quinta-feira, novembro 10, 2011

_...

Oi pai,

Já é Novembro. O Natal vai chegando perto e a gente vai tentando dar um jeito de esconder a sua ausência. Imaginando a bagunça, as chegadas, a comida, e pensando o que você gostaria de comer, o que diria para o último a chegar, a que horas declararia abertos os trabalhos e abriria a primeira garrafa...
Eu fico tentando fugir destes encontros com você, como se fosse possível. É pensar em Natal e eu já escuto a mãe brigando porque você está roubando fatias de peru e bagunçando o prato que ela arrumou. Aí eu já quero abrir um pacote gigante de pepino na salmora do mercado municipal, e comer com você.
Lembra do terreno que a gente comprou? Você falou tanto que a gente tinha que morar num lugar nosso. Então...a casa está pronta e a gente já se mudou. É tão linda, pai... qualquer janela que você abra dá para a mata. Os sons são os mais incríveis: grilo, passarinho, sapo (é...claro que tem sapo. Você sabe que eu não vivo sem sapos), um tucano que nos acorda de manhã, e o jardim é incrível. Plantei dois pés de romã pra não esquecer o que você me ensinou: "a fruta não precisa apodrecer por causa de uma semente estragada - como a romã." E plantei pitanga, jaboticaba, lichia, limão, tangerina, um monte de lavanda. Na frente da casa, resedás e cerejeiras, para encher tudo de flor. E a cada árvore que foi plantada eu pensei na sua aprovação. Todos os dias, quando eu abro a porta da varanda com um céu imenso e a mata, e sinto o cheiro da lavanda, não consigo evitar de pensar como você gostaria deste lugar.

É o terceiro Natal sem você. Saudade três vezes maior. Não passa, sabe? Desde que você foi embora eu não fiz muita coisa. É, eu sei, eu construí uma casa e plantei uma dúzia de árvores, mas eu não terminei o meu livro. Não consegui mais escrever. Republiquei textos, escrevi uma bobagem ou outra, mas escrever, escrever MESMO, não. O livro ficou encostado, como se tudo o que eu tinha a dizer tivesse esvaziado. Eu também não quis mais fazer ginástica, nem regime. Eu sei o que você diria disso. "Vai pra terapia, Mercedes. Você precisa superar." Hm...não sei. Até porque no fundo eu sei que usei você como desculpa para esvaziar. Andar tão cheia cansa um pouco (mentira!). Eu acho que apesar de todos os altos e baixos, minha vida foi sempre tão cor-de-rosa - ou eu tão irresposável -, que antes era mais fácil fantasiar e escrever. Depois que você foi embora, ficou tudo tão mais duro e real...
Eu sei...preciso resolver.
Mas fora esse pequeno desvio, estamos todos bem. A vida - apesar de mais real - está boa, todo mundo feliz, e não deixei de cumprir as promessas que fiz pra você. Todas elas.

Então Pai...o Natal vai ser aqui em casa. As duas familias inteiras e juntas. A Dona Marilia, matriarca absoluta, fazendo fios de ovos, os meninos na piscina, as meninas fazendo barulho, todo mundo falando ao mesmo tempo, os acessos de riso de hábito, as histórias engraçadas da infância das quais você faz parte. E a gente vai chorar, claro, a gente chora só de se olhar. Isso nunca mudou. Aí eu fico pensando se não vai faltar o seu sorriso. Mas não vai não Pai, porque na verdade ele sempre está lá quando a gente se reúne. É a sua obra. Porque se tem uma obra que você deixou na vida, foi este amor que a gente sente.

Era isso, Pai. Acho que eu precisava chorar.

Beijo


eu sei que este texto vai afetar demais algumas pessoas. Me desculpem, mas fazia muito tempo que eu precisava fazer isso. 
Só não me telefonem pra falar disso, ta? por favor...porque eu vou chorar no telefone e ninguém vai entender nada do que eu falo. Sorry.

sexta-feira, setembro 23, 2011

_5.0


Dizem que quem nasce nos domingos de sol é vaidoso, alegre, barulhento. Não sei se é verdade. Sei que sou vaidosa sim, que passei 90% desses 50 anos sorrindo e que já fui bem mais barulhenta do que sou hoje. Ultimamente gosto de ficar quieta e às vezes nem estou a fim de conversa. Mas há um barulho intenso dentro de mim, 24 horas por dia, sete dias por semana, desde  sempre. E sol.

Em outros 90% dessa minha vida estive triste. Não triste triste. Triste...triste. Só lá no fundo, numa outra vida imaginária que quase ninguém conhece. Espera...NINGUÉM conhece!
É lá que eu vou buscar poesia quando preciso, porque não é possível escrever feliz. Não pra mim. Existem coisas que escrevo que são de uma tristeza mais profunda do que a profundidade em si, mas nem é verdade, embora seja. Dá pra entender? Provavelmente não. Mas se eu não convivesse com essa dor que não existe, jamais escreveria uma linha. Nem as obscuras nem as felizes. Então não me dê remédio, não me trate, não me mande para a terapia, porque não existe remédio melhor do que ler o que sai de mim, mesmo que eu jogue fora depois. É o meu falar sozinha, é o meu falar com deus. 
É, eu sei...de perto ninguém é normal. Não eu.
75% dos meus dias foram de paixão arrasadora. Ou mais: mais que 75, mais que arrasadora. Me apaixonei pelos outros, por mim, pelas coisas, fui obsessiva, fui maluca, fui inconsequente, assustadora. Fiz coisas talvez codenáveis, se é que é possível condenar o amor em qualquer de suas formas. Se for, sou culpada, aceito, confesso sem a menor vergonha na cara, porque é assim que eu sou 100% do tempo.

32% dos dias de sol eu sorri. 99,9% dos de primavera eu sonhei acordada. 87,2% dos dias de chuva eu chorei.

É quando a tristeza me toma de assalto que minha vida imaginária acontece, e ah! não me faça rir porque eu não quero! Me deixa sofrer por nada. Me deixa descabelar as madeixas e me jogar na cama só hoje...só pra cozinhar essa tristeza boa, porque a vida é chata sem ela, porque ser feliz pode virar rotina e toda rotina torna-se um nada. É preciso enxergar a felicidade, então deixa chover em mim...deixa eu chover no mundo.
Mas a dor em mim dura pouco...eu canso. Passou.
40% dos meus dias eu trabalhei. Meu nome foi trabalho durante quase toda uma vida, até meu nome se tornar família, não por vontade própria, mas por pura birra. Sim...as pessoas que nascem nos domingos de sol são teimosas, odeiam ser contrariadas e conseguem ressurgir das cinzas só pra contrariar de volta. Eu trabalhei 15 horas por dia dos 18 aos 40, - e menos um pouco desde os 13 - porque precisava, porque queria e parei  só pra não dar o braço a torcer. Long story... Mas aí que recomeçar é o que eu sei fazer melhor, em qualquer território. Então por que não? Funcionou.

65% da minha vida profissional foi criar. Criar pelos outros, criar os outros, arrumar a criação dos outros, criar um mercado, criar diretores, criar laços, criar problema (oops)...criar. Criei condições de trabalho onde não existia. Criei pupilos e ensinei até quando não sabia que estava ensinando. E eles cresceram. Cada um deles era um mini-príncipe encantado ou uma princesinha perdida e todos viraram reis e rainhas enquanto eu, rainha mãe, os via crescer orgulhosa. Também criei meus filhos e meu marido  - ele mesmo criado por mim em várias áreas da vida, agora está me criando - e meio que terminei de criar meus pais e meus sogros. Agora sigo criando formas de recriar a minha própria vida.

73% desses anos eu questionei a existência de deus na forma que conhecemos. Questionei a Bíblia, o Torah, todas as versões e traduções dos textos sagrados, fiquei de mau com a igreja e com a humanidade, mas rezei. Aprendi a rezar do meu jeito pra um deus que eu entendi e pra Santa Rita,  Maria Padilha, Iansã e para as forças que aprendi a dominar dentro de mim. Aprendi que o bem e o mau são a mesma mão e a minha é parte disso, como a sua, não importa de que lado você ache que está. Já soube ler tarot, já aprendi kabalah, já dominei os cristais, já purifiquei coisas e pessoas que precisavam, e já esqueci como fazer tudo isso. Já salvei casamentos e aliviei angústias. Fui chamada de bruxa mais vezes do que gostaria, mas a verdade é bem mais simples: aprendi que as palavras têm força. Aí evitei as que não gosto, procurei outras - novas - para proteger os meus de um mundo que pode ser cruel, quando me distraio. Aprendi a confiar no destino e a modificá-lo dentro das minhas limitações - que são muitas quando me sinto fraca, e nenhuma quando estou feliz -. E respeitei a lei do retorno. Aprendi que é aqui e agora que nasce e cresce o que a gente planta. E durante 80% do meu tempo, planto coisas que você nem vê...mas elas crescem.

94% dos dias, fui grata. Grata pelas minhas escolhas, grata pelas minhas pessoas, grata até pelos meus erros.
Entendi que não tem como dar errado quando você faz as coisas por intuição. Segui as reviravoltas do meu estômago, derrubei meus castelos e construi outros, milhares de vezes, porque achava que daria certo e, mesmo não dando, deu...ou eu que sou iludida. Mas fui feliz. Funciona assim: se fui feliz deu certo. End of story.
Não aprendi matemática (talvez você note, pelos percentuais aí em cima) mas entendi a vida. É que quantidade, assim como tempo e espaço, é uma coisa relativa e mutável – na minha matemática.
Que tipo de vida besta soma só 100%?  Tão lógica...tão banal... não serve pra mim.

