Fragmento de "Sapatos"
É manhã de Natal.
Eliza está tirando os seus presentes do porta-malas do carro. São muitos pacotes e caixas que ela vai tentando acomodar nas sacolas que tem. Abre alguns para ver o que é, tira alguns das caixas para caberem na sacola. Entrega várias sacolas para o porteiro que vai levando tudo para o elevador. Quando tira a última caixa do carro, encontra um par de sapatos. Eliza confere o sapato cheia de dúvidas. É um escarpin feminino, de salto alto, feito de pelica azul royal. Ela não lembra de ter ganho aquilo. O sapato é usado, está com a sola suja. Eliza cheira o sapato e faz careta. Coloca novamente dentro da caixa, pensa um pouco, tampa a boca com uma das mãos, horrorizada com o que acaba de pensar, bate o porta-malas e entra no prédio levando o par de sapatos, nervosa.
Ela adentra seu apartamento furiosa, batendo as portas e gritando, larga sacolas e caixas enquanto anda em direção ao quarto para acordar o marido.
- HORÁCIO! o que é isso?
Horácio acorda vendo um pé de sapato azul royal pendurado na mão da esposa, sem saber o que está acontecendo.
- O que? Um sapato?
Eliza está soltando fogo pelas ventas.
- Eu quero que você me explique o que esse sapato horroroso estava fazendo dentro do seu carro.
- Eu que pergunto. Claro que não é meu! Não é seu?
- Não se faz de engraçadinho, Horácio! Você nunca me viu de sapato alto.
- Nunca?
- Nunca! Você sabe muito bem. Agora me explica de quem é isso?!
Horácio senta na cama como se “tivesse faltado a essa aula”. Ele dá com os ombros
- Sei lá! Eu nunca vi esse sapato.
Eliza se descontrola e começa a gritar.
- Não mente! Eu nunca pensei que tivesse casado com um vagabundo! Vai fazer igual ao Mário, é? Mas olha bem pra minha cara, Horácio. Meu nome não é Clara! Não é não! Eu não vou deixar você entrar na minha casa nunca mais. Vai passar natal e aniversário na casa dessa....
Olha para o sapato mais uma vez e joga nele.
- ...dessa vadia brega que usa um sapato horrível desse!
Horácio começa a rir.
- Meu deus, Eliza...isso está até engraçado...eu nunca vi esse sapato. Juro!
- Não ri que eu te mato, seu vagabundo!
- Não...não rio de você nunca. Calma, Eliza.
- Me diz de quem é isso e pode sair da minha cama!
- Eliza, pelo amor de deus, seja razoável! Eu nunca vi esse sapato na vida. Sabei-me lá de quem é isso. Alguém esqueceu no carro, sei lá quem....
- Ah é...sei lá quem? Quem que esqueceu isso no carro? Quem é a puta que anda pra lá e pra cá com você ein?
- Olha o respeito, Elizinha!
- Que respeito? Que Elizinha? Você sai com uma mulher de quinta categoria e eu que não respeito? Você não respeita a sua família! Eu nunca sonhei com uma coisa dessas, Horácio! Você tem milhões de defeitos...mas esse? Meu Deus! Eu não mereço isso! Ainda bem que meu pai não viveu para ver uma desgraça dessas!
Eliza anda pela casa esbaforida, enquanto Horácio anda atrás dela tentando se explicar, mas ela não pára para ouvir. Fala sozinha pelos cotovelos, evocando todos os santos: Santa Rita de Cássia, Deus, Jesus Cristo, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
CORTA PARA:
O telefone toca na casa de Adriano, filho de Eliza. Quem atende é Maria Alice, sonada, de camisola.
- Alô?
- Alice, é uma desgraça! Meu Deus do céu eu nunca imaginei que isso fosse acontecer comigo um dia. A minha família foi amaldiçoada! Eu falei tanto do Mário e agora vou ter que passar a mesma coisa que a Clara passou! Pelo amor de Deus! Eu não quero viver mais!
- Calma, Eliza! Pára! Eu não entendi nada! Que horas são?
Eliza responde chorando
- Não sei que horas são. Meu natal acabou! Minha família acabou!
- Quem morreu, Eliza? Calma. Você não tá dizendo coisa com coisa...
Adriano acorda com a conversa, tira o telefone da mão de Maria Alice.
- Que foi, mãe?
- Adriano, meu filho...a nossa família acabou!
- O que foi, mãe? Onde você tá.
- Em casa, meu filho! Mas eu vou morrer!
- Ai! O que aconteceu?
- Seu pai tem uma amante, meu filho! Mas pelo amor de deus, não fala para o Augusto, que vai dar desgraça.
- Que amante, mãe? Onde ele ia arrumar isso?
- Eu vi, Adriano, com esses olhos...
Corta para Eliza ao telefone outra nora:
- Um sapato de mulher. Horrível! Brega! Pavoroso! Sapato de puta! De pu-ta-de-quin-ta!
