quarta-feira, dezembro 01, 2010

_natal em família

Este conto é um fragmento da série "Sapatos"


Noite de Natal.
A festa acontece na casa de Clara, irmã mais velha de Eliza. A casa está inteira enfeitada. No banheiro, as toalhas são natalinas, na cozinha os panos de prato, talheres de servir, louças. Na mesa da ceia, tudo - absolutamente tudo - é natalino. Não existe um canto da casa que não diga alto e em bom som que é noite de Natal.
E ser Natal não é nada. O bom é ser Natal na casa de uma família italiana. Tudo é motivo de muita alegria ou muita tristeza. Na mesa, muita comida. Debaixo da árvore, muito presente. Espalhados pela grande sala, muitos membros da família. É difícil contá-los, mas podemos tentar.

Começamos com a dona da casa: Clara. 65 anos, descasada de Mario, que em sua idade avançada ainda é charmoso, forte, conservado, apesar dos cabelos meio mal pintados. Sua filha Cristina, o marido Marcio e o casal de filhos adolescentes.  André -- o mais  velho de Clara e Mario -- e sua esposa recém apresentada à família Marina, com um neném de 1 ano que começa a andar.

A irmã de Clara - Zoê - e o marido Fabrício com três filhos: Fernanda, Mauro e Gabriela - uma escadinha: 10, 8 e 6 anos.
A outra irmã, Eliza, o marido Horácio, seus quatro filhos - todos com nomes de imperador romano:  Adriano, Augusto, Máximo e César, e as respectivas esposas: Maria Alice, Maria Joana, Maria Claudia e Maria Eugênia mais os netos de Eliza que somam oito. O mais velho com 20, o mais novo com 4.
Temos também as tias de Eliza, Tia Ilda e Tia Tutáia, solteiras e eternamente virgens, segundo reza a lenda, mas ninguém acredita.

Está armada assim a grande noite de Natal. Trinta e quatro pessoas da mesma família, algumas com 100% de sangue italiano. A criança mais misturada, chega ainda a 15% de italianice no sangue.
O que isso tem a ver com a nossa história? Tudo. Todo este percentual sanguíneo resulta numa só palavra: BARULHO.
Muito barulho! As pessoas falam muito alto umas com as outras. Crianças correm em volta da mesa incansavelmente. Avós reclamam do comportamento das crianças, chamando as mães que continuam conversando confortavelmente e não dão a mínima. Comida...muita comida! Ainda não é hora da ceia, mas todos mastigam alguma coisa. Há frutas secas, nozes, avelãs e salgadinhos em todas as mesas da casa. Copos cheios de vinho, cerveja, whisky, refrigerante. De tempos em tempos uma empregada de avental passa recolhendo os copos e trocando cinzeiros, mas as guarnições parecem nunca acabar.
Debaixo da árvore de Natal há uma quantidade absurda de presentes. É presente para manter um orfanato inteiro ocupado por muito tempo. Além de pacotes convencionais, existem alguns sacos enormes, cheios de pacotes dentro. Eliza desfila por entre os pacotes com a Tia Ilda, dando seu toque final aos sacos grandes, enquanto o falatório e o corre-corre de crianças continua.
ILDA: - Que horror! Quem vai ganhar uma coisa desse tamanho?
ELIZA: - As crianças. Eu juntei todos os presentes deles em sacos. Não é uma idéia ótima?
ILDA: - Não. É horrível! Que graça tem ganhar um presente só?
ELIZA: (olhando decepcionada para a Tia) - Ai Tia! Não é um presente só. Tem um monte de presentes aqui dentro!
ILDA: - Ora Eliza, você gosta de chamar atenção. Quer que seus netos fiquem horas abrindo tudo o que tem nesse saco, para não prestarem atenção aos presentes que vão ganhar dos outros.
ELIZA: - Eu nem pensei nisso, Tia. Você que é ruim e pensou!
ILDA:- Pior ainda. Se tivesse pensado pelo menos mostrava que é inteligente. Se não pensou, além de exibida é burra.
ELIZA:- Tia!
ILDA:- Graaaaças a Deus sua mãe não está mais aqui para ver as suas atitudes.

ELIZA sai de perto da Tia, furiosa, e vai reclamar para a irmã CLARA.

ELIZA: - Você acredita que a Tia Ilda já evocou o nome da mamãe pra me criticar? Eu não levo essa chata pra casa hoje.
Mário passa por elas e escuta a queixa
MÁRIO: - É Natal, Elizinha...deixa a velha. Claro que eu vou levar ela pra casa. Você já viu ela pedir pra outro?
CLARA: - Você ainda vai descobrir que ela é apaixonada por você.

