terça-feira, agosto 07, 2007

Sede de poder - A natureza


O mundo parece virado de pernas para o ar - é o que escutamos a toda hora.
Antigamente não era assim, as pessoas foram perdendo a dignidade, o censo de humanidade, a crueldade e a violência assolaram o nosso tempo. Onde foram parar os valores e os princípios? E assim por diante...
Mas eu fiquei pensando, e não é preciso muito para que isso aconteça, já que eu passo grande parte do tempo sozinha e olhando para o universo para tentar entender quem, afinal de contas, é esse tal HOMEM. Depois dessa viagem pelos lugares onde a história do poder está escancarada na arte, na arquitetura e na história da civilização em si, fiquei mais desiludida do que nunca.
Então vamos começar pelas minhas angústias mais antigas: A Igreja.
Deus, ó Deus...aquele senhor de barba e vestes brancas, com o dedo encostado no dedo de Adão, criando o que se chamaria mundo - pintado tão lindamente por Michelangelo, e por tantos outros por todos os lados da Europa...O que aconteceu com Deus? Que história mais mal contada essa da Igreja Católica...Me explica, por favor, alguém me explica!
Roma inteira mostra os vestígios de Constantino. O imperador que, vendo que não tinha como eliminar os cristão, resolveu oficializar a religião para seu próprio bem. Constantino juntou as suas crenças no Deus Sol à semi-doutrina cristã existente, mudando datas e fatos, juntando tradições e rituais das duas religiões, e ganhando mais uma grande fatia de "gente" que é igual a território, leal a ele; e criou a Igreja Católica Apostólica Romana.
Se você olhar bem, durante os primeiros séculos da Igreja Romana, o sol está tão presente quanto Deus e Cristo na arte sacra. Então...será que Constantino se converteu? Ou será que o poder lhe brilhou os olhinhos? hum....

Em Paris descobri santos que foram canonizados por razões políticas, tipo um irmão de Napoleão Bonaparte. Hey, Jesus, você tá sabendo disso?
E São Luiz IX? O rei que virou santo por fazer juramento de cruzado e prometer combater os "infiéis e heréticos", impregnado pela concepção cristã de guerra definida por Santo Agostinho? E Santo Agostinho? Aff, sobre esse melhor não falar. Sua filosofia sobre o bem e o mal rendeu séculos e séculos de absurdos.
Que tal Fernando III de Leão e Castela? Esse é o meu preferido. Se um dia você quiser ficar realmente indignado com a "Santa Igreja" leia a biografia dessa besta! São Fernando - é como ele é conhecido hoje em dia. SÃO FERNANDO, as in HOMEM SANTO.
Vou dar só uma palhinha:
Fernando III de Leão e Castela foi canonizado em 1671 pela sua devoção a Cristo. Ele criou o Santo Tribunal do Ofício, com apoio de outro santo homem, o Papa Sixto IV. Se você não entendeu o que isso tem a ver, o Santo Tribunal do Ofício nada mais foi do que a Inquisição.
Se mesmo assim a sua ficha ainda não caiu, aqui vai:

David Landes, relata-nos: "A perseguição levou a uma interminável caça às bruxas, completa com denunciantes pagos, vizinhos bisbilhoteiros e uma racista "limpieza de sangre". Judeus conversos eram apanhados por intrigas e vestígios de prática mosaica: recusa de porco, toalhas lavadas à sexta-feira, uma prece escutada à soslaia, frequência irregular à igreja, uma palavra mal ponderada. A higiene em si era uma causa de suspeita e tomar banho era visto como uma prova de apostasia para marranos e muçulmanos. A frase "o acusado era conhecido por tomar banho" é uma frase comum nos registos da Inquisição. Sujidade herdada: as pessoas limpas não têm de se lavar."

Pera! Vou repetir: "Sujidade herdada: as pessoas limpas não têm de se lavar."

O objetivo formal da Inquisição era a erradicação da heresia, o que, para Torquemada - Grande Inquisidor nomeado pelo Papa e pelo Rei Fernando III - era sinônimo de eliminação dos marranos. Para estimular as delações, a Inquisição chegou a publicar um conjunto de orientações que ensinava aos católicos como vigiar seus vizinhos e reconhecer possíveis traços de judaísmo. Eis alguns dos sintomas reveladores:
- Se você observar que seus vizinhos estão vestindo roupas limpas e coloridas no sábado, eles são judeus.
- Se eles limpam suas casas na sexta-feira e acendem velas bem mais cedo do que o normal naquela noite, eles são judeus.
- Se eles comem pão ázimo e iniciam sua refeição com aipo e alface durante a Semana Santa, eles são judeus.
- Se eles recitam suas preces diante de um muro, inclinando-se para frente e para trás, eles são judeus.

