Terça-feira, Dezembro 21, 2010

_o novo post de natal

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Quando eu era pequena, Natal era uma festa religiosa. 
Minha mãe acendia a coroa do advento em cada um dos domingos que antecedem o Natal, e nós tínhamos que ficar ali olhando ela rezar - quer dizer...fingindo que rezávamos. De nós quatro, os filhos, acho que só a Bia era realmente religiosa. Os outros três, eu inclusive, eram fakes. Eu e meu irmão costumávamos ter acesso de riso em momentos religiosos: na missa, na oração das refeições...até que minha mãe cansou da gente e desistiu de rezar. Tadinha.
Anyway, Natal tinha coroa do Advento. Tinha também um boato de missa do galo -- boato, porque a gente nunca foi a uma -- tinha presépio e as coisas que as famílias católicas constumam ter. Mas aí os filhos cresceram. E aí meus pais meio que cansaram dos nossos (meus) questionamentos. Mas daí meu pai tinha o mesmo tipo de curiosidade científica que eu tenho e ficava meio difícil manter todos os mitos vivos.
Abre parênteses: só no final da vida ele voltou a se agarrar em assuntos religiosos. Me disse um dia que não queria ter certeza de que Deus não existe, porque ele estava no fim...e a existência de Deus era um tipo de alívio. Fecha parênteses.
De qualquer forma, foi meu pai quem me ensinou a pensar, e desde que isso aconteceu, eu não consegui mais ter uma religião.
Então o Natal deixou de ser uma festa religiosa. Quando passou a ser assim, me parece, passou a ser uma festa mais honesta. Levando em conta que Jesus nem nasceu em Dezembro, que a gente está na verdade comemorando o Solstício de Verão, e que, teoricamente, não haveria a menor necessidade de uma festa, o que é o Natal?
Para vocês eu não sei, mas para mim, o Natal é uma desculpa deliciosa para estar em família. 
Acho uma tremenda babaquice não gostar de Natal. Só quem nunca viu os olhos das crianças brilhando, asiosos, esperando a hora dos presentes, pode dizer que não gosta de Natal. Só quem não foi criança, não teve a casa enfeitada, não comeu fios de ovos, uva, não roubou ameixa, não passou o dedo em sobremesas que só aparecem na ceia de Natal e depois lambeu...só quem não foi feliz. Me desculpe... mas o Natal faz parte da minha história de felicidade.
Mesmo agora, que a gente chora. 
Desde que meu pai se foi - há dois anos - a gente chora mais. Antes a gente chorava porque a gente chora mesmo. Ha! Minha família inteira chora e não sabe porque. Acho que é uma saudade que na verdade é plena de presente. Não é uma saudade do passado, é uma conscientização momentânea, uma constatação: "Sempre fomos tão felizes!" E isso nos faz chorar, porque estamos felizes de novo, porque temos uns aos outros mesmo não nos vendo todos os dias. Porque sabemos que construímos uma vida que, quer você aí fora ache que deu certo, quer ache que deu errado, é uma vida cheia de histórias, cheia de...deixa eu ver...cheia de VIDA.
De qualquer maneira construímos uma história e temos um passado imenso em comum. Então agora a gente chora porque meu pai não está lá. Mas também porque a gente teve, por todos aqueles anos, a companhia daquele sorriso infalível, daquela ironia deliciosa, daquela alegria que ele era, sempre. E constatar que tivemos a sorte de viver com ele, só traz um mesmo pensamento: "Sempre fomos tão felizes!"
Então acho que Natal é festa e que não custa ter um Natal. Não importa se somos dez, trinta ou duas pessoas. Montar uma árvore, por pequenina que seja... fazer um jantar, por mais modesto...fazer um cartão, um presente, uma coisa qualquer para dar ao outro...e comemorar o nascimento de um sonho, seja ele qual for. Não precisa ser um sonho ambicioso: sonhar estar junto com gente que se ama, pra que mais? Isso já é o suficiente para uma festa. 
E festeje. Porque a vida é uma e não é tão longa, e por mais dura, existem momentos felizes. Invente um.
Piegas? Natal é piegas. O amor também é piegas, famílias são piegas e essa é a hora em que ser piegas é mais permitido. É o que eu desejo: se dê o direito de ser piegas e inventar um sonho.

Não importa se você é ateu, católico, evangélico, judeu, whatever, nasça de novo...e mais uma vez.

Feliz Natal.

Segunda-feira, Dezembro 13, 2010

_I don't belong

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Não é complicado. É simples assim: I don't belong.

Eu simplesmente não pertenço à maioria dos grupos onde estive, que conheci, que convivi, que visitei. Não sou parte deles.

Por mais "dentro" de um determinado grupo, ou por mais próxima que eu seja das pessoas, o que eu sinto é que, de certa forma, eu pertenço a cada uma delas em separado, mas dificilmente sou ou serei como elas, como o grupo que as cerca, suas tribos, suas gangs, suas confrarias.

Sempre foi meio impossível, já deu pra sacar na infância.
A religião não trouxe os meus "iguais", embora meus pais tenham tentado. A escola também não. Mas eu cresceria e quem sabe a faculdade ou o trabalho... Não! Não aconteceu. Nem o esporte, nem o inglês, o francês, a vizinhança... eu não achei os meus iguais. Acho que igual é uma coisa que não existe na minha língua, ou pelo menos não na minha -- esta -- existência. Eu tenho amigos. Isso sim. Tenho muitos amigos e eles são sazonais, simplesmente porque eu não pertenço. Não que eu os esqueça ou deixe de amá-los, isso nunca. Mas eles ficam lá, nos grupos de seus iguais, enquanto eu passo. Eu só passo. Transito de grupo em grupo.

