.
Quanto tempo dura um sempre?
Menos, muito menos do que o desejado, pode ter certeza, a não ser o sempre que dói.
Um momento de alegria dura um "pra sempre" ínfimo e, o quanto mais ele vai durar, só depende da memória, porque nem todo "pra sempre" é pra sempre mesmo...a não ser que você fotografe, grave, se esforce para não perder nenhum detalhe, porque ele se vai...e é rápido.
"Existem sempres que eu tenho", ela disse, "mas não necessariamente os sempres que eu queria ter. Eu tenho pra sempre o peso do paletó dele, guardado aqui na memória. Memória inútil, parece? Parece, mas nem é, já que posso ter perdido outros detalhes. Lembro que era marinho e muito mais pesado do que eu esperava, quando fui arrumá-lo no banco de trás, para nao amassar...boba, Amélia de quem não quer uma.
Mas tenho pra sempre a vontade de ser. Sabe, tem gente que passa pela vida assim, de longe, de besta, por acaso e só. Mas tem gente, que mesmo passando rápido, por muito muito pouco tempo, parece que dá tempo de querer tanta coisa...e querer tanto. 'Pra sempre' é asssim: rápido, porém demorado...passageiro, porém eterno... e faz uma confusão no tempo e no espaço que atrapalha toda a matemática e a relatividade e faz com que você possa querer. Então eu quis. Eu quis cuidar dele, eu quis adormecer ao seu lado, eu quis ouvir o barulho do chuveiro, quis saber os sons de escovar os dentes. Tão rápido, tão urgente, antes que acabasse, eu precisava saber se ele dorme de lado ou de bruços, pra saber como eu me encaixo, como me enrosco, como me enredo em suas pernas pra lembrar pra sempre. Mas esse 'pra sempre' eu perdi...
Mas tenho outros...tenho sim.
Tenho cheiros e gostos e sensações na pele. Tenho lembranças que parecem retratos: um sorriso, um olhar, um jeito de suspirar, um gemido, uma lambida, mordida, gargalhada. Tenho uma cara bem boba olhando pra mim como menino, sorrindo e mordendo o lábio com cara de travessura. Tenho todo o pensamento entre as sobrancelhas...porque eu escuto e não esqueço o jeito dele pensar.
Tenho o andar -- o jeito atrapalhado e indeciso, meio exibido, meio inseguro, meio tão meu que dava medo --.
'O que foi?'
'Estou aqui esperando você cair no meu conceito...vai por açucar no café?'
'Não, nunca...'
'Ufa!'
pra sempre e sempre e sempre!
E o jeito de me chamar pelo nome que não é meu...o nome só dele e de ninguém mais. Não tem como apagar isso, e eu vou lembrar quando estiver indo embora, depois dos 90, quase aos 100, e vou sorrir um sorriso tão enorme que meus bisnetos vão achar que é delírio. 'Foi sim...foi um delírio, o melhor de uma vida toda...' E vou fechar meus olhos lembrando que assim que 'pra sempre' é.
Tenho tantos outros momentos que lembro e relembro, e repasso milhões de vezes pra não perder...são pequenos trejeitos, são grandes frases, são brevíssimos momentos de gigantesco prazer. Não vou perder nada...nada mesmo...sei que vou lembrar enquanto meu cérebro ajudar. O único 'sempre' que eu preciso perder é o sempre da dor, que já durou demais. A saudade imensa que dói na boca do estômago e sobe depois para a garganta, faz arderem os olhos e baixar a cabeça perguntando em voz alta: 'Por que tem que ser desse jeito?'
'Sempre, sempre foi um instante infinito roubado da alma do tempo'. Mas enquanto o sempre da saudade não passa, é o que se tem pra hoje: essa coisa misturada e confusa. Lembranças que me fazem sorrir no meio do dia, sozinha, em lugares e situações totalmente impróprios; e a tristeza que já me trouxe lágrimas na frente das pessoas erradas, nos lugares errados, mais vezes do que eu queria permitir."
Eu acho assim: existem pessoas que só passam, outras que parecem nunca passar. Isso é meio que "pra sempre". E eu não invejo quem tem uma saudade que dura um "pra sempre" qualquer, por menor que ele possa ser.