A campainha toca.
Cristina vai abrir, mas é empurrada por Clara, Zoê e Eliza que correm eufóricas.
Todas exclamam juntas:
- É o PAPAI NOEEEEEEL!
Ao dizerem isso, um interminável coro de pessoas se forma: “Papai Noel! Papai Noel! É o Papai Noel! Noel, Noel, Noel, Noel...”
A porta é aberta por Clara, tendo todas as irmãs ao seu lado, como uma tropa que será passada em revista. Papai Noel olha para as três mexendo apenas os olhos e sorri:
- HOHOHO! FELIZ NATAL!
Há um silêncio de décimos de segundo, e então a confusão começa. As crianças correm para perto da árvore. Uma das noras de Eliza comenta com outra:

MARIA JOANA:- Que papai noel horrível!
MARIA CLAUDIA: - A Mamãe Noel não tava em casa pra passar a roupa dele. Foi pra balada, a perua...
Papai Noel é bruscamente puxado por Eliza até a árvore de Natal. A criança menor chora copiosamente se agarrando à mãe, de pavor do homem de vermelho que acaba de chegar. 
ELIZA: -Papai Noel, esses grandes são pros meus netos. Aquele da Brenda, aquele do Paulo, Aquele da Rosana, do Felipe é o menorzinho ali atrás...BRENDAAA! Vem pegar o seu presente!!

Papai Noel tenta cumprimentar algumas pessoas, mas não consegue. Ele achava que se sentaria numa poltrona e chamaria um por um, mas é impossível. Todos falam ao mesmo tempo e colocam pacotes de todos os tamanhos na mão dele. As senhoras da família correm em volta do Papai Noel deixando o pobre homem atordoado.
CLARA: - Esse aqui, Papai Noel! Esse! É do Germano. GERMAAAANO! Vem buscar!
Papai Noel fica com o presente de Germano na Mão esperando, mas Eliza arranca dele, passa para outra pessoa...
ELIZA: - Dá lá pro Germano. PAPAI NOEL, esse é do Adriano, esse do César. César, vem aqui, filho. Esse é da tua mulher. Pega esse também.

Papai Noel tenta administrar isso tudo, mas tudo o que lhe resta é rodopiar feito um peru, e repetir alguns nomes, logo depois de Clara, Eliza e Zoê que não param de colocar pacotes em suas mãos e tirar dois segundos depois, entregando para o dono.
ELIZA: - Cassio!
PAPAI NOEL: - Caaaaassio...
CLARA: Cristina! Márcio!
PAPAI NOEL: Máaaaarcio...

Num determinado momento, ele já está sentado na poltrona assistindo ao espetáculo da distribuição que parece não acabar jamais. Milhares de papéis rasgados pelo chão...um menino pequeno pega uma camiseta enorme, sobe no sofá e pergunta repetidamente:
- Quem me deu isso? HEIN?? ÔOO! ALGUÉM! QUEM ME DEU ISSO???

Augusto arranca a camiseta da mão do menino.
- Isso não é seu, guri! Adriano, essa praga abriu o seu presente. É nosso pra você.
Olha para o menino e xinga:
- Mosca!
Adriano pega a camiseta, coloca na frente do corpo e abraça o irmão. O menino fica no sofá falando:
- Mas não fui eu. O papai noel que me deu...

A confusão continua...Eliza se aproxima do marido.
ELIZA: - Onde você colocou o presente dos meninos?
HORáCIO: - Nos envelopes que você me deu.
ELIZA: - Mas onde?
HORáCIO: - Eu te dei.
ELIZA - Deu nada, Horácio. Onde você enfiou isso? Eu já virei tudo lá na árvore. Não achei nada!

Ao fundo, o mesmo menino da camiseta abre um presente que não é dele. Tira do pacote uma boneca, sobe novamente no sofá:
-QUEM ME DEU ISSO AQUI? ÔOOOO! VOCÊS!? QUEM ME DEU ISSO??
HORÁCIO: - Ta louca? Se alguém pegar esses cheques vai descontar. Está ao portador!
ELIZA: - Ninguém vai roubar os cheques, Horácio. Só tem família aqui.
HORÁCIO: - Sei lá,  o Papai Noel não é da familia! Vai saber quem é esse homem?
ELIZA: - HORÁCIO! QUE HORROR! O HOMEM TA TRABALHANDO! COMO VOCÊ PODE PENSAR UMA COISA DESSAS? TA LOUCO!?
HORÁCIO: - Nunca se sabe...Eu acho que você perdeu os envelopes. Eu vou ligar pro banco agora e sustar os cheques. Clara, posso usar o Telefone? A Eliza perdeu o presente dos meninos, e eram cheques, agora eu vou ter que sustar...
CLARA: - Perdeu nada, Horácio. Você colocou em cima da cristaleira.
ELIZA: - Fala de mim, fala! Ele já tava feliz de sustar os cheques!
HORáCIO: - Eu pensei que tinha dado pra você.
ELIZA: - Pensou...quando eu penso eu sou maluca. Quando você pensa é o que?