O fato é que eu amo rápida e facilmente a qualquer um que passe pela minha vida e preencha os requisitos básicos para me agradar. Em muito pouco tempo, aquela pessoa é minha. Isso... você me pertence. Muito provavelmente eu pertenço a você bem mais do que você pode vir a imaginar um dia, mas não se engane... eu não sou como você, não sou como o seu grupo. Vou me dar super bem com ele, mas é mentira que vou fazer parte de alguma coisa que não a sua vida. Não que eu não vá tentar. Mas eu vou estar lá, entre todos eles -- tão iguais a você, dividindo os mesmos gostos, as mesmas histórias, as mesmas experiências -- e eu vou olhar em volta com um sorriso e descobrir que não nessa vida, ou em outra qualquer, eu serei capaz de me sentir parte daquilo. Simplesmente porque não sou.

A sensação recorrente na minha vida é esta: sentar numa sala cheia de pessoas e procurar, nos olhos delas, alguma semelhança comigo. Eu me acomodo e me adapto como um vírus... mas não... nada muda. Eu continuo sendo um corpo estranho infiltrado num sistema que funcionaria perfeitamente sem mim. O sistema me aceita. Me deixa entrar e me instalar em todas as frestas, mas mesmo assim, eu não sou dali.

Sempre igual: muito maluca para andar com os certinhos, muito certinha para andar com os malucos. Sempre no meio do caminho, sempre em cima de um muro onde esqueceram de pregar a plaquinha.

Talvez um psicólogo resolvesse isso, mas hey! Não dói. Não dói e não é incômodo de maneira alguma. E depois, se a essa altura da vida um terapeuta me disser que eu perdi tempo, o que que eu faço? Me mato? Porque voltar é impossível!  Sem falar que o ele falaria em insegurança, necessidade de se sentir aceita, e outras bobagens que realmente não são o caso. Eu sei o meu lugar no mundo e acho que ele me recebe muito bem. Não é isso. Longe disso. Então deixa quieto, doutor.

Outro dia falei sobre domingos de novos amigos. Foi alguma coisa sobre um dia de sol com pássaros cantando, que me lembrou Domingos de adolescência em Curitiba. Daqueles em que alguém resolve ir para o aeroclube ver acrobacia aérea. Eu fiz isso várias vezes na vida, sempre com amigos novos. Os amigos do namorado, os amigos do namorado novo da amiga... whatever. Eu fiz. E os dias de sol ficaram marcados assim: dia de gente nova. Dia de tentar me encaixar. Dia de constatar que, por mais que eu queira, eu não me encaixo.

Agora as coisas se agravam um pouco. Além de ter ainda o mesmo probleminha sobre malucos e certinhos, eu me tornei muito diferente das mulheres da minha idade que, embora tenham a vida um pouco parecida com a minha, por alguma razão misteriosa, não têm os mesmos interesses, nem os mesmos gostos. Aí me tornei também muito mais velha do que as pessoas que compartilham dos meus interesses. Isso não seria problema se elas não fossem solteiras, ou se eu combinasse com os lugares que elas vão, ou com o que elas fazem nestes lugares. Não preciso continuar, você sabe...eu não me encaixo.

Então não é um gosto musical, não é o estado civil nem a quantidade de filhos, não é um jeito de se vestir, não é uma crença ou um talento em comum. Não é. Eu sempre senti que o mundo inteiro é dividido em grupos com diferenças muito claramente definidas que, no fundo, torna todos eles "grupos de pessoas menos eu".
Simples assim.
Aí eu pergunto... sou só eu?

Segunda-feira, Dezembro 06, 2010

_fix me

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Tem dias que a vida me presenteia com cheiros que eu amo.
Nem todos eles existem de verdade. Outros existiram por um efêmero segundo, mas não tem como esquecê-los. À simples menção de um nome, um dia, um lugar, tais cheiros me tomam por completo, trazendo uma nostalgia doída, deliciosa, do jeito que eu - a mãe de toda intensidade - adoro.
I need a fix. É só o que eu penso quando o cheiro imaginário invade as minhas narinas.
Fix me, please.

Era isso. Beijo tchau.

Sábado, Dezembro 04, 2010

_sobre escrever

"e sobre mim"

Era uma vez uma adolescente sonhadora que adorava inventar diálogos na frente do espelho...
É. Isso também. Mas também era uma vez uma pessoa impaciente e nada perfeccionista, que jamais conseguiu ficar muito tempo em cima do mesmo projeto - fosse ele um desenho, um texto ou uma salada.
Essa mesma pessoa - eu - também não gostava de fazer trabalho de colégio. Não! Ui que saco! Sempre deixei para o resto da equipe e a minha parte era a que doía nos outros: a apresentação. Ah o palco! Delícia master subir ali naquele degrauzinho, sem saber nada de verdade,  começar a falar sem parar...e convencer todo mundo de que o trabalho merecia um dez. É o meu jeitinho.
Falar sempre foi meu forte. Falar por escrito não demorou muito a acontecer. Mas eu não gosto... Eu não gosto de escrever certinho. Mesmo que eu publique vinte livros eu nunca vou escrever como se deve. Vou escrever como eu penso, como eu falo, como você escuta. Também não vou querer/gostar/aceitar que um editor meta o bedelho no meu texto e saia arrumando a gramática. Tira a mão do que é meu e foca na ortografia...no máximo. Se eu escrevi assim, era assim que eu queria escrever.