O exagero, este sim, guarda a totalidade das coisas que eu sinto. Só ele pode definir a minha vida: um exagero de vida, um transbordar de tudo. Esse sem número de acontecimentos que até eu duvido...um eterno “despencar na cabeça” de vida.

É assim que é: 50 anos de vida despencando na cabeça e transbordando em milhares de histórias indescritíveis, quase todos os dias, em todos os planos da vida: no real e no imaginário. Ou eu, que sou irresponsável, entendo assim.

Em resumo...schlevers por cento da minha vida eu fui feliz, mesmo quando não fui.

Tem sido bom demais.

E faz sol.


Amanhã, 24 de Setembro de 2011, eu faço 50 anos. And inside, I'm dancing.

terça-feira, julho 12, 2011

_socorro!

 
foto: a chegada do godzilla
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(Sobre como me tornei um monstrengo)

Nunca vi nada tão feio na vida! Juro!
Há alguns dias, minha filha me disse que eu tenho andado muito desarrumada:"você nunca foi assim, Mãe..."
É verdade. A carinha dela dizendo isso me deixou mexida. Quer dizer...me deixou envergonhada. Mas não tem jeito, gente, sério.
Eu me mudei. Mas assim, não foi uma mudança igual às quase 30 que eu fiz no decorrer da vida. Eu me mudei pra minha própria casa, o que é lindo, mas com cheiro e restos da obra, o que não é nada lindo. Teve toda aquela ilusão de que a gente só se mudaria com tudo pronto e cheirosinho, mas como todas as outras ilusões da vida, era mentira. Cá estamos.
Antes da mudança, tive um ataque de desapego e me livrei de 50% das minhas roupas. Outra ilusão. "Nunca mais vou querer isso", pensei, como se mudar de casa mudasse o gosto ou a quantidade de roupas que alguém usa. E o que sobrou? As roupas de gorda, claro: blusas largas e leggins e casacos desmilinguidos. Aff. Mas isso não é tudo. O homem é fruto do meio, certo? Então...pensa no meu meio: pedreiros, pintores, encanadores, faxineiras, jardineiros. Gente linda! Só gente linda!
O resultado disso é que eu estou um horror. Não, não assim como você pensou. Nem você, que me conhece e sabe dos meus exageros. Não! Pior. Muito pior.
Faz quase três semanas que estou aqui e ainda não tem espelho no meu banheiro. Tem no closet, mas não no banheiro. Agora me conta, quando você realmente se olha no espelho? Sim, quando lava o rosto, escova os dentes, seca o cabelo. Cabelo? Não vamos falar de cabelo. Todos os meus antepassados estão gritando! A parte frontal da minha cabeça é a filial da África. Tudo num laranja "eu-pinto-meu-cabelo-em-casa-com-a-tinta-errada"...uma lindura.
E meus dias têm sido super agradáveis.
Acordo as 7:30 com a portaria me ligando para anunciar a chegada do Tonho pedreiro. Bom dia!
Nos próximos 30 minutos posso cochilar um poquinho, mas bem pouquinho, porque chega o Francisco - o paisagista peão - com um exército de jardineiros feios vestidos de verde, com nomes como Gileno, Gildásio, e uns doze Franciscos. O Francisco chefe é um amor, delicadíssimo, atencioso a ponto de te fazer pensar que o mundo é lindo, mas tem um megafone na garganta e fala com o exército verde debaixo da minha janela. Bom dia! (A propósito, o jardim está lindo).
Depois começam os sons internos. Os pintores invadem a casa, e conversam. Um deles canta. As vozes se misturam aos sons de fora: o radinho de pilha do gileno, o pedreiro levantando o muro, outro colocando a tela dos fundos, o eletricista e o assitente conversando mais alto do que a furadeira , os marceneiros montando a estante da sala, e o diabo em pessoa rindo da minha cara em algum lugar do inferno.
Lembra daquela mulher que levantava com o famigerado roupão pink, sentava para tomar uma dúzia de xícaras de café lendo o jornal? Esquece. Morreu. Agora ela levanta, toma banho, veste uma coisa (sim, uma coisa), prende o cabelo e a áfrica inteira para trás e vai tomar café no banquinho da cozinha (preta e linda), porque não dá pra levantar de pijama, nem tomar café na sala com 3 pintores olhando e mais um monte de neguinho passando. Ah! Mencionei que os móveis da sala estão cobertos com plástico e tem papelão no chão por tudo? Não...detalhe sem importância.
Poeira...poeira na alma, nas narinas, em tudo.
Hoje istalaram um espelho de aumento no meu banheiro (o grande não chegou  ainda e não me pergunte porque) e eu fui testá-lo. Ele tem luz sabe? E aumenta. E eu me deparei com uma ogra descabelada com a sobrancelha ídem. Céus...alguém me roubou de mim!
Mas voltemos à rotina do dia: durante as horas em que o sol está brilhando, escuto meu nome sendo chamado em várias línguas: baianês, alagoês, caipirês, para resolver coisas never dantes imagináveis e atender pessoas tipo o instalador da bomba, o caminhão da caçamba, o vendedor de caixa de correio, o moço dos vidros, o do corrimão, o da pedra, o entregador de andaime. Recebo notícias do tipo: tá escorrendo água pela luminária do corredor porque a marcenaria furou o cano quando foi instalar o não sei o que do banheiro. Ha! Isso enquanto o eletricista liga e desliga coisas para testar a caixa de luz e faz meu computador enlouquecer. E tem as contas. E tem o telefone que não para. E tem a poeira. E tem a lama.
Aí o sol se põe maravilhoso num céu incrível que aqui em cima - sorry - é muito mais incrível do que o céu mais incrível que você pode ver aí embaixo, e o silêncio começa a predominar. Escuto uma última porta bater e um último "até amanhã, Dona Mercedes"...e a casa parece ser minha, finalmente. Só que já é hora de pensar no jantar, depois conversar um pouco e descobrir que o sofá está branco de poeira  e o vidro do corredor tem uma fresta que precisa ser siliconada, e que a água do banho não está tão quente quanto o tio do aquecedor prometeu, e que é hora de dormir.
Assim acaba o dia, para amanhã às sete e meia o telefone tocar, e o pastor evangélico começar a berrar no rádio de pilha do Gileno, e o Francisco e seu megafone...Aí eu não tenho mais roupa ou tempo de ir comprar. E meu cabelo continua amarelo-ôvo-socorro. E minhas unhas estão um horror. E não me convide para sair porque eu não posso aparecer em público.

Era isso. Eu precisava dividir toda essa baderna com alguém.
Agora vou voltar pra caverna.
Beijo.

quarta-feira, maio 25, 2011

_tempestade

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Estou com os dedos pretos de poeira, desmontando minha sala para a mudança que não tarda. Encontrei cadernos antigos, consequentemente textos antigos, cartas que nunca foram entregues, poemas perdidos.
Um deles é irresitível, porque me lembro (não eu nunca lembro) da noite em que escrevi.

_tempestade, outra vez

houve outra noite de tempestade.
eu,  dominada pelo que fui
e não posso deixar de ser,
corri para fora
no meio da noite
e abri os braços para tocar os raios.

o céu e eu éramos um
(raios e braços,
 água e olhos,
vento e respiração)

relâmpago girando pelo jardim -
foi outra vez assim.

depois dessa noite
veio de novo o destino brincar comigo.
convidou-me outra vez a dançar,
em volta do fogo,
a dança que muda tudo.

em volta do fogo o corpo se lembra:
a velha feiticeira é livre.

eu danço
confusa e encantada.

6 julho 1992

segunda-feira, maio 09, 2011

_remember that

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Encontrei hoje um comentário perdido que me lembrou um texto antigo.
Esse aqui:
Inexistência

Era isso.

sábado, abril 30, 2011

_complicando

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É. É complicado...
A vida prática nunca foi o meu forte. Passei esses poucos 49 anos sonhando acordada, delirando e acreditando que quando uma criança chama por fadinhas no jardim, as flores apararecem. Aí, aqui estou eu tendo que falar de dinheiro, pastilha, estruturas de ferro, esquadrias, etc. Eu - euzinha - negociando com o japonês malvadão com cara de kamikaze que vai colocar metade da minha casa de pé. Eu - euzinha - falando em números impossíveis e discutindo coisas mais ridículas do que o sexo dos anjos: "preto são gabriel ou preto absoluto?" "madeira naval ou chapa de ferro?" "beiral assim ou beiral assado?" Hello? Minha vida nunca teve beiral! Aliás, sem eira nem beira é o que eu sempre fui - nem pedigree eu tenho, quanto menos um habite-se.

Existe uma outra vida que eu desconheço, de pessoas feias e assuntos antipáticos (e vice-versa). Eu não gosto dela. Dizem que o nome é vida adulta. Estas pessoas falam de impostos, bolsa de valores, taxas de juros, preço do aço, metros quadrados, área construída, limite de recuo e NOP! Gente...vida adulta pra mim era outra coisa. Era ter filhos com problemas de adultos, assim: coração partido, escolha de carreira, revisão do carro, eleição. Vida adulta era consolar a sogra, conversar com a mãe, pagar conta, sentir saudade do pai. 

