terça-feira, abril 15, 2008

Vidas


Numa conversa sem pé nem cabeça, C.J. me disse que nas noites que não consegue dormir, gosta de pensar na próxima vida. Este é um dos meus pensamentos favoritos. Não que eu tenha alguma coisa para resgatar -- uma amizade, um amor perdido, um sonho não realizado -- algo que eu não tenha podido ter desta vez. Mas eu gosto de adivinhar o que eu vou ser quando a próxima vida chegar, e quando, e o que eu vou estar fazendo quando fizer 46 anos outra vez.

Não tem muita coisa que eu gostaria de mudar. Na minha outra vida eu quero cantar - talvez eu consiga uma voz! - , quero nascer no lugar certo para nunca mais me sentir um ET entre as minhas pessoas. A minha sorte nesta vida foi encontrar pessoas que estavam muito distantes do meu mundo - meu marido inclusive - e formar com elas um círculo que me protege todos os dias de ser uma outsider. Talvez da próxima vez eu jogue alguns neurônios fora, assim eu nasça outra vez compreendendo tão pouco as coisas que possa aceitar Deuse a história da humanidade de outra maneira.

Eu não tenho algum amor que eu precise viver outra vez. Talvez porque nesta vida eu fui resgatada muitas vezes...e fiz a mesma coisa. A vida me devia essa, e eu fui sortuda assim: nunca perdi alguém que eu amo.

Eu sei mais ou menos como foi a minha última vida, ou como ela acabou, ou tudo não passa de um delírio, mas quem se importa? Eu vejo cenas muito claras...uma terra preta demais com cascalhos de árvore, uma criança tirada de mim, roupas sujas e desespero...um lugar arrasado e fogo. Vejo um homem que me abandona sob um tronco velho de árvore prometendo voltar que nunca volta. Ele é mau, mas minha única suposta proteção...e não me protege...e me rouba. A dor é tão profunda que chega a matar a sede e a fome. Tudo é úmido. Tudo é escuro. Não sei se uma floresta ou o que. Eu fico escondida num buraco sob o tronco de árvore e vejo pessoas que passam e gritam. Eu vejo fogo.
De todos os meus "resgates" este talvez tenha sido o mais doloroso. A tentação de repetir a história e permitir o roubo da vida, estava clara a cada dia, e a superação foi dolorida como uma quase-morte. Todos os dias eu me certifico de que há luz a minha volta para que o chão de terra escura e úmida não venha me assombrar.
A vida me devia também esta redenção. Talvez por isso eu seja afortunada. Talvez por isso eu caminhe forte e feliz e protegida pela luz que me cerca. Nesta vida eu nasci capaz de sonhar e com alegria incondicional. Por isso arrasto tudo o que me cerca para este mesmo "lugar" confortável, iluminado e seguro onde me sinto tão bem. Pode ser que isso não passe de um sonho, pode ser que seja um prêmio.

Agora eu tenho mais 35 ou 40 anos pela frente...eu sei disso (posso dizer pela palma da minha mão: minha linha da vida quase dá a volta no pulso, e se alguém disser que é no pulso que ela começa, deixa eu contar que do outro lado ela vai quase até as costas da mão). Com todo esse tempo pela frente, eu posso imaginar o que me espera - algumas coisas eu até sei com certeza - mas mesmo assim eu não consigo evitar: eu imagino e faço planos para a próxima vida! Quem disse que há um limite nos sonhos de alguém?


Bom dia.


4 comentários:

Alice Salles disse...

Eu nunca fiz isso!
Mas vou começar a planejar minha proxima vida... ai ai quem sabe muuuita coisa ainda nao vai acontecer...
Amei esse post aqui

besito

Rafa e Dedé disse...

Mercedes, realmente uma vida é muito pouco!
Fiquei assustada com a riqueza de detalhes que vc tem da sua vida passada. Sempre tive curiosidade, mas muito medo tb!
Amei o texto!
Vou começar a planejar a próxima vida: Next!!!
bj

Flavia Melissa disse...

Memecota!
Na minha proxima vida, posso nascer sua filha? Ou sua mãe? Ou sua irmã? Ou seu marido? Ou seu gato?

ps_outsider é o caralho, eu quero o meu almoço!!!

Anônimo disse...

adorei seu texto, muito bom!!!