De tempos em tempos eu sofro influências do que ando lendo, e me pego escrevendo como os outros. Minha sintaxe desaparece e viro uma coisa meio chata, meio arrastada que eu odeio. É como ir pro Rio passar um mês e voltar falando "meixmo", ou voltar de um final de semana em Porto Alegre, tri-diferente. Acontece. Tenho facilidade pra línguas. Ha!
Mas o que a pessoa que não gostava de ficar muito tempo em cima do mesmo projeto tem com isso? Elaborarei.
Eu não escrevo um texto em vários dias. Eu não guardo para revisar e re-escrever. Eu não esquematizo uma história com 1º, 2º e 3º atos e seus clímaxes e final. Eu tenho uma idéia e começo a escrever, como na vida: você nasceu...coisas foram acontecendo...você vai morrer mas não sabe como. É assim que esse meu cérebro doente funciona, e é por isso que meu livro nunca acaba: simplesmente porque quando eu comecei, eu não sabia o que aconteceria, e toda vez que eu sento para escrever, coisas novas acontecem...e agora, o "Senhor dos Livros" ainda não veio me dizer como aquela moça tem que acabar. Não sei! Não sei! não me pressione. Assim que ele ditar, psicografarei.
Assim são os textos do blog. Lá estou eu andando na rua ou dirigindo meu carro e cantando feito uma louca, quando algum pensamento cruza de uma orelha para a outra e resolvo elaborar. Vou para casa pensando (oh! eu penso?) e quando chego, escrevo direto no form do blogger, tipo irresponsável, numa tempestade cerebral...depois dou uma revisada meia-boca, aperto "publicar postagem", ainda com muitos erros.

É assim. Puro instinto. Pura tempestade. Pura paixão cega e burra. É como um beijo na boca que não devia acontecer ali, naquele lugar, na frente daquelas pessoas, mas que não podia esperar. 
Meus textos são como meus amores, como vivo meus dias, como decido o almoço. Se eu estiver inspirada, o mundo inteiro será amado e bem alimentado. Do contrário me aguentem.
É por isso que às vezes publico um texto tosco. Em dias que estou morna, não tem como fazer a coisa fluir, mas me forço a escrever porque passei a vida ouvindo que se eu sentar aqui, uma hora por dia, vou escrever mais. É...funciona com engenheiros da literatura, mas não comigo - o que eu faço nem deve ser literatura.
Comigo funciona me apaixonar: pelo texto, pela idéia, pelas pessoas. Se eu não estiver perdidamente apaixonada, as pessoas estão mortas, a idéia é vaga, o texto inexiste. 
Imaturidade...pode ser. Excesso de intensidade...com certeza. Escrever é como sexo: dá pra fingir, mas né? Que graça faz? Enquanto eu escrever com paixão, cada palavra será verdadeira e eu garanto o meu próprio prazer que, me desculpe, é o que interessa.
É assim que eu gosto.

Sexta-feira, Dezembro 03, 2010

_o caso do sapato azul

Fragmento de "Sapatos"

É manhã de Natal.
Eliza está tirando os seus presentes do porta-malas do carro. São muitos pacotes e caixas que ela vai tentando acomodar nas sacolas que tem. Abre alguns para ver o que é, tira alguns das caixas para caberem na sacola. Entrega várias sacolas para o porteiro que vai levando tudo para o elevador. Quando tira a última caixa do carro, encontra um par de sapatos. Eliza confere o sapato cheia de dúvidas. É um escarpin feminino, de salto alto, feito de pelica azul royal. Ela não lembra de ter ganho aquilo. O sapato é usado, está com a sola suja. Eliza cheira o sapato e faz careta. Coloca novamente dentro da caixa, pensa um pouco, tampa a boca com uma das mãos, horrorizada com o que acaba de pensar, bate o porta-malas e entra no prédio levando o par de sapatos, nervosa.

Ela adentra seu apartamento furiosa, batendo as portas e gritando, larga sacolas e caixas enquanto anda em direção ao quarto para acordar o marido.
- HORÁCIO! o que é isso?