Nem quando eu quebrei, e minha vida virou de pernas pro ar, e perdi todas aquelas pessoas que me amavam incondicionalmente (lots of money, lots of friends), e me decepcionei com o universo e com a natureza humana, eu me senti tão fora do meu banquinho.
A parte boa é que é por um motivo nobre: a minha casa nova, a primeira conquista de um chão realmente meu depois de incontáveis mudanças na vida de cigana que eu achava boa. Meu pai queria que eu tivesse segurança, casa própria, emprego público, fizesse concurso pro Banco do Brasil. Virei as costas para essa idéia uma vida inteira, e sempre achei que quem tem raiz é árvore, quem fica parado é poste, e bom mesmo era aluguel, porque quando cansa é só ir embora...e o mundo é o quintal da minha casa. É mesmo. Ainda é. Só que do alto dos meus quase 50, acho que ter onde cair morta pode ser interessante. Finalmente. Não! Não finalmente cair morta. Finalmente "ter onde", só.
Cair morta é outro assunto: eu não quero, viu Seu Deus. Passo. Me deixa ficar pra semente que eu não me importo. Quero ficar velhinha bem velhinha, dirigindo um conversível na 101 em Los Angeles. Já disse isso tantas vezes, que você já deve estar criando o cara que vai abrir uma "elderly lane" na freeway só pra eu poder fazer minhas barbeiragens com segurança, to sabendo.

Fora tijolos, cimento e trenas, tem o Malvadezas. Ah o Malvadezas...este blog genial que mega deu certo, graças à querida da Carolina Mendes, que tem olhos de lince pra entender o que dá certo nesta vida online. O Malvadezas só me faz bem, mas também me faz cair na real quando vejo trocentos mil comentários em textos que estão tão longe dos assuntos que eu abordaria. Claro, to ficando velha, oras! Mas hey! Quem disse que eu queria me dar conta disso? Aí publico um texto Mercedístico lá, e fico nos 15, 16 comentários... ah eu devo ser um tédio, desinteressante, morna, sei lá. Então toda vez que vou postar penso que "dane-se", ne? Eu sou eu, e que culpa eu tenho de não ter problemas cabeludos ou não ser super moderna e querida pelos mudernos e... ah gente! Acho que eu amo mais ainda os 16 malvadezos por me fazer questionar tudo, de 15 em 15 dias,  antes de mandar meu texto para a Carol.
De qualquer forma, fico pensando se, mesmo tendo ralado uma vida inteira, eu não tive uma vidinha bem boa, e se isso é bom ou ruim pra quem escreve. Sei lá. Não sei. Passou.
Era isso.
Só um desabafo, como se eu fosse dada a desabafos.

Um beijo amigo no seu umbigo.


Malvadezas é AQUI

sábado, abril 09, 2011

_dois pesos

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Quem é mesmo você para julgar alguém? Vamos ser sinceros, assim...sinceros de verdade? Quer brincar?
Então presta atenção. Você acha que a sua amiga não educa os filhos direito, que está criando monstros sem limites, que não sabe dizer não, que parece ter medo dos filhos e tal? E você, tem filhos? Se tem, você tem tempo para educá-los de fato ou deixa isso para a escola, a avó, a empregada, e assume à noite e nos finais de semana? Você tem certeza que seus filhos, fora de casa, são exatamente como quando estão com você? Tem certeza que os outros acham seus filhos super normais e educados como você acha?
Não. Você nunca vai saber a resposta, porque ninguém vai reclamar dos seus filhos para você. Só a escola. Talvez. Caso seus monstrinhos sejam interessantes, porque se forem mal educados porém mortinhos, a professora não vai reparar muito neles, sabe? Desculpa, mas é verdade.

E a filha gay daquele seu conhecido? Aquela que você diz que a culpa é dos pais. Você tem certeza absoluta que sabe o futuro dos seus filhos? Você acha mesmo que a “opção” (ninguém opta por ser gay) da menina, é fruto da educação que teve? Então amiguinho... prepare-se para se surpreender.
Sabe, a vida não é fácil. Na verdade é, mas o que complica são as expectativas irreais que as pessoas criam. Seus filhos serão profissionais de sucesso? Serão corretos? Serão honestos? Ser hétero está na sua lista de “elogios”?
Eu tenho uma surpresinha pra você. Senta aí:
A vida é imprevisível. Mesmo cagando regras, tendo convicções fortíssimas, mesmo regendo sua família com punhos de aço e livros de psicologia embaixo do braço, você não sabe o que o futuro reserva para ela...nem para você.
Reviravoltas não acontecem com macacos e girafas no reino de Simba. Só acontecem com humanos, aqui mesmo na cidade grande, ou naquela menor. Acorda, Alice!
Eu não estou livre de ser traída, de ser trocada por uma gostosinha de 25 anos que acabou de sair da faculdade de cinema e acha Mr. Director “bárbaro” (sim, elas aprendem a falar bárbaro nas faculdades de cinema). Você não está livre de ser trocado por um garotão, nem por um velho pavoroso que você não entende como, meu deus, como?! Você mesmo pode se apaixonar, ou trair sua mulher numa escapadinha inocente, e ser pego. E você sabe: não existe traição na ignorância, longe dos olhos longe do coração, blablabla, mas quando te pegam...ai ai ai.

A gente não sabe se nossos filhos serão gays, se casarão com uma mocréia rancorosa, ou um mal caráter interesseiro. Se vamos sofrer um acidente, parar numa cadeira de rodas e precisar daquela vaga no mercado - aquela onde você estacionava “só um minutinho” e aquele aleijado que espere.
A gente não sabe se vai ter três derrames, virar um semi-vegetal e ser cuidado justamente pelo marido pobrinho e “meio encardido” da filha...aquele loser que a gente julgou e falou mal a vida inteira.
Vai que, na velhice, acaba dividindo o quarto com a sogra da filha? Aquela mulher pedante, brega que usa perfume doce, e vai acabar sendo sua melhor amiga. Também tem a hipótese de engordar 40 quilos por causa de uma disfunção hormonal e ficar igualzinha àquela vizinha “porca” que não se cuidava e era uma “baleia”, lembra?
Então... desculpa incomodar a essa altura das suas certezas, mas acho que você não devia nem guardar seus julgamentos para si mesmo: devia descartá-los. Varrer todos eles. Deixar de ter LAMA por dentro e, finalmente, ter ALMA - é só trocar uma letrinha de lugar.
Uma vez ouvi uma frase que adotei para sempre: quando você aponta um dedo, outros três estão apontando para você. Tenta aí...aponta e olha para a sua mão.
É bom lembrar que a lingua é o chicote da bunda e a vida, como dizia Gump, o Forrest, é como uma caixa de bombons: a gente nunca sabe o que tem dentro deles. Não tem nada mais feio do que ter dois pesos e duas medidas: se é feio na casa dos outros, é feio na sua. Ponto. Então é melhor não arriscar: senão por ética, ao menos por precaução, fecha essa boca.

Beijo.

terça-feira, fevereiro 01, 2011

_ google, seu lindo!

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Deixa eu falar quem eu sou. 
Talvez muito pouca gente saiba de uma parte de mim que não sai por aí se revelando, simplesmente por não ter um "por aí" para se revelar.
Eu fui criada, de certa forma, respirando arte. Minha mãe trabalhou na Escolinha de Arte do Rio de Janeiro com o Augusto Rodrigues, ouvi desde sempre histórias sobre peças de teatro, quadros, pintores, escultores, movimentos e revoluções. A Semana de Arte Moderna visitava minha casa de tempos em tempos em conversas infindáveis, e havia os livros. Livros e mais livros cheios de figuras incríveis, feitas pelas mãos de homens e mulheres incríveis.
Depois fui para a escola. Estudei uma vida inteira naquele lugar onde se tinha sete horas/aula de arte contra duas de matemática por semana. Comecei a aprender história da arte muito cedo, quando mal e porcamente sabia escrever meu nome, e fiz isso até  me darem um diploma de magistério com especialização em história da arte. Ponto.
Saí dessa vida. 
Aos dezessete anos fui trabalhar em agência de propaganda, fui redatora, RTV, coordenadora de produção, atendimento de produtora, dona de produtora...(todo mundo conhece o meu CV), até chegar em São Paulo, há quase dez anos, e resolver só escrever. 
Mas o que está no DNA não morre jamais.
Eu cresci e pude viajar. E eu sou aquela louca que chorou dentro da Catedral de Madrid. Aquela, e aquela outra que sentou num banco do Museu do Prado, de frente para uma gigantesca tela de Velasquez, e chorou feito criança. E que escolheu passar o dia no Metropolitan em Nova Yorque vendo só o que foi feito antes de cristo, e andava pela parte do Egito entre paredes pintadas e múmias coloridas, rindo como se fosse a Disneylandia. 
Eu enganei a minha familia cansada dentro do Louvre, inventei que sabia onde era a saída, só para poder ver tudo o que queria. Eu sentei no chão em frente a uma escultura do Rodin e agradeci por ter chegado até ali. Eu fiquei nas ruínas de Roma até o sol se por, respirando séculos de história, e não queria ir embora. Eu chorei batendo o pé na frente do Musée Dorsay porque estava fechado e eu tinha que ir embora no dia seguinte. Eu fiquei furiosa na Basílica de São Pedro e no Museu do Vaticano, por ver tantas coisas incrivelmente lindas, conquistadas com o sangue de tantos inocentes.
Essa sou eu. A arte e a história me emocionam a ponto de me tirar do chão. A arte e a história exercem um poder sobre mim que nenhuma paixão arrebatadora seria capaz de exercer.

