terça-feira, junho 02, 2009

Sinto muito

Algumas notícias chegam e pegam a gente de surpresa. Geralmente a morte, nossa única certeza, causa um desconforto grande, seja quem for que tenha partido.
Ouvi da minha filha ontem "todo mundo vira deus quando morre". Nossa...ela só tem 15 anos e sabe que o ser humano tem falhas graves como essa.
Quantas vezes você já viu alguém que nem falava com o morto dizer: "Era um grande homem".
Eu não estou aqui para julgar os mortos, mas vou te dizer que assim como não consigo idolatrar nem meus próprios ídolos, não consigo endeusar alguém só porque morreu.

Eu tinha problemas com o Leminsky. Me processa! Tinha e sei de mais gente que tinha, e apesar de saber, reconhecer e concordar que ele era um poeta incrível, sua morte não fez com que eu passasse a gostar dele. Continuo achando tudo o que achava em vida, e não me acho nadinha importante por ter trabalhado com ele, até porque não fiz um único filme dele do qual me orgulhe. Penso dele o que penso de vários artistas brilhantes ainda vivos que trabalharam comigo. (um desodorante não mudaria em nada a arte deles!)

Mas então recebi a notícia da morte de uma das três únicas pessoas que eu odiei na vida. Uma das três únicas pessoas que realmente me fizeram mal e atrasaram o curso das coisas que estavam por vir para mim. Aí o que que diz? "Sinto muito"? Ai desculpa, não consigo...
Eu sinto muito pelos que podem ter sofrido com a partida dela. Eu sinto muito pela vida perdida. Mas ai...acho que só. Isso faz de mim uma pessoa má ou uma pessoa honesta?
Eu vivi os últimos 27 anos sem essa pessoa e ela não me fez falta, muito pelo contrário. Todas as vezes que me lembrei dela foi para contar do mal que ela me fez. Mas a minha formação de boazinha ridícula fez com que eu me sentisse um pouco culpada por "não sentir muito" a morte dela. Não é um alívio...não é um "graças a deus"...não é um "bem feito"...é só um "ah...é mesmo?".

Essa sensação esquisita de não sentir me fez pensar no dia que eu receber a notícia da morte dos outros dois. Hm...é mesmo? Pois é. Ah eu tenho certeza que todos os fofoqueiros de plantão vão correr pra me contar, loucos para ver a minha reação! Preciso urgentemente ensaiar uma cara para fazer, porque eu sei que simplesmente não vou ter reação alguma, afinal, já faz tanto tempo que eles morreram pra mim...já faz séculos que estão enterrados! Estranha seria a minha reação à notícia de que eles ainda estão vivos, zumbizando por aí...aí sim.
Eu sou um amor, sabe, mas tem uma coisa que pouca gente sabe sobre o meu lado negro: se você morrer pra mim, eu te enterro. E nunca vou voltar para colocar flores no seu túmulo.
Sinto muito.



*mas eu sinto muito pelas vidas perdidas no vôo da Air France, e boboca que sou, ainda acho que algumas pessoas podem ter se salvado de alguma forma...

10 comentários:

Alice Salles disse...

é, tem certas pessoas que tem que ser enterradas e ainda a gente não aprendeu a lidar com a morte. é o que é... a morte.

Anne disse...

Nesses tempos a vida tem me ensinado que tem gente que merece morrer pra gente, e por mais que seja doloroso, o melhor que fazemos é enterrá-las e escrever qualquer coisa na lápide. Acho que consegui definitivamente fazer isso hoje e e minha cara é a de sempre: acontece!

rafaela disse...

Não sinto nada. Me desculpe!


Não sei quem foi, mas por ter passado por algo parecido nos últimos dias, imagino bem como seja isto.

bj

paty disse...

Olá Mercedes,

Sempre leio seu blog e acho todos os seus textos FODA!

Já pasei por situação semelhante, e pensei exatamente como sua filha, depois que morre todo mundo vira santo! O cara foi meu primeiro amor, mais depois de um tempo odiava ele como nunca mais vou odiar ninguém! Quando ele morreu todo mundo ficou esperando alguma reação minha e a única coisa que senti foi um pontinha de remorso por ter desejado exatamente o que aconteceu. Simplesmente não sei fingir o que sinto, e o que não sinto tbm.

Bjo!

Perin disse...

Oie...tempo sem dar notícias. Li o texto e fiquei curioso pra saber quem morreu, afinal, devo ter conhecido esta pessoa, me mande um e-mail contando ( este é um defeito horroroso que tenho...sou muito curioso).
De qq forma vc e Natacha estão certas na observação, as pessoas viram santas depois que morrem e isso não é honesto ( como vc mesma diz). Bj com saudade.

Melissa Balsa disse...

Yes... posso achar esse texto simplesmente fantástico!!? Yes, eu posso, porque é mesmo.
P.S.: Matei alguém essa semana... mas ainda não consegui enterrar. Conto quando finalmente toda a terra do mundo estiver sobre esse alguém... e que a alma dele descanse (em paz?) em qualquer plano estratosférico espiritual bem distante do meu.

C. Garofani disse...

uma pessoa que eu odiava morreu e ficaram dizendo que a culpa foi minha. SUPERAGRADÁVEL.

e também tem outras duas que se morressem eu juro que não ia me importar.

(ai quanto ódio nesses nossos coraçõezinhos!)

Clélia Fagundes disse...

forte o texto....
saudades
bj

Luly disse...

Bom, muito bom... alguém conseguiu descrever como me sinto e como sou. eu não conseguiria ser tão clarevidente. eu concordo plenamente contigo. Meu esposo me disse que isso se chama - causalidade - um misto de causa e efeito. É a chamada reação.

Waldir Moreira Jr. disse...

É como diz a frase do Ataulfo "...só depois que se morre, que se vai pro altar..."(Alves). Concordo com você! Dia desses, um 'amigo' que em certa ocasião, prestou um inestimável favor a mim e aos meus, cometeu a asneira de dar uma carona a minha mulher, depois de um evento ao qual ela havia dado cobertura fotográfica (site frutalnabalada.com ). Sandice não foi a carona, mas sim, ter rumado para o motel, sem a permissão dela! Fiquei possesso, quis matar..., aquelas coisas. Depois, pensei que a coisa vazaria, ela seria exposta, enfim...deixei pra lá. Hoje, o cretino me evita, desvia olhares. Se estou em algum lugar, ele sai. Pra mim, ainda não morreu, mas,... todavia, carrego a vontade de matá-lo. Será que vou pro inferno? Na minha opinião, o inferno é aqui! E somos todos bem 'capetinhas', tentando galgar algum ponto pouco mais elevado. Adorei seu blog e seus textos. Vou continuar visitando, se não se importar.