Horácio acorda vendo um pé de sapato azul royal pendurado na mão da esposa, sem saber o que está acontecendo.
- O que? Um sapato?
Eliza está soltando fogo pelas ventas.
- Eu quero que você me explique o que esse sapato horroroso estava fazendo dentro do seu carro.
- Eu que pergunto. Claro que não é meu! Não é seu?
- Não se faz de engraçadinho, Horácio! Você nunca me viu de sapato alto.
- Nunca?
- Nunca! Você sabe muito bem. Agora me explica de quem é isso?!
Horácio senta na cama como se “tivesse faltado a essa aula”. Ele dá com os ombros
- Sei lá! Eu nunca vi esse sapato.
Eliza se descontrola e começa a gritar.
- Não mente! Eu nunca pensei que tivesse casado com um vagabundo! Vai fazer igual ao Mário, é? Mas olha bem pra minha cara, Horácio. Meu nome não é Clara! Não é não! Eu não vou deixar você entrar na minha casa nunca mais. Vai passar natal e aniversário na casa dessa....
Olha para o sapato mais uma vez e joga nele.
- ...dessa vadia brega que usa um sapato horrível desse!
Horácio começa a rir.
- Meu deus, Eliza...isso está até engraçado...eu nunca vi esse sapato. Juro!
- Não ri que eu te mato, seu vagabundo!
- Não...não rio de você nunca. Calma, Eliza.
- Me diz de quem é isso e pode sair da minha cama!
- Eliza, pelo amor de deus, seja razoável! Eu nunca vi esse sapato na vida. Sabei-me lá de quem é isso. Alguém esqueceu no carro, sei lá quem....
- Ah é...sei lá quem? Quem que esqueceu isso no carro? Quem é a puta que anda pra lá e pra cá com você ein?
- Olha o respeito, Elizinha!
- Que respeito? Que Elizinha? Você sai com uma mulher de quinta categoria e eu que não respeito? Você não respeita a sua família! Eu nunca sonhei com uma coisa dessas, Horácio! Você tem milhões de defeitos...mas esse? Meu Deus! Eu não mereço isso! Ainda bem que meu pai não viveu para ver uma desgraça dessas!
Eliza anda pela casa esbaforida, enquanto Horácio anda atrás dela tentando se explicar, mas ela não pára para ouvir. Fala sozinha pelos cotovelos, evocando todos os santos: Santa Rita de Cássia, Deus, Jesus Cristo, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

CORTA PARA:
O telefone toca na casa de Adriano, filho de Eliza. Quem atende é Maria Alice, sonada, de camisola.
- Alô?
- Alice, é uma desgraça! Meu Deus do céu eu nunca imaginei que isso fosse acontecer comigo um dia. A minha família foi amaldiçoada! Eu falei tanto do Mário e agora vou ter que passar a mesma coisa que a Clara passou! Pelo amor de Deus! Eu não quero viver mais!
- Calma, Eliza! Pára! Eu não entendi nada! Que horas são?
Eliza responde chorando
- Não sei que horas são. Meu natal acabou! Minha família acabou!
- Quem morreu, Eliza? Calma. Você não tá dizendo coisa com coisa...
Adriano acorda com a conversa, tira o telefone da mão de Maria Alice.
- Que foi, mãe?
- Adriano, meu filho...a nossa família acabou!
- O que foi, mãe? Onde você tá.
- Em casa, meu filho! Mas eu vou morrer!
- Ai! O que aconteceu?
- Seu pai tem uma amante, meu filho! Mas pelo amor de deus, não fala para o Augusto, que vai dar desgraça.
- Que amante, mãe? Onde ele ia arrumar isso?
- Eu vi, Adriano, com esses olhos...

Corta para Eliza ao telefone outra nora:
- Um sapato de mulher. Horrível! Brega! Pavoroso! Sapato de puta! De pu-ta-de-quin-ta!
- Tem  certeza que não é seu? Algum sapato que tá lá faz tempo?
- Que meu o que, Joana! Eu tenho cara de quem usa sapato de puta? O salto é enorme. Quem usa um sapato azulão? Só puta!

Corta para Eliza ao telefone com mais outra nora:
- Imagina, Eliza...como assim amante? Não tem como...
- Ele é uma porcaria mas também não é tão ruim assim, né? Tá cheio de menina por aí procurando um velho com cara de trouxa como ele. Burro! Ela deve estar se aproveitando do dinheiro dele, que ódio! Eu quero matar o Horácio! O que que eu faço Maria Cláudia?
- Ai Eliza, primeiro calma. Para e pensa...você já perguntou pra ele?
- E você acha que ele fala? Tá fingindo que não sabe de nada, mas ta todo atrapalhado. Eu conheço a cara de sem vergonha desse desgramado!

corta para Eliza ao telefone com mais uma nora.
- Não é possível, Eliza...que amante?! Impossível!
- Você também vai defender ele, Maria Eugênia?
- Não to defendendo. Eu só não acho possível...fica calma. O Horácio não tem jeito de ser assim.
- Eu vou pedir o divórcio! Acabou tudo! Quero ele fora da minha casa hoje. E ai dele se enfiar essa vagabunda no meu apartamento da praia! Que nojo!

corta para Eliza ao telefone com a irmã.
- Bem feito pra tua cara! Achava que essas coisas só aconteciam comigo? Bem feito! Eu te avisei: “não seja burra...homem nenhum presta...” Mas não! Você ficou endeusando esse banana!          
- Banana, Clara? Já viu banana arrumar amante?
- Banana sim! Sempre foi uma anta. Deve ter arrumado uma mulher feia e burra.
- Ele é um homem bom, ta bom? Você não pode falar assim dele!
- Eliza! Ele tem uma amante! É pra falar bem dele?

Volta para Eliza ao telefone, agora com o Filho mais velho.
- Eu vou colocar ele pra fora, hoje! Não espero nem mais um dia, César.
- Calma, Dona Eliza...é só um sapato.
- Sapato de puta!! Aquele sem vergonha vai se ver comigo! E se um de vocês receber ele em casa, também não entra mais na minha casa, entendeu?