E eu contei tudo isso por um motivo: hoje, eu estou feliz como uma criança que achou uma mina de doces e brinquedos: eufórica! histérica! Porque um amigo me mandou o link para o Google Art Project.
Depois de fotografar o planeta inteiro e a rua da sua casa, o céu e as estrelas, o fundo do mar e seus navios naufragados, o Google fotografou os museus do mundo. Agora, a gente pode andar dentro deles, ver os quadros em detalhes (os museus não permitem que se chegue tão perto) com zoom tão poderoso que é possível ver as pinceladas de Van Gogh e até as pequenas rachaduras na tinta. 
E por isso eu sou feliz! Sou estranha?
Agora eu posso ser a louca que chora na frente do computador e ninguém vai poder me julgar. Ha!
Google, seu lindo!



quarta-feira, janeiro 05, 2011

_uma carta

(from Ella to her beloved ghost)

Oi, meu bem.

Já é 2011, sabia? O tempo passou mais rápido do que eu sonhava, no meio de toda a dor que eu pensei sentir, mas os dias se arrastaram, um a um, desde aquele em que você ligou o motor e saiu antes de mim e se foi, meio que pra sempre. 
Nossos sempres, sempre tão efêmeros...
Daquele dia em diante, a sua ausência foi a mentira maior.
A gente não se viu mais de verdade, mas quem disse que eu preciso ver para saber? Quem disse que não acredito no que é invisível? Se ao menos você soubesse ser invisível. 
Eu senti o seu cheiro quase todos os dias, de alguma forma. Mesmo com a vida andando e as coisas  sendo feitas como manda o tempo, eu vi você todos os dias - se não em pensamento, em sonhos. Encontrei você nos meus textos e nos dos outros. Encontrei seu olhar em filmes, suas palavras em livros...e na vida real. A vida real apontava seu carro na rua, seu bar preferido, seu restaurante de hábito, a rua da sua casa, seu parque, seu céu e suas músicas...Tem também a sua hora - aquela em que o céu está vermelho e a cidade começa a acender todas as luzes e cantar alto, uma música qualquer que me aponta o seu lugar.

O ano passou inteiro desse jeito, e eu que tinha medo de estar congelada ali, inerte, não estava. Eu estava viva. Mais viva. Muito mais viva do que nunca antes, e de alguma forma você estava lá  dizendo que a vida é hoje, que tudo é agora e só por isso esperar não dói. Paradoxal, parece? Mas não é.
E eu esperei, confesso. Andando e vivendo, eu esperei todos os dias, e você vinha, porque não era possível de outra maneira. Você passou a mão nos meus cabelos e me beijou antes de dormir. Você sorriu para mim com cara de sono, ao amanhecer. Você andou ao meu lado, me olhando, enquanto eu dirigia cantando. Você esteve aqui, quase mais do que eu.
Parece loucura, eu sei, mas não...essa sou eu. Você não foi embora porque não quis, mesmo querendo tanto, e eu não deixei que você fosse. É isso.
Já é outro ano e eu continuo ao seu lado, você sabe.
Eu e meus exageros, eu e a minha intensidade, eu e a minha paciência infinita...continuamos ao seu lado. De uma maneira maluca, talvez equivocada (duvido), eu sei que você sabe que eu nunca liguei o meu carro, nunca saí daquele lugar, nunca perdi o seu cheiro que continua em mim, e gosta disso.

Já é 2011 e o que fica do ano passado é a impressão de que tudo se transformou. Não existe mais dor alguma, não existe nada, nem saudade...não existe nada além dessa presença forte -- você em mim, eu em você -- que nunca vai desaparecer porque o que está feito está feito: de um jeito bizarro eu sou sua e você é meu, mesmo não sendo verdade, mesmo não sendo mesmo. E vai ser sempre assim, enquanto não houver ausência -- não no peito ou no pensamento.

Close your eyes...I'm there.



terça-feira, dezembro 21, 2010

_o novo post de natal

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Quando eu era pequena, Natal era uma festa religiosa. 
Minha mãe acendia a coroa do advento em cada um dos domingos que antecedem o Natal, e nós tínhamos que ficar ali olhando ela rezar - quer dizer...fingindo que rezávamos. De nós quatro, os filhos, acho que só a Bia era realmente religiosa. Os outros três, eu inclusive, eram fakes. Eu e meu irmão costumávamos ter acesso de riso em momentos religiosos: na missa, na oração das refeições...até que minha mãe cansou da gente e desistiu de rezar. Tadinha.
Anyway, Natal tinha coroa do Advento. Tinha também um boato de missa do galo -- boato, porque a gente nunca foi a uma -- tinha presépio e as coisas que as famílias católicas constumam ter. Mas aí os filhos cresceram. E aí meus pais meio que cansaram dos nossos (meus) questionamentos. Mas daí meu pai tinha o mesmo tipo de curiosidade científica que eu tenho e ficava meio difícil manter todos os mitos vivos.
Abre parênteses: só no final da vida ele voltou a se agarrar em assuntos religiosos. Me disse um dia que não queria ter certeza de que Deus não existe, porque ele estava no fim...e a existência de Deus era um tipo de alívio. Fecha parênteses.
De qualquer forma, foi meu pai quem me ensinou a pensar, e desde que isso aconteceu, eu não consegui mais ter uma religião.
Então o Natal deixou de ser uma festa religiosa. Quando passou a ser assim, me parece, passou a ser uma festa mais honesta. Levando em conta que Jesus nem nasceu em Dezembro, que a gente está na verdade comemorando o Solstício de Verão, e que, teoricamente, não haveria a menor necessidade de uma festa, o que é o Natal?
Para vocês eu não sei, mas para mim, o Natal é uma desculpa deliciosa para estar em família. 
Acho uma tremenda babaquice não gostar de Natal. Só quem nunca viu os olhos das crianças brilhando, asiosos, esperando a hora dos presentes, pode dizer que não gosta de Natal. Só quem não foi criança, não teve a casa enfeitada, não comeu fios de ovos, uva, não roubou ameixa, não passou o dedo em sobremesas que só aparecem na ceia de Natal e depois lambeu...só quem não foi feliz. Me desculpe... mas o Natal faz parte da minha história de felicidade.
Mesmo agora, que a gente chora. 
Desde que meu pai se foi - há dois anos - a gente chora mais. Antes a gente chorava porque a gente chora mesmo. Ha! Minha família inteira chora e não sabe porque. Acho que é uma saudade que na verdade é plena de presente. Não é uma saudade do passado, é uma conscientização momentânea, uma constatação: "Sempre fomos tão felizes!" E isso nos faz chorar, porque estamos felizes de novo, porque temos uns aos outros mesmo não nos vendo todos os dias. Porque sabemos que construímos uma vida que, quer você aí fora ache que deu certo, quer ache que deu errado, é uma vida cheia de histórias, cheia de...deixa eu ver...cheia de VIDA.
De qualquer maneira construímos uma história e temos um passado imenso em comum. Então agora a gente chora porque meu pai não está lá. Mas também porque a gente teve, por todos aqueles anos, a companhia daquele sorriso infalível, daquela ironia deliciosa, daquela alegria que ele era, sempre. E constatar que tivemos a sorte de viver com ele, só traz um mesmo pensamento: "Sempre fomos tão felizes!"
Então acho que Natal é festa e que não custa ter um Natal. Não importa se somos dez, trinta ou duas pessoas. Montar uma árvore, por pequenina que seja... fazer um jantar, por mais modesto...fazer um cartão, um presente, uma coisa qualquer para dar ao outro...e comemorar o nascimento de um sonho, seja ele qual for. Não precisa ser um sonho ambicioso: sonhar estar junto com gente que se ama, pra que mais? Isso já é o suficiente para uma festa. 
E festeje. Porque a vida é uma e não é tão longa, e por mais dura, existem momentos felizes. Invente um.
Piegas? Natal é piegas. O amor também é piegas, famílias são piegas e essa é a hora em que ser piegas é mais permitido. É o que eu desejo: se dê o direito de ser piegas e inventar um sonho.

Não importa se você é ateu, católico, evangélico, judeu, whatever, nasça de novo...e mais uma vez.

Feliz Natal.

segunda-feira, dezembro 13, 2010

_I don't belong

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Não é complicado. É simples assim: I don't belong.

Eu simplesmente não pertenço à maioria dos grupos onde estive, que conheci, que convivi, que visitei. Não sou parte deles.

Por mais "dentro" de um determinado grupo, ou por mais próxima que eu seja das pessoas, o que eu sinto é que, de certa forma, eu pertenço a cada uma delas em separado, mas dificilmente sou ou serei como elas, como o grupo que as cerca, suas tribos, suas gangs, suas confrarias.

Sempre foi meio impossível, já deu pra sacar na infância.
A religião não trouxe os meus "iguais", embora meus pais tenham tentado. A escola também não. Mas eu cresceria e quem sabe a faculdade ou o trabalho... Não! Não aconteceu. Nem o esporte, nem o inglês, o francês, a vizinhança... eu não achei os meus iguais. Acho que igual é uma coisa que não existe na minha língua, ou pelo menos não na minha -- esta -- existência. Eu tenho amigos. Isso sim. Tenho muitos amigos e eles são sazonais, simplesmente porque eu não pertenço. Não que eu os esqueça ou deixe de amá-los, isso nunca. Mas eles ficam lá, nos grupos de seus iguais, enquanto eu passo. Eu só passo. Transito de grupo em grupo.