- Tem certeza que não é seu? Algum sapato que tá lá faz tempo?
- Que meu o que, Joana! Eu tenho cara de quem usa sapato de puta? O salto é enorme. Quem usa um sapato azulão? Só puta!
Corta para Eliza ao telefone com mais outra nora:
- Imagina, Eliza...como assim amante? Não tem como...
- Ele é uma porcaria mas também não é tão ruim assim, né? Tá cheio de menina por aí procurando um velho com cara de trouxa como ele. Burro! Ela deve estar se aproveitando do dinheiro dele, que ódio! Eu quero matar o Horácio! O que que eu faço Maria Cláudia?
- Ai Eliza, primeiro calma. Para e pensa...você já perguntou pra ele?
- E você acha que ele fala? Tá fingindo que não sabe de nada, mas ta todo atrapalhado. Eu conheço a cara de sem vergonha desse desgramado!
corta para Eliza ao telefone com mais uma nora.
- Não é possível, Eliza...que amante?! Impossível!
- Você também vai defender ele, Maria Eugênia?
- Não to defendendo. Eu só não acho possível...fica calma. O Horácio não tem jeito de ser assim.
- Eu vou pedir o divórcio! Acabou tudo! Quero ele fora da minha casa hoje. E ai dele se enfiar essa vagabunda no meu apartamento da praia! Que nojo!
corta para Eliza ao telefone com a irmã.
- Bem feito pra tua cara! Achava que essas coisas só aconteciam comigo? Bem feito! Eu te avisei: “não seja burra...homem nenhum presta...” Mas não! Você ficou endeusando esse banana!
- Banana, Clara? Já viu banana arrumar amante?
- Banana sim! Sempre foi uma anta. Deve ter arrumado uma mulher feia e burra.
- Ele é um homem bom, ta bom? Você não pode falar assim dele!
- Eliza! Ele tem uma amante! É pra falar bem dele?
Volta para Eliza ao telefone, agora com o Filho mais velho.
- Eu vou colocar ele pra fora, hoje! Não espero nem mais um dia, César.
- Calma, Dona Eliza...é só um sapato.
- Sapato de puta!! Aquele sem vergonha vai se ver comigo! E se um de vocês receber ele em casa, também não entra mais na minha casa, entendeu?
Na casa de Maria Cláudia e Máximo, o outro filho de Eliza, Cláudia entra na cozinha rindo sozinha e encontra o marido tomando café .
- Qual é a graça?
- Sua mãe ligou.
- Ah...quer saber de quanto era o cheque que o pai me deu? Eu não mostrei pra ela ontem. Deve estar morrendo pra saber.
- Não. Pior.
- O que?
- Ela disse que teu pai tem uma amante.
Máximo quase engasga com o café, numa risada impossível de conter.
- De onde ela tirou isso?
- Sei lá. Encontrou um sapato no carro dele. Diz que é sapato de puta. Tá muito engraçado.
- Imagina o estado do meu pai tentando se explicar! Vou ligar lá.
- Não põe pilha que ela mata ele...
Horas mais tarde, no apartamento de Eliza e Horácio, todos os filhos se reunem para tentar resolver o caso do sapato azul. Augusto e Adriano estão sentados num dos sofás e Horácio em outro, como no banco dos réus.
- Por que estão me olhando assim? Eu não sei de quem é aquele sapato. Juro!
Augusto, muito sério, começa o interrogatório.
- Pra gente poder te ajudar, você tem que falar, pai. Pára de ser teimoso. Quer que vire tudo uma desgraça?
Adriano completa:
- A gente não tá aqui pra te julgar, mas puta que o pariu, hein? Que cagada!
Horácio levanta, bravo:
- Mas que coisa! Ninguém mais me respeita? Eu sou um homem honrado! Eu levanto às seis horas da manhã para trabahar todos os dias, faço tudo de melhor pra vocês...não vou ficar sentado aqui ouvindo desaforo de filho! Tá pensando o que?
Dentro do quarto, Eliza chora copiosamente sendo consolada por Maria Alice e Maria Joana.
- Ai Eliza...pára com isso. Como é que você pode pensar que ele tem outra...
Maria Joana tenta consolá-la.
- É...deixa de ser boba. Ele só falta deitar pra você passar em cima.
Eliza responde aos prantos:
- Eu nunca pensei numa coisa dessas. Tanto sacrifício pra acabar desse jeito! Eu nunca mais vou sair desse quarto!
Alice tenta ser severa, para mudar a reação de Elisa, sem muito sucesso.
- Ah, que ótimo! Aí sim que ele arruma outra, sua trouxa. Imagina se isso é hora de ficar trancada. É hora de ficar linda e mostrar que você é melhor.
- Você acha que ele vai achar? Você viu aquele sapato? Acha que eu posso com uma vadia daquelas? Eu to velha e ela deve ter 20 anos! Ai que raiva!