Na casa de Maria Cláudia e Máximo, o outro filho de Eliza, Cláudia entra na cozinha rindo sozinha e encontra o marido tomando café .
- Qual é a graça?
- Sua mãe ligou.
- Ah...quer saber de quanto era o cheque que o pai me deu? Eu não mostrei pra ela ontem. Deve estar morrendo pra saber.
- Não. Pior.
- O que?
- Ela disse que teu pai tem uma amante.
Máximo quase engasga com o café, numa risada impossível de conter.
- De onde ela tirou isso?
- Sei lá. Encontrou um sapato no carro dele. Diz que é sapato de puta. Tá muito engraçado.
- Imagina o estado do meu pai tentando se explicar! Vou ligar lá.
- Não põe pilha que ela mata ele...


Horas mais tarde, no apartamento de Eliza e Horácio, todos os filhos se reunem para tentar resolver o caso do sapato azul. Augusto e Adriano estão sentados num dos sofás e Horácio em outro, como no banco dos réus.
- Por que estão me olhando assim? Eu não sei de quem é aquele sapato. Juro!
Augusto, muito sério, começa o interrogatório.
- Pra gente poder te ajudar, você tem que falar, pai. Pára de ser teimoso. Quer que vire tudo uma desgraça?
Adriano completa:
- A gente não tá aqui pra te julgar, mas puta que o pariu, hein? Que cagada!
Horácio levanta, bravo:
- Mas que coisa! Ninguém mais me respeita? Eu sou um homem honrado! Eu levanto às seis horas da manhã para trabahar todos os dias, faço tudo de melhor pra vocês...não vou ficar sentado aqui ouvindo desaforo de filho! Tá pensando o que?
Dentro do quarto, Eliza chora copiosamente sendo consolada por Maria Alice e Maria Joana.
- Ai Eliza...pára com isso. Como é que você pode pensar que ele tem outra...
Maria Joana tenta consolá-la.
- É...deixa de ser boba. Ele só falta deitar pra você passar em cima.
Eliza responde aos prantos:
- Eu nunca pensei numa coisa dessas. Tanto sacrifício pra acabar desse jeito! Eu nunca mais vou sair desse quarto!
Alice tenta ser severa, para mudar a reação de Elisa, sem muito sucesso.
- Ah, que ótimo! Aí sim que ele arruma outra, sua trouxa. Imagina se isso é hora de ficar trancada. É hora de ficar linda e mostrar que você é melhor.
- Você acha que ele vai achar? Você viu aquele sapato? Acha que eu posso com uma vadia daquelas? Eu to velha e ela deve ter 20 anos! Ai que raiva!
- Meu deus, Eliza, que velha nada. E não pode com quem? Duvido que ele tenha mesmo alguém.
- Eu vi! Eu vi! Eu sei que ele tem outra!

(PAUSA! Vamos ler isso como uma peça de teatro, certo? Que é o que isso parece)
M.ALICE: - Viu o que, Eliza? Você só viu um sapato. Isso não prova nada.
ELIZA: - Por que que vocês estão defendendo ele? Se você achasse um sapato azul turquesa no carro do seu marido, ia estar calma? Isso não é a mesma coisa que ver?
Maria Alice e Maria Joana se olham com cara de “tem razão”, Maria Alice não consegue segurar o riso e sai do quarto, deixando Maria Joana com Eliza, numa situação chata, tentando não rir.
ELIZA: Vocês agora vão rir de mim? (começa a chorar como criança)
Maria Joana tenta consolá-la com um abraço.

De volta à sala, Maria Alice bate no ombro do sogro e fala ironicamente:
M.ALICE: - Que beleza hein, Horacinho...Agora o circo tá armado de uma vez.
HORÁCIO: - Eu não sei de nada! Já estou achando que fiquei louco! Não sei de quem é aquele sapato e ficam me tratando como um criminoso. Eu vou sair. Chega!
Horácio levanta e sai de casa todo atrapalhado.
Augusto vai atrás dele.

Um pouco mais tarde, a irmã de Eliza -- Clara -- também está no quarto, junto com a filha Cristina, Adriano, e duas noras de Eliza, que chora jogada na cama enquanto todos se olham com aquela cara de “ai meu deus, e agora?”
CLARA: - Me deixa ver o sapato, Eliza. Onde está?
ADRIANO: - Pra que? Vai fazer DNA?
CLARA: - Deixa de ser idiota, guri! Eu só quero ver. Cadê, Eliza?
ELIZA: - Tomara que esteja no lixo! Ai meu deus! Isso é pra eu pagar a língua...
CLARA: - Isso mesmo, falou de mim até cansar.
CRISTINA: - É...a língua é o chicote da bunda!
ELIZA: - Pára, Cristina! Se você veio aqui pra me zombar, pode ir embora!
MARIA ALICE: - Onde tá o sapato? Eu também quero ver.
ELIZA: - Naquela caixa ali do lado da mesinha.