A pena mais leve imposta aos marranos era o confisco de seus bens, técnica que se mostrou muito eficiente como forma de arrecadar recursos para a guerra contra os mouros. Os reis católicos, Isabel e Fernando, precisavam de receitas, e a perseguição movida aos hereges por Torquemada era uma fonte de renda que interessava sobremaneira ao Estado. Isabel e Fernando auto-intitulavam-se "protetores da Igreja" e defensores da fé, antecipando práticas que seriam depois amplamente utilizadas pelos regimes totalitários do século XX.
Os judeus que sofriam apenas o confisco podiam dar-se por satisfeitos. O mais comum era serem obrigados a desfilar pelas ruas vestidos apenas com um sambenito - traje humilhante, que definia sua condição de hereges - e flagelados na porta da igreja. A etapa seguinte era a morte na fogueira, durante os chamados autos-de-fé, após inomináveis torturas.

Espera! Vou ter que repetir mis uma vez: a morte de judeus na fogueira era chamada de AUTOS DE FÉ!!!

Pois é...santos!

Vale lembrar que até hoje temos medo de bruxas e feiticeiros, confundimos antigos rituais com ritos satânicos, julgamos que tudo o que não é cristão é do mal. Ou quase tudo! O fato é que a Inquisição acabou, mas ainda olhamos feio para quem tem crenças diferentes das nossas. Há 50 e poucos anos, Hitler não fez muito diferente. Hoje mesmo, enquanto você lê este texto, muitos muçulmanos estão presos em Guantanamo ou outros lugares que nem sabemos, acusados de terrorismo...ou há algo de herége neles? Ah...sim...eles não gostam do imperador!

Fora isso, Roma em si é assustadora. Linda e assustadora. Por lá você encontra um arco do triunfo em cada esquina, mostrando a megalomania dos imperadores. E, é claro, o Coliseo...lugar que escancara a natureza humana de todas as formas. Usado para divertir o povo e o imperador com lutas entre gladiadores e feras selvagens, ou feras e cristãos, ou gladiadores e cristãos, ou qualquer um que incomode, contra alguém ou algo mais forte. Lógico, com a grande e nobre desculpa de dar "pão e circo" para o povo, a gente aproveita para fazer uma faxina. Alguma semelhança com CPI's sem fim?

Fora isso, a grande maioria dos imperadores romanos foi assassinada, seja por seus próprios soldados, sua própria família ou por um outro homem que requisitava ou usurpava o trono; pouquíssimos deles morreram de causa natural. Ou seja: havia sempre alguém querendo o poder, e indo buscar da maneira que bem entendesse.

Well...sábado eu assisti a um documentário sobre a Rainha Faraó - Hatchepsut. Filha de Tutmés I, ela foi criada para assumir o trono. Casou-se com seu meio irmão - Tutmés II após a morte do pai, e reinou ao lado dele. Quando Tutmés II morreu, seu enteado Tutmés III era ainda uma criança. Assim, na qualidade de grande esposa real , Hatchepsut assumiu o trono como regente, ao lado de Tutmés III. Mas, ela tinha uma filha que pela ordem de suscessão deveria assumir o trono após a sua morte, se Tutmés III não tivesse um filho. É...deveria...
Hatchespsut foi uma rainha competente e amada. Chegou a vestir-se como homem para poder reinar poderosa, assumindo a dignidade de Faraó. Um belo dia, ela teve uma dor de dente. Seu sofrimento foi terrível, um médico extraiu o molar que tanto a incomodava, mas deixou um pedaço da raiz. Pois bem...quem diria? Hatchepsut morreu de infecção generalizada causada por uma higiene bucal meia boca. Coitada, que dor!
Tutmés III torna-se faraó então. Criado por Hatchepsut, ele apagou as inscrições conhecidas onde o nome dela existia e retirou seu sarcófago do vale dos reis. E para que? Para que, na sua morte, seu próprio filho - Amenhotep II (Amenófis II) pudesse herdar o trono do Egito tranquilamente, sem que o povo lembrasse a existência de uma filha de Hatchepsut.

Mais?
Jesus Cristo morreu porque entrou em Jerusalém para requisitar o trono de Israel, que era seu por direito, linhagem de sangue e sucessão natural. Como assim? Havia um imperador que já reinava em Israel antes dele nascer que jamais toleraria tal heresia!

