domingo, agosto 12, 2007

Coisas da Vida # 2

Tristeza - dia de certos pais.


Era o dia mais feliz e complicado de toda sua existência.
Aquilo que ela se recusara a sonhar por tanto tempo, estava acontecendo e, surpreendentemente, ela estava feliz.

Foram muitas as vezes em que ele disse que seu sonho era ter um filho. Ela escutava o sonho dele em silêncio. Não queria contrariá-lo mas, secretamente, ela sabia que seria impossível fazer isso por ele. Seu amor era errado, seu romance proibido, e tudo o que ela mais queria era poder gritar para mundo que havia encontrado o homem da sua vida.

Há muito tempo não se sentia tão plena, tão feliz.
Como todo homem, ele dizia que seu casamento estava no fim. Falta-lhe apenas um pouco de coragem para se separar. Como toda mulher, ela via verdade nos olhos dele - ou era seu coração que queria ver assim. Ela estava sempre de malas prontas para partir para onde ele quisesse. Desde que fosse com ele, qualquer lugar do mundo seria perfeito.

O dia estava bonito, e ela mal podia esperar pela hora de contar a ele que seu sonho seria real, que ela era parte dele, que agora, era só levantar do chão as malas e partir para uma vida nova, perfeita, cheia de amor. Quanto amor! Quanto amor! Ela era cega de amor.

Na varanda, ela sorria sem conseguir esconder entre os lábios as palavras que queriam sair. Ela o fez sentar, pegou suas mãos, olhou ternamente em seus olhos esperando o abraço emocionado assim que terminasse de pronunciar a palavra G-R-Á-V-I-D-A.
Ao ouvir a última letra, tudo o que ele pode fazer foi fechar os olhos. Ela entendia que ele precisava de um tempo para digerir a informação, que teria que processar as palavras antes de reagir. E esperou. Mas quando ele abriu os grandes olhos negros, ela viu lágrimas. E veio o abraço. Um abraço doído, sofrido, pesado. E entre soluços ela pode ouvir o que não queria:

- Não é possível! Não agora...

Decepção.
Sua garganta travou engasgada com todo o amor que tinha para dar. A felicidade teve um gosto ácido, amargo, que ardia enquanto percorria o caminho até o estômago. O coração ficou apertado, pequeno como se fosse quebrar, como se virasse pó.
Ela que queria tanto. Ela o queria tanto. Ela sentia tanto que dentro de si tivesse uma parte dele que estava sendo esquartejada pela lágrima que caia dos olhos negros e escorria pela face, acabando nos lábios dela... e ela engolia para que não mais existisse.
Como se a vida e deus e todos fossem impiedosos e não permitissem que sua dor fosse legítima, ela entendeu a dor dele e esqueceu a sua. Ela o consolou, dizendo que tudo ficaria bem...que ela o entendia. Que ela o entendia. Ela o entendia.

Os dias passaram e a notícia se confirmou: a outra mulher estava esperando um filho.
As duas. Um homem, um sonho, duas mulheres.
Das duas, apenas uma poderia dar a ele um filho. A outra tinha todo o amor e a paciência do universo para dar. Uma exigia atenção constante e tinha direito aos planos e projetos conjuntos. A outra, tinha todo o tempo do mundo para fazer dele um grande homem, toda a garra do mundo para se dar a ele sem restrições e transformá-lo no mais feliz dos mortais. Uma negava seu nome, mas carregava na mão esquerda uma aliança. A outra não tinha nada, mas encheria o peito de orgulho se pudesse carregar seu nome, seu filho e sua vida nas costas.
Mas não podia.

Com o peito rasgado de tristeza, ela ficou sozinha. Não completamente, posto que ele se dizia a seu lado, em silêncio. Ele não conhecia palavras. Ele não conhecia atos. Ele não conhecia nada!

Ela podia ter seu filho quieta. Ninguém precisava saber sobre ele se ela se afastasse um tempo. Mas era impossível não pensar no que seria a vida depois: aniversários, natais, dias dos pais...seria impossível, num futuro próximo, não odiar o homem que só teve tempo e olhos para um de seus filhos e deixou o outro esperando ansioso, sendo magoado a cada febre ou a cada vitória na escola... Não, ela não decidiria por algo que matasse seu amor por ele. Chegou a pensar mesmo, que por mais que se machucasse, seu amor seria maior do que qualquer dor. Ela superaria tudo por amor a ele. Pensou...só ela pensou. Ele não. Ele nunca pensou que um dia ela o deixaria. Ao contrário, pensou que poderia matá-la mil vezes, machucá-la, traí-la, decepcioná-la quantas vezes quisesse, porque o amor dela seria sempre maior do que toda mágoa. Ela seria forte por amor a ele.

Uma história feia, de dor. Uma história de amor e abandono.

Enquanto ela deitava sozinha na maca de um clínica clandestina, vendo a luz se apagar e ouvindo a voz do médico se afastando até que a droga a levasse para longe, ele escutava pela primeira vez, no ventre da mulher, o coração de seu filho.

3 comentários:

Alice Salles disse...

Mercedes!
Não faz isso comigo!

Lu von Borries disse...

Mercedes, ando viajando pelo teu blog e gostando muito. Teus textos tem personalidade. Show de bola! Coloquei um deles, com os devidos créditos - é claro, lá no ArquivoXX. Passa lá. (arquivoxx.blogspot.com)
Beijão
Lu

Marília disse...

Nem comigo!!!Muito triste!!!
Beijooo