Cristina pega a caixa e coloca em cima da cama. Eliza senta para tomar mais uma dose daquele veneno...olha curiosa para a caixa enquanto Cristina abre. Todos estão em volta da cama, querendo ver o conteúdo da caixa.
ADRIANO: - Abre logo. Até eu quero saber o naipe da perua.
Cristina abre a caixa. 
Assim que põe os olhos no sapato, Eliza volta a chorar. Todos exclamam ao mesmo tempo:
ADRIANO: - Putaqueopariu!
M.ALICE: - Que de última!
CLARA: - Mas que mal gosto, senhor do céu!
CRISTINA: - Azulão é demais hein?
Adriano pega um pé do sapato e cheira.
ADRIANO: - E tem chulé!
Todos começam a rir, e Eliza chora mais alto!
ELIZA: - Eu não sei o que eu fiz pra merecer isso! O que eu vou fazer da minha vida? Agora acabou tudo!
Todos falam ao mesmo tempo, menos Maria Joana que olha para o sapato intrigada. Ela pega um pé do sapato, olha embaixo, vira várias vezes.
ADRIANO (gozador): - Vai cheirar?
M.JOANA: - Deus me livre!
Maria Joana pega a caixa, lê a embalagem...
M.JOANA: - Gente.
Todos continuam falando ao mesmo tempo enquanto Eliza chora alto.
M.JOANA: - Gente! Me escuta!
Silêncio...
M.JOANA: - Esse sapato é da minha mãe...
ADRIANO - Como assim da sua mãe?
ELIZA: - Que da sua mãe o que? Você está querendo salvar o seu sogrinho querido.
M.JOANA: - Que sogrinho querido, ta louca? To falando. Esse sapato é da minha mãe. Eu fui com ela buscar no sapateiro, e a gente esqueceu no carro. Faz muito tempo isso. Quando a gente tava sem carro e o Horácio emprestou o dele, lembra?
ELIZA: - Ah....mesmo?
MARIA JOANA: - É. O sapato....de puta...é da minha mãe!

Maria Alice e Cristina começam a rir muito, sentadas na cama. Adriano não consegue se conter sai do quarto para rir em outro lugar. Clara olha séria para o sapato.
ELIZA: - Sabe que nem é feio...?
M.JOANA: - Eu vou levar o sapato de puta. 

Maria Joana fecha a caixa de sapato, coloca debaixo do braço e sai do quarto.




Esta história é baseada em fatos reais. Mas não contem pra ninguém.

Quinta-feira, Dezembro 02, 2010

other

sometimes i think there is another woman inside of me
and she suffers.
all the happiness and plenitude in my life mean nothing to her.
she suffers and she cries for she needs to find her love.

she tells me he suffers as well.
she says he claims and prays and cries out our names so maybe we follow the sound...

yes i know! i know how he smells like and the sound of his voice
i know his eyes and his hands
but his face is unclear.

she makes me wait for him at the door with the heaviest weight on my shoulders.
it's like he is running towards me and i can even hear his steps.

we are both lost in this sharp emptiness.

and we are here.
i am here
stuck at this door
tears in my eyes
wondering where?
wondering why?
why does she need me to cry her tears?

Quarta-feira, Dezembro 01, 2010

_natal em família

Este conto é um fragmento da série "Sapatos"


Noite de Natal.
A festa acontece na casa de Clara, irmã mais velha de Eliza. A casa está inteira enfeitada. No banheiro, as toalhas são natalinas, na cozinha os panos de prato, talheres de servir, louças. Na mesa da ceia, tudo - absolutamente tudo - é natalino. Não existe um canto da casa que não diga alto e em bom som que é noite de Natal.
E ser Natal não é nada. O bom é ser Natal na casa de uma família italiana. Tudo é motivo de muita alegria ou muita tristeza. Na mesa, muita comida. Debaixo da árvore, muito presente. Espalhados pela grande sala, muitos membros da família. É difícil contá-los, mas podemos tentar.

Começamos com a dona da casa: Clara. 65 anos, descasada de Mario, que em sua idade avançada ainda é charmoso, forte, conservado, apesar dos cabelos meio mal pintados. Sua filha Cristina, o marido Marcio e o casal de filhos adolescentes.  André -- o mais  velho de Clara e Mario -- e sua esposa recém apresentada à família Marina, com um neném de 1 ano que começa a andar.

A irmã de Clara - Zoê - e o marido Fabrício com três filhos: Fernanda, Mauro e Gabriela - uma escadinha: 10, 8 e 6 anos.
A outra irmã, Eliza, o marido Horácio, seus quatro filhos - todos com nomes de imperador romano:  Adriano, Augusto, Máximo e César, e as respectivas esposas: Maria Alice, Maria Joana, Maria Claudia e Maria Eugênia mais os netos de Eliza que somam oito. O mais velho com 20, o mais novo com 4.
Temos também as tias de Eliza, Tia Ilda e Tia Tutáia, solteiras e eternamente virgens, segundo reza a lenda, mas ninguém acredita.