Eliza vai voando pegar os envelopes para entregar para os filhos. Dando um envelope com o cheque para cada um.
ELIZA: - Se for pouco, briga com esse pão duro, porque eu quero matar ele todo ano na hora de fazer o cheque de vocês!

Augusto, que é mais sério agradece abraçando a mãe:
AUGUSTO: - Obrigada mãe. Vai quebrar um galhão.
Máximo e Adriano, mais gozadores, abrem o envelope, olham e dizem juntos:
- Puta que pariu! Que pão duro esse Horácio! 

César apenas coloca o envelope na bolsa da mulher sem fazer nenhum comentário. Eliza fica aflita e vai ver de quanto é o cheque de Máximo, que esconde o cheque e não mostra pra ela.
MÁXIMO: - Não...você vai matar o pai. Melhor não. Deixa guardado aqui.
ADRIANO: - Pode depositar ou é só pra enganar a Elizinha?

Horácio fica todo sem graça quando Máximo tenta abraçá-lo para agradecer e dá só uns tapinhas nas costas para se livrar logo.
HORáCIO: - Nãaao! Pode depositar. É de vocês.
ELIZA: - Se você mandar eles esperarem pra depositar eu nunca mais falo com você!
Horácio tenta abraçar Eliza
HORáCIO: - Calma, minha potranca....
ELIZA: - Potranca tua vó!

E a confusão continua. Papai Noel ainda está estupefato, aceitando salgadinhos que Cristina oferece a ele. Uma das crianças menores escuta o conselho de um tio.
MÁRCIO: - Paulinho...vai lá e puxa a barba do Papai Noel.
PAULO: - Eu não. Depois ele não me dá presente...
MÁRCIO: - É falsa!
PAULO: - To nem aí. Só quero presente.

Quando os presentes acabam finalmente, e a confusão das mulheres da família tem uma trégua, Papai Noel se levanta para sair. Eliza, Zoê e Clara o cercam e o convidam para jantar.
PAPAI NOEL: - Muito obrigado. Eu tenho muitas casas para visitar. Muitas crianças para presentear. A noite está só começando.
CLARA: - Mas só uma cervejinha...TEREZINHAAA! Pega uma cerveja pro Papai Noel!
PAPAI NOEL: - Não não, por favor, eu não quero mesmo....
ELIZA: - O senhor não pode perder o macarrão com brachola. Receita da minha mãe!
ZOÊ: - Pelo menos um bolinho? Um doce? As sobremesas estão maravilhosas...Terezinhaaaa!
Papai Noel: - Obrigado mesmo...eu preciso ir. É noite de Natal.

Terezinha - a empregada -  aparece na porta da sala para atender, mas Maria Eugênia a segura, sinalizando que não é para servir nada.
CLARA: - Só um pouco, Papai Noel...
Mario se aproxima das três:
MÁRIO: - Dá o cheque do homem e deixa ele ir embora!
Uma das crianças reclama:
- Vóoo! O Tio Horácio deu presente pro Papai Noel também? Eu também quero cheque!
A criança vai correndo procurar por Horácio que empurra a criancinha  para frente, enquanto anda até a mesa.
HORÁCIO: - Vai pedir pro seu pai.

Papai Noel caminha para a porta, com seu saco, seu cajado e sua barba mal enjambrada. Clara abre a porta. Papai Noel se despede:
- FELIZ NATAL! FELIZ NATAL PARA TODOS! FELIZ NATAL!
A casa toda grita “Tchau Papai Noeeeel!”

Do lado de fora da porta, Papai Noel encosta na parede com a respiração ofegante, abaixa a barba e suspira aliviado por sair daquele inferno.



...continua

6 comentários:

Fabio Piva disse...

Não me lembro de nunca ter tido a ilustre presença da autora em nenhuma festa de natal da minha família... mas a fidelidade com que ela descreve a balbúrdia anual lá de casa é incrível.

Ou era. Já tem um tempo que as crianças cresceram, e ainda não veio uma nova geração de pimpolhos para azucrinar todo mundo. Mas de resto, tá idêntico.

Carimbado com selo de autenticidade italiano!

Fabio Piva
http://paciencianegativa.blogspot.com/

Fabio Piva disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Perin disse...

O que faz o autor remover um post? Como sou curiosoooo.
Os meus 100% de sangue italiano tbém se identificaram com o conto.
beijo

dossantosubirajara disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Anônimo disse...

Nem entendi o que você ta falando, dos Santos.

Mano, foi o Fábio que postou 2 vezes o mesmo comentário. Ele que deletou.

Beijos (os beijos são só pro Perin)

Me

Mari Migliacci disse...

hahaha...exatamente o natal na minha casa.
a decoração, a multidão, todo mundo falando e alto e tudo ao mesmo tempo!

Descrição literal! Adorei ;-)