- Meu deus, Eliza, que velha nada. E não pode com quem? Duvido que ele tenha mesmo alguém.
- Eu vi! Eu vi! Eu sei que ele tem outra!
(PAUSA! Vamos ler isso como uma peça de teatro, certo? Que é o que isso parece)
M.ALICE: - Viu o que, Eliza? Você só viu um sapato. Isso não prova nada.
ELIZA: - Por que que vocês estão defendendo ele? Se você achasse um sapato azul turquesa no carro do seu marido, ia estar calma? Isso não é a mesma coisa que ver?
Maria Alice e Maria Joana se olham com cara de “tem razão”, Maria Alice não consegue segurar o riso e sai do quarto, deixando Maria Joana com Eliza, numa situação chata, tentando não rir.
ELIZA: Vocês agora vão rir de mim? (começa a chorar como criança)
Maria Joana tenta consolá-la com um abraço.
De volta à sala, Maria Alice bate no ombro do sogro e fala ironicamente:
M.ALICE: - Que beleza hein, Horacinho...Agora o circo tá armado de uma vez.
HORÁCIO: - Eu não sei de nada! Já estou achando que fiquei louco! Não sei de quem é aquele sapato e ficam me tratando como um criminoso. Eu vou sair. Chega!
Horácio levanta e sai de casa todo atrapalhado.
Augusto vai atrás dele.
Um pouco mais tarde, a irmã de Eliza -- Clara -- também está no quarto, junto com a filha Cristina, Adriano, e duas noras de Eliza, que chora jogada na cama enquanto todos se olham com aquela cara de “ai meu deus, e agora?”
CLARA: - Me deixa ver o sapato, Eliza. Onde está?
ADRIANO: - Pra que? Vai fazer DNA?
CLARA: - Deixa de ser idiota, guri! Eu só quero ver. Cadê, Eliza?
ELIZA: - Tomara que esteja no lixo! Ai meu deus! Isso é pra eu pagar a língua...
CLARA: - Isso mesmo, falou de mim até cansar.
CRISTINA: - É...a língua é o chicote da bunda!
ELIZA: - Pára, Cristina! Se você veio aqui pra me zombar, pode ir embora!
MARIA ALICE: - Onde tá o sapato? Eu também quero ver.
ELIZA: - Naquela caixa ali do lado da mesinha.
Cristina pega a caixa e coloca em cima da cama. Eliza senta para tomar mais uma dose daquele veneno...olha curiosa para a caixa enquanto Cristina abre. Todos estão em volta da cama, querendo ver o conteúdo da caixa.
ADRIANO: - Abre logo. Até eu quero saber o naipe da perua.
Cristina abre a caixa.
Assim que põe os olhos no sapato, Eliza volta a chorar. Todos exclamam ao mesmo tempo:
ADRIANO: - Putaqueopariu!
M.ALICE: - Que de última!
CLARA: - Mas que mal gosto, senhor do céu!
CRISTINA: - Azulão é demais hein?
Adriano pega um pé do sapato e cheira.
ADRIANO: - E tem chulé!
Todos começam a rir, e Eliza chora mais alto!
ELIZA: - Eu não sei o que eu fiz pra merecer isso! O que eu vou fazer da minha vida? Agora acabou tudo!
Todos falam ao mesmo tempo, menos Maria Joana que olha para o sapato intrigada. Ela pega um pé do sapato, olha embaixo, vira várias vezes.
ADRIANO (gozador): - Vai cheirar?
M.JOANA: - Deus me livre!
Maria Joana pega a caixa, lê a embalagem...
M.JOANA: - Gente.
Todos continuam falando ao mesmo tempo enquanto Eliza chora alto.
M.JOANA: - Gente! Me escuta!
Silêncio...
M.JOANA: - Esse sapato é da minha mãe...
ADRIANO - Como assim da sua mãe?
ELIZA: - Que da sua mãe o que? Você está querendo salvar o seu sogrinho querido.
M.JOANA: - Que sogrinho querido, ta louca? To falando. Esse sapato é da minha mãe. Eu fui com ela buscar no sapateiro, e a gente esqueceu no carro. Faz muito tempo isso. Quando a gente tava sem carro e o Horácio emprestou o dele, lembra?
ELIZA: - Ah....mesmo?
MARIA JOANA: - É. O sapato....de puta...é da minha mãe!
Maria Alice e Cristina começam a rir muito, sentadas na cama. Adriano não consegue se conter sai do quarto para rir em outro lugar. Clara olha séria para o sapato.
ELIZA: - Sabe que nem é feio...?
M.JOANA: - Eu vou levar o sapato de puta.
Maria Joana fecha a caixa de sapato, coloca debaixo do braço e sai do quarto.
Esta história é baseada em fatos reais. Mas não contem pra ninguém.