O fato é que eu amo rápida e facilmente a qualquer um que passe pela minha vida e preencha os requisitos básicos para me agradar. Em muito pouco tempo, aquela pessoa é minha. Isso... você me pertence. Muito provavelmente eu pertenço a você bem mais do que você pode vir a imaginar um dia, mas não se engane... eu não sou como você, não sou como o seu grupo. Vou me dar super bem com ele, mas é mentira que vou fazer parte de alguma coisa que não a sua vida. Não que eu não vá tentar. Mas eu vou estar lá, entre todos eles -- tão iguais a você, dividindo os mesmos gostos, as mesmas histórias, as mesmas experiências -- e eu vou olhar em volta com um sorriso e descobrir que não nessa vida, ou em outra qualquer, eu serei capaz de me sentir parte daquilo. Simplesmente porque não sou.

A sensação recorrente na minha vida é esta: sentar numa sala cheia de pessoas e procurar, nos olhos delas, alguma semelhança comigo. Eu me acomodo e me adapto como um vírus... mas não... nada muda. Eu continuo sendo um corpo estranho infiltrado num sistema que funcionaria perfeitamente sem mim. O sistema me aceita. Me deixa entrar e me instalar em todas as frestas, mas mesmo assim, eu não sou dali.

Sempre igual: muito maluca para andar com os certinhos, muito certinha para andar com os malucos. Sempre no meio do caminho, sempre em cima de um muro onde esqueceram de pregar a plaquinha.

Talvez um psicólogo resolvesse isso, mas hey! Não dói. Não dói e não é incômodo de maneira alguma. E depois, se a essa altura da vida um terapeuta me disser que eu perdi tempo, o que que eu faço? Me mato? Porque voltar é impossível!  Sem falar que o ele falaria em insegurança, necessidade de se sentir aceita, e outras bobagens que realmente não são o caso. Eu sei o meu lugar no mundo e acho que ele me recebe muito bem. Não é isso. Longe disso. Então deixa quieto, doutor.

Outro dia falei sobre domingos de novos amigos. Foi alguma coisa sobre um dia de sol com pássaros cantando, que me lembrou Domingos de adolescência em Curitiba. Daqueles em que alguém resolve ir para o aeroclube ver acrobacia aérea. Eu fiz isso várias vezes na vida, sempre com amigos novos. Os amigos do namorado, os amigos do namorado novo da amiga... whatever. Eu fiz. E os dias de sol ficaram marcados assim: dia de gente nova. Dia de tentar me encaixar. Dia de constatar que, por mais que eu queira, eu não me encaixo.

Agora as coisas se agravam um pouco. Além de ter ainda o mesmo probleminha sobre malucos e certinhos, eu me tornei muito diferente das mulheres da minha idade que, embora tenham a vida um pouco parecida com a minha, por alguma razão misteriosa, não têm os mesmos interesses, nem os mesmos gostos. Aí me tornei também muito mais velha do que as pessoas que compartilham dos meus interesses. Isso não seria problema se elas não fossem solteiras, ou se eu combinasse com os lugares que elas vão, ou com o que elas fazem nestes lugares. Não preciso continuar, você sabe...eu não me encaixo.

Então não é um gosto musical, não é o estado civil nem a quantidade de filhos, não é um jeito de se vestir, não é uma crença ou um talento em comum. Não é. Eu sempre senti que o mundo inteiro é dividido em grupos com diferenças muito claramente definidas que, no fundo, torna todos eles "grupos de pessoas menos eu".
Simples assim.
Aí eu pergunto... sou só eu?

segunda-feira, dezembro 06, 2010

_fix me

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Tem dias que a vida me presenteia com cheiros que eu amo.
Nem todos eles existem de verdade.
Alguns existiram por um efêmero segundo, mas não tem como esquecê-los.
À simples menção de um nome, um dia, um lugar, tais cheiros me invadem - narinas e alma -, trazendo essa nostalgia doída, deliciosa, do jeito que eu -  mãe de toda intensidade - adoro.

I need a fix
camon and fix me.



sábado, dezembro 04, 2010

_sobre escrever

"e sobre mim"

Era uma vez uma adolescente sonhadora que adorava inventar diálogos na frente do espelho...
É. Isso também. Mas também era uma vez uma pessoa impaciente e nada perfeccionista, que jamais conseguiu ficar muito tempo em cima do mesmo projeto - fosse ele um desenho, um texto ou uma salada.
Essa mesma pessoa - eu - também não gostava de fazer trabalho de colégio. Não! Ui que saco! Sempre deixei para o resto da equipe e a minha parte era a que doía nos outros: a apresentação. Ah o palco! Delícia master subir ali naquele degrauzinho, sem saber nada de verdade,  começar a falar sem parar...e convencer todo mundo de que o trabalho merecia um dez. É o meu jeitinho.
Falar sempre foi meu forte. Falar por escrito não demorou muito a acontecer. Mas eu não gosto... Eu não gosto de escrever certinho. Mesmo que eu publique vinte livros eu nunca vou escrever como se deve. Vou escrever como eu penso, como eu falo, como você escuta. Também não vou querer/gostar/aceitar que um editor meta o bedelho no meu texto e saia arrumando a gramática. Tira a mão do que é meu e foca na ortografia...no máximo. Se eu escrevi assim, era assim que eu queria escrever.

De tempos em tempos eu sofro influências do que ando lendo, e me pego escrevendo como os outros. Minha sintaxe desaparece e viro uma coisa meio chata, meio arrastada que eu odeio. É como ir pro Rio passar um mês e voltar falando "meixmo", ou voltar de um final de semana em Porto Alegre, tri-diferente. Acontece. Tenho facilidade pra línguas. Ha!
Mas o que a pessoa que não gostava de ficar muito tempo em cima do mesmo projeto tem com isso? Elaborarei.
Eu não escrevo um texto em vários dias. Eu não guardo para revisar e re-escrever. Eu não esquematizo uma história com 1º, 2º e 3º atos e seus clímaxes e final. Eu tenho uma idéia e começo a escrever, como na vida: você nasceu...coisas foram acontecendo...você vai morrer mas não sabe como. É assim que esse meu cérebro doente funciona, e é por isso que meu livro nunca acaba: simplesmente porque quando eu comecei, eu não sabia o que aconteceria, e toda vez que eu sento para escrever, coisas novas acontecem...e agora, o "Senhor dos Livros" ainda não veio me dizer como aquela moça tem que acabar. Não sei! Não sei! não me pressione. Assim que ele ditar, psicografarei.
Assim são os textos do blog. Lá estou eu andando na rua ou dirigindo meu carro e cantando feito uma louca, quando algum pensamento cruza de uma orelha para a outra e resolvo elaborar. Vou para casa pensando (oh! eu penso?) e quando chego, escrevo direto no form do blogger, tipo irresponsável, numa tempestade cerebral...depois dou uma revisada meia-boca, aperto "publicar postagem", ainda com muitos erros.

É assim. Puro instinto. Pura tempestade. Pura paixão cega e burra. É como um beijo na boca que não devia acontecer ali, naquele lugar, na frente daquelas pessoas, mas que não podia esperar. 
Meus textos são como meus amores, como vivo meus dias, como decido o almoço. Se eu estiver inspirada, o mundo inteiro será amado e bem alimentado. Do contrário me aguentem.
É por isso que às vezes publico um texto tosco. Em dias que estou morna, não tem como fazer a coisa fluir, mas me forço a escrever porque passei a vida ouvindo que se eu sentar aqui, uma hora por dia, vou escrever mais. É...funciona com engenheiros da literatura, mas não comigo - o que eu faço nem deve ser literatura.
Comigo funciona me apaixonar: pelo texto, pela idéia, pelas pessoas. Se eu não estiver perdidamente apaixonada, as pessoas estão mortas, a idéia é vaga, o texto inexiste. 
Imaturidade...pode ser. Excesso de intensidade...com certeza. Escrever é como sexo: dá pra fingir, mas né? Que graça faz? Enquanto eu escrever com paixão, cada palavra será verdadeira e eu garanto o meu próprio prazer que, me desculpe, é o que interessa.
É assim que eu gosto.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

other

sometimes i think there is another woman inside of me
and she suffers.
all the happiness and plenitude in my life mean nothing to her.
she suffers and she cries for she needs to find her love.

she tells me he suffers as well.
she says he claims and prays and cries out our names so maybe we follow the sound...

yes i know! i know how he smells like and the sound of his voice
i know his eyes and his hands
but his face is unclear.

she makes me wait for him at the door with the heaviest weight on my shoulders.
it's like he is running towards me and i can even hear his steps.

we are both lost in this sharp emptiness.

and we are here.
i am here
stuck at this door
tears in my eyes
wondering where?
wondering why?
why does she need me to cry her tears?

quarta-feira, dezembro 01, 2010

_natal em família

Este conto é um fragmento da série "Sapatos"


Noite de Natal.
A festa acontece na casa de Clara, irmã mais velha de Eliza. A casa está inteira enfeitada. No banheiro, as toalhas são natalinas, na cozinha os panos de prato, talheres de servir, louças. Na mesa da ceia, tudo - absolutamente tudo - é natalino. Não existe um canto da casa que não diga alto e em bom som que é noite de Natal.
E ser Natal não é nada. O bom é ser Natal na casa de uma família italiana. Tudo é motivo de muita alegria ou muita tristeza. Na mesa, muita comida. Debaixo da árvore, muito presente. Espalhados pela grande sala, muitos membros da família. É difícil contá-los, mas podemos tentar.