Está armada assim a grande noite de Natal. Trinta e quatro pessoas da mesma família, algumas com 100% de sangue italiano. A criança mais misturada, chega ainda a 15% de italianice no sangue.
O que isso tem a ver com a nossa história? Tudo. Todo este percentual sanguíneo resulta numa só palavra: BARULHO.
Muito barulho! As pessoas falam muito alto umas com as outras. Crianças correm em volta da mesa incansavelmente. Avós reclamam do comportamento das crianças, chamando as mães que continuam conversando confortavelmente e não dão a mínima. Comida...muita comida! Ainda não é hora da ceia, mas todos mastigam alguma coisa. Há frutas secas, nozes, avelãs e salgadinhos em todas as mesas da casa. Copos cheios de vinho, cerveja, whisky, refrigerante. De tempos em tempos uma empregada de avental passa recolhendo os copos e trocando cinzeiros, mas as guarnições parecem nunca acabar.
Debaixo da árvore de Natal há uma quantidade absurda de presentes. É presente para manter um orfanato inteiro ocupado por muito tempo. Além de pacotes convencionais, existem alguns sacos enormes, cheios de pacotes dentro. Eliza desfila por entre os pacotes com a Tia Ilda, dando seu toque final aos sacos grandes, enquanto o falatório e o corre-corre de crianças continua.
ILDA: - Que horror! Quem vai ganhar uma coisa desse tamanho?
ELIZA: - As crianças. Eu juntei todos os presentes deles em sacos. Não é uma idéia ótima?
ILDA: - Não. É horrível! Que graça tem ganhar um presente só?
ELIZA: (olhando decepcionada para a Tia) - Ai Tia! Não é um presente só. Tem um monte de presentes aqui dentro!
ILDA: - Ora Eliza, você gosta de chamar atenção. Quer que seus netos fiquem horas abrindo tudo o que tem nesse saco, para não prestarem atenção aos presentes que vão ganhar dos outros.
ELIZA: - Eu nem pensei nisso, Tia. Você que é ruim e pensou!
ILDA:- Pior ainda. Se tivesse pensado pelo menos mostrava que é inteligente. Se não pensou, além de exibida é burra.
ELIZA:- Tia!
ILDA:- Graaaaças a Deus sua mãe não está mais aqui para ver as suas atitudes.

ELIZA sai de perto da Tia, furiosa, e vai reclamar para a irmã CLARA.

ELIZA: - Você acredita que a Tia Ilda já evocou o nome da mamãe pra me criticar? Eu não levo essa chata pra casa hoje.
Mário passa por elas e escuta a queixa
MÁRIO: - É Natal, Elizinha...deixa a velha. Claro que eu vou levar ela pra casa. Você já viu ela pedir pra outro?
CLARA: - Você ainda vai descobrir que ela é apaixonada por você.

A campainha toca.
Cristina vai abrir, mas é empurrada por Clara, Zoê e Eliza que correm eufóricas.
Todas exclamam juntas:
- É o PAPAI NOEEEEEEL!
Ao dizerem isso, um interminável coro de pessoas se forma: “Papai Noel! Papai Noel! É o Papai Noel! Noel, Noel, Noel, Noel...”
A porta é aberta por Clara, tendo todas as irmãs ao seu lado, como uma tropa que será passada em revista. Papai Noel olha para as três mexendo apenas os olhos e sorri:
- HOHOHO! FELIZ NATAL!
Há um silêncio de décimos de segundo, e então a confusão começa. As crianças correm para perto da árvore. Uma das noras de Eliza comenta com outra:

MARIA JOANA:- Que papai noel horrível!
MARIA CLAUDIA: - A Mamãe Noel não tava em casa pra passar a roupa dele. Foi pra balada, a perua...
Papai Noel é bruscamente puxado por Eliza até a árvore de Natal. A criança menor chora copiosamente se agarrando à mãe, de pavor do homem de vermelho que acaba de chegar. 
ELIZA: -Papai Noel, esses grandes são pros meus netos. Aquele da Brenda, aquele do Paulo, Aquele da Rosana, do Felipe é o menorzinho ali atrás...BRENDAAA! Vem pegar o seu presente!!

Papai Noel tenta cumprimentar algumas pessoas, mas não consegue. Ele achava que se sentaria numa poltrona e chamaria um por um, mas é impossível. Todos falam ao mesmo tempo e colocam pacotes de todos os tamanhos na mão dele. As senhoras da família correm em volta do Papai Noel deixando o pobre homem atordoado.
CLARA: - Esse aqui, Papai Noel! Esse! É do Germano. GERMAAAANO! Vem buscar!
Papai Noel fica com o presente de Germano na Mão esperando, mas Eliza arranca dele, passa para outra pessoa...
ELIZA: - Dá lá pro Germano. PAPAI NOEL, esse é do Adriano, esse do César. César, vem aqui, filho. Esse é da tua mulher. Pega esse também.

Papai Noel tenta administrar isso tudo, mas tudo o que lhe resta é rodopiar feito um peru, e repetir alguns nomes, logo depois de Clara, Eliza e Zoê que não param de colocar pacotes em suas mãos e tirar dois segundos depois, entregando para o dono.
ELIZA: - Cassio!
PAPAI NOEL: - Caaaaassio...
CLARA: Cristina! Márcio!
PAPAI NOEL: Máaaaarcio...

Num determinado momento, ele já está sentado na poltrona assistindo ao espetáculo da distribuição que parece não acabar jamais. Milhares de papéis rasgados pelo chão...um menino pequeno pega uma camiseta enorme, sobe no sofá e pergunta repetidamente:
- Quem me deu isso? HEIN?? ÔOO! ALGUÉM! QUEM ME DEU ISSO???

Augusto arranca a camiseta da mão do menino.
- Isso não é seu, guri! Adriano, essa praga abriu o seu presente. É nosso pra você.
Olha para o menino e xinga:
- Mosca!
Adriano pega a camiseta, coloca na frente do corpo e abraça o irmão. O menino fica no sofá falando:
- Mas não fui eu. O papai noel que me deu...

