têm Vez e Juno - eu posso dizer que TIENGO PAURA!!!
Foram os caras que perderam a mão, ou eu que fiquei muito chata? Até agora só Desejo e Reparação tem cara de filme para Oscar. Estou rezando pra Michael Clayton e Sangue Negro me surpreenderem (ponho mais fé em Sangue Negro, na verdade). O resto não sei...acho que me perdi.
Alguém acha uma máquina do tempo porque eu quero voltar pros anos 90! Eu preciso de Fargo, O Piano, Forrest Gump, Braveheart, American Beauty, Schindler's List, O Silêncio dos Inocentes....Socorro!!


Buenos dias.