Começamos com a dona da casa: Clara. 65 anos, descasada de Mario, que em sua idade avançada ainda é charmoso, forte, conservado, apesar dos cabelos meio mal pintados. Sua filha Cristina, o marido Marcio e o casal de filhos adolescentes.  André -- o mais  velho de Clara e Mario -- e sua esposa recém apresentada à família Marina, com um neném de 1 ano que começa a andar.

A irmã de Clara - Zoê - e o marido Fabrício com três filhos: Fernanda, Mauro e Gabriela - uma escadinha: 10, 8 e 6 anos.
A outra irmã, Eliza, o marido Horácio, seus quatro filhos - todos com nomes de imperador romano:  Adriano, Augusto, Máximo e César, e as respectivas esposas: Maria Alice, Maria Joana, Maria Claudia e Maria Eugênia mais os netos de Eliza que somam oito. O mais velho com 20, o mais novo com 4.
Temos também as tias de Eliza, Tia Ilda e Tia Tutáia, solteiras e eternamente virgens, segundo reza a lenda, mas ninguém acredita.

Está armada assim a grande noite de Natal. Trinta e quatro pessoas da mesma família, algumas com 100% de sangue italiano. A criança mais misturada, chega ainda a 15% de italianice no sangue.
O que isso tem a ver com a nossa história? Tudo. Todo este percentual sanguíneo resulta numa só palavra: BARULHO.
Muito barulho! As pessoas falam muito alto umas com as outras. Crianças correm em volta da mesa incansavelmente. Avós reclamam do comportamento das crianças, chamando as mães que continuam conversando confortavelmente e não dão a mínima. Comida...muita comida! Ainda não é hora da ceia, mas todos mastigam alguma coisa. Há frutas secas, nozes, avelãs e salgadinhos em todas as mesas da casa. Copos cheios de vinho, cerveja, whisky, refrigerante. De tempos em tempos uma empregada de avental passa recolhendo os copos e trocando cinzeiros, mas as guarnições parecem nunca acabar.
Debaixo da árvore de Natal há uma quantidade absurda de presentes. É presente para manter um orfanato inteiro ocupado por muito tempo. Além de pacotes convencionais, existem alguns sacos enormes, cheios de pacotes dentro. Eliza desfila por entre os pacotes com a Tia Ilda, dando seu toque final aos sacos grandes, enquanto o falatório e o corre-corre de crianças continua.
ILDA: - Que horror! Quem vai ganhar uma coisa desse tamanho?
ELIZA: - As crianças. Eu juntei todos os presentes deles em sacos. Não é uma idéia ótima?
ILDA: - Não. É horrível! Que graça tem ganhar um presente só?
ELIZA: (olhando decepcionada para a Tia) - Ai Tia! Não é um presente só. Tem um monte de presentes aqui dentro!
ILDA: - Ora Eliza, você gosta de chamar atenção. Quer que seus netos fiquem horas abrindo tudo o que tem nesse saco, para não prestarem atenção aos presentes que vão ganhar dos outros.
ELIZA: - Eu nem pensei nisso, Tia. Você que é ruim e pensou!
ILDA:- Pior ainda. Se tivesse pensado pelo menos mostrava que é inteligente. Se não pensou, além de exibida é burra.
ELIZA:- Tia!
ILDA:- Graaaaças a Deus sua mãe não está mais aqui para ver as suas atitudes.

ELIZA sai de perto da Tia, furiosa, e vai reclamar para a irmã CLARA.

ELIZA: - Você acredita que a Tia Ilda já evocou o nome da mamãe pra me criticar? Eu não levo essa chata pra casa hoje.
Mário passa por elas e escuta a queixa
MÁRIO: - É Natal, Elizinha...deixa a velha. Claro que eu vou levar ela pra casa. Você já viu ela pedir pra outro?
CLARA: - Você ainda vai descobrir que ela é apaixonada por você.

A campainha toca.
Cristina vai abrir, mas é empurrada por Clara, Zoê e Eliza que correm eufóricas.
Todas exclamam juntas:
- É o PAPAI NOEEEEEEL!
Ao dizerem isso, um interminável coro de pessoas se forma: “Papai Noel! Papai Noel! É o Papai Noel! Noel, Noel, Noel, Noel...”
A porta é aberta por Clara, tendo todas as irmãs ao seu lado, como uma tropa que será passada em revista. Papai Noel olha para as três mexendo apenas os olhos e sorri:
- HOHOHO! FELIZ NATAL!
Há um silêncio de décimos de segundo, e então a confusão começa. As crianças correm para perto da árvore. Uma das noras de Eliza comenta com outra:

MARIA JOANA:- Que papai noel horrível!
MARIA CLAUDIA: - A Mamãe Noel não tava em casa pra passar a roupa dele. Foi pra balada, a perua...
Papai Noel é bruscamente puxado por Eliza até a árvore de Natal. A criança menor chora copiosamente se agarrando à mãe, de pavor do homem de vermelho que acaba de chegar. 
ELIZA: -Papai Noel, esses grandes são pros meus netos. Aquele da Brenda, aquele do Paulo, Aquele da Rosana, do Felipe é o menorzinho ali atrás...BRENDAAA! Vem pegar o seu presente!!

Papai Noel tenta cumprimentar algumas pessoas, mas não consegue. Ele achava que se sentaria numa poltrona e chamaria um por um, mas é impossível. Todos falam ao mesmo tempo e colocam pacotes de todos os tamanhos na mão dele. As senhoras da família correm em volta do Papai Noel deixando o pobre homem atordoado.
CLARA: - Esse aqui, Papai Noel! Esse! É do Germano. GERMAAAANO! Vem buscar!
Papai Noel fica com o presente de Germano na Mão esperando, mas Eliza arranca dele, passa para outra pessoa...
ELIZA: - Dá lá pro Germano. PAPAI NOEL, esse é do Adriano, esse do César. César, vem aqui, filho. Esse é da tua mulher. Pega esse também.

Papai Noel tenta administrar isso tudo, mas tudo o que lhe resta é rodopiar feito um peru, e repetir alguns nomes, logo depois de Clara, Eliza e Zoê que não param de colocar pacotes em suas mãos e tirar dois segundos depois, entregando para o dono.
ELIZA: - Cassio!
PAPAI NOEL: - Caaaaassio...
CLARA: Cristina! Márcio!
PAPAI NOEL: Máaaaarcio...

Num determinado momento, ele já está sentado na poltrona assistindo ao espetáculo da distribuição que parece não acabar jamais. Milhares de papéis rasgados pelo chão...um menino pequeno pega uma camiseta enorme, sobe no sofá e pergunta repetidamente:
- Quem me deu isso? HEIN?? ÔOO! ALGUÉM! QUEM ME DEU ISSO???

Augusto arranca a camiseta da mão do menino.
- Isso não é seu, guri! Adriano, essa praga abriu o seu presente. É nosso pra você.
Olha para o menino e xinga:
- Mosca!
Adriano pega a camiseta, coloca na frente do corpo e abraça o irmão. O menino fica no sofá falando:
- Mas não fui eu. O papai noel que me deu...

A confusão continua...Eliza se aproxima do marido.
ELIZA: - Onde você colocou o presente dos meninos?
HORáCIO: - Nos envelopes que você me deu.
ELIZA: - Mas onde?
HORáCIO: - Eu te dei.
ELIZA - Deu nada, Horácio. Onde você enfiou isso? Eu já virei tudo lá na árvore. Não achei nada!

Ao fundo, o mesmo menino da camiseta abre um presente que não é dele. Tira do pacote uma boneca, sobe novamente no sofá:
-QUEM ME DEU ISSO AQUI? ÔOOOO! VOCÊS!? QUEM ME DEU ISSO??
HORÁCIO: - Ta louca? Se alguém pegar esses cheques vai descontar. Está ao portador!
ELIZA: - Ninguém vai roubar os cheques, Horácio. Só tem família aqui.
HORÁCIO: - Sei lá,  o Papai Noel não é da familia! Vai saber quem é esse homem?
ELIZA: - HORÁCIO! QUE HORROR! O HOMEM TA TRABALHANDO! COMO VOCÊ PODE PENSAR UMA COISA DESSAS? TA LOUCO!?
HORÁCIO: - Nunca se sabe...Eu acho que você perdeu os envelopes. Eu vou ligar pro banco agora e sustar os cheques. Clara, posso usar o Telefone? A Eliza perdeu o presente dos meninos, e eram cheques, agora eu vou ter que sustar...
CLARA: - Perdeu nada, Horácio. Você colocou em cima da cristaleira.
ELIZA: - Fala de mim, fala! Ele já tava feliz de sustar os cheques!
HORáCIO: - Eu pensei que tinha dado pra você.
ELIZA: - Pensou...quando eu penso eu sou maluca. Quando você pensa é o que?

Eliza vai voando pegar os envelopes para entregar para os filhos. Dando um envelope com o cheque para cada um.
ELIZA: - Se for pouco, briga com esse pão duro, porque eu quero matar ele todo ano na hora de fazer o cheque de vocês!

Augusto, que é mais sério agradece abraçando a mãe:
AUGUSTO: - Obrigada mãe. Vai quebrar um galhão.
Máximo e Adriano, mais gozadores, abrem o envelope, olham e dizem juntos:
- Puta que pariu! Que pão duro esse Horácio! 