E por aí vamos, amiguinhos. Desde que o primeiro humano fez fogo e alguém viu, a inveja e a sede por poder reina na Terra. Muito me surpreende que alguém ache anormal a corrupção e a mentirama que rege nosso país hoje. Muito me surpreende que alguém fique de queixo caído ao ver o empurra empurra de culpas, CPI's e caça às bruxas que estamos vivendo.

Já fomos fiscais do Sarney...já tivemos medo do comunismo...já lutamos contra a ditadura que pregava o fim do comunismo que na verdade era bancada por outros imperadores de reinos distantes...já fomos caras-pintadas...já protestamos contra e a favor de quase tudo o que vivemos nos últimos 30 anos. Sem critério, sem noção! Os mesmo que achavam que o Collor salvaria o país pediram seu empeachment, os mesmos que gritaram LULA-LÁ, colocam nariz de palhaço. E eu, que jurava que o nariz era natural, nem vou dizer tudo o que penso, porque hoje sou uma das pessoas mais sem esperança na raça humana que jamais nasceu.

Só quero que TODOS tenham cuidado. Muito cuidado. Cuidado com a empolgação. Analizem os fatos. Eu disse FATOS. Nós sempre fomos fantochinhos nas mãos de alguém. Olha a inquisição! Olha a história da civilização! Há sempre muito circo para distrair o povo!

Estou assustada. Não acho que algo tenha mudado no comportamento humano. Não acho que o descaso sobre Congonhas seja diferente do descaso perante os famintos da África ou do sertão Nordestino. Acho que uns continuam agindo segundo seus próprios interesses enquanto outros continuam acreditando nas inscrições apagadas por Tutmés III.
Acho que ainda queimamos nossos heréges em praça pública. Ainda sem critério!
E a cada dia que passa, tenho menos fé que algum líder vá governar com sabedoria.


6 comentários:

Alice Salles disse...

MER-CE-DES.

Obrigada por essas palavras. Também acredito que ninguém é capaz de liderar nós, seres-humanos tão distintos e estranhos, por assim dizer, de uma forma digna, boa e virtuosa.

Não sei de nada só sei que pelo menos enquanto existir gente que valha a pena ajudar a se sentir mais humano ainda vale a pena viver. Mas também não acredido que vá aparecer alguém com o verdadeiro dom de se fazer justiça plena sobre essa terra "santa", sobre esse planeta azul....

Carolina Garofani disse...

o ser humano é por natureza injusto, faminto, insatisfeito e egoísta.

mas eu ainda acredito na virtude - só acho que quem tem sede de poder não pode ter ao mesmo tempo desprendimento material e boa vontade de melhorar as coisas e ajudar os outros.

eu acho que ganância é o pior dos 7 pecados.

Felipe "Tito" Belão disse...

depois de ler esse texto, só acredito na mercedes

se eu fosse comentar bem só escreveria sem nenhum pudor: "caralho, essa mulher tem colhões."

melhor não tentar comentar direito, pq tudo foi dito...


mas, mesmo assim, sou idealista a ponto de acreditar que quem se liberta é o que deseja...
se alguém já se libertou é ouuuuuuutra história.

Fastolf.b disse...

Bem, eu não tenho dúvidas de que o ser humano é o mais podre dentre os animais que habitam a terra. Não tenho a menor dúvida.
Os 7 pecados são nada mais do que o instinto do homem. São as 7 coisas que ele faz, hoje escondido, porque está agindo naturalmente. É engraçado como o homem sempre atribuiu o nome "deus" à tudo que não consegue explicar. Deus Sol, Deus do Mar, Deus isso, Deus aquilo, Deus homenzinho que veio do céu e etc. Quanto mais avançada a ciência foi ficando, menos deuses existiam. Parece que ela parou de evoluir faz tempo, não parece?!
Já diria um grande sábio: Inteligência é o oposto de religião!

Mercedes Gameiro disse...

Meu filho,

Exactely!

E a teoria dos 7 pecados é perfeita.

Beijo

Fabio disse...

Oi Mercedes, então você só esqueceu do final da história...toda essa sede de poder já almejada antes e tentada ser imposta de várias formas por diversas civilizações anteriores, como citado no texto, hoje se dá basicamente através do poder econômico, o dinheiro exerce influência de forma determinante sobre tudo, e quem detém todo esse controle monetário são os judeus, o povo que você diz ter sofrido absurdamente, como é normal de se ouvir por aí "coitado so povo judeu", são os banqueiros de hoje. Então se tiver algo para reclamar vai falar com os "judas". Abraço