A confusão continua...Eliza se aproxima do marido.
ELIZA: - Onde você colocou o presente dos meninos?
HORáCIO: - Nos envelopes que você me deu.
ELIZA: - Mas onde?
HORáCIO: - Eu te dei.
ELIZA - Deu nada, Horácio. Onde você enfiou isso? Eu já virei tudo lá na árvore. Não achei nada!

Ao fundo, o mesmo menino da camiseta abre um presente que não é dele. Tira do pacote uma boneca, sobe novamente no sofá:
-QUEM ME DEU ISSO AQUI? ÔOOOO! VOCÊS!? QUEM ME DEU ISSO??
HORÁCIO: - Ta louca? Se alguém pegar esses cheques vai descontar. Está ao portador!
ELIZA: - Ninguém vai roubar os cheques, Horácio. Só tem família aqui.
HORÁCIO: - Sei lá,  o Papai Noel não é da familia! Vai saber quem é esse homem?
ELIZA: - HORÁCIO! QUE HORROR! O HOMEM TA TRABALHANDO! COMO VOCÊ PODE PENSAR UMA COISA DESSAS? TA LOUCO!?
HORÁCIO: - Nunca se sabe...Eu acho que você perdeu os envelopes. Eu vou ligar pro banco agora e sustar os cheques. Clara, posso usar o Telefone? A Eliza perdeu o presente dos meninos, e eram cheques, agora eu vou ter que sustar...
CLARA: - Perdeu nada, Horácio. Você colocou em cima da cristaleira.
ELIZA: - Fala de mim, fala! Ele já tava feliz de sustar os cheques!
HORáCIO: - Eu pensei que tinha dado pra você.
ELIZA: - Pensou...quando eu penso eu sou maluca. Quando você pensa é o que?

Eliza vai voando pegar os envelopes para entregar para os filhos. Dando um envelope com o cheque para cada um.
ELIZA: - Se for pouco, briga com esse pão duro, porque eu quero matar ele todo ano na hora de fazer o cheque de vocês!

Augusto, que é mais sério agradece abraçando a mãe:
AUGUSTO: - Obrigada mãe. Vai quebrar um galhão.
Máximo e Adriano, mais gozadores, abrem o envelope, olham e dizem juntos:
- Puta que pariu! Que pão duro esse Horácio! 

César apenas coloca o envelope na bolsa da mulher sem fazer nenhum comentário. Eliza fica aflita e vai ver de quanto é o cheque de Máximo, que esconde o cheque e não mostra pra ela.
MÁXIMO: - Não...você vai matar o pai. Melhor não. Deixa guardado aqui.
ADRIANO: - Pode depositar ou é só pra enganar a Elizinha?

Horácio fica todo sem graça quando Máximo tenta abraçá-lo para agradecer e dá só uns tapinhas nas costas para se livrar logo.
HORáCIO: - Nãaao! Pode depositar. É de vocês.
ELIZA: - Se você mandar eles esperarem pra depositar eu nunca mais falo com você!
Horácio tenta abraçar Eliza
HORáCIO: - Calma, minha potranca....
ELIZA: - Potranca tua vó!

E a confusão continua. Papai Noel ainda está estupefato, aceitando salgadinhos que Cristina oferece a ele. Uma das crianças menores escuta o conselho de um tio.
MÁRCIO: - Paulinho...vai lá e puxa a barba do Papai Noel.
PAULO: - Eu não. Depois ele não me dá presente...
MÁRCIO: - É falsa!
PAULO: - To nem aí. Só quero presente.

Quando os presentes acabam finalmente, e a confusão das mulheres da família tem uma trégua, Papai Noel se levanta para sair. Eliza, Zoê e Clara o cercam e o convidam para jantar.
PAPAI NOEL: - Muito obrigado. Eu tenho muitas casas para visitar. Muitas crianças para presentear. A noite está só começando.
CLARA: - Mas só uma cervejinha...TEREZINHAAA! Pega uma cerveja pro Papai Noel!
PAPAI NOEL: - Não não, por favor, eu não quero mesmo....
ELIZA: - O senhor não pode perder o macarrão com brachola. Receita da minha mãe!
ZOÊ: - Pelo menos um bolinho? Um doce? As sobremesas estão maravilhosas...Terezinhaaaa!
Papai Noel: - Obrigado mesmo...eu preciso ir. É noite de Natal.

Terezinha - a empregada -  aparece na porta da sala para atender, mas Maria Eugênia a segura, sinalizando que não é para servir nada.
CLARA: - Só um pouco, Papai Noel...
Mario se aproxima das três:
MÁRIO: - Dá o cheque do homem e deixa ele ir embora!
Uma das crianças reclama:
- Vóoo! O Tio Horácio deu presente pro Papai Noel também? Eu também quero cheque!
A criança vai correndo procurar por Horácio que empurra a criancinha  para frente, enquanto anda até a mesa.
HORÁCIO: - Vai pedir pro seu pai.

Papai Noel caminha para a porta, com seu saco, seu cajado e sua barba mal enjambrada. Clara abre a porta. Papai Noel se despede:
- FELIZ NATAL! FELIZ NATAL PARA TODOS! FELIZ NATAL!
A casa toda grita “Tchau Papai Noeeeel!”

Do lado de fora da porta, Papai Noel encosta na parede com a respiração ofegante, abaixa a barba e suspira aliviado por sair daquele inferno.



...continua