César apenas coloca o envelope na bolsa da mulher sem fazer nenhum comentário. Eliza fica aflita e vai ver de quanto é o cheque de Máximo, que esconde o cheque e não mostra pra ela.
MÁXIMO: - Não...você vai matar o pai. Melhor não. Deixa guardado aqui.
ADRIANO: - Pode depositar ou é só pra enganar a Elizinha?

Horácio fica todo sem graça quando Máximo tenta abraçá-lo para agradecer e dá só uns tapinhas nas costas para se livrar logo.
HORáCIO: - Nãaao! Pode depositar. É de vocês.
ELIZA: - Se você mandar eles esperarem pra depositar eu nunca mais falo com você!
Horácio tenta abraçar Eliza
HORáCIO: - Calma, minha potranca....
ELIZA: - Potranca tua vó!

E a confusão continua. Papai Noel ainda está estupefato, aceitando salgadinhos que Cristina oferece a ele. Uma das crianças menores escuta o conselho de um tio.
MÁRCIO: - Paulinho...vai lá e puxa a barba do Papai Noel.
PAULO: - Eu não. Depois ele não me dá presente...
MÁRCIO: - É falsa!
PAULO: - To nem aí. Só quero presente.

Quando os presentes acabam finalmente, e a confusão das mulheres da família tem uma trégua, Papai Noel se levanta para sair. Eliza, Zoê e Clara o cercam e o convidam para jantar.
PAPAI NOEL: - Muito obrigado. Eu tenho muitas casas para visitar. Muitas crianças para presentear. A noite está só começando.
CLARA: - Mas só uma cervejinha...TEREZINHAAA! Pega uma cerveja pro Papai Noel!
PAPAI NOEL: - Não não, por favor, eu não quero mesmo....
ELIZA: - O senhor não pode perder o macarrão com brachola. Receita da minha mãe!
ZOÊ: - Pelo menos um bolinho? Um doce? As sobremesas estão maravilhosas...Terezinhaaaa!
Papai Noel: - Obrigado mesmo...eu preciso ir. É noite de Natal.

Terezinha - a empregada -  aparece na porta da sala para atender, mas Maria Eugênia a segura, sinalizando que não é para servir nada.
CLARA: - Só um pouco, Papai Noel...
Mario se aproxima das três:
MÁRIO: - Dá o cheque do homem e deixa ele ir embora!
Uma das crianças reclama:
- Vóoo! O Tio Horácio deu presente pro Papai Noel também? Eu também quero cheque!
A criança vai correndo procurar por Horácio que empurra a criancinha  para frente, enquanto anda até a mesa.
HORÁCIO: - Vai pedir pro seu pai.

Papai Noel caminha para a porta, com seu saco, seu cajado e sua barba mal enjambrada. Clara abre a porta. Papai Noel se despede:
- FELIZ NATAL! FELIZ NATAL PARA TODOS! FELIZ NATAL!
A casa toda grita “Tchau Papai Noeeeel!”

Do lado de fora da porta, Papai Noel encosta na parede com a respiração ofegante, abaixa a barba e suspira aliviado por sair daquele inferno.



...continua

segunda-feira, novembro 29, 2010

_e se?

Ou "Como o MSN inspira textos bestas"


E se você encontrar aquela pessoa de novo, assim, do nada, num restaurante?
Vocês não se vêem desde aquele e-mail fatídico, mas você sempre nutriu uma esperança besta de que ela acordasse um dia morrendo de saudade e ligasse dizendo:
"Preciso te ver. Agora." Não vai acontecer. 

Agora que ela parou de balançar de um lado para o outro, acalmou um pouco o follow/unfollow/follow-de-novo no twitter, e aquela outra conta que depois de ir e voltar doze vezes, ela finalmente deletou (e você não tem mais como matar a saudade olhando fotos ou conferindo conversas), e até os velhos e-mails você já jogou fora...Bem agora que você está tranquila e livre do vício, pela primeira vez em mêses...bem agora, você entra na droga do restaurante e, naquela mesa do fundo à esquerda, bem de frente para você, ela carrega o primeiro par de olhos a cruzar com os seus.
Now what?

Ignorar, tenho certeza, está fora de questão. Acho que seu coração vai bater tão forte que é capaz de pular longe e sujar a toalha de alguma mesa de sangue. Eca! E duvido que você consiga evitar um sorriso de orelha a orelha, capaz de cegar metade da população presente. Mas espera! Você é mesmo capaz de desviar o olhar e fingir que não a viu? Será que você senta numa mesa bem longe da dela e almoça tranquila, ignorando solenemente a presença gigantesca que, com certeza, ocupa um restaurante e meio e te espreme contra o muro do outro lado da rua? Duvido.
Duvido e ao mesmo tempo acho triste.

Eu sei o que você vai fazer. Você vai encontrá-la no caminho do banheiro das mulheres, vai dizer:  
"Oi! Nossa, quanto tempo...tudo bem?"
Vai ficar olhando pra pessoa com cara de bobo, mal vai escutar a resposta dela que na verdade não interessa , vai dar dois beijinhos completamente sem graça -- quando queria mesmo que ela te agarrasse e te arrastasse pra dentro do banheiro com um beijo-na-boca-cinematográfico-mega-plus --, depois, vai virar as costas como se ela fosse o amigo do amigo da sua prima que você não vê desde aquele dia na sua festa de doze anos, e vai voltar pra sua mesa, engolir a comida sentindo raiva do mundo, pagar a conta e ir embora sem café.

Sabe o que eu acho? Vocês são dois bananas.
Era só.


Imagem: SuperStock

quinta-feira, novembro 11, 2010

_six pm



the magic hour.
in front of this window you are my shadow and I am yours
i am yours...
am i? 
this magical redish-mid-light makes me feel you closer
feel your smile in me
fill your smile 
(with mine)
 
please, dear, cut the lights. 
let me see you inside

(you
inside me)



segunda-feira, novembro 08, 2010

_síndrome de sereia



Quantas vezes me peguei rezando aos vinte e poucos anos...pedindo que me fizessem amar mais do que ser amada? Parece um pedido estúpido, parece uma queixa burra, mas não é. A aflição de parecer maior do que se é, tavez seja uma dor tão grande ou ainda maior do que a de não ser amado. Não ser amado é libertador, posto que não vem acompanhado de culpa. Já quando parece que seu amor não é suficiente, a culpa é gigantesca, e a sensação de incapacidade e de não estar vivendo o que se deveria, devora e entristece.

Depois de ter consciência disso, todo e qualquer disperdício de amor desespera. É preciso amar mais, é preciso amar igual, é preciso amar a qualquer preço - e mais do que tudo - é preciso provar que se ama.
Mas não adianta. Geralmente as pessoas carregam esta sina porque são endeusadas, não porque não amam ou amam de menos. Elas amam demais, mas não chegam onde querem. O pedestal onde foram colocadas não as deixa tocar a pessoa amada. É triste. É uma barreira que elas não querem que exista. Uma muralha quase intransponível que gostaríam de poder explodir...mas que não pertence a elas. É construída pelo objeto de seu desejo.
Não sei se elas preferem homens ou mulheres mais frágeis, que se julgam inferiores. Pode ser. Mas pela minha experiência, digo que não. Ou talvez..hum...agora não sei mais. Será que é isso? Será que a equação "amor + pedestal + muralha" só existe por uma necessidade inconsciente de ser adorado? Seria, no mínimo irônico: pessoas fazendo sofrer a elas mesmas... 
Porque eu te digo que é um sofrimento. Musas são feitas para serem endeusadas e, assim que tornam-se humanas, viram abóbora. Mas tornar-se humana é a única maneira de ser tocada, e não existe musa no mundo que não queira ser uma pessoa comum. 
É como o sofrimento da sereia, apaixonada pelo pescador. Ele espera por ela, ouve seu canto, delira, sonha acordado com o dia em que a sereia vai criar pernas e andar em sua direção. Lá do outro lado, a sereia tem os mesmos sonhos, então canta para o pescador, faz com que ele se aproxime, cria pernas e pula para dentro do barco. Ele quase morre de prazer por ter em seus braços um ser mítico. Ela também...mas por ser humana e, finalmente, poder tocar o amado. É a desgraça anunciada: ele quer que ela seja para sempre sereia - seu segredo, seu prêmio. Ela quer ser para sempre humana. Isso acaba sempre com uma sereia indo às lágrimas... e adeus...tchibum! Ela regressa ao mar, ele casa com uma humana qualquer e volta a sonhar acordado com a sereia, porque lugar de mito é no mundo dos sonhos.

As pessoas portadoras da "síndrome de sereia"  conhecem suas limitações, sabem que são pessoas comuns, têm milhares de inseguranças e amam pobres mortais...mas são vistas como inatingíveis e sagradas -- o Santo Graal dos seres da terra. Por isso nunca chegam a viver o que gostaríam. 
É triste.

quarta-feira, novembro 03, 2010

_férias, primos, praia...oh wait!

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Agora lembrei. Lembrei como era ir ao Rio todo ano para passar o Ano Novo e as férias de Julho. Tinha "oba" sim. Tinha porque eu esquecia sempre das coisas de sempre. Mas tinha as coisas de sempre. Então eu nem vou falar da parte óbvia, que era ver os primos da minha idade, fazer um monte de coisas gostosas, ser milhões de vezes mais livre do que eu era em Curitiba: cinema, boteco, sorvete, passeios...

Vamos então às coisas de sempre.

Eu nunca fui magra. Também nunca fui gorda antes dos 45 anos, quando virei este provolone gigante que vos fala. Eu era ajeitadinha, mas não era carioca. Não mais. Isso era chato. Depois de anos em Curitiba, eu já não tinha aquele ar praiano que a gente tem quando vive muito tempo no Rio. Já não sabia muito bem como me comportar em cima de um par de havaianas, nem como andar de mão abanando. A carioca tem um jeito de tirar a canga/short/saia que só a carioca tem. A gente se cria no Rio e aprende. Depois que a necessidade de se despir em público acaba, a gente não é mais tão charmosa. Isso é problema? Não... aparentemente não... a não ser que você seja eu, é claro, e como sendo eu, você odeie não pertencer, ou pior... como eu, talvez você odeie chamar a atenção pelos detalhes errados.
Pois bem. Eu não era gorda, não era magra, não era carioca e era BRANCA -- branca de neve, de bochechas vermelhas e sem nenhuma marca de biquíni whatsoever, como se tivesse acabando de nascer.
E como uma sina, assim que eu chegava ao Rio, o comitê de recepção estava me esperando para ir à praia. Mas não era tão simples. Não podiam ir à praia ali no Leblon, pertinho de casa, onde eu pudesse voltar antes, quando a coisa ficasse feia - e ficava. Não..! Tinha que ser em São Conrado. Claro. Super mais legal, praia limpa, menos farofeiros, mais gente cool. Só esqueciam de um detalhezinho: eu não era cool.
Então eu chegava de uma viagem de 12 horas de ônibus leito, com a pele marcada pelo jeans e pelo elástico do sutiã, a pele absolutamente transparente, e ia para São Conrado exibir o corpinho na frente de todos os caras mais cool do sul do mundo, e um sem número de mulheres lindas com cabelos idem e bronzeado impecável.
Lembre-se: naquela época, filtro solar era pasta d'água ou hipogloss, mas era ridículo.e eu que não ia fazer papel de ridícula. Não...well, com 40 minutos de praia eu era um pimentão gigante. O mundo não é bacaninha, sabe? Ou eu seria a única pessoa a perceber a minha cor. Daquele instante em diante, eu passava a escutar as palavras "pimentão", "camarão", "lagostinha", "holofote", e todas as outras coisas que lembrassem "escandalosamente vermelha e luminosa".

O dia seguinte não era melhor. Eu amanhecia inchada, com o dobro de marcas no corpo -- porque a pele inchada em contato com o lençol amassado vale por uma fotocópia de lençol amassado. Agora eu era de um rosinha pálido quase nada...quase transparente outra vez, só que doendo muito.
E assim passava a primeira semana: rosa-choque, rosa-bebê, rosa-choque, rosa-bebê. Na segunda semana, quando eu começava a parecer saudável e quase viva, descascava. E mais piadinha.

Este sempre foi o problema de ir ao Rio. Não pense que mudou. Ainda semana passada, eu sofri ao lembrar que teria que passar o feriado lá e rezei para chover. Se fizesse sol eu não escaparia da praia e ainda ficaria eternizada no álbum do casamento do meu primo, como camarão.
Papai do céu foi legal dessa vez, mas tenho certeza que não vai me deixar escapar na próxima.

Resumo do trauma: ir ao Rio é ardido...mas é bom.

quinta-feira, outubro 28, 2010

_sede (um conto de halloween)

Se você tem estômago 
fraco e a mente imaculada, 
não leia este post.


Era uma daquelas noites em que eu não podia esperar nada além de um sonho bom, já que nada  especial poderia acontecer.
Ah sim... aquele seria o cenário perfeito para um crime: um quarto de hotel de sonho - desses que os mortais só vêem em filme - a lua perfeita pintando de azul todas as coisas brancas da terra; a brisa fria e calma dançando com a cortina pálida numa dança lenta e quase sexy...e um olhar distante.
Mesmo no lugar perfeito, com o figurino perfeito, eu sabia que o toque dos nove travesseiros brancos espalhados na cama, seria a única coisa que eu sentiria durante o sono.

Talvez.
Se ninguém tievesse batido na porta, garrafa de Sake numa das mãos, a outra no bolso, um sorriso irônico, e uma sede enorme rasgando a garganta.
"Seu drink favorito."

Nem uma palavra em retorno. Só um meio sorriso. Mas ele sabia que devia entrar e encontrar um jeito de abrir a garrafa e mais cedo ou mais tarde, eu abriria um sorriso.
Fiquei em silêncio.
Eu o segui com os olhos quando ele entrou como se o lugar fosse dele. Ele sempre teve esse jeito no olhar que parecia dizer que eu era dele, e dele era tudo o que me cercava. Fechei a porta com um empurrão enquanto ele abria a garrafa com a faca que tirou do bolso.

"Que tipo de homem carrega uma faca?" -- pensei em dizer mas, antes que as palavras saíssem, lembrei que ele era esse tipo de homem. Talvez tivesse uma maior na mochila, quem sabe mais.
Ainda na porta, vi quando ele lambeu a lâmina antes de guardá-la. Fechei os olhos num suspiro mudo, só eu sei o que me veio à mente. Ou ele também, porque quando abri os olhos, ele estava sorrindo.

"Saudade?"


Saudade...do que mesmo eu teria saudade? De ter alguém ao meu lado na cama, fosse quem fosse -- e ele servia muito bem a tal propósito -- ou das coisas que eu sabia que jamais teria com outro, não nessa, nem em outra vida?

Ele pegou dois copos, serviu duas doses, me entregou um deles e levantou o dele num brinde.
Virei o Sake num só gole e estiquei o copo pedindo mais. Ele me serviu e continuou parado me olhando, sem se mover. O sorriso não era irônico...era um misto de ironia e admiração...era alguma coisa que me dava frio da barriga e medo. Cheguei a pensar que o Sake estaria envenenado ou que ele havia usado algum calmante, mas o medo passou quando lembrei que ele não tinha motivos para me dopar. Mais do que ninguém, ele sabia que não precisava de artifícios para me seduzir. E mesmo que houvesse dúvida, eu beberia, porque não passaria mais dez segundos sem saber o que ele faria comigo.
Este era o eterno jogo. Ele era perigoso, mas eu pagava pra ver. A confiança era cega, e era mútua. Se um dia eu não sobrevivesse, teria morrido tranquila.
Quebrei o silêncio, e o sorriso dele.

"Como você me achou?"
"Você deixa rastros."
"Não dessa vez..."
"Eu sinto o seu cheiro.
"

Eu atravessei o quarto rindo e fui até a janela. Sabia que ele me acharia mesmo que eu mudasse de planeta. Ele sempre achava...mesmo que eu tomasse cuidado. Ou talvez eu descuidasse num detalhe ou outro para apimentar a busca. Quem sabe?

"É impossível não seguir teu cheiro..."
-- ele disse me abraçando por trás e puxando para baixo a minha blusa de forma a expor meus ombros. Beijou minhas costas e a nuca, e eu tentei não me mexer, não respirar, não mostrar que morria de saudade daquela boca e daquelas mãos. Mas foi impossível. Num impulso, eu levei minhas mãos para trás, segurei suas pernas e o puxei para mim...senti a faca no bolso da calça. Ele interrompeu o beijo por um segundo e voltou a beijar minhas costas sorrindo.

"Saudade...eu sei."
Eu balancei a cabeça num não, mas estava mentindo: saudade sim.

Ele me virou e me beijou na boca. Os corpos colados, a blusa escorrendo pelo ombro, a barba roçando a pele, uma longa lambida no pescoço... e minha cabeça tombou para o lado, olhos em transe. Ele conhecia os meus sinais...
Senti a lâmina fria tocar minha pele e um suspiro profundo veio do estômago, numa contração forte. Ele sabia. Um corte. Nem raso nem fundo: preciso. A língua quente, o gemido...
Senti a faca fria na mão como um pedido urgente e mais do que rápido fiz um corte em seu peito e deixei o sangue correr. Ele se afastou para olhar, a boca suja de sangue me beijou novamente, depois guiou minha boca até o corte. O gosto morno indescritível do sangue era o que guiava a nossa loucura. Sempre. Mas naquela noite, seria diferente.

Joguei a faca na cama e ele sorriu extasiado. Era hora de matar a sede.
Sempre cortes discretos capazes de cicatrizar rápido sem deixar grandes vestígios, mas em lugares onde o sangue é farto...essa era a regra e essa era a graça de fazer amor -- nos lambuzando um no sangue do outro até o gozo, até o êxtase, até nem um de nós ter um único milímetro de pele limpa.

Mas naquela noite, seria diferente.
Enchi a banheira e o convidei para entrar comigo. Bebemos mais, nos beijamos mais...Por fim, descansamos. 
Ele deitou na banheira, eu montei sobre ele e ele entrou em mim. Enquanto fazíamos amor eu peguei a faca na borda e esperei o momento. Ele pedia que eu o cortasse e eu me recusava, dizia que não, ainda não era a hora, mas ele pedia de novo e de novo, e ficava mais excitado quanto mais a expectativa do corte crescia...e eu esperei e esperei...e veio o gozo... foi quando, num movimento rápido, eu fiz um corte profundo em sua perna, rompendo a femural e, num segundo golpe, levei a lâmina até a minha própria perna e fiz o mesmo.

O sangue tingiu a água quente, enquanto um prazer intenso nos tomava...

Nos beijamos uma última vez.



Happy Halloween!